Chuva dourada, de Gina B. Nahai

26 02 2010

Sócios no aprendizado, s/d

Elia Benzaquen ( Escócia, 1965)

Quando eu ainda morava nos Estados Unidos, fiz amizade com um casal judeu iraniano. Quando os conheci, a minha ignorância sobre o Irã e sua população era tão grande que não pude esconder a minha surpresa ao aprender que no Irã da época do Xá, havia uma grande comunidade judaica, a maior no Oriente Médio fora de Israel.  Naqueles anos, o  Aiatolá Khomeini já havia se cansado de requisitar a cabeça do escritor Salman Rushdie pelo livro Versos Satânicos!  Levando isso em conta, simplesmente assumi que a maioria dos judeus persas houvesse emigrado.  No entanto, para escrever a resenha do livro que acabo de ler, busquei informações na rede e me surpreendi, uma vez mais, ao  saber que ainda há uma pequena e devota comunidade judia na capital, Teerã.  A mim, parecia improvável que houvesse tolerância no mundo xiita aos judeus, principalmente no Irã, que nas últimas décadas não tem sido visto como um país particularmente aberto a opiniões que diferem do conservadorismo xiita.  Abordo esse assunto porque as famílias dos personagens centrais do livro  Chuva dourada, de Gina B. Nahai [Ediouro: 2007],  pertencem a famílias judias, residentes no Teerã, e suas histórias se passam nos anos imediatamente anteriores à revolução que depôs o Xá da Pérsia.

Este foi um romance me deixou silenciosa e pensativa.  Acabei de ler suas 332 páginas em dois dias  e passei a tarde e a noite do último dia, após fechar o último parágrafo,  tendo que considerar a potência dos preconceitos contra mulheres, que também afetam os homens.  Preconceitos  arraigados por religiões e  culturas milenares limitam, cerceiam, podam e contorcem os espíritos ricos, as mentes empreendedoras, os gritos rebeldes das almas que precisam se expressar.  De particular amargor é ver mais uma vez o retrato da discriminação contra a mulher.  Este é um assunto que me cala.  Mas ainda é difícil imaginar o rancor que mulheres como Bahar [nome que em farsi significa Primavera ], personagem principal da trama, trazem dentro de si, encobrindo como um manto todos os desejos de crescimento emocional e educacional a que aspiram e que preconceitos variados lhes tolhem, a todo momento, o simples ato de viver bem ou dignamente.  Inadvertidamente, essas mulheres, passam para suas filhas, para a próxima geração,  os mesmos traumas com que cresceram, repetindo numa cadeia infinita, as pragas de se ter uma filha mulher, a tristeza de não se ter um filho homem.  Perpetuam assim a injustiça que sofreram e da qual não conseguiram se libertar.

A história de Bahar, tenho certeza, não é única.  Nem é simplesmente um excesso da imaginação de uma iraniana que se libertou e emigrou para os EUA, como aconteceu com a autora.  Aos 17 anos Bahar encontra Omid [ cujo nome em farsi significa Esperança]. Ela é de uma família judia pobre.  Ele de uma família judia rica.  Eles se casam contra a vontade da família dele.  E o que deveria ter-se tornado um conto de amor, passa a ser uma história de abuso, de preconceito, de tortura, não dos agentes que poderíamos esperar, mas da sociedade, da cultura, do círculo familiar.  Omid logo encontra o amor de sua vida, uma mulher muçulmana, livre, amante de um outro homem.  E por sua própria inabilidade de administrar a vida, os sentimentos e o mundo em que vive, só piora a situação em casa, em seu próprio casamento.  Mais uma calamidade aflige  o casal, e principalmente Bahar, eles têm uma filha com surdez progressiva.  A já depauperada, oprimida Bahar, agora sofre duplamente, não só é mulher e teve uma única filha, também mulher, mas esta filha não preenche todos os requerimentos necessários, pois não é “perfeita”.

Chuva Dourada não é um romance leve, cheio de momentos bucólicos.  Muito pelo contrário.  É uma história triste e fascinante, de um mundo que – aqui no ocidente, numa cultura de inclusão como a nossa – parece pertencer a um tempo cravado nos primeiros séculos da Idade Média, cuja realidade custamos a acreditar co-habite com a nossa, dia a dia, ano a ano.   Muito bem narrada, a autora  não poupa ao leitor o sofrimento de Bahar e de todas as mulheres nela representadas.  Este é um romance sobre expectativas nunca alcançadas.

Gina B. Nahai

Recomendo esse livro.  Com todas as cinco estreles que me dão.  Estou emprestando meu volume a todos os amigos que gostam de boa literatura.  E também porque não posso deixar de tentar abrir os olhos, sempre que possível, para o problema da discriminação contra a mulher.  Vá ler Chuva Dourada.  Não é leve.  Mas vale todas as palavras nele escritas.

***

NOTA:

Há horas em que tenho a impressão de que não há ninguém no comando das nossas editoras.  É impressionante a falta de cuidado com os livros aqui impressos.  No caso deste livro, de Gina B. Nahai a pergunta que não cala é:  Quem foi que deu a este romance o título de Chuva Dourada?  Procure pelo título na internet e verá o que qualquer pessoa com um pouco mais de conhecimento percebe:  esta é a expressão usada para  a urofilia, ou seja para a prática sexual em que a urina está envolvida.  Alguém dormiu no volante… É simplesmente inacreditável!   O título no original em inglês é Caspian Rain. Caspian se refere ao Mar Cáspio.  No romance a palavra Caspian está associada à cor do Mar Cáspio… Por que então não evitar a infeliz conotação implicada no título em português?  Ei,  onde estava o editor?  Onde estavam as cabeças pensantes da Ediouro?  O livro não chegou às livrarias com esse título sem a aprovação de alguém…





Geek? Os 11 livros de ficção científica essenciais para a sua leitura.

31 08 2008

 

 

 

Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

O portal Inside Tech publicou uma lista dos 50 livros de leitura essencial para a formação dos geeks.  Não sou capaz de julgá-los nas outras áreas, mas gostei muito do que vi em termos de clássicos da literatura de ficção científica e feliz de ver que 10 dos 11 títulos mencionados encontram-se traduzidos e publicados no Brasil.   O único não traduzido, o livro de Doug Coupland deve estar a caminho.  Já há tradução para o espanhol.  Além do mais, se você é um verdadeiro geek, deve poder lê-lo em inglês.   

 

 

 

 

 

 

 

  

 

http://www.insidetech.com/

 

 

Coloco abaixo a lista com seus respectivos dados. 

 

1 – Nevasca — Neal Stephenson

 

Algum tempo no futuro. Os Estados Unidos, como conhecemos, não existem mais. O país está nas mãos de mercenários e corporações de toda espécie. Hiro trabalha para uma dessas corporações como entregador de pizzas. Mas isso é no mundo que conhecemos. Na realidade virtual, o Metaverso, pertence à elite que criou aquele lugar, habitado por avatares de toda espécie. Em qualquer dos dois mundos, Hiro também é um exímio samurai, que precisará de todas suas habilidades para salvar esses mundos de uma terrível ameaça. Seu nome – Snow Crash.

 

Editora: Aleph
ISBN: 8576570548
Ano: 2008
Edição: 1
Número de páginas: 440
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

2 – Neuromancer —  William Gibson

 

Um hacker renegado, uma samurai das ruas, um fantasma de computador, um terrorista psíquico e um rastafari orbital num thriller sexy, violento e intrigante. De Tóquio a Istambul, das estações espaciais ao não-espaço da realidade virtual, o tenso jogo final da humanidade contra as Inteligências Artificiais…
 
 
Evoluindo de Blade Runner e antecipando Matrix, Neuromancer é o primeiro – e ainda hoje o mais famoso – livro de William Gibson. É considerado não só o romance que deu origem ao gênero cyberpunk, mas também o seu melhor representante. Edição especial com nova tradução, nova capa e projeto gráfico, novo prefácio e notas explicativas.

 

Editora: Aleph
ISBN: 8585887907
Ano: 2003
Edição: 3
Número de páginas: 304
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

3 —  Eu, Robô Isaac Asimov

 

Isaac Asimov vive circulando pelo espaço, achando histórias em estrelas e planetas distantes e nos visitando de vez em quando. O que poderia ser só uma licença poética para descrever seu ofício de autor de ficção científica é a mais pura verdade desde que um asteróide foi batizado com seu nome. Poucas honras poderiam ser maiores para um autor do gênero, e Asimov ainda tem outras: recebeu da Associação Americana de Escritores de Ficção Científica o título de Grande Mestre e escreveu quase 500 livros.

 

Eu, robô é parte de uma das três grandes séries de Asimov ? Robôs, Fundação e Império. Retoma uma das personagens principais, a grande roboticista Susan Calvin, e a faz contar, em retrospecto, histórias que resumem a evolução da robótica. A narrativa engenhosa conduz o leitor com um didatismo disfarçado: levados pela imaginação e pelo humor de Asimov, nem nos damos conta da lição de história da robótica que acabamos aprendendo. Entre a babá da primeira história e a Máquina, com maiúscula, que controla toda a Terra, na última, há ainda espaço para robôs que enlouquecem, que fazem piadas, que lêem pensamentos e até robôs orgulhosos de serem mais espertos do que os seres humanos.. Eu robô também apresenta as três leis da robótica, outro alicerce da ficção científica. De acordo com elas, a primeira obrigação de um robô é proteger seres humanos, a segunda é obedecer às ordens de humanos e a terceira é se proteger. A aparente simplicidade esconde os numerosos conflitos que podem surgir, e servem de mote para mais de uma história. Eu robô foi adaptado para o cinema, e tem previsão de lançamento mundial em agosto. 

 

Editora: Ediouro
ISBN: 8500015292
Ano: 2004
Edição: 1
Número de páginas: 320
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

4 —  O Guia do Mochileiro das Galáxias, – Douglas Adams

Considerado um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica, O Guia do Mochileiro das Galáxias vem encantando gerações de leitores ao redor do mundo com seu humor afiado. Este é o primeiro título da famosa série escrita por Douglas Adams, que conta as aventuras espaciais do inglês Arthur Dent e de seu amigo Ford Prefect. A dupla escapa da destruição da Terra pegando carona numa nave alienígena, graças aos conhecimentos de Prefect, um E.T. que vivia disfarçado de ator desempregado enquanto fazia pesquisa de campo para a nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias, o melhor guia de viagens interplanetárias. Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da “alta cultura” e de diversas instituições atuais. Seu livro, que trata em última instância da busca do sentido da vida, não só diverte como também faz pensar.

 

Editora: Sextante
ISBN: 8575421042
Ano: 2004
Volume: 1
Edição: 2
Número de páginas: 192
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

5 —   Do Androids Dream of Electric Sheep?  Philip K. Dick  em português

 

Editora: Oxford do Brasil
ISBN: 01947922226
Ano: 2008
Volume: 1
Edição: 3
Número de páginas: 120
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

6 —   O Jogo do Exterminador. – Orson Scott Card

No romance, Ender Wiggin é uma criança de seis anos de idade, quando é recrutado para a Escola de Combate Espacial. No futuro criado por Orson Scott Card, a humanidade está em guerra com alienígenas invasores, e muitos dos combates são travados em outros sistemas solares, distantes do nosso. Como não existe uma tecnologia de vôo mais rápido que a luz, nessa ficção científica, os muito jovens são recrutados porque eles estarão maduros quando estiveram em batalha ou quando retornarem à Terra. Usar crianças-soldados como personagens também foi um modo do autor afirmar que toda guerra é um processo de destruição da inocência.

O romance de ficção científica O Jogo do Exterminador foi originalmente lançado nos Estados Unidos em 1985. Ele é uma expansão da noveleta O Jogo do Exterminador, que foi a grande responsável pelo fato de seu autor, Orson Scott Card, ter recebido o Prêmio John W. Campbell, Jr. de melhor escritor estreante, em 1978. A versão romance recebeu os prêmios Hugo 1986 e Nebula 1985 – os dois principais prêmios da ficção científica em língua inglesa. O livro também está na lista de clássicos de John Clute, considerado um dos principais críticos de ficção científica. O Jogo do Exterminador foi publicado no Brasil em 1990, com esse mesmo título, pela Editora Aleph, quando recebeu o Prêmio Nova de Ficção Científica, conferido pela comunidade brasileira de FC.

 

Editora: Devir
ISBN: 8575322575
Ano: 2006
Edição: 1
Número de páginas: 380
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

7 —  A Máquina do Tempo, —   H G  Wells   

 

Poderemos, algum dia, viajar no tempo? O herói de Wells foi ao futuro. O que viu ali encheu sua alma de terror e piedade pela espécie humana. O viajante do tempo percorre milhares de anos e encontra um espelho para sua alma…

 

Editora: Nova Alexandria
ISBN: 9788586075209
Ano: 1994
Edição: 1
Número de páginas: 126
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

8 — Micro Servos, Doug Coupland  

 

 

 

Editora: Nova Fronteira
ISBN: 
Ano: 1995
Edição:
Número de páginas: 440
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

  

9 — Planolândia: um Romance de Muitas Dimensões, — Edwin A. Abbott

 

Publicado pela primeira vez em 1884, na Inglaterra, ironiza o sexismo e o autoritarismo da sociedade vitoriana por meio deste romance habitado por figuras geométricas. Em Planolândia, figuras geométricas dotadas de características humanas convivem em um universo bidimensional onde a ordem é mantida a ferro e fogo por autoridades poligonais, os nobres, e circulares, o clero.

 

Editora: Conrad
ISBN: 8587193678
Ano: 2002
Edição: 1
Número de páginas: 126
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

 

10 —  1984,  George Orwell  — edição comemorativa.

 

Este livro não é apenas mais um livro sobre política, mas uma metáfora do mundo que estamos inexoravelmente construindo. Invasão de privacidade, avanços tecnológicos que propiciam o controle total dos indivíduos, destruição ou manipulação da memória histórica dos povos e guerras para assegurar a paz já fazem parte da realidade. Se essa realidade caminhar para o cenário antevisto em 1984, o indivíduo não terá qualquer defesa. Aí reside a importância de se ler Orwell, porque seus escritos são capazes de alertar as gerações presentes e futuras do perigo que correm e de mobilizá-las pela humanização do mundo.

 

Editora: Nacional
ISBN: 8504006115
Ano: 2003
Edição: 29
Número de páginas: 302
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

11 – O admirável mundo novo, — Aldous Huxley

 

Edição revista da clássica ficção científica que descreve as formas mais sutis e engenhosas que pode assumir o pesadelo do autoritarismo.

 

Editora: Globo
ISBN: 8525033227
Ano: 2001
Edição: 2
Número de páginas: 309
Acabamento:  Brochura
Formato: Médio

 

Então, está esperando o quê?  Mãos a obra…

Para verificar a lista toda, inclusive os livros mais técnicos aqui está o link:
 







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