O macaco azul, conto de Aluisio de Azevedo

6 07 2010

—-

—-

 

O MACACO AZUL

 
 

—–

                                                        Aluisio de Azevedo

—–

—-

 

 

Ontem, mexendo nos meus papéis velhos, encontrei a seguinte carta:

 

Caro Senhor.

Escrevo estas palavras possuído do maior desespero. Cada vez menos esperança tenho de alcançar o meu sonho dourado. – O seu macaco azul não me sai um instante do pensamento! É horrível! Nem um verso!

Do amigo infeliz

 

                                                             PAULINO

 

Não parece um disparate este bilhete?

 

Pois não é. Ouçam o caso e verão!

 

Uma noite – isto vai há um bom par de anos – conversava eu com o Artur Barreiros no largo da Mãe do Bispo, a respeito dos últimos versos então publicados pelo conselheiro Otaviano Rosa, quando um sujeito de fraque cor de café com leite, veio a pouco e pouco, aproximando-se de nós e deixou-se ficar a pequena distância, com a mão no queixo, ouvindo atentamente o que conversávamos.

 

– O Otaviano, sentenciou o Barreiros, o Otaviano faz magníficos versos, lá isso ninguém lhe pode negar! mas, tem paciência! o Otaviano não é poeta!

 

Eu sustentava precisamente o contrário afiançando que o aplaudido Otaviano fazia maus versos, tendo aliás uma verdadeira alma de poeta, e poeta inspirado.

 

O Barreiros replicou, acumulando em abono da sua opinião uma infinidade de argumentos de que já me não lembro.

 

Eu trepliquei firme, citando os alexandrinos errados do conselheiro.

 

O Barreiros não se deu por vencido e exigiu que eu lhe apontasse alguém no Brasi4 que soubesse arquitetar alexandrinos melhor que S. Ex.ª.

 

Eu respondi com esta frase esmagadora:

 

– Quem? Tu!

 

E acrescentei, dando um piparote na aba do chapéu e segurando o meu contendor, com ambas as mãos pela gola do fraque:

 

– Queres que te fale com franqueza?… Isto de fazer versos inspirados e bem feitos; ou, por outra: isto de ser ou não ser poeta, depende única e exclusivamente de uma cousa muito simples…

 

– O que é?

 

É ter o segredo da poesia! Se o sujeito está senhor do segredo da poesia, faz, brincando, a quantidade de versos que entender, e todos bons, corretos, fáceis, harmoniosos; e, se o sujeito não tem o segredo, escusa de quebrar a cabeça pode ir cuidar de outro ofício, porque com as musas não arranjará nada que preste! Não és do meu parecer?

 

– Sim, nesse ponto estamos de pleno acordo, conveio o Barreiros. Tudo está em possuir o segredo!…

 

E, tomando uma expressão de orgulho concentrado, rematou, abaixando a cabeça e olhando-me por cima das lunetas: – Segredo que qualquer um de nós dois conhece melhor que as palmas da própria mão!…

 

– Segredo que eu me prezo de possuir, como até hoje ninguém o conseguiu, declarei convicto.

 

E com esta frase me despedi e separei-me do Artur. Ele tomou para os lados de Botafogo, onde morava, e eu desci pela rua Guarda Velha.

 

Mal dera sozinho alguns passos, o tal sujeito de fraque cor de café com leite aproximou-se de mim, tocou-me no ombro, e disse-me com suma delicadeza:

 

– Perdão, cavalheiro! Queria desculpar interrompê-lo. Sei que vai estranhar o que lhe vou dizer, mas…

 

– Estou às suas ordens. Pode falar.

 

– É que ainda há pouco quando o senhor conversava com o seu amigo, afirmou a respeito da poesia certa cousa que muito e muito me interessa… Desejo que me explique…

 

Bonito! pensei eu. É algum parente ou algum admirador do conselheiro Otaviano, que vem tomar-me uma satisfação. Bem feito! Quem me manda a mim ter a língua tão comprida?…

 

– Entremos aqui no jardim da fábrica, propôs o meu interlocutor; tomaremos um copo de cerveja enquanto o senhor far-me-á o obséquio de esclarecer o ponto em questão.

 

O tom destas palavras tranqüilizou-me em parte. Concordei e fomos assentar-nos em volta de uma mesinha de ferro, defronte de dois chopes, por baixo de um pequeno grupo de palmeiras.

 

– O senhor, principiou o sujeito, depois de tomar dois goles do seu copo, declarou ainda há pouco que possui o segredo da poesia… Não é verdade?

 

Eu olhei para ele muito sério, sem conseguir perceber onde diabo queria o homem chegar.

 

Não é verdade? insistiu com empenho. Nega que ainda há pouco declarou possuir o segredo dos poetas?

 

– Gracejo!… Foi puro gracejo de minha parte… respondi, sorrindo modestamente. Aquilo foi para mexer com o Barreiros, que – aqui para nós – na prosa é um purista, mas que a respeito de poesia, não sabe distinguir um alexandrino de um decassílabo. Tanto ele como eu nunca fizemos versos; creia!

 

– Ó senhor! por quem é não negue! fale com franqueza!

 

– Mas juro-lhe que estou confessando a verdade…

 

– Não seja egoísta!

 

E o homem chegou a sua cadeira para junto de mim e segurou-me uma das mãos.

 

– Diga! suplicou ele, diga por amor de Deus qual é o tal segredo; e conte que, desde esse momento, o senhor terá em mim o seu amigo mais reconhecido e devotado!

 

– Mas, meu caro senhor, juro-lhe que…

 

O tipo interrompeu-me, tapando-me a boca com a mão, e exclamou deveras comovido:

 

– Ah! Se o senhor soubesse; se o senhor pudesse imaginar quanto tenho até hoje sofrido por causa disto!

 

– Disto o quê? A poesia?

 

– É verdade! Desde que me entendo, procuro a todo o instante fazer versos!… Mas qual! em vão consumo nessa luta de todos os dias os meus melhores esforços e as minhas mais profundas concentrações!… É inútil! Todavia, creia, senhor, o meu maior desejo, toda a ambição de minha alma, foi sempre, como hoje ainda, compor alguns versos, poucos que fossem, fracos muito embora; mas, com um milhão de raios! que fossem versos! e que rimassem! e que estivessem metrificados! e que dissessem alguma cousa!

 

– E nunca até hoje o conseguiu?… interroguei sinceramente pasmo.

 

– Nunca! Nunca! Se o metro não sai mau, é a idéia que não presta; e se a idéia é mais ou menos aceitável, em vão procuro a rima! A rima não chega nem à mão de Deus Padre! Ah! tem sido uma campanha! uma campanha sem tréguas! Não me farto de ler os mestres; sei de cor o compêndio do Castilho; trago na algibeira o Dicionário de consoantes; e não consigo um soneto, uma estrofe, uma quadra! Foi por isso que pensei cá comigo: “Quem sabe se haverá algum mistério, algum segredo, nisto de fazer versos?… algum segredo, de cuja posse dependa em rigor a faculdade de ser poeta?…” Ah! e o que não daria eu para alcançar semelhante segredo?… Matutava nisto justamente, quando o senhor, conversando com o seu amigo, afirmou que o segredo existe com efeito, e melhor ainda, que o senhor o possui, podendo por conseguinte transmiti-lo adiante!

 

– Perdão! Perdão! O senhor está enganado, eu…

 

– Oh! não negue! Não negue por quem é! O senhor tem fechada na mão a minha felicidade! Se não quer que eu enlouqueça confie-me o segredo! Peço-lhe! Suplico-lhe! Dou-lhe em troca a minha vida, se a exige!

 

– Mas, meu Deus! o senhor está completamente iludido… Não existe semelhante cousa!… Juro-lhe que não existe!

