DNA de Ricardo III sugere infidelidade histórica

3 12 2014

 

King_Richard_III_from_NPGRicardo III, rei da Inglaterra, 1452-1485.

Pintura anônima do final do século XV.

National Portrait Gallery, Londres

 

Ricardo III, figura controversa na história da Inglaterra, protagonista cruel de uma das peças teatrais de William Shakespeare, nunca foi tão popular quanto no século XXI, quase 700 anos depois de sua morte. Uma morte, lembre-se, que não só gerou a Guerra das Rosas entre as linhas familiares  dos ducados de Lancaster e de York mas também colocou um ponto final à linha Plantagenet no trono inglês.  O final da guerra traz como sabemos o início à linhagem Tudor, com Henrique VII no trono.

O único rei da Inglaterra a morrer no campo de batalha, Ricardo III teve os restos mortais descobertos  em 2012, no sítio da antiga Igreja de Grey Friars, incendiada a mando de Henrique VIII, na época da dissolução dos monastérios. Ricardo III havia sido enterrado às pressas, sem pompa, durante a batalha.  Com a destruição da igreja e de seu cemitério anos depois o local não havia sido registrado pela História.

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Há dois anos a descoberta de seus restos mortais, examinados e identificados através de exames de DNA, trouxe uma pequena revolução no estudo da história da Inglaterra por confirmar alguns traços físicos de Ricardo III e também descartar outras tantas teorias levantadas por estudiosos do final da época medieval inglesa.

Hoje, no entanto, Ricardo III volta às manchetes.  Sua linhagem parece não ter sido tão pura quanto se pensava.  Alguém, do lado da família de seu pai, Eduardo V, teve um caso amoroso, que se tornou séria infidelidade, com consequências históricas.  Este intruso, que não sabemos ainda quem é, se infiltrou na torre do castelo, balançou o coração da donzela e permaneceu no DNA de Ricardo III.  Um pouco tarde para se mudar o resultado da Guerra das Rosas, mas uma curiosidade que, sem dúvida, levará a muitas especulações mudando até certo ponto nossos preconceitos sobre a vida cotidiana nos castelos medievais.

 

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Algumas questões sobre a arte a partir do DNA e Roberto Carlos

13 05 2013

M_Faraday_Lab_H_MooreMichael Faraday no seu laboratório, c. 1850

Harriet Moore (Inglaterra, 1801-1884)

aquarela

Chemical Heritage Foundation

Um fio de cabelo encontrado no banco de um taxi, o filtro de um cigarro deixado para trás no cinzeiro de entrada de um edifício comercial são suficientes para levar a artista plástica Heather Dewey-Hagborg a construir de volta um rosto possível de quem deixou vestígios de DNA em lugares públicos. Assim, se um dia você vir o seu retrato em uma galeria de arte, daqui ou de Nova York, um retrato para o qual você não posou; um retrato cuja existência desconhecia é porque parte do seu DNA restaurado depois que você o deixou para trás pode ter sido usado para reconstruir a sua imagem.  Hoje quem faz isso é a artista plástica Heather Dewey-Hegborg, como o artigo no site da National Public Radio menciona [ Litterbugs beware turning found DNA into portraits].

Confesso que mais de uma vez, enquanto no cabelereiro, pensei sobre aquelas mechas de cabelo que são rapidamente varridas do chão, como um rastro que deixamos para trás e que delata onde estivemos e o que fizemos. Mas a constatação de que alguém levou esse pensamento, essa hipótese um passo adiante, concretizando a informação do DNA de desconhecidos e os retratou de volta,  é estarrecedora.  E merece muito questionamento.

183377741Um retrato por Heather Dewey-Hegborg com as características estipuladas pela análise de DNA encontrado ao acaso.

O processo de análise do DNA a que Heather Dewey-Hegborg submete suas amostras é científico e se você tem curiosidade sobre isso clique no link do artigo no parágrafo acima. Para mim, o que é mais interessante, neste momento, em que ainda discutimos se alguém tem o direito de escrever uma biografia sobre uma pessoa pública sem a autorização dela — como no caso do cantor Roberto Carlos — é pensar nas consequências dessa nova forma de Big Brotherismo.  A habilidade de coletar o DNA de estranhos, tê-lo analisado sem permissão e chegar a um retrato daquela pessoa, é no mínimo invasivo. Levanta questões éticas de importância que não podemos deixar de lado.

