Dia 14: “tudo que eu gostaria de ter dito”, desafio da escrita, #PHpoemaday

14 06 2014

 

 

Edmund Charles Tarbell, (EUA 1862-1938), Mary lendo, 1933, ost, 31x27Mary lendo, 1933

Edmond Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

óleo sobre tela, 31 x 27 cm

 

Tema: Tudo que eu gostaria de ter dito 

 

É tempo de recomeçar

 

 

Faz hoje um ano.
Só agora sei o que deveria ter dito.
Por que sempre se pensa melhor
Quando as emoções já se abrandaram?
De que adianta agora saber a resposta perfeita?
De que adianta escrever todas as razões,
As pontuações? As causas e condições?
Se o tempo já passou, se a vida já mudou,
e o passado não volta mais?
Visão perfeita é sempre a do espelho retrovisor,
mas não andamos para trás, a não ser na sexta dimensão.
Assim, escrevo aqui tudo o que deveria ter dito, há um ano,
Pego um fósforo e torno em cinzas a mágoa pelo que não fiz.
É tempo de recomeçar.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 

 





Dia 12: inspirado em uma música, desafio da escrita, #PHpoemaday

12 06 2014

 

 

Cláudio Dantas ( Brasil, contemporâneo) Gerações, 2007, ost, 90x120Gerações, 2007

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela

 

Arpejo da memória

Há três semanas, passando por uma rua residencial, ouvi alguém ensaiando os acordes de Le Lac de Côme, no piano. E uma onda de memórias, muito antigas, de antes dos meus seis anos, borbulharam, trazendo com elas emoções há muito enterradas. Os arpejos desse noturno estão entre as minhas primeiras memórias musicais.

Sempre tivemos piano em casa, herdado de minha avó paterna. Por muito tempo ninguém tocava. Eu era muito pequena para aprender. Minha mãe havia estudado, mas não tinha jeito para a música. Só duas pessoas tocavam lá em casa: meu avô, que violonista e seresteiro na época de jovem boêmio, arriscava uma ou outra pequena melodia, e minha tia Yedda, que estudara piano quando adolescente, e tocava todo fim de semana quando nos visitava. Titia não dominava o instrumento. Sabia algumas músicas de cor. Depois do lanche sábados à tarde, quando ainda noivava meu futuro tio, minha tia se sentava ao piano e por um tempo dedicava-se a tocar o que sabia de memória. Danúbio azul, Pour Elise faziam parte de seu repertório, mas eu não gostava destas tanto quanto de Le Lac de Côme. Sua melodia é muito bonita, mas o que me fascinava era ver os acordes serem tocados em arpejo, com as mãos fazendo uma onda, o polegar tocando primeiro e o mindinho um segundo mais tarde… Aquele movimento, ondulante, me fascinava. E assim que meus pais conseguiram me colocar estudando piano, meu único objetivo era aprender a tocar aquela música. Nunca cheguei a contar para tia Yedda a influência que ela havia tido no meu aprendizado de música. Mas não importa, porque quando morreu, muitos anos depois ela já sabia que havia tido um grande impacto em minha vida, dessa vez, através das quartas-feiras de matinês no cinema do bairro.

Uma melodia é como perfume, intangível, mas cria raízes profundas na nossa memória.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Dia 11: O sertão, desafio da escrita, #PHpoemaday

11 06 2014

 

 

ROSÂNGELA MARASSI - Ipê amarelo - Óleo sobre telaIpê amarelo

Rosângela Marassi (Brasil, contemporânea)

Óleo sobre tela

 

 

Os ipês no sertão

 

Não me venha falar de tristeza
quando fala do sertão do Cariri.
Se você diz que a paisagem é cinza
é porque não conhece o sertão
patriótico na paisagem:
alegre, em flor, verde e amarelo.
É porque nunca viu o sertão de setembro;
o sertão dos ipês de puro ouro
salpicando felicidade na estação que se inicia.
Esses ipês renovam as esperanças no futuro
e alimentam a chama do amor à terra.
Quando vir as cores do sertão florado
Entenderá porque a bandeira do país
tremula no horizonte, lembrando o Cariri.

 

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Dia 10: O mar, desafio da escrita, #PHpoemaday

10 06 2014

 

 

 

CAROL KOSSAK - Mar bravio - Óleo sobre tela - 38 x 46Mar bravio

Carol Kossak (Brasil, 1895-1976)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

 

Tema: O mar

 

O que há de mais selvagem em minha vida

 

 

Respeito o mar, sua força, sua paixão.
É profundo, imoderado, impetuoso e potente.
Cruel, enérgico, aniquilador e intenso.
Mar sereno não existe. É uma máscara.
Por trás da superfície calma há uma pujança brutal.
Ele hipnotiza e seduz. Mas é um mau amante.
É agressivo, destruidor, cruel. Feroz.
É o que há de mais selvagem em minha vida.

Suas ondas acarinham a areia para seduzir.
Molhe os pés, que belos tornozelos”, parece dizer.
“Venho beijar-te; não me canso de beijar-te.”
E no descuido, genioso e irritadiço, encapelado e bravio
Ele te leva, te ingere, te traga.
Ele te engole, te sorve, te consome e devora.
O mar, imenso, azul, verde, cinzento, faminto, enigmático e feroz
É o que há de mais selvagem em minha vida.


©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.