 

– Não seja mau! Não insista em recusar um obséquio que lhe custa tão pouco e que vale tanto para mim! Bem sei que há de prezar muito o seu segredo mas dou-lhe minha palavra de honra que me conservarei digno dele até à morte! Vamos! declare! fale! diga logo o que é, ou nunca mais o largarei! nunca mais o deixarei tranqüilo! Diga ou serei eternamente a sua sombra!

 

– Ora esta! Como quer que lhe diga que não sei de semelhante segredo?!

 

– Não mo negue por tudo o que o seu coração mais ama neste mundo!

 

– O senhor tomou a nuvem por Juno! Não compreendeu o sentido de minhas palavras!

 

– O segredo! O segredo! O segredo!

 

Perdi a paciência. Ergui-me e exclamei disposto a fugir:

 

– Quer saber o que mais?! Vá para o diabo que o carregue!

 

– Espere, senhor! Espere! Ouça-me por amor de Deus!

 

– Não me aborreça. Ora bolas!

 

– Hei de persegui-lo até alcançar o segredo!

 

* * *

 

E, como de fato, o tal sujeito acompanhou-me logo com tamanha insistência, que eu, para ver-me livre dele, prometi-lhe afinal que lhe havia de revelar o mistério.

 

No dia seguinte já lá estava o demônio do homem defronte da minha casa e não me largava a porta.

 

Para o restaurante, para o trabalho, para o teatro, para toda a parte, acompanhava-me aquele implacável fraque cor de café com leite, a pedir-me o segredo por todos os modos, de viva voz, por escrito e até por mímica, de longe.

 

Eu vivia já nervoso, doente com aquela obsessão. Cheguei a pensar em queixar-me à polícia ou empreender uma viagem.

 

Ocorreu-me porém, uma idéia feliz, e mal a tive disse ao tipo que estava resolvido a confiar-lhe o segredo.

 

Ele quase perdeu os sentidos de tão contente que ficou. Marcou-me logo uma entrevista em lugar seguro; e, à hora marcada, lá estávamos os dois.

 

Então que é?… perguntou-me o monstro, esfregando as mãos.

 

– Uma cousa muito simples, segredei-lhe eu. Para qualquer pessoa fazer bons versos, seja quem for, basta-lhe o seguinte: – Não pensar no macaco azul. – Está satisfeito?

 

– Não pensar no…

 

– Macaco azul.

 

– Macaco azul? O que é macaco azul…?

 

– Pergunta a quem não lhe sabe responder ao certo. Imagine um grande símio azul ferrete, com as pernas e os braços bem compridos, os olhos pequeninos, os dentes muito brancos, e aí tem o senhor o que é o macaco azul.

 

– Mas que há de comum entre esse mono e a poesia?…

 

– Tudo, visto que, enquanto o senhor estiver com a idéia no macaco azul, não pode compor um verso!

 

– Mas eu nunca pensei em semelhante bicho!…

 

– Parece-lhe; é que às vezes a gente está com ele na cabeça e não dá por isso.

 

– Pois hoje mesmo vou fazer a experiência… Ora quero ver se desta vez…

 

– Faça e verá.

 

* * *

 

No dia seguinte, o pobre homem entrou-me pela casa como um raio. Vinha furioso.

 

– Agora, gritou ele, é que o diabo do bicho não me larga mesmo! É pegar eu na pena, e aí está o maldito a dar-me voltas no miolo!

 

– Tenha paciência! Espere alerta a ocasião em que ele não lhe venha à idéia e aproveite-a logo para escrever seus versos.

 

– Ora! Antes o senhor nunca me falasse no tal bicho! Assim, nem só continuo a não fazer versos, como ainda quebro a cabeça de ver se consigo não pensar no demônio do macaco!

 

* * *

 

E foi nestas circunstâncias que Paulino me escreveu aquela carta.

 

 

 —-

—–

—-

—-

Aluízio Tancredo Gonçalves de Azevedo, pseudônimos:  Vítor Leal, Pitibri, Gisoflê, Semicúpio dos Lampiões, Acropólio. ( MA, 1857 –  Argentina, 1913), escritor,  novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, caricaturista, jornalista e diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras

A condessa Vesper, 1901  

A Flor de Lis, 1882  

A Mortalha de Alzira, 1891  

A Mulher    

A República, teatro 

Alma no Prego    

As Minas de Salomão    

Casa de Orates , teatro,

Casa de Pensão  1883

Demônios  1893  

Em Flagrante, teatro

Filomena Borges  1884  

Fluxo e Refluxo  1905  

Fritzmack  1889  

Girandola de amores  1900  

Lição para Maridos    

Livro de uma Sogra  1895  

Mattos, Malta ou Matta?  1885  

Memórias de um Condenado  1882  

Mistério da Tijuca  1882  

O Caboclo    

O Cortiço  1890  

O Coruja , novela,1890  

O Crime da Rua Fresca, 1896  

O Homem  1887  

O Inferno    

O Japão  1894  

O Mulato  1881  

O Pensador  1880  

O Touro Negro  1938  

Os Doudos  1879  

Os sonhadores    

Paula Matos  1890  

Pegadas  1897  

República, teatro   

Um Caso de Adultério, teatro  

Uma lágrima de Mulher , 1879  

Venenos que Curam, teatro 





A Marcelina, um conto de Arthur Azevedo

19 05 2010

 

Retrato de um janota, s/d

Giovanni Boldini ( Itália, 1842-1931)

Pastel sobre papel, 63 x 41 cm

The Norton Simon Art Foundation, Pasadena, Califórnia

A Marcelina

                                                         Arthur Azevedo

I

 

Naquele tempo ( não há necessidade de precisar a época) era o doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigatórias da Rua do Ouvidor.  Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, — mas como janota – força é confessá-lo – não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro.

Rapaz?  Rapaz, sim:  o doutor Pires de Aguiar pertencia a essa privilegiada classe de solteirões que se conservam rapazes durante trinta anos. 

Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente:  — Orço pelos quarenta, — e durante muito tempo não deu outra resposta.  Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinqüenta, e bem puxados.  As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco.

Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro.  Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz.  Não fazia questão de espírito nem de beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público.  Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Cythera dos bastidores.

Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela;  desde que esta começava a ofuscar-se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra.  Como era inteligente e generoso – muito mais generosos que inteligente, — nunca ficava mal com o astro caído.

Algumas vezes o rompimento era provocado por elas – pelas de mais espírito – que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidoso das suas roupas.

Ivette Guilbert agradecendo ao público, 1894

Henri Toulouse-Lautrec (França, 1864-1901)

Óleo sobre papel fotográfico, 48 x 28 cm

Museu Toulouse Lautrec, Albi, França.

II

 

No tempo em que se passou a ação deste ligeiro conto, a nova conquista do doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas da réclame, e cuja estréia num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente.

Uma hora antes de começar o espetáculo de estréia, entrou o advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba capa de pelúcia.  Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores.

Ela ficou  encantadíssima, e agradeceu com beijos quentes e sonoros a dedicada solicitude do amante. 

Que belo tapete felpudo!  que bonitos quadros!  que papel bem escolhido!  que delicioso divã!  que magnífico espelho de três faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro!  e que profusão de perfumarias!  e que precioso serviço de toilette!…

Nada faltava também sobre a mesinha da maquilagem, intensamente iluminada por dois bicos de gás. 

O doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos;  não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários ao camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.

Dali a nada ouviu-se um – Dá licença?  — e o diretor de cena entrou no camarim acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada.

— Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.

 

Mulher com espartilho, 1896

[Esboço para Elles]

Henri Toulouse-Lautrec ( França 1864-1901)

Óleo pastel sobre papel, colado em tela,  104 x 566 cm

Museu des Augustins,  Toulouse.

A estrela não conteve um gesto de despeito.  O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações.

— É doente?  perguntou Clorinda à costureira.

— Não, senhora.  Tive uma doença grave, mas agora estou boa.  Saí há dois dias da Santa Casa.

Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, resfestelando-se no divã:

Ma chère, il faut se contenter de cette habilleuse; nous ne sommes pas en Europe.

Ele impingiu a frase em francês, para que na a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: — Oui.

Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se dizendo: — Vamos a isto!

E dirigindo-se à costureira:

— Sente-se.  Porque está de pé?

A pobre mulher sentou-se a medo, como receiosa de macular a palhinha dourada da cadeira com o seu miserável vestido de chita.

— Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito?  Perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho.

— Deveras?

— Ao que me parece, você tem sido um gajo!

O doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível.  Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade a dentro como uma grã-cruz.

— Com que então a sua especialidade são as atrizes?

— Sou doido pelo teatro. 

Atriz no camarim, 1879

Edgar Degas ( França, 1834-1917)

Óleo sobre tela, 85 x 76 cm

The Norton Simon Museum, Pasadena, Califórnia.

— E há quanto tempo dura essa doidice?

— Há muito tempo.  Estou velho, bem vê.  Orço pelos quarenta.

— Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco.

— São os seus olhos.

— Qual foi a sua primeira paixão no teatro?

— Ah, isso…

O advogado levantou o braço e estalou os dedos.

— … isso é pré-histórico; perde-se na noite dos tempos.

— Como se chamava essa colega?

— Chamava-se Marcelina.

— Que fim levou?

Ele encolheu os ombros.

— Sei lá!  provavelmente morreu.  Nunca mais ouvi falar dela.  Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados:  ninguém lhes vê os cadáveres.

— Gostou dela?

Foi talvez a paixão mais séria da minha vida.

— Nunca mais a procurou?

— Para que?

— Tinha talento?

— Talento?  Não.  Tinha habilidade.

E depois de uma pausa:

— Tinha habilidade e era muito boa rapariga.

— Brasileira?

— Sim.  Representava ingênuas em dramalhões de capa e espada, ali, no São Pedro de Alcântara.  Um dia – eu já a tinha deixado – um dia patearam-na ppor motivos que nada tinham que ver com a arte dramática;  ela desgostou-se;  andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu.  Requiescat in pace!  

Entrou o cabeleireiro.  Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos da Marcelina;  depois falou de outras atrizes, desfiando um interminável rosário das suas mancebias.

Clorinda, a costureira e o cabeleireiro, ouviam sem dizer palavra.

Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se:

— Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim?  Vou vestir-me.

— Até logo, disse o advogado.  O seu penteado ficou esplêndido!  Vou aplaudi-la.  Bonne chance!

Deu-lhe um beijo – na testa para não desmanchar a pintura,  — e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.

A meia, 1894

Henri Toulouse-Lautrec ( França 1864-1901)

Óleo sobre papelão,  58 x 48 cm

Museu d’ Orsay, Paris.

III

 

Minutos depois, Clorinda estava completamente nua.

— A senhora é muito bem feita de corpo, disse-lhe num tom adultório, a costureira, enfiando-lhe pela cabeça uma camisa de seda.

— Acha?  perguntou desdenhosamente a atriz.

— Ah!  eu também já fui bem feita de corpo, mas…  não tive juízo:  fiei-me demais nos homens.  Se quer aceitar um conselho, filha, preste mais atenção à sua arte do que a todos esses … gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais.  Só assim a senhora evitará o hospital e a miséria.

— Ora esta!  exclamou  Clorinda.  Quem é você mulher, para me falar assim?

— Eu sou … a Marcelina.

###

 Em:  Contos fora de moda, originalmente publicado em 1894.

 

Artur Azevedo (Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista, poeta, contista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio de Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a Cadeira n. 29, que tem como patrono Martins Pena.

Obra:

Carapuças, poesia, 1871

Sonetos, 1876

Um dia de finados, sátira, 1877

Contos possíveis, 1889

Contos fora da moda, 1894

Contos efêmeros, 1897

Contos em verso, 1898

Rimas, poesia, 1909

Contos cariocas, 1928

Vida alheia, 1929

Histórias brejeiras, seleção e prefácio de R. Magalhães Júnior 1962

Contos, 1973





Firmo, o vaqueiro, conto de Natal de Coelho Neto, texto integral

21 12 2009

A vida no campo, vaquejada, 1960

Ernest Zeuner ( Alemanha, 1898 — Brasil, 1967)

Têmpera sobre papel,  25,5 cm  x 36,5 cm

Museu Ado Malagoli, Porto Alegre, RS

Firmo, o vaqueiro

—-

Coelho Neto

Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.

Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça.  O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos.  E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência.  Algumas eram inventadas por ele, diziam;  outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.

Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade.  O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas.  No seu tempo ninguém levava o melhor ao Firmo do Curral Novo.  Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a aguilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.

Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.

Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas.  Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.

Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?!  As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.

Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:

—  Isso, ahn!  isso, foi o diabo!

Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto.  “Hoje em dia qu’é que a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Serapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela.  Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente…  Eu também pisei duro, ora!”

Firmo vivia das recordações.  Passava os dias caminhando de um para o outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.

À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: “Estava vivendo…” dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho.  Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro.  Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.

De repente aprecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava…  uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres: um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara.  E a marcha aproximava-se morosa.

Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego.  De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:

—  Eh! eh! eh! cou!  ruma!  ruma!  Eh! cou…

E ficava longo tempo excitado, a olhar.  Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho.  Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado,  Firmo suspirava baixinho:

—  Ah!  Nossa Senhora!  meu tempo!

*  *  *

Camponês com cavalo, 1948

José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

Coleção Particular

—–

———

—–

Foi pelo Natal que o vi pela última vez.  Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sitio.  Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças.  Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos  os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.

Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede.  Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semi-cerrados.

—  Eh! vaqueiro velho…  Então que é isso?!

—  Estou derrubado, patrãozinho.

—  Mas que diabo tem você?

— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.

—  Ora qual…

—  Eu é que sei como me sinto, patrãozinho.  Se até o pito me faz nojo…

—  Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude.   Quem está aí fora?  adivinha…

—  Ah! Patrãozinho, alguma alma boa…  Quem há-de ser?!

—  Raimundinho.

O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:

—  E onde está esse negro que não entra?

—   Boa noite à gente da casa!  Disse da porta o cafuzo.

— Entra, negro!

O cafuzo, um codoense da fama, atravessou o limiar da porta:

— Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?!

—  Sim porque eu não vi quando ela entrou… quando não!  Então, negro, que é que vamos fazendo?…

— Vim fazer minha festa.  Dizem que vão queimar fogaréus em Curral Novo

—  Como vai Noca?

—  Boa.

—  E Ana?  está na cidade, mais o pai?

—  Hen, hen, afirmou o cafuzo.

—  Negro, você não vai daqui hoje.  Ah!  Patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo.  Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca…

—  Está encordoada?

—  O danado!  Onde você viu viola sem corda?   e afinada, ajunta.

—  O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.

—  Passa p’ra luz, cafuzo.

—  Lá vou…

Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.

—  Anda com Deus.

— Lá vai;  pigarreou e desferiu:

“ No coração de quem ama

Nasce uma flor que envenena”

— Eh!  gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:

“Morena, essa flor que mata

Chama-se paixão, morena…”

— Pega, negro… não deixa o verso no chão!

De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.

Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a voz fraca:

— Canta, canta mais, cafuzo…  Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga.  Canta.

Era tarde quando desci o outeiro.  Raimundinho lá ficou cantando.

No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viageiro:

—  Raimundinho, como vai ele?…

De longe apontou a palhoça:

—  Sim.

O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes:  “ Às quatro da manhã…  Atirei um verso e disse, para bulir com ele:  Pega, velho!  Não respondeu.  Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão…  Fui ver, coitado!  Estava morto”.  E deu esporas para que não lhe visse as lágrimas.

Subi ao outeiro…  Pobre Firmo!  Lá estava no fundo da rede, cercado de gente.  Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos.  E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas!  Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a morte entrar na cabana de Firmo.