Nós aqui, nos damos ao luxo de pensar que ainda temos alguma privacidade, que ainda podemos nos manter incógnitos. É falácia. Toda vez que clicamos em um anúncio do Facebook, por exemplo, os olhos do mundo estão vigiando e os anúncios que você passa a ter nas colunas à direita, de ofertas, são baseados unicamente naqueles cliques que eles sabem você ter feito. Clique a clique Facebook  começa a saber quem você é.  E a gerenciar as informações que você recebe.  Assim como suas pesquisas no Google servem para priorizar os sites que aparecem primeiro na sua pesquisa na “search engine“.   Sem que você perceba, suas escolhas são mais estreitas, mais específicas, feitas sob medida [mas que medida eles usam?] para você.  Cada clique em um site ajuda a desenhar o seu retrato, os seus interesses, a sua vida.

183377359Um retrato por Heather Dewey-Hegborg com as características estipuladas pela análise de DNA encontrado ao acaso.

Nesse ínterim alguém pode pegar o seu DNA de um copo de plástico que você deixou na lixeira e fazer o seu retrato.  Não seria isso mais invasivo do que escrever a biografia de uma pessoa pública como Roberto Carlos?  Uma biografia baseada em artigos de jornal, em depoimentos de amigos e conhecidos não é afinal menos invasiva do que uma análise de DNA?  Não pense que essa “arte baseada em DNA” não chegará ao Brasil por causa de seu alto custo.  Nas artes, assim como em outros campos, temos tido grande sede de usarmos o que há de mais moderno.  É só esperar.





Júbilo e tristeza: DNA de dinossauros não pode ser recuperado

18 10 2012

Cena do filme Parque dos dinossauros, I.

Foi com um misto de júbilo e tristeza que li esta semana que o DNA de dinossauros não poderá ser recuperado.  A ideia de que Michael Crichton se valeu para escrever o livro de suspense e aventura Jurassic Park, que nas mãos de Steven Spielberg se tornou um sucesso de bilheteria no cinema, não é viável.  Minha alegria veio de saber que não passaremos pelos perigos possíveis de termos, nas mãos de governos ou companhias particulares inescrupulosos, a possibilidade de criação dessas feras.  Mas tristeza porque tenho uma curiosidade imensa, que não conseguirá ser satisfeita, em relação a esses seres bestiais.

Tudo já indicava, no mundo científico, que a “reconstituição dos dinossauros” não seria possível.  Mas na dúvida havia sempre uma pequena brecha, uma centelha de esperança, de vermos um dia um dinossauro vivo, até que cientistas na Nova Zelândia descobriram o tempo máximo de estocagem de material genético.

Cena do filme Parque dos dinossauros, I.

Depois que a célula morre, enzimas começam a desfazer os ligamentos entre os nucleotídeos que formam a estrutura do DNA. Micro-organismos ajudam então na decomposição.  No entanto, a expectativa de manutenção das características de DNA são em geral dependentes da proximidade de água, que aumenta a rapidez da decomposição. Água na terra onde se encontra um osso de dinossauro, por exemplo, deveria poder estabelecer o ritmo de degradação do DNA.

Foi justamente essa determinação que se mostrou bastante difícil, principalmente porque há muitos fatores tais como temperatura, ataque de micróbios, condições do meio ambiente, oxigenação que podem alterar a velocidade do processo de decomposição. Comparando DNA de diferentes idades da mesma espécie assim como diferentes níveis de decomposição, os cientistas foram capazes de determinar que em 521 anos o DNA perde metade das conexões entre nucleotídeos.

Mas ainda há muito que se descobrir.  Os pesquisadores afirmaram que a idade do DNA afeta quase 38% da degradação – eles usaram ossos do moa, para o estudo.  Outro fatores tais quais preservação, maneira de estocagem de produto escavado, a química do solo e até mesmo a época do ano em que o animal morreu podem contribuir como fatores que diferenciam os níveis de degradação, fatores que ainda precisam ser estudados.

E lá se vai a porta da esperança de se ver um desses animais do passado, talvez, um preso em âmbar, “renascido”.  A porta se abre mais cautelosa, oferecendo só uma frestinha de esperança…  Mas quem sabe?  Talvez, num futuro longínquo possamos ainda reviver, ressoprar a centelha da vida num desses animais pré-históricos…

FONTES: Terra, Nature





Segredos de Oetzi, o homem do gelo, revelados

28 10 2011

Fotografia, Robert Clark — www.robertclarkphoto.com

Os artistas Adrie e Alfons Kennis usaram scanners em  3-D do esqueleto do homem do gelo e outros detalhes anatômicos para criarem um modelo  de tamanho natural.  Os cientistas no passado haviam reconstruido Oetzi com olhos azuis, mas os exame de DNA provou que ele tinha olhos castanhos.