 

 





Dia 9: Velhice, desafio da escrita, #PHpoemaday

9 06 2014

 

 

happy-new-year

 

Tema de hoje: Velhice

 

A velhice me disse…

 

A velhice me disse
Que iria chegar.
Achei cretinice
Cabelos grisalhos
Meu pai já os tinha
Sem mesmo trintar.

A velhice me disse
Que se aproximava.
Que grande tolice!
Óculos de perto
eu já os usava
em criança, é certo.

A velhice me disse
Que batia à porta,
Que grande chatice!
Doíam-me as juntas?
E os calos nos pés?
Por que me pergunta?

A velhice me disse
Que já me pegara
Mas que rabugice!
Abriu minha porta
Fechou-me a aorta
E deu-me por morta.

 

©Ladyce West,Rio Janeiro,2014





Dia 8: Infância, desafio da escrita, #PHpoemaday

8 06 2014

 

 

velocípede, o corredor,O corredor de velocípede. Autor desconhecido, possivelmente russo.

 

Tema: infância

 

O corajoso

Com um chapéu de jornal
Em seu triciclo vermelho
Miguel comemora o Natal
Se esquecendo do conselho
De João, irmão mais velho:
“Preste muita atenção!
Há problemas no jardim,
Perto da antiga paineira
Tem desnível quase certo,
Um descuido e um belo tombo
Acabam com a brincadeira”.
Miguel não se preocupa
Pedala entregue ao seu sonho,
Corpo e alma em disparada,
Reproduzem a corrida
Que na sua imaginação
Lembra a da televisão.
Passeia pelo jardim
Faz curvas de um lado a outro,
Veloz, parece ter asas.
De repente, eis que surge,
O buraco da paineira.
Invés de se desviar,
Cuidadoso como urge,
Miguel se imagina voar
Acelera e sem olhar
Vai ao chão, ponta-cabeça.
Foi um “Deus nos acuda!”
A família surpreendida
Pelos gritos da criançada,
Veio correndo de casa.
Estatelado no chão
Mais surpreso que ferido
Miguel sem perder o estilo
Ainda contou vantagem!
O corte no joelho direito
Precisou de intervenção
Foram três pontos pequenos
E uma grande bandagem,
Que Miguel logo tornou
Em medalha de coragem!

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 





Dia 7: Um objeto inanimado, desafio da escrita, #PHpoemaday

7 06 2014

 

 

Good Housekeeping 1936-11Horace C. Gaffron m Ilustração de Horace C. Graffon, capa da revista americana Good Housekeeping, Novembro 1936

 

Tema: um objeto inanimado

 

 

Primeiro amor

Era um cachorro de pano. Chamava-se Tupi. Tinha longas orelhas marrom escuro e um focinho vermelho. O corpo azul-rei de bolinhas pretas contrastava com a coleira de couro enfeitada por estrelinhas de metal dourado. Não era muito fofo. Mas guardava meus sonhos, no macio do colchão, dormindo ao meu lado, naquele espaço estreito entre o meu travesseiro e a grade da cama. Tupi era o companheiro fiel de minhas travessuras. E eu o carregava de um canto ao outro de casa, pela orelha direita, que por isso mesmo já estava descosturando ou pelo rabo, um cotó emborrachado preto.

Na confusão da mudança de residência da família, dei por falta de Tupi e não sosseguei mais. Aqueles homens que empacotavam tudo, que colocavam pratos e copos em caixas, minhas roupas e os lençóis da minha cama em grandes caixas de papelão, deram cabo de Tupi, eu me convenci.

Durante a viagem de um canto a outro da cidade, por entre pacotes e sacolas da mudança, no carro de vovô, chorei. Chorei muito. Esperneei. Lágrimas quentes e soluços do fundo do peito pontuaram minhas falas. Berreiro. Papai dizia que se podia ouvir os meus gritos do Oiapoque ao Chuí. Eu não sabia o que era o Oiapoque, nem o Chuí, e não estava interessada em aprender. Escolhi ficar emburrada. Silenciosa. Ressentida. Não houve conversa dele, de minha mãe, de minhas tias que me contentasse. Passei aquela noite na casa de vovó, enquanto meus pais arrumavam a nova casa. Ninguém ouviu a minha voz. Eu não queria nada com ninguém. Nem mesmo a canja que vovó preparou, meu prato favorito às vésperas dos meus cinco anos, foi suficiente para me alegrar. Nem o jogo do burro, nem a pipoca fresquinha, com refresco de tamarindo. Só aceitei mesmo o colinho da vovó. Porque também ninguém é de ferro e ele era muito macio e quentinho.

Na manhã seguinte, papai veio me apanhar. No caminho me disse que estava tudo bem, que eu ia gostar da nova casa e que o meu quarto já estava arrumado. Disse também que tinha uma surpresa para mim. Quando chegamos, ainda segurando a mão de papai na porta do quarto, vi muitos animais de pelúcia sobre a minha cama, sobre o travesseiro, e no meio deles, escondido, havia um focinho vermelho, farejando o ar do novo quarto. Corri até a cama, me abracei com Tupi. E chorei. Chorei muito, silenciosamente. Papai veio conversar comigo. Acocorou-se, e numa voz baixa explicou como Tupi havia sido empacotado, com todo carinho… Continuei chorando em silêncio e um momento depois me dependurei no pescoço de papai, mantendo Tupi preso firmemente pela orelha. E sem mais demandas, fechei os olhos e dormi. Exausta. Segura. Protegida por meus dois guardiães.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 








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