*  *  *  *  *

Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta.  Usou entre outros os  seguintes pseudônimos:  Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.  Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.

Obras:

Romance Bárbaro (1914)

O Mistério (1920)

Fogo fátuo, romance, (1929)

Álbum de Caliban, contos, (1897)

Contos da vida e da morte, contos, (1927)

Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)

A cidade maravilhosa, contos, (1928)

O polvo, romance (1924)

A descoberta da Índia, narrativa histórica, (1898)

O Fruto, contos, (1895)

O rei fantasma, romance, (1895)

O Rajá de Pendjab (1898)

Rapsódias, contos, (1891)

Sertão (1897)

A Bico de Penna

Água de Juventa, contos,

Romanceiro (1898)

Theatro, vol. I – Os Raios X (1897), O Relicário (1899), O Diabo no corpo(1899)

Theatro, vol. II – As Estações, Ao Luar, Ironia, A Mulher, Fim de Raça (1900)

Theatro, vol. IV – Quebranto (1908), comédia em 3 actos, e o sainete Nuvem

Theatro, vol. V – O dinheiro, Bonança (1909), e o Intruso

Fabulário

O Arara, (1905)

Jardim das Oliveiras, (1908)

Esfinge, romance, 1908

Inverno em Flor, romance, (1897)

Apólogos, contos para crianças

Miragem, romance, (1895)

Mysterios do Natal, contos para crianças

O Morto, Memórias de um Fuzilado, romance, (1898)

Rei Negro (1914)

Capital Federal, Impressões de um Sertanejo, romance, (1893)

A Conquista, romance, (1899)

Tormenta, romance, (1901)

Tréva

Banzo, contos, (1913)

Turbilhão (1904)

O meu dia

As Sete Dores de Nossa Senhora

Balladilhas, contos, (1894)

Pastoral

Vida Mundana, contos, (1919)

Patinho torto (1917)

Às quintas

Scenas e perfis

Feira livre

Immortalidade, lenda, romance, (1926)

O Paraíso (1898)

Bazar

Fogo Fátuo (1930)

fogo de vista (1923)

Theatro lyrico

os pombos

Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac

Teatro infantil, data ignorada, nova coletânea com o mesmo tema





Para melhor mundo, conto de Natal de Garcia Redondo, texto integral

19 12 2009

 

Ilustração, 1920,  de Jorge Barradas (Lisboa, 1894-1971)

—-

—–

Para melhor mundo

—–

                                                        Garcia Redondo

—–

Nessa manhã de Natal, luminosa e fresca, Mma. Lenoir, ainda em penteador, alegre e gárrula, enfeitava, na sala da biblioteca da sua habitação garrida, a virente araucária minúscula que devia encher de gáudio o pequeno Alberto, cobrindo-a de bibelots policromos e de doçuras apetitosas – quando uma criada entrou no aposento e lhe entregou uma carta.

Mma. Lenoir olhou o sobrescrito e, estranhando a letra, indagou:

— De onde vem isto?

— De casa do pai de V. Exª .

— De casa de meu pai!…

Muito admirada, rasgou o envelope, e passou os olhos pela carta.

Uma palidez súbita substituiu as róseas cores do rosto de Mma. Lenoir, as suas lindas mãos patrícias tremeram e um suspiro abafado escapou-lhe do peito.  Depois, atirando a carta sobre a mesa onde se erguia a araucária, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.

A criada, pasmada e solícita, correra para a ama, e carinhosa, sem conhecer ainda a causa desse pesar imprevisto, conduziu-a docemente para junto de uma poltrona, onde a fez sentar.

E timidamente, respeitosamente, inquiriu:

— Que foi, minha senhora?  Aconteceu alguma coisa ao Sr. Afonso?

Mma. Lenoir não respondeu;  soluçando sempre, sempre com suas mãos no rosto, ensopando em lágrimas o seu fino lenço de batiste dava silenciosamente expansão à sua dor.

A criada, perplexa, desejosa de ser-lhe útil nesse transe doloroso, perguntou ainda:

— Quer que vá buscar o menino Alberto?…  ele já deve estar acordado.

A cabeça de Mma.  Lenoir agitou-se nervosamente e da sua garganta patiu, depois de um grande esforço, esta frase rouca:

—  Não, não, traze-me água para beber.

A criada saiu, cerrando discretamente a porta da biblioteca.

 

*  *  *

—–

 

Mma. Lenoir só tinha duas afeições no mundo: seu filho Alberto e seu pai.  Filha única de um velho rico e libertino, cedo perdera a mãe e cedo vira-se entregue aos cuidados de estranhos.

Para ver-se livre de uma criança, cuja presença o constrangia, impedindo-o de dar largas ao seu temperamento fescenino, o velho Afonso Marquet começara pondo a filha em casa de uma instrutora que lhe servia de mãe e de mestra, e acabara encerrando-a em um colégio, onde ia vê-la raramente, compensando as largas ausências com amiudados presentes fascinadores.

A respeito deste regime pouco afável, a criança, que herdara o belo coração materno, tinha uma grande afeição ao pai e amava-o sinceramente.

Assim cresceu, assim se desenvolveu, esquecida e triste, sempre encerrada entre as quatro paredes do mesmo colégio, vendo o pai poucas vezes, sem conhecer as alegrias do lar e os carinhos dos amigos.  Para encher o vácuo de sua alma sentimental e meiga, ilustrava-se, lendo muito, estudando com o prazer e a ânsia de quem procura derivativos para o tédio e distrações aos pesares do isolamento e da reclusão.

Mas, um dia, amanheceu mulher feita e não era mais possível continuar no colégio.  O velho Afonso, bem a contragosto, viu-se forçado a conduzi-la ao seu lar de libertino, onde tanta vez espumara a champanha da orgia e estalara o beijo do amor livre.  Todavia, a presença em sua casa, dessa mulher, dessa linda mulher que não era como as outras, constrangia-o, obrigando-o a mudar de hábitos arraigados, cuja continuação a sua velhice cupidiana e ardente imperiosamente solicitava.

Atormentado pela forçada abstenção dos seus prazeres cômodos, o velho Afonso cogitou em casar a filha.

Era um meio fácil de ver-se livre dela, recuperando a sua ampla liberdade perdida.  E, uma noite, esse pai egoísta e frívolo notou, entre os seus parceiros de baccarat no Clube,  um rapaz viveur e esperto, bem galante, bem distinto, razoavelmente educado e como ele de origem francesa, que, a seu ver, era muito capaz de fazer a felicidade da filha, se ela quisesse ter a complacência de amá-lo um poucochinho.

E com essa idéia fixa, começou a levar o rapaz a casa, a dar-lhe jantares, a pô-lo em contato com a filha.  Sagaz e ambicioso, o galante Lenoir percebeu os intuitos do velho e, como o negócio convinha-lhe em todos os sentidos, fez-se a desejada corte e conseguiu fazer-se amar.

Poucos meses após, o casamento fazia-se, e o casal ia habitar uma linda chácara com que o velho Afonso presenteara a filha.

——

*  *  * 

——–

A vida conjugal de Mma. Lenoir foi de duração curta e de ventura escassa.  Passada a lua de mel, durante a qual ela apenas entreviu uma nesga do céu da felicidade sonhada, o marido voltava à vida enervante e dissipadora dos clubes, abandonando-a noites inteiras, isolada e desiludida, entregue à insônia e aos sustos.

Felizmente o acaso, esse bom amigo incógnito, que às vezes surge providencialmente para dar lenitivo aos que sofrem, veio libertá-la desse companheiro instável, arrebatando-o à vida, que para ele resumia-se nas emoções que produzem os prazeres frívolos e o retângulo verde da mesa do jogo.  E assim foi, dois anos após de casada, Mma. Lenoir, com apenas dezenove anos, achou-se viúva e em vésperas de ser mãe.

