As Garças, fábula de Leonardo da Vinci

20 06 2015

 

 

egret-lyse-anthonyGarça

Lyse Anthony (EUA, contemporânea)

aquarela, 24 x 16 cm

Lyse Anthony

 

 

 

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem  segue este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, e também de contar histórias.  Leonardo escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula  As Garças do volume de Leonardo chamado: Lendas, H. 9r.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p. 42

 

 

As Garças

 

O rei era um bom rei, porém tinha muitos inimigos. As garças, leais e fiéis, estavam preocupadas. Havia sempre a possibilidade, principalmente à noite, dos inimigos cercarem o palácio e aprisionarem o rei.

— Que devemos fazer? pensaram elas. — Os soldados, que deveriam estar de guarda, estão dormindo. Não podemos confiar nos cães, pois estão sempre caçando e sempre cansados.  Nós é que temos que guardar o palácio e deixar nosso rei dormir em paz.

Então as garças decidiram tornarem-se sentinelas. Dividiram-se em grupos,  cada grupo zelava por uma área, com mudanças de guarda em horas determinadas.

O grupo maior postou-se no prado que cercava o palácio. Outro grupo colocou-se do lado de fora de todas as portas. E o terceiro decidiu ficar no quarto do rei, a fim de vigiá-lo o tempo todo.

— E se nós adormecermos? perguntaram algumas garças.

— Temos um modo de evitar adormercermos, respondeu a mais velha de todas. — Cada uma de nós vai ficar segurando uma pedra com o pé que estiver levantado enquanto permanecermos paradas. Se uma de nós dormir, a pedra cairá no chão e o barulho a acordará.

Todas as noites, desde então, as garças vigiam o palácio, mudando a guarda de duas em duas horas. E nenhuma, ainda, deixou cair a pedra.





O califa e o ancião, texto de Latino Coelho

21 10 2014

 

 

an_arab_horseman-large 13Um cavaleiro árabe, 1865

Gustave Boulanger (França, 1824-1888)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

O Califa e o Ancião

Latino Coelho

 

Ia o califa Harum-al-Raschid por um campo, aonde andava a folgar à caça, quando sucedeu de passar por pé dum homem já muito velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então disse o califa aos do seu séquito:
— “Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contasse como certo vir a gozar dos frutos desta planta.” Indo-se então o califa em direitura ao velho, perguntou-lhe quantos anos tinha. “– Para cima de oitenta”, respondeu o velho; “mas, Deus seja louvado, sinto-me ainda tão robusto e saudável, como se tivesse apenas trinta.” “– Sendo assim”, redarguiu o califa, quanto pensas tu que ainda hás de viver, pois que nessa idade já tão adiantada estás a plantar uma árvore que por natureza só daqui a largos anos dará fruto?” “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando, sem inquirir se serei eu ou outros atrás de mim quem lhe colherá os frutos. Assim como nossos pais trabalharam por nos legar as árvores que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, com que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e a enriquecer-se. E, se hoje nos sustentamos dos frutos do seu trabalho e se foram nossos pais tão cuidadosos do futuro, como havemos de retribuir em desamor aos nossos filhos o que de nossos pais recebemos em carinho e previdência ? Assim, semeia o pai para que o filho possa vir a colher.”

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 201

 

Texto usado hoje em alguns colégios no 6º ano do ensino fundamental.





Como o homem perdeu a juventude eterna, lenda Africana

4 09 2014

 

 

emery-franklin, positive thinking, ost,Pensamento Positivo, 2010

Emery Franklin (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela

 

 

Como o homem perdeu a juventude eterna

 

O deus Rwan* havia decretado que o homem deveria mudar de pele como a cobra e virar jovem quando chegasse a uma idade avançada. “Mas ninguém do seu povo pode vê-lo quando você deixar a pele para trás, você precisa estar sozinho neste momento. E se seu filho ou neto o vir, naquele mesmo instante você morrerá e não será salvo de novo.

Quando o homem mais velho se tornou um ancião, soube que a hora havia chegado para trocar de pele, e mandou que sua neta lhe trouxesse água em uma cabaça, no fundo da qual ele havia feito muitos pequenos furos, para que ela se visse forçada a ficar bastante tempo longe dali. Mas, ela tapou os buracos, e retornou logo depois, surpreendendo-o no meio da troca de pele. Nesse momento ele gritou: “Eu morri, vocês todos morrerão, eu morri, vocês todos irão morrer. Isso porque você, minha neta, entrou aqui quando eu jogava fora a minha pele. Serei castigado, você também!”

Depois disso o povo levou a jovem para a floresta. Mais tarde ela se casou e teve filhos. Estes são os babuínos e os macacos, gorilas e os macacos Colobus; e os babuínos e seus semelhantes são por isso chamados “Povo da Floresta” ou “Filhos da maldição“.

*****

[Djaga, Kilimanjaro]

Djaga.8

 

* Também conhecido como Ruwa.

 

 

 

Em: African Myths and Tales, Susan Feldmann,  Nova York, Dell: 1970, p.120.

[Tradução minha]





O Príncipe, conto de Wilson W. Rodrigues, uso escolar

27 08 2014

 

WTBendaIlustração de W.T. Benda para capa da revista LIFE de agosto de 1923.

 

 

O Príncipe

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

As feições do príncipe eram desconhecidas.

Jamais alguém vira o seu rosto.

Em sua corte trabalhavam os artesãos mais hábeis, os melhores desenhistas, as costureiras mais famosas.

A observação era invariável:

— É preciso que essa máscara fique mais bela; do contrário, o Príncipe recusará.

As máscaras deviam ser sempre mais belas, pois, desde menino, o Príncipe usava todos os dias, uma nova máscara.

Dir-se-ia que elas o fascinavam, pois sempre parecia feliz.

Um dia, quando tomava parte numa caçada, o Príncipe afastou-se de sua gente e se perdeu.

Pela noite inteira, ninguém o encontrou.

De manhã, quando cruzava o vale, o Príncipe avistou uma donzela que voltava da fonte, bilha ao ombro.

Estava sedento, pediu:

— Posso beber da tua bilha?

A jovem reconheceu o Príncipe Mascarado, e com galanteria ofereceu:

Só se beberes na concha das minhas mãos.

O Príncipe desmontou. Em terra, curvou-se; nesse instante, ela, num gesto tão rápido quanto impensado, arrancou-lhe a máscara, e deu um grito de espanto.

— Sou tão feio assim?

— Não. Tu és mais belo que todas as tuas máscaras.

 *****

Em: Contos do Rei do Sol, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro [Estado da Guanabara], Editora Torre: s/d, pp: 21-26

 





Presença de espírito de um árabe, texto de Latino Coelho

19 06 2014

 

 

1860_corot_le_peintre_dumax_01O pintor Dumax em trajes árabes, 1860

Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

Coleção Particular

 

Presença de espírito de um árabe

Latino Coelho

 

El Hadjaje, governador de uma província de África, saíra um dia com seus grandes oficiais a caçar, e como seguisse tenazmente uma rês, afastou-se dos que o acompanhavam a ponto, que não sabia depois como voltasse.
Quando estava a meditar no que devia fazer viu um árabe velho, em um próximo campo, a mirá-lo muito atento.
— Donde és tu? disse o governador.
— Daquela cabana que vês além.
— Não és dos de Beni-Adjel?
— Tu o disseste: este campo pertence-lhe.
— Ora, conta-me cá bom velho, que se diz por aí dos agentes do governo?
— Diz-se que são homens sem honra, sem fé, e sem vergonha, que roubam, perseguem e oprimem os habitantes.
— E tu formas deles a mesma opinião?
— A mesma exatamente.
— E que me dizes de El Hadjaje?
— Digo que é o pior de todos. Deus o faça tão negro como um carvão, e amaldiçoe o Califa que lhe confiou o mundo.
— Sabes com quem estás falando?
— Em verdade, não sei.
— Pois eu sou El Hadjaje.
— Folgo em conhecer-te, disse o ancião sem perturbar-se. E tu sabes quem eu sou?
— Não, respondeu o governador maravilhado.
— Chamam-se Zeid-ben-Aamer, e sou o louco de Beni-Adjel. Todos os dias, um pouco antes do sol posto, perco a razão. São quatro horas talvez; não me pode tardar muito o acesso.
O governador não procedeu contra o pobre do homem, e depois de lhe perguntar pelo caminho que devia seguir, deu-lhe algum dinheiro, e abalou.

***

Em: O Panorama: semanário literário e instrutivo, volume IX, primeiro da terceira série, publicado em 5 de setembro de 1846 a 15 de dezembro de 1852. Lisboa: 1852, p. 312.

 





O caboclo, o padre e o estudante conto folclórico do Brasil, Luiz da Câmara Cascudo

10 04 2013

priest-extends

 

Padre, 1977

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

Óleo sobre tela

O caboclo, o padre e o estudante

Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividí-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

– Eu sonhei que vi seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

– Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era de verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





As duas filhas do rei Hassan, de Humberto de Campos

22 03 2013

Fabio Fabbi

Dançarinas, c. 1890

Fabio Fabbi (Itália, 1861-1946)

Óleo sobre tela

Clarke Auction House

As duas filhas do rei Hassan

Humberto de Campos

Quando os árabes se reuniram pela primeira vez para, fixando-se na terra, interromper a sua tradição de povo nômade, resolveram eleger, também, entre os varões mais prudentes que vagavam com eles pelos desertos, um que lhes servisse de chefe. A escolha recaiu no xeique Hassan, notável, na mocidade, pela sua sabedoria. Era um ancião de grande estatura e de barbas grisalhas que lhe cobriam o peito inteiro, e tão ágil ainda, e tão robusto, que não chamava, jamais, os moços de sua tribo quando se precisava, na sua tenda, da pele de um leão.

Hassan possuía duas filhas, que o auxiliavam conforme a necessidade e a ocasião. A uma, dera o nome de Mentira. A outra, o de Verdade. Irmãs, embora as duas não tinham entre si, a menor semelhança. A Mentira erra mais velha, mais bonita. Na sua vida errante, enfeitava-se a cada hora, não usando, jamais, em um dia, o manto, de pele de leopardo ou de cordeiro que havia posto na véspera. A verdade não era feia, mas era triste, e de fisionomia severa. E apresentava, ainda, a desvantagem de não variar de vestuário. Por isso mesmo, não gostavam de andar uma em companhia da outra. Quando a Verdade chegava, a Mentira retirava-se, rapidamente. Mas, como era mais sedutora que a irmã, esta não conseguia, jamais, tomar-lhe o lugar na estima dos homens.

Os árabes foram, sempre, um povo de poetas. A cadência da marcha do camelo, ou do passo manso do cavalo do beduíno, deu-lhes o ritmo para o canto. Onde havia uma caravana, havia poetas. Onde se levantava uma tenda, erguia-se a modulação de uma voz. E os poetas tomaram-se de paixão pela Mentira. Debalde a outra se aproximava deles. Nenhum se apercebia da sua formosura grave, porque a Mentira sempre lhes parecia mais bonita que a Verdade.

