A prateleira dos especiais

17 02 2015

 

Paul Herman (EUA, 1962) Bookshelf III, Books with Bronze Torso, Oil painting on panel 21 x 25 cmPrateleira III, Livros com torso de bronze

Paul Herman (EUA, 1962)

óleo sobre placa, 21 x 25 cm

www.hermanstudios.com

 

Hoje me inspirei no blog The Bookshelf of Emily em parte porque passo no momento por um momento de limpeza, de desvencilhar-me de muitos livros, imaginando que eles poderão, a partir de agora, servir a outros donos. Passei por esse processo duas outras vezes nos últimos doze anos: primeiro quando me mudei do exterior para o Brasil. Depois quando me mudei para uma residência mais eficiente, menos ampla.

Somos dois em casa a trabalhar com livros. Trabalhar a vida inteira. Meu marido ainda é um pouco mais apegado a eles, porque afinal de contas ensinou por muitos anos literatura americana.  Quem ensina literatura não podia até recentemente ter uma biblioteca magrinha.  Afinal, texto era a sua alimentação diária.

Eu, por outro lado, tinha dois amores: a palavra escrita (a historiadora e leitora) e a imagem (conhece o peso dos livros de arte?), sim a minha parte era muito mais pesada do que a dele, mas menos livros.

A vinda para o Brasil fez com que dois escritórios, anteriormente separados, cobertos de livros, fossem somados e transformados numa única biblioteca.  Isso foi em 2002.  Em 2010, com nova mudança, a biblioteca original foi reduzida à metade menos um pouco.  E agora, estamos colocando-a em um sério regime para emagrecer.

 

BOOKS Gala apple with antique books Christopher StottMaçã Gala com livros antigos

Christopher Stott (Canada, 1976)

óleo sobre tela

www.chrisstott.com

 

Tem sido uma grande surpresa perceber que podemos viver com muito menos livros do que imaginávamos.  Nós dois nos adaptamos muito bem à palavra eletrônica.  Mas aviso que já compramos livros que lemos eletronicamente e de que gostamos muito, para os ter em casa… Vai entender esse  comportamento?!

Nesse processo, assim como a Emily do blog mencionado acima, eu também estou com uma prateleira de livros favoritos. Mas estão ficando conosco só os absolutamente favoritos e os que não lemos… Ah, sim, somos compradores inveterados, temos pilhas e pilhas, um corredor inteiro com prateleiras dos não lidos…

Mas neste Carnaval — sim o processo de emagrecer a biblioteca não reconhece feriados — arrumei um cantinho muito especial para os meus favoritos.

Aqui estão os 15 primeiros,sem ordem nenhuma, só na prateleira especial:

 

1 —  Nadando de volta para casa, Deborah Levy

2 —  1Q84, Haruki Murakami, a trilogia

3 —  Nihonjin, Oscar Nakasato

4 — Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel

5 —  A história do rei transparente, Rosa Montero

6 —  Concerto Campestre, Luiz Antônio de Assis Brasil

7 —  Cabine para mulheres, Anita Nair

8 —  A trégua, Mário Benedetti

9 —  As Brasas, Sándor Márai

10 – Divórcio em Buda, Sándor Márai

11 – A louca da casa, Rosa Montero

12 – A lebre com olhos de âmbar, Edmund de Waal

13 – A costureira e o cangaceiro, Frances de Pontes Peebles

14 – Este é o meu corpo, Filipa Melo

15 – Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Fal Azevedo

 

Estes são só os primeiros 15.  Voltarei a colocar mais, na lista, no momento tenho 44.  Daqui a um mês mais ou menos coloco outros 15.  Todos esses têm a minha recomendação é claro!





1Q84 de Haruki Murakami, 1.280 páginas de sedução!

28 07 2014

 

 

1133271241496be8felGaleria labiríntica, 2008

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

 

 

1Q84 foi uma das mais envolventes leituras que fiz nos últimos tempos, uma experiência rica e extravagante, li 1280 páginas em 17 dias, e ainda me encontro sob seu feitiço. Boa literatura permite ser lida em diversos níveis e esta obra de Haruki Murakami não é exceção. É difícil rotular esse romance, é um thriller, mas é muito mais. Há fantasia e dimensões além da nossa realidade. Há mistérios por toda parte e os personagens têm que superar barreiras físicas e psicológicas para sobreviverem. Não é um romance distópico, como alguns caracterizaram, nem pertence ao mundo da ficção científica. Mas aborda a existência de realidades paralelas.  Os principais personagens têm que vir a termos com essa realidade paralela onde, se não tiverem cuidado poderão se perder por lá, para sempre. As aventuras e incessantes perseguições são envolventes e é fácil o leitor se identificar com os personagens sem se preocupar com as questões filosóficas levantadas pelo autor. A mais central pode ser delineada pela pergunta: quando uma ação “do mal” é ou pode ser justificada?

O mundo de Murakami, em qualquer dimensão, relativiza a questão da moralidade. Todos os retratados têm aspectos de retidão e ética, mas ficamos ambivalentes porque todos eles, sem exceção, agem de maneira questionável. O leitor se encontra em um dilema: identifica-se com todos eles, porque são retratados como pessoas que entendemos, que conhecemos intimamente, com falhas e qualidades, muitas delas semelhantes às nossas. Mas há um viés do mal em cada um deles, mesmo nos mais angélicos. As perguntas sobre ética se proliferam à medida que a história se desenvolve: planejar um assassinato é justificável desde que a vítima seja uma pessoa perversa? Há ocasiões em que participar, com pleno conhecimento, de uma fraude pode ser perdoado? Qual é exatamente o ponto em que a cobrança de uma dívida deixa de ser cobrança e passa a ser perigosa perseguição e assédio? Pode uma crença religiosa abonar a prática do incesto? Há outras perguntas relevantes, cada qual acompanhando um personagem diferente.

Essas perguntas adquirem urgência quando se busca soluções à medida que a trama se abre, como um leque oriental mostrando, em cada varinha uma vida, um drama pessoal. Em todas nos perguntamos, à maneira de Malcolm Gladwell, qual é o “Ponto de Virada”, como e em que circunstâncias isso ou aquilo pode ser aceito? Há no capítulo 15, vol. 1,  por exemplo, um excelente diálogo entre Aomame, a personagem feminina  principal e sua empregadora, onde Murakami claramente faz um alerta sobre o perigo da arrogância, quando imaginamos que certas de nossas ações podem ser justificadas, já que nossos sentimentos são puros.  É por isso que aceitamos pagamento, para nos enraizarmos na realidade. Fato é que ninguém em 1Q84 passou pela vida incólume, sem ter à flor da pele as cicatrizes dos maus-tratos infringidos por progenitores, por família, por suicídios, por abandono, por maridos, por orfandade, por fanatismo religioso e pobreza.  E, no entanto, nenhuma dessas perguntas é respondida. Fica para o leitor a procura da resposta e a ponderação sobre a diferença das éticas entre as realidades de 1Q84 e 1984.  Isso poderia ser expandido em um ensaio muito maior, envolvendo até mesmo a obra de George Orwell.  Murakami nos deixa refletir, menciona a Ética a Nicômaco de Aristóteles, no capítulo 11 do primeiro volume, em uma longa passagem de página e meia, mas não impõe uma resposta, exceto pelo vago aceno à espiritualidade nas páginas finais do romance. Murakami organiza o livro com referências éticas no primeiro e no terceiro volumes, salpicando observações sobre as diferença entre o bem e o mal através de toda a obra.

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1Q84 é um romance de poucos personagens, retratados a fundo. Nos dois primeiros volumes a história é alternadamente contada pelo cotidiano de Aomame e Tengo, que formam o casal romântico da trilogia. No terceiro volume mais um personagem, Ushikawa, um detetive, passa a ter nossa atenção, somos guiados a conhecê-los todos a fundo. É justamente através desses personagens que nos envolvemos em questões de ética. Tamaru, o chefe de segurança da Senhora, coreano e gay, fala por Murakami. É com ele que percebemos a visão do autor, principalmente no terceiro volume. Ele é sábio. Conhece a vida e conta histórias que a fazem relevante. Ele é o ponto de equilíbrio e quem soluciona os problemas. Personagem importante, que não ganha capítulos com seu nome, mas sua presença e poder de decisão são essenciais. Tem muitas características do herói. Eu certamente me apaixonei por ele, mas nem ele é um exemplo de ética. Todos, como nós, têm seus calcanhares de Aquiles.

Muitas críticas a essa obra falam de repetição e do final fraco. Não achei repetitivo. Cada vez que voltávamos a um assunto ele era expandido e novas camadas de conhecimento adquiridas. A cada repetição mais se firmaram os pontos importantes.  O final não poderia ser diferente. De fato, ainda no primeiro volume, Murakami, no capítulo 14, ao descrever como o mundo da ficção se tornara relevante para Tengo adolescente, estabelece que ela, a ficção, não acha soluções para a vida real, no máximo ela pode apontar para o caminho a ser tomado. Assim como aceitamos os elementos fantásticos da trama, sem questioná-los devemos aceitar também o seu abandono. De fato, é o estilo de Murakami que mais contribui para essa aceitação do que não é comum na nossa realidade. Ele estabelece o misterioso, o fantástico com uma precisão tão eloquente que não nos deixa espaço para dúvida. Tanto que nos momentos mais aterrorizantes sentimos com os personagens o terror que eles sentem. Confesso que em alguns momentos tive reações físicas à narrativa: pés e mãos gelados, aumento do batimento cardíaco. Se isso não é um sinal de uma prosa convincente e admirável, não sei o que é.

Murakami, HarukiHaruki Murakami

Só consigo me lembrar de duas ocasiões em que tive semelhante dedicação a uma leitura. Foram livros bem escritos e de aventuras. Aos quatorze anos passei pela primeira vez uma noite em claro para não parar de ler As minas do rei Salomão, de H. Rider Haggard, publicado em 1885, em brilhante tradução de Eça de Queiroz. Uns dez anos depois o mesmo aconteceu com The Once and Future King, de T.H. White, originalmente publicado em 1958. Li na edição de bolso, avidamente, mais de 600 páginas que não couberam em uma única sentada, precisando de uma noite e mais um dia. Com 1Q84 fiquei acordada algumas noites até as quatro da manhã, ignorando o trabalho que me esperava nas manhãs seguintes… Falta de juízo. Isso não é costumeiro… Por que? Por que esse livro? Esse autor? Porque é uma obra espantosa, brilhante e inesperada.








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