*  *  *

—-

—–

 A Carta,  1925

Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)

Óleo sobre tela,  51 x 69 cm

Coleção Particular

——

——

—-

Quando nasceu o pequeno Alberto, havia três meses que o Sr. Lenoir repousava no Caju, em baixo de uma grande pedra tumular.  Essa criança, que não conhecera o pai e que estava destinada a ser o consolo único da mãe, despertou uma grande comoção piedosa no avô.  Talvez o remorso de não ter consagrado uma afeição mais intensa à filha,  talvez a fadiga produzida pela vida dissoluta que passara, impelisse o velho contrito a dedicar-se com exagero apego ao neto.  Nesse rebento louro concentrava todos os seus afetos; e ele que tanto afastara de si a filha, acabou por não poder passar um dia sem ver o neto, sentando-o nos joelhos acalentando-o com excessos de ternura.  Entre os braços da mãe carinhosa e os joelhos já trêmulos do avô, essa criança avançou pela vida e atingiu os nove anos.

Mma. Lenoir, embora moça, formosa, rica e requestada, achou-se bem na sua viuvez, e preferiu conservar a independência, que ela lhe trouxera, a correr o risco de var para o seu lar tranqüilo um segundo marido igual ao que tivera.  Demais, a sua existência, toda ocupada com o filho, era-lhe agora menos insípida, agradável mesmo.

Via diariamente o pai, que, embora morasse em casa própria, tinha um talher constante à sua mesa e raro deixava de sentar-se entre a filha e o neto, para encher o pequeno de gulodices e fazer-lhe todas as vontades.

Para ter essa criança constantemente feliz e satisfeita, o velho despovoava as prateleiras das lojas de brinquedos e inventava toda sorte de loucuras.  Um pedido de Alberto era uma ordem para o avô, que, na sua indulgência senil, chegava muitas vezes a contrariar a filha para não ver murchar o sorriso vermelho nos lábios do neto.

Tal era a situação de Mma. Lenoir, quando na manhã de 25 de dezembro de 1886, na ocasião em que na sala da sua biblioteca preparava a árvore de Natal, que o velho Afonso ocultamente lhe levara na véspera para surpreender o neto no dia seguinte, recebeu inesperada e brutalmente a notícia, comunicada laconicamente por um criado, do falecimento repentino de seu pai.

E fora essa nova que a pusera em lágrimas, numa aflição angustiada e acabrunhadora.

—-

*  *  *

—-

—–—-

Cerca de uma hora ficou Mma. Lenoir no fundo do seu jardim, no interior de um belvedere rústico, a esmagar a sua dor, a conformar-se com a sua triste sorte, ocultando lágrimas e fazendo desaparecer do seu rosto todos os vestígios da tristeza.  Fora aí, entre rosas e madressilvas, que a criada lhe viera explicar como falecera o pai, fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que se levantara do leito para ir tomar banho; e fora aí também que a mesma criada, ofegante e aflita, lhe veio comunicar, pouco depois, que o filho, impaciente, fugira do quarto e já estava na biblioteca, encantado e surpreso, a olhar a linda árvore de Natal, que o bom São Nicolau lhe trouxera, esquecendo-se, na precipitação da dádiva de pendurar pelos galhos todos os brinquedos que deixara sobre a mesa.

Dando à fisionomia um ar risonho, Mma. Lenoir atravessou o jardim, reentrou em casa e seguiu para a biblioteca.  E já próxima, abafando os passos, viu, através do vão da porta, o filho, de olhos fixos na carta que ela recebera e onde a triste nova lhe tinha sido comunicada de um modo banal, com a fórmula arcaica, lançada por um criado, dedicado mas pretensioso, sobre uma larga folha de papel comum: “Saiba V. Ex.ª que o Sr. Afonso acaba de partir deste para melhor mundo”.

Sem pensar no que fazia, instintivamente, a pobre mãe precipitou-se para a criança e antes de a abraçar, antes de a beijar, arrancou-lhe a carta das mãos, dizendo-lhe com um grande esforço, a sorrir contrafeita, para disfarçar a emoção:

—  Ah! Seu curioso, então estava lendo a carta que o São Nicolau me escreveu?

E o pequeno, piscando os olhos, num gesto brejeiro:

—  Não é a do São Nicolau, não, mamãe!  É a do Antônio, avisando que o vovô fez viagem.

E alegremente, mexendo nas tetéias espalhadas sobre a mesa, acrescentou:

—  Estou zangado com o vovô, porque não quis levar-nos com ele para o “mundo melhor”.

Um suspiro de alívio e ao mesmo tempo de dor recalcada escapou dos lábios da infeliz mãe;  depois, passeando os seus olhos negros, de novo marejados de lágrimas quentes, pelos livros da biblioteca, disse vagamente, respondendo à observação da criança:

—  Sim, não nos levou com ele, mas mandou-nos todas essas lindas tetéias e jóias que estás vendo. 

O pequeno, muito intrigado, como quem se sentia na pista de um segredo, indagou:

—  Então, o São Nicolau é vovô?

Mma.  Lenoir atrapalhada, presa aos sentimentos mais opostos, enxugou de novo os olhos e, para não dar a perceber o seu enleio, foi então beijar o filho numa explosão de ternura.

E, quando o osculava, atraía-lhe a atenção para os brinquedos, distraindo-o do assunto, que tanto a atormentava.

Mas, ele obstinado e curioso, inquiriu ainda:

—  E onde fica, mamãe, esse “mundo melhor” para onde o vovô seguiu hoje?  Nunca ouvi falar dessa terra!…

Então, a desgraçada mulher, erguendo o braço para o ar, e apontando para a nesga do céu, que se avistava da janela, deixou escapar dos lábios lívidos estas palavras confusas:

—  É lá, meu filho,lá, além, bem além daquelas nuvens brancas…

—  Então, já sei;  é no céu, onde estão Nosso Senhor e …  papai  — disse o pequeno, batendo as mãos de contente. 

E fixou demoradamente os olhos no azul, a ver se divisava por lá a vitória a rodar por entre as nuvens.

 

*  *  *  *  * 

Em: Noite de Natal: coletânea de histórias de Natal, ed. Cassiano Nunes e Mário da Silva Briito, São Paulo, Editora Saraiva: 1950

—–

—–

—-

—–

Manuel Ferreira Garcia Redondo (RJ, RJ 1854 – SP, SP 1916) engenheiro, jornalista, professor, contista e teatrólogo.   Usou os seguintes pseudônimos: Um contemporâneo; Um plebeu, Cabrion,  Pepelet,  Gavarni, Nemo, Childe Harold.

Obras:

 Arminhos, contos, 1882

Mário, teatro, 1882

O dedo de Deus, comédia, 1883

O urso branco, comédia, 1884

Carícia,  1895

A choupana das rosas, contos, 1897

Moléstias e bichos, comédia, 1899

Salada de frutas, 1907

Viagens pelo país da ternura, 1907

Através da Europa, viagem, 1908

Novos contos, 1910

O descobrimento do Brasil, conferência 1911

Cara alegre, humor, 1912

 Na pele do outro, comédia, s.d.

Bom-humor e vida airada, s.d.





A glória: reminiscências de um dia de Natal, José Veríssimo, texto integral, Revista Kósmos, 1907

16 12 2009

Festa, 1934

Emygdio de Souza ( Brasil, 1867-1949)

óleo sobre tela,  26 x 36 cm

Coleção Particular

—-

—-

A GLÓRIA:
reminiscências de um dia de Natal

—-

—                                                                       José Veríssimo

—–

 

Era muito mais de meio dia quando alcançamos o sítio do Cuitêua, primeira parada em nossa excursão sertaneja.  O caminho que desde a margem do grande rio ali nos levara era um comprido riacho, estreito e profundo, ensombrado na sua máxima extensão por dois renques marginais de basto arvoredo.  O sol lhe chagava escassamente e a trechos; e a constante sombra do seu percurso refrescada pela viração, que a ramaria das árvores alentava e mantinha, tornava a viagem menos penosa, muito mais agradável até, do que se imaginaria naquelas paragens equatoriais.