Tornando chefe do povo árabe, o primeiro cuidado do xeique Hassan constituiu em consolidar a estabilidade das tribos errantes, fundando a primeira cidade. Para maior segurança da ordem, e prestígio da sua palavra, proclamou-se rei. E nomeou os seus ministros. E escolheu os seus generais. E, com o desenvolvimento crescente da nação, fundou uma corte de onde tirava os emires, os vizires, os cadiz, os que deviam distribuir a justiça ou governar as províncias, que se estenderam pelo deserto e pelas margens do mar. E quem, no palácio do rei Hassan mandava em tudo, e dirigia tudo, era a Mentira. Como a Verdade era austera e fria, seu pai, como todos os governantes que vieram depois, não gostava de ouvi-la. A Mentira, não. A Mentira era alegre e vivaz, e, dessa maneira, todos gostavam dela. A política do reino dos árabes, como a de todos os governos do mundo que surgiram mais tarde, passou a ser obra sua, trama ideada pelo seu cérebro e tecida pelas suas mãos.

Entre os governadores mais ricos das províncias vizinhas do mar, um havia, chamado Ahmad, o qual possuía uma filha, Amina, moça de grande e estranha formosura. Informado da sua beleza e da sua fortuna, Mahmud, chefe dos guardas do rei Hassan, mandou-lhe, por uma escrava, o seu juramento de amor.  Ao mesmo tempo, enviava-lhe o mesmo juramento o príncipe Mansur, senhor do s oásis de Al-Kanfa. O príncipe era, no palácio real, amigo da Verdade. Mahmud, amigo da Mentira. E foi Mahmud quem venceu no coração da princesa Amina, porque em negócios de amor a Mentira é mais experiente que a verdade.

Por esse tempo, o reino dos árabes, dirigido pela sabedoria de Hassan, que sempre recorria à habilidade da filha mais velha, estendia-se já, por toda a península, compreendendo montanhas e vales, praias e desertos. Redigidas pelas Mentira os tratados de aliança ou de paz acabavam sempre, por anexar aos seus domínios os domínios dos seus vizinhos. E foi então, quando o grande monarca pensou na maneira de pensar aos sucessores a notícia de seus próprios feitos, e a história de formação do seu povo. A velhice extrema anunciava-lhe de modo preciso, que a morte não vinha longe. E o rei Hassan chamou dois vizires que sabiam escrever a língua árabe, e disse-lhes:

— Quero que narreis em papiro, para conhecimento dos homens do futuro, como nasceu a nação árabe, e como surgiu no deserto, a primeira cidade. Estou sem forças para vos narrar todos os fatos. Minhas duas filhas, se acham, porém, ao corrente de tudo, e vos contarão todos os sucessos que constituem a história do meu reino.

— Por qual das duas nos devemos guiar, senhor? – indagaram os dois primeiros historiadores. – Pela Mentira ou pela Verdade?

— Escolhei,  vós mesmos,  – respondeu o rei Hassan.

E morreu.

Habituada a ver-se preterida pela irmã, a Verdade resolveu conquistar o lugar, como informante dos historiadores. Para isso, vestiu o mais soberbo e vistoso manto que havia no palácio, pintou os olhos como os da Mentira, e foi para o salão em que devia ser procurada pelos vizires.  Por sua vez, a Mentira, certa de que homens tão severos procurariam, de preferência, para informações tão graves, aquela das irmãs que lhes parecesse mais discreta e modesta, escolheu os trajes mais recatados, que a irmã abandonara, e foi colocar-se ao seu lado. Os vizires chegaram, entre reverências, trocaram algumas palavras em voz baixa. E encaminhavam-se para aquela das duas irmãs que se achava mais discretamente vestida, pedindo-lhe que lhes ditasse a história do povo árabe. Essa era a Mentira.

Data desse tempo, o costume que têm os historiadores, de, ao escrever a história dos povos, se servirem da Mentira como se fosse a Verdade.

 –

Em: À sombra das tamareiras (contos orientais), Humberto de Campos, São Paulo,  W. M. Jackson Inc. : 1941, publicação original de 1934.

Humberto de Campos (Brasil, 1886-1934) poeta, jornalista, escritor e político. Membro da Academia Brasileira de Letras.








%d blogueiros gostam disto: