Natureza maravilhosa: mariposa imperador

12 07 2015

 

Thysania_agrippina_0001b_L.DMariposa Imperador (Thysania agrippina), natural do Brasil. Foto: Wikipedia.

 

 

Essa é a maior mariposa do mundo! Tem 30 centímetros de uma extremidade da asa à outra.  Suas asas  são cinzentas, quase-brancas, manchadas de marrom.  São debruadas de linhas escuras que ressaltam a sinuosidade do intrincado desenho de suas asas. Essas apresentam desenhos geométricos, em preto, cinza e marrom.  Seu nome científico é Thysania agrippina,  mas nós a conhecemos como mariposa-imperador. É o maior lepidóptero noturno do mundo. Em outras palavras, a maior mariposa do planeta.

A família dos lepidópteros é a mesma a que pertencem as borboletas. A diferença básica é que estas são insetos diurnos, enquanto as mariposas são noturnas ou crepusculares.

 

Fonte: Wikipedia





Nossas cidades — Manaus

23 03 2015

 

 

Tadashi Kaminagai (1899 - 1982)Manaus (1964)Óleo sobre tela,30 x 40 cmManaus, 1964

Tadashi Kaminagai (Japão, 1899-1982)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm





A civilização amazônica desconhecida

3 07 2010

—-

—-

A lenda de cidades perdidas na Amazônia  atraiu legiões de exploradores e aventureiros à morte na maior floresta tropical do mundo: haveria um antigo império de cidadelas e tesouros ocultos nas profundezas da selva amazônica?  Conquistadores espanhóis se aventuraram na floresta buscando fortuna e foram seguidos ao longo dos séculos por outros, convencidos de que descobririam uma civilização perdida tão importante quanto a Asteca e a Inca. Alguns chamaram  este local imaginário de El Dorado, outros, de Cidade de Z.

Mas a selva os engoliu e nada foi encontrado.  Passou-se a imaginar que era um mito.   A Amazônia era inóspita demais, diziam estudiosos do século XX, para permitir grandes assentamentos humanos.  Mas quem sonhava  estava certo.  Novas imagens de satélite e outras feitas de avião, revelaram mais de 200 enormes construções geométricas escavadas na Bacia Amazônica Superior, perto da fronteira do Brasil com a Bolívia.

Espalhados por 248 quilômetros, há círculos, quadrados e outras formas geométricas que  formam uma rede de avenidas, valetas e recintos construídos,  muito antes da chegada de Cristóvão Colombo à  América.   Algumas dessas construções datam de 200 a. C., outras são bem mais tardias, do final do século XIII da nossa era.  Os cientistas que as mapearam acreditam que pode haver outras 2.000 construções escondidas embaixo das árvores.

—-

—-

 —-

—–

As estruturas descobertas  pelo desmatamento mostram uma “sofisticada sociedade pré-colombiana construtora de monumentos“, de acordo com a revista Antiquity, onde os autores lembram que “esse povo até agora desconhecido construiu fortificações com um plano geométrico preciso, conectadas por estradas ortogonais retas.”  Chamadas de geóglifos, as figuras estendem-se por uma região de mais de 250 quilômetros e compõem uma rede de trincheiras com 11 metros de largura e barrancos de 1 metro. Acredita-se que eram usadas como fortificações, moradias e para cerimônias. Poderiam ter abrigado um média de 60 mil pessoas.

Essas descobertas demoliram idéias de que os solos da Amazônia eram muito pobres para sustentar uma agricultura extensiva, diz Denise Schaan, co-autora do estudo e antropóloga da Universidade Federal do Pará. Ela disse à revista americana National Geographic que “há muito mais para se descobrir nesses locais. Toda semana achamos novas estruturas.” Muitos dos montes encontrados são de grande simetria e se encontram  inclinados para o norte.  Uma das suposições é de que tenham um possível significado astronômico.

—-

—-

Geóglifo na Fazenda Atlântica, na BR 364

—-

—-

As primeiras formas geométricas foram achadas em 1999. Outras descobertas, que foram feitas na região do Xingu, mostram aldeias interligadas conhecidas como “cidades jardins“, com casas e fossos. “As revelações estão explodindo nossas percepções sobre como as Américas realmente eram antes da chegada de Colombo“, diz David Grann, autor de The Lost City of Z. [ A cidade perdida de Z.] E também vingam Percy Fawcett, o britânico que liderou uma expedição para encontrar a Cidade de Z e desapareceu, no percurso.  Todas essas novas descobertas deixam vislumbrar o que poderia ter sido uma civilização antiga ainda desconhecida.   Há quase 260 avenidas, caminhos e barreiras descobertas ao longo da fronteira entre o Brasil e a Bolívia. 

Isso vai em completa oposição à tradicional visão da bacia Amazônica antes da chegada dos europeus por aqui: não havia cidades como as encontradas pelos espanhóis no território Inca.    Agora a grande dúvida, que divide os especialistas,  é saber se os geóglifos e as cidades jardim estão interligados.   Os geóglifos são formados por canais – fossos — cavados de 11 metros de largura e 1 ou 2 metros de profundidade.    E os círculos que eles formam vão de 90 a 300 metros de circunferência.   A idade precisa das suas construções ainda é muito vaga.  Acredita-se que eles tenham sido construídos num período de 700 anos, de 2000 anos atrás até mais ou menos o século XIII. 