E, demais pitoresca, pelos risonhos quadros formados ali por aquela mistura de luz e sombra.

A mata ribeirinha, composta de mil espécies várias,  muitas então floridas, adornada de cipós e parasitas das formas mais esquisitas e singulares, apresentava uma sucessão de paisagens, de quadros, de manchas, como lhes chamam os pintores, a que as águas escuras do riacho, sobre as quais não raro boiavam nínfeas e caladios, ajuntavam o encanto delicioso das marinhas.  Nem o mundo animal, mais escasso do que geralmente se pensa nessas regiões, faltava naquele seu pitoresco trecho.  Aves aquáticas, ora isoladas, ora em bandos, animavam de vez em quando a paisagem, pondo-lhe com a sua voz ou o seu vôo, uma nota viva que não conseguia entretanto destruir ou sequer atenuar sensivelmente, o tom de melancolia que resulta sempre da combinação da mata e da água no interior do Brasil.

Eu sentia a impressão dessa melancolia, que me rodeava, posso dizer que me apertava, sentado no tosco e duro banco de pau da pequena canoa que nos levava, apenas com escasso palmo de borda fora da água, de superfície tão lisa quanto um espelho.  Inconscientemente, tão inconscientemente como poderia respirar os miasmas malsãos que daquelas terras apauladas  se exalassem , eu recebia do ambiente tristonho uma inexprimível sensação de desalento, melancolia e saudade.  Saudade de quê?   Não o saberia dizer, nem haveria de que.  Aquela excursão era uma simples digressão de recreio, um passeio desacompanhado  de qualquer preocupação anterior, e a que não parecia qualquer preocupação ulterior devesse seguir.  Quando depois procurei analisar o meu estado d’alma, achei que unicamente resultava da influência indefinível das coisas.  A natureza é de si triste e contristadora.

—–

A caçada da anta, 1880

Franz Keller, (Alemanha, 1835-1890)

—–

——

A vista do “sítio” tirou-me deste estado.  Não que nele houvesse sequer a brancura de uma parede, alegrando os tons escuros da paisagem.  Era uma casa toda de palha, escurecida pelas intempéries.  Mas no topo da ribanceira a que estava sobreposta havia uma multidão animada; Homens, mulheres e crianças.  Suas roupas variegadas, na maior parte claras e vistosas, roupas de festa, que era o Natal, e o seu movimento e o burburinho bastavam para alegrar a vista, variando-a.

Saltei em terra e subi com os meus companheiros, ali novatos mas não estrangeiros, o ligeiro declive que levava à explanada onde ficava a casa, melhor diria a choupana, em cujo terreiro se aglomerava aquela gente.  Não foi propriamente cordial e benévolo, antes reservado se não antipático o seu acolhimento.  O matuto, instintivamente não gosta do homem da cidade, desconfia dele, desama-o .  Tem-no por seu inimigo natural; é de repulsão ou de indiferença pouco simpática, a primeira impressão dele.

O dono do sítio, que me esperava, e os seus, que já me conheciam, saindo a receber-me, com demonstrações muito comedidas ainda de satisfação, consolaram-me do desagrado que vi, ou pareceu-me ver nas fisionomias curiosas, indiferentes ou displicentes que me encaravam. 

Ali se não usam apresentações; as supre o recebimento dos donos da casa, e com pouco me achei conhecido dos presentes, embora essas primeiras relações tivessem ainda um caráter de desconfiança e reserva.

Ia-me esquecendo de dizer que eu desembarcara com a minha espingarda na mão, um fuzil de retrocarga, arma moderna e nova em folha.  Os caçadores, que forçosamente por ali haveria, imaginaram em mim um companheiro, um êmulo.  Mas como acoca a caça é mais um divertimento que uma indústria, e não cria ainda rivalidades interesseiras, e outras competências que as da perícia e habilidade, vieram eles a mim atraídos pela comunhão dos mesmos gostos, que naturalmente me supuseram, e pela curiosidade da arma que se lhes autolhava diferente das suas.  A espingarda interessou-os.  Nenhum deles tinha ainda visto igual e as explicações que condescendente lhes dei do seu funcionamento e eficácia, do mesmo passo que os maravilhava conquistava-me a sua benevolência.

Se eles soubessem quão ruim atirador eu era!  E tanta consciência tinha disto, que prevendo a necessidade de dar-lhes uma prova de mim como caçador, pois o pretexto da minha ida ali era a caça, antecipei-me em assegurar-lhes, que apesar da minha excelente arma eu atirava muito mal.  Senti que a confissão lhes não era desagradável.  A minha inferioridade de “cidadão” lisonjeava a sua vaidade de matutos.

Estávamos nesta palestra, uns sentados em bancos toscos, ou em troncos d’árvores, outros acocorados, os mais em pé, à sombra de uma copada árvore erguida à beira da ribanceira, sobre o riacho, quando uma rapariga – uma linda moça de uns dezessete anos, mameluca trigueira e rosada, de fisionomia risonha e aberta,   chegou a nós entre alvoroçada e tímida e interpelando-me diretamente, chamou-me:

— Moço, venha matar um jacaré!…

—-

—–

Jovem caçador, s/d

Henrique Bernardelli, (Valparaíso, Chile 1858 – Rio de Janeiro RJ 1936)

óleo sobre tela,   34 x 18 cm

—-

—-

Matar um jacaré!  Correu-me um frio pela espinha.  Não que eu fosse de minha natureza vaidoso, ou tivesse em grau algum a presunção de atirador.  Mas os nossos defeitos, como as nossas qualidades, dependem de uma influência estranha; são muitas vezes os outros que no-los impõem.  Tive um vago e indefinível sentimento de que ali eu era um representante da civilização, que aqueles matutos menoscabavam, e que teriam grande gáudio em ver desmoralizada em mim.  Não bastava inventar armas como aquela da qual eu acabava de contar maravilhas, era preciso, era o principal, saber manejá-las.  Qualquer daqueles broncos sertanejos, com o arco e flecha de seus avós selvagens com a sua grosseira arma antiquada de carregar pela boca, a sua bruta lazarina, o seu ridículo pica-pau, ou o seu velho e anacrônico fuzil de pederneira, era muito mais capaz do que eu, com a minha inteligência, a minha instrução, e a minha espingarda aperfeiçoada, de matar um jacaré.    Porque matar semelhante bicho é um dos tiros mais difíceis e mais reputados.  Ele só é vulnerável nos ouvidos quase invisíveis, mesmo a pequena distância,  ou nos olhos que, quando n’água, apenas emergem como duas meias esferas de poucos milímetros de diâmetro fora dela.  Realmente para experimentar um sujeito da cidade, todo de paletó e gravata, chapéu inglês de cortiça e linho na cabeça, à guisa de capacete, coisa jamais ali vista e escandalosa, e uma bela espingarda nova de retrocarga, não se podia achar melhor do que pô-lo  na obrigação de matar um jacaré, sabe Deus em que condições.  

Moço, venha, venha matar o bicho… repetiu a linda rapariga arregaçando num sorriso irônico, —  tal me pareceu ao menos – os lábios sensuais e mostrando duas admiráveis fieiras de dentes brancos e úmidos.

E todos a uma, a começar pelos donos da casa, convidavam-me, concitavam-me, pediam-me, com maldosa insistência,  fosse matar o jacaré.  Confuso, enleado, canhestro, eu me esquivava; era mau atirador e o tiro dificílimo; errava e o jacaré se iria embora; que outro o matasse.  Mas não houve convencê-los e livrar-me da prova, em que sentia arriscava o prestígio da civilização, cujo era eu ali o único representante.  Ateimaram, já com malícia, prelibando o gosto de se rirem do “moço da cidade” e de afirmarem a sua superioridade de matutos.  E quase puxado me levaram para alguns metros dali, à beira da mesma ribanceira, donde vinte dedos acompanhando o da bela mameluca, que interessadíssima na morte do anfíbio, continuava a rir com seu afiado riso escarninho, apontavam embaixo, nas águas escuras do rio, quase encostado à margem, a enorme cabeça de um jacaré.  O ruído feito em cima fizera-o mergulhar um pouco mais, e agora só lhe divisavam a ponta do focinho e, a distância de mais de um palmo, as metades de duas esferas negras, que eram seus olhos, esbugalhados.

Senti passar em mim um sopro divino que nos momentos supremos faz os heróis e os mártires.  Levei a espingarda à cara e, quase sem apontar, tanta era a consciência de que apontar não me adiantaria, como que hipnotizado por aqueles grandes olhos parados, que pareciam olhar-me assombrados do meu arrojo, atirei.

Ilustração original do texto Glória, da revistas Kosmos, sem indicação de autor.

—-

Ouvi dois ruídos, um marulho surdo d’água, e umas gritadas interjeições de espanto e aplauso a meu lado.  Entre essas distingui bem junto ao meu ouvido a exclamação:

—  É macho!… seguida de uma gargalhada argentina, franca e simpática da linda mameluca, que a soltara.

Voltei a mim e verifiquei então que tinha matado o jacaré.  Ferido num dos olhos o grande anfíbio, num estremeção violento, causador daquele ruído, virara de papo para o ar e apresentava à superfície das águas, ainda revolvidas e barrentas do seu movimento brusco e forte, o largo peito amarelo, de grandes e córneas escamas rijas, a modo de placas de uma couraça antiga.

A morte fora instantânea.  Os matutos pasmados e corridos diziam-me em palavras amigas e convencidas a sua admiração.

Nunca mais atirei outro jacaré.  Também jamais senti tão forte em mim o gosto do sucesso, quase direi, a deliciosa comoção da glória.  E, ainda me lembra, às vezes, o sorriso afetuoso com que me olhava a linda mameluca depois da minha façanha.

—–

 

Em: Revista Kósmos: Dezembro 1907, ano IV, número 12, sem numeração de páginas.

===

 

——

José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos, PA, 1857 — Rio de Janeiro, RJ, 1916) foi um escritor, crítico, educador, jornalista, sociólogo, sócio do IHGB, sócio-fundador da ABL, diretor da Revista Brasileira, professor, diretor do Colégio Pedro II.  Como escritor, a sua obra é das mais notáveis, destacando-se os vários estudos sociológicos, históricos e econômicos sobre a Amazônia e as suas séries de história e crítica literárias. Na Introdução à sua História da literatura brasileira tem-se uma primeira revelação de todas as vicissitudes por que havia de passar uma literatura que se nutriu por muito tempo da tradição, do espírito e de fórmulas de outras literaturas, principalmente do que lhe vinha de Portugal e da França.  Usou também os pseudônimos: Cândido e José Verega.

——

Obras:

Primeiras páginas, 1878

Emílio Litré, 1881

Carlos Gomes, 1882

Cenas da vida amazônica, ensaio social, 1886

Questão de limites, história, 1889

Estudos brasileiros, 2 séries, 1889-1904

Educação nacional, educação, 1890

A religião dos tupis-guaranis, 1891

A Amazônia, 1892

Domingos Soares Ferreira Penna, 1895

A pesca na Amazônia, história, 1895

Ginásio nacional, 1896

O século XIX, 1899

Pará e Amazonas, 1899

Estudos de literatura, 6 séries, 1901-1907

A instrução pública e a imprensa, educação, 1901  

Homens e coisas estrangeiras, 3 séries, 1902-1908

Que é literatura e outros escritos, 1907

Interesses da Amazônia, 1915

História da literatura brasileira, 1916

Letras e literatos (póstuma), 1936

Em domínio Público e  pronta para leitura na internet: História da literatura brasileira 





A locomotiva e o cavalo, fábula de Lachambeaudie e Paula Brito

7 07 2009

trem e cavalo

 

A locomotiva e o cavalo

 

Paula Brito

 

[ Fábula de Lachambeaudie]

 

 

Rival da Locomotiva

Um Cavalo buscou ser,

Supondo que mais do que ela

Ele podia correr.

 

Num caminho em que tomavam

Ambos igual direção,

Disse ao Vapor o Cavalo,

Brioso escarvando o chão.

 

Por mais que queiras não podes

A palma ter da vitória,

Nem fazer com que teu nome

Como o meu brilhe na história.

 

Do fogo que te alimentas

As línguas vejo sair:

É nesse arsenal de guerra,

Que tens que te consumir.

 

— “ Deveras, tu te apresentas

Como meu competidor?

Pretendes lutar?  — lutemos,

Disse ao Cavalo o Vapor.

 

Malgrado a desproporção

Entre um e outro querer,

Junto da Locomotiva

Põe-se o Cavalo a correr.

 

Um enche os ares de pó,

Outro de negra fumaça!

Não há triunfo entre os dois,

Pois um ao outro não passa.

 

Exausto, porém, de forças,

O Cavalo cai e morre;

Que faz a Locomotiva?

Com mais fogo ‘inda mais corre!

 

—–

 

Quando a proterva ignorância

Foge do século à luz

No abismo se precipita

A que seu erro a conduz.

 

Sempre que a velha rotina

Ao progresso der conselho,

Será bom que não te esqueça

De se mirar no espelho.

 

                     —–

 

Em: O Espelho, revista de literatura, modas, indústria e artes, 18 de setembro de 1859, página 8.

 

paula brito, francisco 

 

Francisco de Paula Brito  ( RJ 1809 – RJ 1861) –  tipógrafo, editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista.   Foi aprendiz na Tipografia Nacional.   Trabalhou em seguida, em 1827 no Jornal do Comércio. Em 1831 passa a livreiro e editor com  Tipografia Fluminense de Brito & Cia.  Em 1833 lança o jornal O Homem de Cor, primeiro jornal brasileiro contra o preconceito racial.  É na sua editora que se forma a “Sociedade Petalógica”, grupo de poetas, compositores, atores, líderes da sociedade, ministros de governo, senadores, jornalistas e médicos que “constituíam movimento romântico de 1840-60”  Por outro lado, a tipografia de Paula Brito serviu também de ponto de encontro entre músicos populares [ Laurindo Rabello e Xisto Bahia, por exemplo] e poetas românticos.  A combinação produziu muitas parcerias musicais, principalmente no gênero das modinhas, que serviriam de embrião para a música popular urbana, popular no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

 Obras:

Anônimas, poesia, 1859

O triunfo dos indígenas, teatro, sd

Os sorvetes, teatro, sd

O fidalgo fanfarrão, teatro, sd

A revelação póstuma, conto, 1839

A mãe-irmã, conto, 1839

O Enjeitado, conto

A marmota na Corte, periódico humorístico, 1849  

A Maxambomba, teatro   

A mulher do Simplício, ou A fluminense  exaltada, periódico humorístico, 1832  

Ao dezenove de outubro de 1854, dia de S. Pedro de Alcântara, nome de S. M. o Sr. D. Pedro II, poesia   

Biblioteca das senhoras, 1859  

Elegia à morte de Evaristo Xavier da Veiga, poesia, 1837  

Fábulas de Esopo para uso da mocidade, arranjadas em quadrinhas, poesia, 1857  

Monumento à memória do brigadeiro Miguel de Frias Vasconcellos e de seu irmão Francisco de Paula, 1859  

Norma, teatro, 1844  

Oferenda aos brasileiros, sd   

Os Puritanos, teatro 1845  

Poesias de Francisco de Paula Brito, poesia, 1863  

 —–

Pierre Lachambeaudie (França, 1807 – 1872) foi um escritor de fábulas francês.





