Resenha: “Talvez uma história de amor”, de Martin Page

9 09 2019

 

 

 

TELEFONE westelec_phone 1948aIlustração de anúncio da companhia de telefonia Western Eletric, 1948.

 

 

Em menos de seis meses, este é o terceiro livro que leio em que um telefonema, ou uma mensagem deixada por telefone, dá início à trama.  Deve ser coincidência. Espero.  Pois, de repente ficou um início batido.  Não surpreende. Neste caso, no romance de Martin Page, Talvez uma história de amor, nosso anti-herói, Virgile,  chega em casa e ouve a mensagem deixada em sua secretária eletrônica (parece coisa antiga, não é mesmo?): Clara termina o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não se lembra de ter qualquer relacionamento com alguma Clara. Passamos, portanto, as próximas 150 páginas tentando esclarecer essa questão que se torna obsessiva para ele: quem era Clara e teria ele tido um relacionamento com ela?

Achei a premissa muito interessante. Intrigante mesmo.  E fui em frente à espera das mais mirabolantes possibilidades. Não sei como eu resolveria essa questão caso fosse eu o romancista,  mas não deixei de ter uma pequena decepção com o desenrolar da trama.  Primeiro porque Virgile lembou-me Do contra Hiromashi,  personagem da Turma da Mônica, cujo nome sugere está sempre a contrariar, muitas vezes sem propósito algum, o senso-comum da sociedade, do lugar onde vive, daquilo estabelecido por comum acordo.  Preso a essa faceta, Virgile, de nebuloso caráter, que trabalha numa agência de publicidade, começa a voltar atrás, seguindo seus próprios passos do passado recente, para se certificar da saúde de sua memória, ou se, de fato, havia se relacionado com alguém de quem não se lembrava.

 

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A volta ao passado é ensejo para nos familiarizarmos com os amigos de Virgile, com  trabalho, amores, e principalmente maneira de ver as coisas.  Como publicitário de sucesso, e prestes a receber uma promoção, Virgile tem um jeito interessante de se expressar, e há diversas passagens que surpreendem, astutas, que nos fazem voltar atrás e ler de novo, deliciosas por um breve momento, como: “Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica.” [69-70].  Mas não passam de observações interessantes sem particular significado.  O que parece um pensamento sagaz, profundo, quando relido, mostra não ter lastro, ser tão leve quanto a obra inteira. É um sopro de encontro à brisa.

A solidão que encapsula Virgile é criada, construída, por ele mesmo.  Frequentemente mencionada pelos leitores e resenhistas da obra, fiquei surpresa de ver que outros leitores a consideraram aspecto importante da personalidade do personagem. A mim, me deu a impressão de ser mais uma questão de postura existencialista, do que verdadeira solidão.  Há em Virgile, muito do teatral, muito de gesto no lugar da ação.  Há também uma adolescente vontade de chocar,  um tanto descabida para um homem feito, com sucesso no trabalho e muitos amores para contar.

 

martin-page-author-b5f13b2a-079d-40df-bfce-5918266354c-resize-750Martin Page

 

Este é o segundo livro de Martin Page que leio.  Meu primeiro, A libélula dos seus oito anos, não me agradou.  Achei Talvez uma história de amor, tradução de Bernardo Ajzenberg, mais interessante como tema, e com melhor desenvolvimento, mas, assim como na leitura anterior Martin Page me deixa surpresa por seu sucesso.  Tornou-se um escritor muito considerado desde o lançamento de seu primeiro livro, Como me tornei estúpido, mas para mim, sua ficção necessitaria de mais conteúdo e menos forma para que o autor se tornasse um de meus favoritos.  Fico na dúvida: estou cega para o que o faz um sucesso? –  ou são os outros que talvez não esperem tanto das horas de leitura que dedicam a um autor?  Mas sem dúvida, ele escreve bem.  O bastante para manter esta leitora até o fim. Três de cinco estrelas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





Sobre a memória: J. M. Barie

28 08 2019

 

 

 

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“Deus nos deu memória para que pudéssemos ter rosas em dezembro.”

 

J. M. Barie





“McDonald’s in Paris”, por Martin Page

26 08 2019

 

 

 

Hemingway in Paris, by Michela Akers.Hemingway in Paris, gravura de Michela Akers.