Oetzi, o homem do gelo, descoberto em 1991, e que tem mais de 5300 anos, finalmente revela mais alguns de seus segredos, através de uma autopsia que levou quase nove horas.  Seu genoma foi seqüenciado com grande detalhe e nova análise do material recolhido começou a aparecer em junho quando  Albert Zink, diretor do Instituto para Múmias e do Homem do gelo — EURAC em Bolzano, no tirol italiano, como publicou a revista National Geographic.

As descobertas clarificam alguns aspectos, mas também intensificam alguns dados intrigantes.  Sabe-se, por exemplo, que Oetzi tinha cabelos e olhos castanhos.  Ele era provavelmente – como milhões e milhões de pessoas hoje em dia – intolerante à lactose, em suma, não digeria leite.  Como Stephen S. Hall explica no artigo Autópsia do homem do gelo [Iceman Autopsy] esse era um fato irônico já que tudo indica que ele era um pastor.

Alpes Italianos, Oetzal, fotografia Robert Clark — www.robertclarkphoto.com

 A seta vermelha mostra onde excursionistas encontraram o corpo do Homem do gelo em 1991, numa bacia de gelo na pedra, numa altitude de 3200 metros.  À sua volta estavam diversos artefatos da Era Neolítica.

Oetzi, que foi encontrado no tirol italiano a 3.200 metros de altitude, em 1991, está mais relacionado às pessoas que vivem no sul da Europa, norte da África e Oriente Médio, do que às pessoas do norte europeu como se imaginava inicialmente.  Seu DNA tem relações estreitas com as populações modernas da Sardenha, da Sicília e da Península Ibérica.  Além disso, se ele não tivesse sido assassinado, por uma flecha,  teria morrido de um ataque cardíaco ou de um AVC em dez anos, já que deveria ter desenvolvido, nesse período,  endurecimento das artérias.  Uma grande surpresa foi descobrir que Oetzi já tinha sido infectado pelo carrapato que transmite a doença de Lyme, o que o faz uma das primeiras vítimas dessa doença.

Para mais detalhes sobre a autópsia, consulte o artigo na National Geographic Magazine.





Na China, crianças são incentivadas com base nos resultados de exame de DNA

8 08 2009

chinesinho, cartão postal, 1930s

 

Durante um retiro de verão de cinco dias, crianças chinesas,  participando de um programa no Palácio das Crianças Chongqin. estarão sendo observadas e comparadas com seus testes de DNA, para orientar os pais na identificação de aptidões genéticas que mereceriam maior atenção por parte da família.

 

30 crianças de 3 a 12 anos de idade fazem parte do programa que custa USD $ 880,00 [oitocentos e oitenta dólares].   As amostras de DNA são coletadas da saliva, da mucosa no interior da bochecha e os testes são feitos com base em 11 genes.   Do material coletado, os cientistas envolvidos, podem fornecer informações sobre o QI das crianças, sobre a memória, habilidade  atlética e mais.

 

A China comemora ser o primeiro país a usar exames de DNA para descobrir dons genéticos ao invés de descobrir a herança ou tendência a doenças.  Chen Zhongyan, que tem uma menina de 4 anos no programa no Palácio Chongqin disse à CNN que acha “melhor desenvolver os talentos de sua filha o mais cedo possível”.  

 

Nos Estados Unidos, a preferência é diferente: a tendência é que pais venham a solicitar traços específicos para as crianças que irão ter, selecionando DNA embriônico para futuro implante no útero, como articulou Jeffrey Steinberg diretor no centro dos Institutos de Fertilidade.  No momento não há leis nos Estados Unidos contra a utilização de “designer babies” por informação genética; tampouco existe  regulamentação contra a seleção de futuras tendências em educação, ou hobbies para as crianças que virão a nascer.  

 

FONTE: 60-second-science





Resgatando o DNA de insetos em museus, mas sem destruição….

9 04 2009

inseto1

 

 

 

 

 

O DNA antigo pode ser uma ótima ferramenta para o estudo da evolução, da diversidade e de outros assuntos, mas sua obtenção pode ser complicada. Quando os antigos organismos são insetos pequenos, a retirada de um pouco de DNA pode significar a destruição total ou parcial deles. Agora, uma equipe de cientistas mostrou que é possível extrair DNA de um espécime de inseto de quase 200 anos, sem destruí-lo. Eles colocam os insetos de molho.

