“As palavras para um escritor”, texto de Rosa Montero

13 02 2016

 

 

ChausVictoria-Menina LendoMenina lendo

Victoria Chaus (Ucrânia,1964)

óleo sobre tela

 

 

“As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas em meio às águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que você não consiga pescá-las de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.”

 

Em: A louca da casa, Rosa Montero, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitmam, Rio de Janeiro, Ediouro:2004, p.13,

 





A prateleira dos especiais

17 02 2015

 

Paul Herman (EUA, 1962) Bookshelf III, Books with Bronze Torso, Oil painting on panel 21 x 25 cmPrateleira III, Livros com torso de bronze

Paul Herman (EUA, 1962)

óleo sobre placa, 21 x 25 cm

www.hermanstudios.com

 

Hoje me inspirei no blog The Bookshelf of Emily em parte porque passo no momento por um momento de limpeza, de desvencilhar-me de muitos livros, imaginando que eles poderão, a partir de agora, servir a outros donos. Passei por esse processo duas outras vezes nos últimos doze anos: primeiro quando me mudei do exterior para o Brasil. Depois quando me mudei para uma residência mais eficiente, menos ampla.

Somos dois em casa a trabalhar com livros. Trabalhar a vida inteira. Meu marido ainda é um pouco mais apegado a eles, porque afinal de contas ensinou por muitos anos literatura americana.  Quem ensina literatura não podia até recentemente ter uma biblioteca magrinha.  Afinal, texto era a sua alimentação diária.

Eu, por outro lado, tinha dois amores: a palavra escrita (a historiadora e leitora) e a imagem (conhece o peso dos livros de arte?), sim a minha parte era muito mais pesada do que a dele, mas menos livros.

A vinda para o Brasil fez com que dois escritórios, anteriormente separados, cobertos de livros, fossem somados e transformados numa única biblioteca.  Isso foi em 2002.  Em 2010, com nova mudança, a biblioteca original foi reduzida à metade menos um pouco.  E agora, estamos colocando-a em um sério regime para emagrecer.

 

BOOKS Gala apple with antique books Christopher StottMaçã Gala com livros antigos

Christopher Stott (Canada, 1976)

óleo sobre tela

www.chrisstott.com

 

Tem sido uma grande surpresa perceber que podemos viver com muito menos livros do que imaginávamos.  Nós dois nos adaptamos muito bem à palavra eletrônica.  Mas aviso que já compramos livros que lemos eletronicamente e de que gostamos muito, para os ter em casa… Vai entender esse  comportamento?!

Nesse processo, assim como a Emily do blog mencionado acima, eu também estou com uma prateleira de livros favoritos. Mas estão ficando conosco só os absolutamente favoritos e os que não lemos… Ah, sim, somos compradores inveterados, temos pilhas e pilhas, um corredor inteiro com prateleiras dos não lidos…

Mas neste Carnaval — sim o processo de emagrecer a biblioteca não reconhece feriados — arrumei um cantinho muito especial para os meus favoritos.

Aqui estão os 15 primeiros,sem ordem nenhuma, só na prateleira especial:

 

1 —  Nadando de volta para casa, Deborah Levy

2 —  1Q84, Haruki Murakami, a trilogia

3 —  Nihonjin, Oscar Nakasato

4 — Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel

5 —  A história do rei transparente, Rosa Montero

6 —  Concerto Campestre, Luiz Antônio de Assis Brasil

7 —  Cabine para mulheres, Anita Nair

8 —  A trégua, Mário Benedetti

9 —  As Brasas, Sándor Márai

10 – Divórcio em Buda, Sándor Márai

11 – A louca da casa, Rosa Montero

12 – A lebre com olhos de âmbar, Edmund de Waal

13 – A costureira e o cangaceiro, Frances de Pontes Peebles

14 – Este é o meu corpo, Filipa Melo

15 – Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Fal Azevedo

 

Estes são só os primeiros 15.  Voltarei a colocar mais, na lista, no momento tenho 44.  Daqui a um mês mais ou menos coloco outros 15.  Todos esses têm a minha recomendação é claro!





A elegância do ouriço — o melhor do ano para o LIVRO ERRANTE

14 12 2008

 

 

 

 

 

A comunidade do Orkut chamada de LIVRO ERRANTE acaba de publicar a lista dos melhores livros lidos por seus membros no ano de 2008.  Para participar da lista o livro deveria ter sido recomendado por um membro e passado de mão em mão por membros da comunidade, ou seja, “Errado pelo Brasil”.  O que faz a escolha ainda mais interessante é que nem todos os livros são os que acabaram de ser publicados.  Junto com Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, de Marçal Aquino estava concorrendo este ano, por exemplo, O velho e o mar de Ernest Hemingway.

 

Os vencedores este ano foram:

 

O melhor livro lido em 2008, segundo votação da comunidade Livro Errante:

 

A elegância do Ouriço – Muriel Barbery

 

 

 

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery, Companhia das Letras, Capa.

A Elegância do Ouriço, Muriel Barbery, Companhia das Letras, Capa.

 

 

 

Publiquei uma resenha deste livro aqui, para ler, clique AQUI.

 

 

Empatados em segundo lugar na preferência da comunidade L.E. com o mesmo número de votos:

 

 

A História do Rei Transparente – Rosa Montero

O castelo de Vidro – Jeanete Walls

Memorial de Maria Moura – Raquel de Queiroz

 

 

 

Em terceiro lugar ficaram:

 

A Louca da Casa – Rosa Montero

A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones

 

 

 

 

 

Para a lista completa, visite o BLOG do LIVRO ERRANTE.

 

 

O que é a comunidade do Livro Errante?

 

É um grupo, composto por aproximadamente 270 leitores do Brasil inteiro que passa o ano emprestando, trocando e discutindo livros entre seus membros.  Estes são leitores compulsivos, inveterados.  Admitem que aí encontraram um meio de se conectar com pessoas com valores semelhantes, de todas as idades imagináveis e profissões diversas.    É uma das grandes histórias de sucesso deste portal de relacionamento.  Mais tarde, num outro post descreverei outras ramificações de sucesso que fizeram deste grupo de pessoas uma comunidade ímpar.  Eu mesma faço parte do grupo e reconheço sua grande influência na minha vida profissional e pessoal.  Apesar de ser uma leitora assídua, que dava conta em geral de uns 50 livros por ano, desde entrei para o LIVRO ERRANTE minha leitura não só aumentou em número como no leque de interesses.  E a possibilidade de trocar idéias com pessoas que leram os mesmos livros é fascinante.

 

A comunidade está aberta e pública, mas há regras na participação e há compromissos a serem feitos.  Participação é essencial.  Diferente de outras comunidades no Orkut, ninguém pode simplesmente entrar na comunidade para mostrar que aprova a idéia ou para dizer que é membro, ou melhorar o seu perfil.  Sem participação efetiva a comunidade retira o participante do grupo.  Esta é uma das regras. 

 

 





BUZZ e A louca da casa — o marketing boca a boca

30 06 2008

A louca da casa de Rosa Montero

Recentemente tive a oportunidade de presenciar um exemplo típico do marketing chamado de “boca a boca”.  O assunto era a leitura do livro A louca da casa.  Boca a boca é considerado o melhor tipo de promoção.  Algo que quando temos um ponto comercial, em qualquer ramo, consideramos um dos maiores sucessos de uma companhia, de um comércio. Porque é o cliente entusiasmado que sozinho faz sua propaganda.  A promoção mais poderosa de todas: o burburinho de quem foi lá, comprou e saiu satisfeito.  É a palavra do amigo, do parente, do amigo do amigo.  

 

Este vírus oral — recomendações passadas sem nenhuma intenção comercial, comunicadas simplesmente pela vontade de que o outro acerte — ainda não está muito bem conscientizado no gerenciamento do pequeno comércio no Rio de Janeiro.  Diferente dos EUA, aqui vai-se a uma pequena loja e nunca somos perguntados como ouvimos falar daquela loja, como chegamos até lá.  Esta curiosidade, que parece regular no comércio americano, está ligada ao tipo de propaganda usado e ao gerenciamento de recursos para propaganda.  Infelizmente o pequeno comerciante no Rio de Janeiro, apesar de ter muita concorrência, qualquer que seja seu campo de especialização, ainda não descobriu a vantagem de treinar seus vendedores a fazerem estas perguntas, para que ele possa saber como a clientela chega ao seu endereço. 

 

A súbita procura pelo livro A louca da casa, de Rosa Montero, foi um exemplo típico da promoção boca a boca, ou do BUZZ através da internet.  A notícia de que era um livro imperdível foi passada de chat em chat, principalmente nos locais da internet freqüentados por pessoas ligadas à leitura, às artes, à educação e à literatura.   Rosa Montero já havia causado surpresa na imprensa cobrindo a Feira Internacional de Parati de 2004, quando se mostrou muito mais popular do que o imaginado, sendo abordada por fãs a procura de fotos e de autógrafos, em todo lugar, durante sua estadia.   A fama de Rosa Montero entre leitores exigentes vem de seu trabalho ímpar: artes, literatura, imaginação e a condição feminina.  Com esta agenda, livros tais como: A filha do canibal, A história do rei transparente, se tornaram leituras obrigatórias para a leitora brasileira. 

 

Eis que no grupo do ORKUT chamado Livro Errante dedicado à leitura de livros que são passados de leitor em leitor numa cadeia, cobrindo o Brasil inteiro das grandes cidades a remotas localizações, a curiosidade sobre Rosa Montero foi atiçada no início deste ano, quando alguns de seus livros começaram a circular e a serem lidos e discutidos pelos trezentos e poucos brasileiros que compõem a comunidade.   De repente, Rosa Montero havia se tornado um nome corriqueiro, uma pessoa familiar, conhecida.  Seus livros já publicados no Brasil foram procurados mais insistentemente.  Assim, A louca da casa, um livro sobre a imaginação e o processo criativo, publicado pela Ediouro em 2004, passou a ser uma obsessão do grupo.  Apesar de ser um livro recente está esgotado e de acordo com a editora sem perspectivas de nova tiragem ou edição.   Constatou-se também que este era um livro difícil, quase impossível, de ser achado em sebos.  Tudo contribuiu para o crescimento do BUZZ na internet, para a NECESSIDADE IMEDIATA de se ler o livro.  

Escritora Rosa Montero

 

É a velha história da oferta e da procura.  Havia muita procura e nenhuma oferta.  O Livro Errante abriu então um tópico dentro da comunidade para que se localizasse um volume que pudesse ser emprestado.   Telefonemas foram feitos para se descobrir em sebos no Recife, no Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo.  O site Estante Virtual, recebeu alguns pedidos.  Finalmente quando um volume apareceu imediatamente 25 pessoas se comprometeram a ler o livro.  Este volume agora passeia pelo Brasil e está sendo lido por muito mais do que estas 25 pessoas, porque cada leitor satisfeito ainda o passa entre amigos, para que seja desfrutado, antes do livro ir embora se encontrar com outros leitores.

 

O ponto de desequilíbrio de Malcolm Gladwell, autor do também muito aclamado Blink,  ambos livros publicados pela editora Rocco, tenta estudar e justificar justamente este fenômeno de marketing, ou seja aquele ponto em que um objeto, um aparelho, um modismo, deixa de ser simplesmente mais um no estoque de um comerciante e passa a ser o item quente, o procurado por todos.  Este momento, que Gladwell chama de ponto de desequilíbrio é o que todos almejam ter quando são fabricantes, produtores, comerciantes, escritores e até mesmo editores de livros.    

 

Infelizmente, nem todas as companhias brasileiras estão ligadas ao poder econômico do burburinho virtual.  Ou o que é pior, ainda não aprenderam o valor e o poder do boca a boca através da internet.  Além disso, se mostram indiferentes à clientela.  Quando alguns dos membros da comunidade Livro Errante escreveram e-mails para a editora Ediouro perguntando sobre a possibilidade de uma nova impressão ou de uma nova edição do livro de Rosa Montero, todos receberam um e-mail automático da companhia, generalizado, sem qualquer atenção específica ao livro ou aquele leitor em potencial.  Esta falta de maleabilidade no trato com o consumidor, não é porque a companhia é muito grande.  Tanto a Amazon.com, como a Ebay.com, assim como o Submarino.com.br, apresentam maneiras com que um cliente possa ter seus e-mails respondidos por alguém além de uma máquina. 

 

Ao que tudo indica há empreendedores brasileiros que ainda acreditam que dinheiro gasto em propaganda e marketing é dinheiro posto fora.  Torna-se dinheiro posto fora  quando eles mesmos não se dispõem a avaliar o marketing que fazem.  No caso do livro A louca da casa, a companhia parecia achar que a culpa era destes leitores que não haviam comprado o livro assim que publicado, em 2004.  Mas não é.  A culpa é da companhia: neste caso ela não conseguiu entregar o produto para o qual um grande marketing boca a boca se desenvolveu naturalmente.  O BUZZ havia cumprido a sua função.  A falha foi no planejamento a longo prazo.   Uma pena!

 

 








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