—-

—–

Vista aérea de um geóglifo ao lado de uma estrada.

—-

—-

Algumas escavações  já trouxeram resultados inesperados, entre eles, cerâmicas e outros sinais de habitações humanas.  Mas estes artefatos só  aparecem em alguns locais e não em outros.  Isso talvez deva ser visto como um indício de que esses locais teriam tido um papel cerimonial.  Pensa-se também em defesa, no entanto estruturas de defesa não necessitam ser construídas com a precisão geométrica apresentada aqui.   Para defesa, escavações em barreiras,  trincheiras ou fossos, não precisam do detalhe de planejamento matemático que estes círculos de demonstram.    E,  já que muitas dessas estruturas estão orientadas para o norte é mais provável ainda que tenham algum significado astronômico.

O certo é que a maioria das grandes civilizações da antiguidade estava enraizada ao longo de um rio importante.  E por causa da densidade da floresta amazônica, este simples fator, comum a quase todas as outras civilizações, foi ignorado.  E no entanto, por que não teriam sido as margens do Amazonas fonte de desenvolvimento para os povos da América do Sul?   

Não há evidência alguma de construções piramidais ou de uma língua escrita desenvolvida  por essa sociedade que construiu os  geóglifos amazônicos.  Mas a intervenção na paisagem, no meio ambiente, através de  construção de fossos e de construções circulares ou quadradas, mostram que este povo era sedentário, que fazia planos, que projetava suas idéias para um futuro longínquo – uma construção dessas não se faz de um dia para o outro — e que era uma sociedade estabelecida na terra, e não formada por tribos nômades.    

—–

—–

—–

—–

Apesar da proximidade de algumas aldeias Incas a 200 km a oeste dos geóglifos não foram achados ainda nenhum objeto Inca ou de influência Inca no local.   E ainda, esses geóglifos não parecem ter qualquer afinidade com os geóglifos encontrados no Peru, de origem Nazca. 

Para a maioria dos especialistas em estudos andinos e civilizações pré-colombianas, estas descobertas são simplesmente o que há na superfície.    Com o tempo muitas outras descobertas virão, pois os indícios são de que havia um grande número de pessoas no local vivendo de maneira bastante organizada.   Mas isso só o tempo comprovará.

—-

—–

Fontes: EstadãoA blog about history, The Guardian.





Papa-livros: Relato de um certo oriente, de Milton Hatoum

24 01 2010

Manaus, foto antiga, coleção Allen Morrison.

Se eu tivesse que expressar visualmente a minha impressão do livro de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente, teria que dizer que como leitora, fui habilmente seduzida por um texto cuja história se mostra tímida, escondida nas entrelinhas, e que vai se revelando, a contragosto, com algumas contorções, com gestos delicados e incompreensíveis,  com mudanças de ritmo e de perspectiva.  Foi como se eu tivesse sido vítima de magia, encantada por uma Salomé, por uma dançarina oriental, debaixo de sete véus.  Infelizmente, Milton Hatoum não me deu, como leitora, a oportunidade de descobrir a total beleza da mulher que se desnuda à minha frente.  O último véu, aquele que encobria o rosto, aquele que só me  permitia, até o último momento, ver só os olhos pelos quais me aproximei da história, esse véu não caiu.  A última barreira para a identidade da narradora dessa trama,  para o seu nome, fica presa naquela película translúcida através da qual sinto a presença da face.   Gostaria de que esse véu tivesse também caído, para saber ao certo, sem quaisquer dúvidas,  a identidade dessa personagem, filha adotiva,  sem-nome, que volta à casa da infância e se lembra das histórias do passado.  Os detalhes do rosto que vislumbro e que imagino, no entanto, nessa dança sedutora, não me são jamais revelados.  Foi grande a frustração causada pela narrativa dissimulada, oblíqua da história desta família de imigrantes do Oriente Médio no Amazonas.    Terminado o texto, voltei ao início do livro para ter certeza de que não havia perdido algum detalhe que houvesse me desviado para um final inconclusivo, mas continuei, depois de reler o texto, com a inconveniente sensação de uma narrativa que carecia de um único detalhe para um desfecho pleno, satisfatório. 

Esse é o terceiro livro de Milton Hatoum que leio.  Já havia lido Dois irmãos, de que gostei imensamente, e Órfãos do Eldorado, cuja resenha pode ser encontrada aqui no blog.   Esse grande escritor amazonense me agrada.  Aprecio sua dedicação à memória, à memória cultural, à memória individual.  Sem ela não somos, simplesmente estamos.  Milton Hatoum tem uma maneira onírica de contar histórias e é capaz de nos levar facilmente a um mundo meio-sonho, meio realidade, à zona da imaginação que pontua narrativas de um passado não muito distante.  Como nos livros citados acima, este romance também se passa em Manaus, essa última fronteira, terra de água e de floresta, de culturas imigrantes e nativas.  Ali os mundos se encontram e aprendem a conviver. 