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais — texto integral da Revista Kósmos, Outubro 1907

24 06 2009

minasgerais, mineraçãodoouro, eucalol

Mineração do ouro, Minas Gerais, Estampa Eucalol.

 

O artigo de ontem José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907, foi o que mais se ocupou com a descrição das minas de manganês que eu procurava.  Mas como em quase todas estas publicações antigas o artigo se dividiu em duas partes.  A que transcrevi ontem que foi a segunda parte.  E a que transcrevo hoje, a primeira parte, publicada no mês de Outubro d e1907.  

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

 

O que distingue e exalta o jovem e já célebre historiador italiano Sr. Guilherme Ferrero é não ser ele um simples erudito, ou artista, ou literato apenas voltado para a ordem de estudos ou de lucubrações que imediatamente interessam a sua especialidade, se não um espírito curioso de todas as coisas, aberto a todas as impressões, interessado de quanto lhe possa fornecer noções, idéias, sensações à sua inteligência ávida de alargar cada vez mais a compreensão das coisas.  Desta sua feição espiritual deriva seguramente a vida que ele pôs na história romana, refazendo-a a seu modo, e intensamente vivificando-a para nosso gosto espiritual.  

Não lhe bastava, pois, ver nossa capital, já quase uma cidade européia, e que lhe podia dar uma idéia falsa do nosso país.  Era-lhe necessário a impressão direta deste no que ele ainda conserva de original e próprio, a surpreendê-lo em flagrante no seu trabalho de transformação.

Uma rápida excursão a Minas Gerais, de quatro dias, após digressão pouco mais longa pelo Estado de S. Paulo, forneceu-lhe ensejo de do Brasil, que rapidamente visitou, não conhecer apenas a capital.  As capitais, como as salas de visita, dão sempre uma idéia falsa das nações, ou das casas, aos que não passaram delas.  S. Paulo e Minas, duas das mais importantes porções do Brasil, e, não  obstante tão juntas, tão distintas uma da outra, de caracteres tão diversos, teriam oferecido a arguta observação do Sr. Ferrero, um historiador para quem a vida comum, cotidiana, é também história, mais de um precioso elemento de informações e de juízo.

Pelo seu afastamento do litoral, pelo isolamento maior do mundo em que a puseram as suas montanhas, pela maior vida local que dentro dela mesma estas, separando os seus diversos cantões, lhe afeiçoaram, Minas, mais conservadora, mas também mais chã, mais ingênua quiçá mais sincera que S. Paulo, tem com este este  ponto de semelhança, que são dois dos estados mais históricos do Brasil. Por menos que da nossa história saiba o eminente historiador italiano, não ignoraria isto.

Em Minas ele viu primeiro, como era natural e conveniente, minas, as de manganês de Lafayette as de ouro do Morro Velho, em Vila Nova de Lima.

Minas, dr Guilherme Ferrero-2

O historiador italiano, Guilherme Ferrero, Revista Kósmos, Out. 1907.  Fotografia sem notificação de autor.

 

Pela natureza do minério, e pelos aspectos da exploração, e do mesmo sítio  em que esta se faz, é talvez mais interessante a Mina do Morro Velho.

A despeito da ordem cronológica, principiamos, pois, por ela.

Fica esta mina de ouro, uma das mais antigas e mais célebres do Brasil, nas proximidades de Congonhas de Sabará, hoje Vila Nova de Lima, no município de São João d’El-Rey, donde vem à companhia inglesa que a explora o seu título de S. John d’El-Rey Mining Company. Por esta são regularmente exploradas as minas do Morro Velho desde 1834, com fases sucessivas de prosperidade ou menor resultado.  Hoje a exploração está em pleno desenvolvimento e, cremos, sucesso.  É feita já a mais de 1500 metros de profundidade numa rede de galerias bastante amplas, suficientemente arejadas, artificialmente iluminadas a luz elétrica numa extensão de alguns quilômetros.  Desce-se a elas por elevadores e nas últimas em grandes caçambas de ferro que se ainda deixam a desejar como comodidade parecem oferecer toda a segurança, o que é essencial.  Nas mais profundas dessas galerias, onde o ar começa a ser mais escasso, e a imaginação nos faz sofrer do peso de mais de mil metros de rocha sobre as nossas cabeças, cavam-se ainda novos poços, donde vimos sair, à meia luz daquelas cavernas, imperfeitamente iluminadas por parcos focos elétricos, como numa visão dantesca de Gustavo Doré, homens inteiramente nus, literalmente cobertos de lama negra dos poços em perfuração.  Mais adiante outros brocavam o granito com instrumentos movidos a ar comprimido, ou agachados sob as abóbadas mal abertas as iam levantando a golpes de picareta, no meio de um barulho infernal das possantes máquinas que ali nas entranhas da terra, distribuem luz, ar, força necessárias aquele duro labor de ciclopes.  Tudo isso numa temperatura de 38 a 39 graus centígrados, e sob a indizível impressão de que um acidente sempre possível, o surgir inopinado de um veio d’água, uma explosão de gazes, vos pode sepultar, em transes horríveis de um desespero sobrehumano, a quilômetro e meio de superfície do solo, sob milhões de metros cúbicos de granito.

 

Minas primeira seção da vista geral de Morro velho

Primeira seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kosmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

Em cima, sobre a mina, estendem-se os edifícios, as oficinas, as usinas da mineração após o trabalho da extração em baixo.  O seu material é de 120 pilões californianos, cujo socar põe em roda um estranho e constante ruído ensurdecedor.  Há ainda aparelhos para o minério e pessoal, bombas, perfuradores, compressores de ar, movido tudo a força hidráulica hidroelétrica e a vapor.  Nas galerias subterrâneas, o minério ou antes a pedra quebrada que o encerra é conduzido por vagonetes de ferro rodando sobre trilhos, puxados por muares, que uma vez descidos aquelas profundezas nunca mais vêem a luz do dia.  Nos seus primeiros 52 anos de existência, (ela tem 72) esta mina do Morro Velho produziu 58.314 quilogramas de ouro no valor de 5.125.000 libras esterlinas, e nos últimos cinco anos, de 1901 a 1905, 13.304.042 gramas no valor de 1.419.051 libras esterlinas.  E no entanto por cada tonelada de pedra extraída não dá senão 18.300 de minério de ouro.  Trabalham nela pouco mais de 2 mil operários,  na sua maioria nacionais.  Chefes, mestres e contra-mestres são todos ingleses.

Minas segunda seção da vista geral do Morro Velho

Segunda seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

A Companhia mantém não longe da confortabilíssima casa do Diretor, um hospital para os seus operários e suas famílias.  Otimamente colocado sobre uma colina, num edifício de um só pavimento todo avarandado, este hospital pode ser modelo no seu gênero, tal é a excelência da sua instalação e a abastança de seus recursos. Dirigem-no dois médicos ingleses.  Como a invejável e largamente hospitaleira residência do Diretor, o amável Sr. Chalmers, é esta casa de saúde, cercada de um parque e jardins admiravelmente cuidados, onde naquele momento havia uma luxuriosa profusão de flores, de soberbas rosas sobretudo. 

Da estação de Honório Bicalho a Morro Velho é uma hora a cavalo, que nós fizemos ao chouto incomodo de burros e bestas.  Salvo no vale do fundo do qual surge Vila Nova de Lima, antiga Congonhas do Campo o Morro Velho, este trecho do sertão não tem nenhuma beleza particular.   Mas vista dos altos que a rodeiam aquela aldeia tem um singular encanto, e o atravessá-la, pelas suas ruas estreitas, ladeirosas e empredadas de matacães roliços, marginadas de velhas e miseráveis casas baixas, feias, de vila colonial, vos trás não sei que sentimento de melancolia.  É o velho Brasil sertanejo, que ainda se demora em desaparecer mas que está evidentemente por pouco.

 

                                                                                  José Veríssimo

Minas, terceira seção da vista geral do morro velho

Terceira  seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.








%d blogueiros gostam disto: