Vou agora sonhar… poesia de Da Costa e Silva

25 03 2019

 

 

 

dreaming_large__0Sonhando grande

Aditya Phadke (Índia, contemporâneo)

Óleo sobre tela,  76 x 91 cm

 

 

Vou agora sonhar…

 

A minha vida, sempre inquieta como o mar,

É de renúncia, sacrifício e desencanto:

Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,

Estende-se o horizonte, além do meu olhar…

 

Na imensidade azul, fico a cismar, enquanto,

A refletir o céu, vai-se acalmando o mar…

Acalma-se também minha dor, por encanto:

— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.295





A flor e a andorinha, poesia de Da Costa e Silva

6 08 2017

 

 

ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA, óleo sobre cartão, datado de 1918, representando figura feminina na janela, medindo 49 x 70 cm.Figura feminina à janela, 1918

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)

óleo sobre cartão,  49 x 70 cm

 

 

II
A flor e a andorinha

 

(Tsé-Tié)

 

Da Costa e Silva

 

Cortei em um ramo uma flor pequenina e rosada,

e ofertei à mulher que tem lábios finos e doces

como estas flores pequeninas e rosadas…

 

Roubei do seu ninho uma andorinha de asas negras,

e ofertei à mulher, cujas pestanas longas

se assemelham às asas das andorinhas.

 

Na manhã seguinte, a florzinha pendeu, já murcha…

e a andorinha, seguindo a alma da flor, tomou voo,

pela janela aberta sobre a montanha azul…

 

No entanto, nos lábios da mulher amada

abre-se a flor rosada e pequenina,

e as negras pestanas, que lhe velam os claros olhos,

não têm o ar inquieto de quem quer bater as asas…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.312





A aranha, poesia de Da Costa e Silva

7 06 2016

 

 

aranha1Aranha, ilustração de Christina Rossetti.

 

 

A aranha

 

Da Costa e Silva

 

Num ângulo do teto, ágil e astuta, a aranha,

Sobre invisível tear tecendo a tênue teia,

Arma o artístico ardil em que as moscas apanha

E, insidiosa e sutil, os insetos enleia.

 

Faz do fluido que flui das entranhas a estranha

E fina trama ideal  de seda que a rodeia

E, alargando o aranhol, os elos emaranha

Do alvo, disco nupcial, que a luz do sol prateia.

 

Em flóculos de espuma urde, borda e desenha

O arabesco fatal, onde os palpos apoia

E tenaz, a caçar os insetos se empenha.

 

Vive, mata e produz, nessa fana enfadonha;

E, o fascinante olhar a arder como uma joia,

Morre na própria teia, onde trabalha e sonha.

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.166








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