 

 

“Desceu para tomar o café da manhã no MacDonald’s. Não se achava merecedor de mais do que um suco de laranja azedo e um croissant gorduroso. Deixou de lado o saquinho de chá e bebeu a água quente. Seu vizinho de mesa, um homenzinho com um boné de golfe todo roído de traça, uma barba de quinze dias e uma camisa suja, comia batata frita e bebia um refrigerante; sua mão pairava sobre um bolo de chocolate como se o protegesse. Virgile não admitiria isso para ninguém, mas gostava de ir ao McDonald’s. Não era um local agradável ou bonito, mas sentia-se em casa ali. Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica. Os pobres, os estudantes e o pessoal da periferia sabem muito bem disso; podem-se checar e-mails, estudar para uma prova ou para as aulas, escrever; os moradores de rua leem os jornais de distribuição gratuita e fingem beber alguma coisa de um copo que pegaram em uma bandeja. A ideia de um local de alimentação para pessoas simples fora deixada nas mãos de uma caricatura de empresa capitalista. O fast-food tornara-se o único local caloroso, vivo e popular.  Era deprimente.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 69-70.





Palavras para lembrar: Ernest Hemingway

14 08 2019

 

 

 

Jean-François Martin – Illustration le Monde des livres (2012)O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.

 

 

“Não há amigo mais fiel do que um livro.”

 

 

Ernest Hemingway





“Vou morrer” texto de Martin Page

11 08 2019

 

 

 

d'espagnat, georges, mulher lendo no jardimMulher lendo no jardim

Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)

óleo sobre tela, 64 x 80 cm

 

 

“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.

Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo?  Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos,  pensava Virgile,  o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.

Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild.  A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos.  Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.

Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.





A América no século XX

8 08 2019

 

 

 

Columbia wearing a warship bearing the words World Power as her Easter bonnet, cover of Puck (April 6, 1901). It was published from 1871 until 1918.jpg

Columbia usando um chapéu para a Páscoa com as palavras “Poder Mundial”, na capa da Revista Puck em abril de 1901.  Puck foi publicada entre 1871 e 1918.

 

 

“Nos anos 1950, a América ergueu o globo pelos tornozelos e sacudiu o troco de seus bolsos. A Europa tinha se tornado um primo pobre – só brasões, porém nenhum serviço de jantar. E os indistinguíveis países da África, da Ásia e da América do Sul tinham apenas começado a surgir nas paredes das nossas salas de aula como salamandras ao sol. Certo, os comunistas estavam por lá, em algum lugar, mas, com Joe McCarthy no túmulo e ninguém na Lua, por enquanto os russos apenas se esgueiravam pela páginas do romances policiais.”

 

Em: Regras de Cortesia, Amor Towles, tradução de Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco: 2012, página 9





Sobre o sucesso nas artes, texto de Amy Tan

15 06 2019

 

 

 

pintor, al parker, 1959Ilustração Al Parker, 1959.

 

 

“Pensei que em toda minha vida ninguém havia me amado total e desesperadamente. Ah, houve um tempo em que acreditei que Stefan Cheval gostava de mim dessa maneira — sim, o famoso e polêmico Stefan Cheval. Mas isso foi há séculos, pouco antes daquele congressista de pele rosada ter declarado que suas pinturas eram “obscenas e antiamericanas”. Minha opinião? Para ser absolutamente sincera, eu achava que a série de Stefan Liberdade de Escolha, era dramática e clichê. Vocês sabem do que estou falando: os guaches retratando a bandeira americana misturada com bois e vacas, cães mortos por eutanásia, monitores de computador — ou será que eram aparelhos de TV naquela época? Em todo caso, pilhas e pilhas de excessos para mostrar o desperdício imoral. O vermelho da bandeira era cor de sangue, o azul era berrante e o branco da cor de “esperma ejaculado”, de acordo com a descrição do próprio Stefan. Ele sem dúvida não era nenhum Jasper Johns. Entretanto, depois que a obra de Stefan foi execrada, ela foi clamorosamente defendida por grupos de direitos humanos pela ACLU, pelos departamentos de arte das melhores universidades americanas e por todos aqueles tipos liberais defensores das liberdades civis. Permitam-me dizer, foram eles que atribuíram à obra mensagens grandiosas que Stefan jamais havia pretendido. Eles viram as complexidades das camadas significativas, viram como certos valores e estilos de vida eram considerados mais importantes do que outros, e como nós, os americanos, precisávamos do choque da feiúra para reconhecer nossos valores e responsabilidades. Os regatos [SIC] de esperma eram especialmente citados como representativos da fome de prazer incontrolável que nos levava à desordem e à proliferação. Tempos depois, a desordem se referia ao aquecimento global e à proliferação de armas nucleares. Foi assim que aconteceu dele se tornar famoso. Os preços subiram. O simples mortal virou um ícone. Alguns anos mais tarde até igrejas e escolas tinham pôsteres e cartões-postais de seus temas mais apreciados e as galerias franqueadas dos grandes centros turísticos logo criaram um negócio lucrativo vendendo suas serigrafias de edição limitada, junto com gravuras de Dali, Neiman e Kincade.”

 

Em: As redes da ilusão, Amy Tan, tradução Ana Deiró, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, pp: 26-27.








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