Resenha: “4321”, Paul Auster

7 03 2020

 

 

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Ler um livro de mais de oitocentas páginas duas vezes em dois anos seguidos não é comum para mim.  Mais extraordinário ainda é mudar de opinião sobre obra lida tão recente. De boa passei-a para excelente, colocando-a finalmente entre meus favoritos.  Aconteceu com 4321 de Paul Auster, livro controverso que gerou defensores e críticos ferrenhos desde que publicado em 2017, nos EUA. Havia visto uma entrevista com Paul Auster no programa da televisão francesa La Grande Librairie, talvez pelo encantamento da conversa gerada naquela noite por François Busnel, talvez pela simpatia de Auster e a sua fluência na língua francesa, fato não muito comum entre escritores americanos, resolvi ler a obra, o que fiz na versão americana, em e-book.  Menos de um ano depois um dos meus grupos de leitura decidiu por votação abraçar esse volume como o livro da virada de ano, quando no lugar de quatro, temos seis semanas para leitura, permitindo envolvimento com obras mais longas.  Desta vez, li em português.  Mas voltei na segunda metade do livro à versão em inglês, porque no kindle as mais de oitocentas páginas não pesam na bolsa.  Esta experiência provou para mim, o quanto é importante o momento psicológico do leitor para apreciação de qualquer leitura. Em menos de dezoito meses meu entendimento e apreciação da obra mudou.

4321é um romance de formação (bildungsroman) multiplicado por quatro.  Explora quatro possibilidades de vida de um garoto, do mesmo garoto, Archibald Isaac Ferguson. Retratado com os mesmos pais e avós, o mesmo contexto social no início de vida.  À medida que cresce, eventos e o acaso interferem em cada uma das vidas, mudando-as singularmente.  São quatro histórias em uma. Muitas características de seu DNA são mantidas: o gosto pela leitura,  a facilidade de escrever, o amor aos esportes. Cada um dos Fergusons explora suas habilidades. Cada um reage a incidentes à sua maneira.  Fixos em suas vidas há os pais, Stanley e Rose, que também agem de modo diverso dependendo do destino do casal, os tios de Ferguson, com especial louvor a tia Mildred, e presente em todas as vidas, Amy Schneiderman às vezes como amiga, às vezes como irmã de criação, sempre fascinante para leitor e Ferguson. O acaso determina cada uma das vidas de Ferguson mas não o restringe. O extemporâneo determina as circunstâncias  e afeta o que é externo.

Dizem que conhecer leva ao amor. Se você um dia se perguntou como casamentos arranjados, praxe nos séculos anteriores, podiam levar ao amor, Paul Auster mostra o caminho.  Conhecemos Archie Ferguson tão bem através de suas vidas separadas e paralelas que a partir de um certo ponto o amamos, queremos que eles deem certo, que Ferguson tenha sucesso, qualquer um dos Fergusons.  E ao final, nas últimas páginas do convívio com este rapaz cujo crescimento escolar, sexual e emocional compartilhamos,  quatro vezes diferente, quando damos adeus ao livro,  sentimos pesar, luto.  O vácuo emocional com que ficamos, testemunhas dessa vida comum e extraordinária, é imenso.

 

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4321 também é um romance histórico, detalhando, em minúcia excepcional, as décadas cinquenta e sessenta, os conturbados anos da Guerra do Vietnã, do movimento negro, da política, dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King nos Estados Unidos e em Nova York, especialmente.  Auster surpreende.  A mim, surpreendeu mais, pois em duas ocasiões anteriores eu havia abandonado a leitura de seus livros, sem interesse de chegar ao fim de qualquer deles.  E aqui não só li, como reli.  Sinto que conheci este rapaz, cuja vida deixamos de acompanhar no início dos anos setenta.  Dizem que 4321  difere dos romances anteriores de Auster. E grande parte da crítica negativa que recebeu foi daqueles que esperavam um obra como as que a precederam e encontraram ali algo diferente.

Mas 4321 também é um romance de escritor para escritores. De escritor para seus seguidores.  É um compêndio de aulas de escrita, além de ter a lista mais detalhada que já encontrei dos livros que devemos ler para uma educação primorosa e sabermos como escrever e pensar.  Vemos todas as possibilidades da escrita, da reportagem jornalística às memórias,  cobertura de eventos esportivos, poesia, biografias, prosa, jogos de palavras, imitação de estilos, traduções, toda a gama de caminhos  caso você possa e se interesse em ser escritor. Mostra também a dedicação necessária para que isso aconteça e maneiras diferentes de como se tornar um escritor. Paul Auster educa os leitores, orienta seus seguidores com ambições no campo da escrita.  Ajuda a formar escritores e leitores.

 

Paul_Auster_BBF_2010_Shankbone_small-1Paul Auster

 

Na minha primeira leitura assinalei pontos que considerei negativos.  Achei o livro indulgente.  Com muitos elementos desnecessários, entre eles as infindáveis descrições de jogos de basebol.  Há também a ficção dentro da ficção: somos apresentados a criações literárias inteiras de algum Ferguson.  Não bastou nos dizer que escreveu um conto sobre sapatos.  Não.  Teve que incluir o conto inteiro, do início ao fim.  Enquanto esse aspecto me deixou de fria a irritada, na segunda leitura tive a sensação de que essas produções de Ferguson nos ajudam a entender o rapaz que se desvenda aos nossos olhos.

Qualquer senão que tive sobre 4321,  desapareceu na segunda leitura; enquanto pontos positivos se consolidaram.  É obra de grande fôlego. Fácil de ler.  A força narrativa de Auster ultrapassa até traduções.  Sua prosa, com as mais longas sentenças que lembro ter lido na literatura contemporânea americana, são um deleite para o leitor, lembram as extraordinárias narrativas europeias do século passado, quando ainda se atentava à produção da literatura com estilo e conteúdo. O tema é complexo e rico, explorando a versatilidade do ser humano.  Na segunda metade do século XIX Darwin revolucionou o pensamento ocidental quando disse “Não  é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas a que melhor responde às mudanças.”  Paul Auster nos mostra isso através de 4321.  Muitas vezes parece que Auster está engajado num diálogo com seus predecessores, com escritores e pensamentos do passado, americanos [e aqui abro um parêntese para mencionar não só Emerson mas Henry Adams] assim como escritores europeus, de Dickens a Balzac.  Auster faz literatura com o homem comum.  Constrói seus personagens lidando com problemas corriqueiros do dia a dia.  Eles crescem aos nossos olhos, conhecemos suas sagas, tão semelhantes às nossas vitórias e derrotas cotidianas.  Assim como nós, eles selecionam, às vezes bem às vezes não tão bem, as batalhas para lutar.  Humano como o leitor, Ferguson seduz.  Nessa simplicidade de escolhas, nas batalhas vencidas e nas derrotas, torna-se universal.  Nasceu um clássico.





Treinando para ser escritor, texto de Paul Auster

21 01 2020

 

 

 

Merrie C. Ligon (EUA) O leitor, aquarela sobre papelO leitor

Merrie C. Ligon (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel

 

 

“Naqueles três anos como aluno do ensino médio nos subúrbios de Nova Jersey, Ferguson de dezesseis, dezessete e dezoito anos começou a escrever vinte e sete contos, terminou dezenove e passou não menos de uma hora por dia com o que chamava de seus cadernos de trabalho, que ia enchendo com diversos exercícios de escrita que inventava para si mesmo, a fim de manter a forma, afiar a pegada e tentar melhorar (como ele disse certa vez para Amy): descrições de objetos físicos, paisagens, céus no amanhecer, rostos humanos, animais, o efeito da luz na neve, o barulho da chuva no vidro, o cheiro de madeira queimada, a sensação de andar na neblina e ouvir o vento soprar entre os galhos das árvores; monólogos na voz de outras pessoas a fim de se transformar naquelas pessoas ou, pelo menos, tentar entendê-las melhor (o pai, a mãe, o padrasto, Amy, Noah, seus professores, seus colegas de colégio,o sr. e a sra Federman), mas também pessoas desconhecidas e mas distantes, como J. S. Bach, Franz Kafka, a garota do caixa do supermercado local, o cobrador da Companhia Ferroviária Erie Lackawanna, o mendigo barbado que lhe pediu um dólar na Grand Central Station; imitações de admirados, rigorosos, inimitáveis escritores do passado (pegue um paragrafo de Hawthorne, por exemplo, e componha algo baseado no seu modelo sintático, usando um verbo nos lugares onde ele usava um verbo, um substantivo nos lugares onde ele usava um substantivo, um adjetivo nos lugares onde ele usava um adjetivo — a fim de sentir o ritmo nos ossos, sentir como se forma a música); uma sequência curiosa de vinhetas geradas por trocadilhos, homonímias e deslocamento de uma letra: óleo/olho, luxo/luto, alma/lama; porto/morto e arroubos impetuosos de escrita automática, a fim de limpar o cérebro, toda vez que estiver se sentindo tolhido, como um jorro de escrita de quatro páginas inspirada pela palavra “nômade”, que começava assim: Não, eu não estou doido. Não estou nem zangado, mas me dê uma chance para desnortear você e num instante eu vou te deixar com os bolsos vazios. Também escreveu uma peça em um ato, que ele queimou de desgosto uma semana depois de terminar, e vinte e três poemas que estavam entre os mais nojentos que qualquer cidadão do Novo Mundo jamais viu e que ele rasgou depois de jurar para si mesmo que nunca mais ia escrever poemas. No geral, detestava o que escrevia.  No geral, achava que era burro e sem talento e que jamais conseguiria escrever nada, mesmo assim insistia, se esforçava a se dedicar àquilo todos os dias, apesar dos resultados muitas vezes decepcionantes, entendia que não haveria esperança para ele, a menos que persistisse, que para ser o escritor que almejava levaria anos, mais anos do que seu próprio corpo levaria para terminar de crescer, e toda vez que escrevia algo que parecia ligeiramente menos ruim do que o texto que tinha escrito antes, Ferguson achava que estava progredindo, ainda que o texto seguinte se revelasse uma abominação, pois a verdade era que ele não tinha opção, estava destinado a fazer aquilo ou então morrer, porque, apesar de seus esforços e de seu descontentamento com as coisas mortas que muitas vezes saíam dele, fazer aquilo lhe dava a sensação de estar vivo, mais do que qualquer outra coisa que já tinha feito na vida, e quando as palavras começavam a cantar em seus ouvidos e ele se sentava diante da escrivaninha e empunhava a caneta ou colocava os dedos nas teclas da máquina de escrever, sentia-se nu, nu e exposto ao vasto mundo que passava em disparada na sua frente, e nada dava uma sensação melhor do que isso, nada podia se equiparar à sensação de desaparecer de si mesmo e entrar no vasto mundo cantarolando, por dentro, as palavras que cantarolava, no interior de sua cabeça.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 431-432

 

 





Ah! A adolescência… trecho de Paul Auster

2 01 2020

 

 

 

aula de dança

 

 

“Em 1959, poucas mulheres no subúrbio tinham emprego, mas Ferguson e seu amigo tinham mães que eram mais que donas de casa e, consequentemente, foram obrigados a serem mais independentes e autoconfiantes do que a maioria de seus colegas de escola, e agora que tinham doze anos e começavam a curva que levava ao portão da adolescência, o fato de terem largos intervalos de tempo, só para eles, sem a supervisão de ninguém, estava se revelando uma vantagem, pois nessa etapa da vida os pais são, seguramente, as pessoas menos interessantes do mundo, e quanto menos tivermos de ficar com eles, melhor. Portanto, os dois podiam ir à casa de Ferguson depois da escola e ligar a televisão pra ver American Bandstand ou Million Dollar Movie sem medo de serem repreendidos por desperdiçar as últimas horas preciosas da luz do dia sentados dentro de casa numa tarde tão linda. Por duas vezes naquela primavera, eles conseguiram convencer Glória Dolan e Peggy Goldstein a irem para casa com eles, para bailes a quatro, na sala, e como nessa altura Ferguson e Glória já eram veteranos em beijar, seu exemplo inspirou Howard e Peggy a experimentarem sua própria iniciação na complexa arte do beijo de língua.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 167-168





Uma educação a longa distância, trecho Paul Auster

29 12 2019

 

 

 

Summer reading, 2011 by Natalia Andreeva born in Novosibirsk, Russia living in Tallahassee (Florida), USALeitura de verão, 2011

Natalia Andreeva (Rússia/ EUA, contemporânea)

 

 

“Nenhum outro menino em seu círculo de conhecidos tinha lido o que ele tinha lido e, como tia Mildred escolhia os livros cuidadosamente para ele, assim como havia escolhido para a irmã, em seu período de confinamento, treze anos antes, Ferguson lia os livros que ela mandava com uma avidez que parecia fome física, pois sua tia compreendia quais livros iam dos seis para os oito anos de idade, dos oito para os dez, dos dez para os doze — e daí até o fim do ensino médio. Contos de fadas, para começar os Irmãos Grimm e os livros muito coloridos compilados pelo escocês Lang, depois os fantásticos e assombrosos romances de Lewis Carroll, George MacDonald e Edithh Nesbit, seguidos pelas versões de mitos gregos e romanos escritas por Bulfinch, uma adaptação infantil de Odisseia, A teia de Charlotte, uma adaptação de As mil e uma noites, remontadas com o título de As sete viagens de Simbad, o Marujo, e mais adiante, uma seleção de seiscentas páginas de As mil e uma noites originais, e no ano seguinte O médico e o monstro, contos de horror e mistério de Poe, O príncipe e o mendigo, Raptado, Um conto de Natal, Tom Sawyer e Um estudo em vermelho, e a reação de Ferguson foi tão forte ao livro de Conan Doyle que o presente que ele ganhou da tia Mildred em seu décimo primeiro aniversário foi uma edição imensamente gorda, abundantemente ilustrada, de Histórias Completas de Sherlock Holmes.

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 109-110








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