 

Eske Willerslev e Philip Francis Thomsen, do Centro de Genética e Ambientes Antigos, do Museu de História Natural da Universidade de Copenhage,  e colegas usaram uma solução chamada tampão de digestão, cuja receita havia sido previamente desenvolvida.  O processo de obtenção do DNA teve sucesso não só com macrofossils siberianos de até 26.000 anos de idade, como também com besouros secos, exemplares de acervo de museus,  espécimes de até 188 anos.  Isto revela que o método tem um grande potencial para a investigação do DNA.  Vinte espécimes de besouro de museus, os mais antigos datados de 1820, foram imersos na solução por 16 horas e então retirados e secados, com seus exoesqueletos e outras características intactos. Os ácidos nucléicos na solução restante foram separados.

 

Apesar da enorme diversidade demonstrada entre os insetos, este grupo é,  em geral, quase sempre negligenciado nos estudos de DNA.  Estes tendem a se concentrar principalmente em vertebrados e plantas.  Menos estudados ainda são os micróbios.  Este processo se anuncia então como uma excelente e poderosa ferramenta que poderá vir a testar muitas hipóteses em biologia, pelo estudo mais detalhado do DNA destes seres até hoje relegados a um segundo plano.

 

Até então, uma das maiores limitações para o estudo do DNA de antigos espécimes de insetos era a destruição dos elementos morfológicos da amostra,  quando o antigo processo se fazia inevitável.  Obviamente, este é um problema relacionado com  o DNA de muitas fontes, mas é de particular preocupação com as pequenas amostras, tais como insetos.  Até hoje, a maioria dos antigos estudos genéticos sobre insetos foi vítima desses métodos de amostragem destrutivos.  Os resultados obtidos com o método não-destrutivo na amostragem deste estudo sugerem que a destruição de espécimes já não se fará necessária.   A utilização de modelos históricos encontrados em museus tem importantes aplicações em estudos genéticos da população, onde espécimes poderão revelar antigas estruturas genéticas até agora indetectáveis.  Enquanto que o estudo dos macro fosseis poderão trazer dados de potencial valor para melhor compreensão de ecossistemas e mudanças climáticas.

 

 

 

 

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Em um artigo no periódico online de acesso livre PLoS ONE, os pesquisadores relatam que todos os 20 espécimes produziram seqüências de DNA mitocondrial utilizáveis. Acredita-se que o tampão de digestão penetre nos exoesqueletos através da boca, dos orifícios respiratórios e de outras características anatômicas, e através dos orifícios feitos quando os espécimes são fixados para exibições.

 

A técnica teve menos êxito com restos de besouros mais antigos – congelados no permafrost por dezenas de milhares de anos. Apenas três das 14 amostras produziram DNA utilizável. Mas os pesquisadores tiveram mais sucesso com sedimentos não-congelados e menos antigos de uma caverna – com cerca de 1,8 a 3 mil anos de idade. Eles obtiveram seqüências de DNA de um besouro e uma mariposa ou borboleta.

 

 

 

 

 

 

Outras entradas neste blog que tratam de insetos:

 

NOVAS DESCOBERTAS:  Nova Guiné

 

 

 

PALEONTOLOGIA: Monstro, Insetos no Cretáceo

 

 

 

TEXTO LITERÁRIO: Coelho Neto

 

 

POESIA,  Manoel de Barros- um cachorro vira-lata; Olavo Bilac — As formigas

 

 

 

 

 

 





Você já ouviu falar de um mamífero venenoso?

9 01 2009

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Você já ouviu falar de um mamífero venenoso?  Ah! Mas ele existe!  E recentemente o Hispaniolan solenodon, [ Musaranho Solenodon] foi filmado no seu habitat.  Veja a fotografia.  Ele parece uma grande toupeira ou musaranho; a diferença é que ele injeta um veneno na sua presa quando morde.  O veneno sai através de dentes especializados.   Pouco se conhece deste animal que tem um nariz comprido, habita algumas ilhas do Caribe e que está entre os animais com perigo de desaparecerem por causa do tombamento de florestas, pela caça e também pela introdução de novas espécies na ilha.  

 

O musaranho foi visto e filmado por pesquisadores da Durrell Wildlife Conservation Trust  e a Ornitological Society of Hispaniola no verão de 2008 na Republica Dominicana.   Os pesquisadores foram capazes de tirar suas medidas e seu DNA antes de retornarem o bichinho ao mato.  Ele é um animal notívago que come insetos. 

 

 

solenodon

 

 

Baseado no artigo de Rebecca Morelle, jornalista de ciências da BBC.  Para o vídeo e o artigo integral, clique AQUI.








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