Milton Hatoum, foto: Lucila Wroblewski.

A trama é centralizada numa família, cujos principais componentes e eventos que a cercam são contados não só pelas lembranças da principal narradora, uma mulher que, passados vinte anos, retorna ao lar da infância, mas por outras vozes também.  Ela era a filha adotiva do casal de imigrantes, e permanece o centro das recordações.   A narrativa é composta de diversas memórias, não só dessa filha, mas também de outros membros da família, de amigos, memórias  que se entrelaçam e se confundem.   Conhecemos assim por pedaços, por insinuações o mundo de Emilie, matriarca desse clã libanês.  Ao longo da narrativa tive consciência da herança da cultura oral brasileira e das culturas do Oriente Médio.  Com uma narrativa evocativa, o romance ganha profundidade a cada relato, a cada personagem que conta parte da história.  Acaba-se com a sensação de se ter lido, de fato um grande romance.  Gostaria, no entanto, de fazer a seguinte observação:  acho que Milton Hatoum complica um belíssimo texto, mais do que necessário.  Se eu, que sou leitora assídua e regularmente inteligente, tenho que pegar papel e lápis para fazer anotações e ver se estou entendendo direito o que acontece na trama, há algo de errado.   E foi isso o que aconteceu comigo.  Li o livro com papel e lápis na mão.  Até um esboço de uma árvore genealógica construí.  Não acredito que isso deva acontecer.  Qualquer que seja o romance, de quem quer que seja.  Mas mesmo assim, a força narrativa de Milton Hatoum, e seu texto, cuidadoso — como hoje já quase não vemos na literatura brasileira — não deixam que eu coloque esse livro de lado.  Vou recomendá-lo, mas advirto, nem sempre o texto tem a clareza que deveria  transmitir.  Fiquei frustrada e me senti manipulada com essa narrativa oblíqua e dissimulada.





Perseguindo o sonho, Milton Hatoum em Órfãos do Eldorado

4 08 2008

 

Tarsila do Amaral, Floresta, 1929, óleo/tela, Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Tarsila do Amaral, Floresta, 1929, óleo/tela, Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Órfãos do Eldorado, uma novela de 100 páginas pode quase ser chamada de um discurso sobre a decadência.  Decadência dos sonhos, das fortunas, da economia.  A decadência como objeto de observação e fascinação dos turistas, a decadência da política local, das mores sociais.  Até mesmo a decadência do sonho, da esperança, que não encontram um eco na realidade amazônica retratada aqui.  

 

Não que Milton Hatoum tenha deixado de lado a ficção.  Não é esta a minha observação.  Mas sua ficção está ainda mais fluida neste livro do que em anteriores.  Esta é uma ficção, tecida através de memórias anteriores às do personagem principal, e fatos históricos mencionados que cobrem mais de um século.  A fluidez da narrativa dá um leve toque de sonho, de irrealidade porque vamos e voltamos a um passado sem forma, a uma passado interpretado pela criança que foi Arminto Cordovil:  a visão que ele tem de seu pai e de sua infância e adolescência. 

 

Esta maneira amorfa e característica da fluidez de pensamentos — que já encontrei anteriormente neste autor nos dois outros livros que li: Dois Irmãos e Cinzas do Norte —, deixa a narrativa aberta.  Ela se rebela às datas históricas, às informações precisas.

Não que Milton Hatoum trabalhe com o realismo mágico.  Mas as idas e vindas de seus personagens com lembranças e projeções no futuro mantêm uma nebulosidade proposital mostrando traços familiares com fantasias noturnas e sonhos reveladores.

 

A história pode ser descrita em poucas palavras: Arminto se apaixona por Dinaura uma moça local, que não fala, evasiva, com quem ele tem uma noite de amor inesquecível, e a quem ele jamais volta a ver.   Recebi este livro, emprestado por uma amiga, excelente leitora, com a observação de que esta era uma bela história de amor.  

 

Mas discordo redondamente.  A história da perseguição de Arminto por Dinaura, sua obsessão do início ao fim da novela, para mim, é a personificação da constante procura pelo Eldorado, que ilude a todos que se estabeleceram e que se estabelecem, ainda hoje, na Amazônia.  A procura de Dinaura é a grande aventura, repleta de elementos fantásticos, do mundo, do amor, de tudo que jamais será tal como a terra prometida.  Ela, assim como o Brasil, como a Amazônia, é uma moça local, e é natural então que se encontre rodeada pelos caminhos encontrados na ilha encantada das histórias das cunhatãs.

 

Este é um discurso alegórico sobre a esperança cega de algo melhor, e a decadência que se estabelece quando se procura obsessivamente uma realidade, um sonho, inexistente.

 

 

Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum, São Paulo, Cia das Letras:2008  — 107 páginas.

 

 

Lucila Wroblewski.

Milton Hatoum, foto: Lucila Wroblewski.

 








%d blogueiros gostam disto: