Sobre a cultura: Mário Vargas Llosa

12 12 2016

 

 

marita-pena-mora-peru-1968-mulher-lendo-com-pavao-ostMulher lendo com pavão

Marita Peña Mora (Peru, 1968)

óleo sobre tela

 

 

“A cultura pode ser experimentação e reflexão, pensamento e sonho, paixão e poesia e uma revisão crítica constante e profunda de todas as certezas, convicções, teorias e crenças. Mas não pode afastar-se da vida real, da vida verdadeira, da vida vivida, que nunca é a dos lugares-comuns, do artifício, do sofisma e da brincadeira, se  risco de se desintegrar. Posso parecer pessimista, mas minha impressão é de que, com uma irresponsabilidade tão grande como a nossa irreprimível vocação para a brincadeira e a diversão, fizemos da cultura um daqueles castelos de areia, vistosos mas frágeis, que se desmancham com a primeira ventania.”

 

 

Em: A civilização do espetáculo, Mário Vargas Llosa, Rio de Janeiro, Objetiva:2013, página 67.





Irmãos…

17 07 2014

 

 

Zinaida Serebryakova,Garotos, 1919Garotos, 1919

Zinaida Serebriakova (Ucrânia, 1884-1967)

óleo sobre tela

 

Dizem que não há dor maior do que a da morte de um filho. Deve ser verdade. Mas a dor de quem perde um irmão é muito grande também, porque irmãos são as nossas referências de vida. Em circunstâncias normais eles foram os cúmplices de travessuras. Além disso eles nos mostram as variadas interpretações da mesma educação, do mesmo lar, dos mesmos pais. Muitos são nossos melhores amigos, aqueles que defendemos dos outros, que aprendemos a proteger. Irmãos são aqueles com quem conseguimos nos comunicar sem trocar palavras; com quem dividimos memórias da infância; percepções sobre outros, parentes, vizinhos, amigos. São aqueles com quem implicamos e que amamos profundamente. Eles são a nossa introdução à diversidade, a opiniões, gostos, maneiras de viver diferentes das nossas.  São os únicos que se dão ao direito de nos criticar e que, por mal ou bem, ouvimos. Irmãos são aqueles que são sempre chamados pelo nome do outro, quando os pais se confundem; são também aqueles a quem nomeamos quando algo mal feito foi descoberto: “Foi o … [fulano], não fui eu…” Irmãos são aqueles seres com quem sempre podemos ser crianças, descer às familiares brincadeiras, as mais primárias, sem perdermos o respeito, mesmo depois de adultos. São em muitos casos as pessoas em quem mais confiamos, para quem fazemos sacrifícios muitas vezes heroicos, cujas mortes ou desaparecimentos mais nos ferem.

Esta semana meu cunhado faleceu. Ele era o único irmão, o mais velho, de meu marido. Tendo perdido meu irmão caçula há 11 anos, sei bem o deserto referencial que envolverá meu cara metade. Não importa a diferença de idades, não importa posturas políticas opostas, diferentes gostos no esporte, nos amigos, na maneira de viver, de rir, de chorar, do prazer no trabalho às escolhas amorosas. Não importa se um é conservador e o outro liberal, se um é religioso e o outro é ateu, a perda é muito maior do que se imagina. A cortina cai em um mundo inteiro de referências que formam a essência da nossa identidade. Ninguém mais poderá sorrir com olhos, silenciosamente, em uma reunião familiar quando alguém lembrar das piadas do tio caduca ou das manias do pai que reaparecem nos netos. Foram-se os momentos de reconhecimento da mãe refletida no irmão ou os relâmpagos de compreensão a nível mais profundo do que os amigos podem desconfiar. Acabou-se o conforto de que só os que se conhecem a vida inteira conseguem usufruir. Não haverá mais o cúmplice, o parceiro, o amigo. Conheço bem esse deserto. Por todas essas perdas sinto por meu marido. Sinto muito.

Esse relacionamento entre irmãos, descrito acima, pode não existir. Não é a realidade para todas as famílias. Cada um de nós conhece alguém que não se dá com seus irmãos. Sabemos de brigas, de traição, ciúmes e inveja entre membros da mesma família. A história mais antiga da natureza humana, Caim e Abel, exemplifica essa situação. Mas não é a norma, nem é inevitável. Ainda bem que meu marido e seu irmão puderam usufruir de um relacionamento equilibrado, de respeito mútuo, verdadeiramente fraterno. O falecimento de um deixa um vácuo imenso na vida do outro. Só o tempo acalmará a dor da perda.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2014





Uma influência marcante…

11 05 2014

 

 

Mamãe, aniversário, 73 anos, foto do MarcusMinha mãe, aos 73 anos.

 

Do muito que ela me ensinou, ficou também o exercício diário da leitura.

Minha mãe foi quem incendiou meu hábito da leitura. Desde o momento em que corri para ela, encantada, dizendo que conseguia ver, como em um sonho, as coisas que lia no livro, minha mãe tomou as rédeas do meu desenvolvimento como leitora. Lembro-me muito bem, ela estava cozendo, alguma coisa pequena, à mão. Parou tudo para me dizer que era assim mesmo, que eu estava mostrando que estava lendo muito bem e que há algum tempo ela esperava que eu lhe trouxesse essa notícia. Eu tinha acabado de fazer seis anos.

A influência de minha mãe foi crucial para que eu me tornasse uma leitora. Sua direção foi firme, sem que eu sentisse, e durou até o final dos meus primeiros anos na adolescência. Foi ela quem me apresentou à leitura de “gente grande”, quando aos dez anos me deu O tronco do ipê, seguido depois de A Moreninha, A pata da gazela, Helena, A mão e a luva. Livros lidos e relidos através da adolescência e mantidos até hoje entre os “muito queridos”. Assim foi a minha estréia na imaginação romântica da menina-moça, cercada dos clássicos brasileiros. Mas, sabiamente mamãe nunca me proibiu ler nada – houve uma exceção, única. Dos dez aos quatorze anos li quase todos os clássicos no século XIX no Brasil, os românticos; assim como li dezenas de volumes da Biblioteca das Moças; dezenas de mistérios de Agatha Christie, Ellery Queen, Charlie Chan, Arsène Lupin, Maigret, além dos grandes livros de aventuras de Alexandre Dumas e Julio Verne. Ela lia e eu lia. Ela lia primeiro. Era importante para mim ver minha mãe lendo esses livros e depois recebê-los de suas mãos, dizendo “muito bom, você vai gostar”. Mamãe gostava do que ela chamava romances de capa-e-espada. Dumas, principalmente. Mas lemos as aventuras do Zorro, numa tiragem de livro de bolso baratinha.

Esses anos, que hoje se chamam pré-adolescência, foram caracterizados por terem a leitura como principal meio de entretenimento. Víamos televisão, mas ela não foi nunca a primeira fonte de prazer. E as férias eram passadas na praia de manhã cedo e na poltrona, sentada de lado, com o rosto de encontro ao estofamento, as pernas encolhidas e os livros empilhados ao lado. Vez por outra íamos ao cinema, não muito. A leitura era o bastante.

Desses hábitos de leitura o único que não vingou foi a leitura em espanhol. Por volta dos meus dez, onze anos, mamãe me apresentou ao livro Platero y yo. Reclamei que era em espanhol, mas ela me disse que eu lesse, que acabaria entendendo, e qualquer dúvida que tivesse que a consultasse. Minha mãe era professora, formada em línguas neo-latinas e lia com facilidade tanto em espanhol quanto em francês. Esse foi a primeira de muitas pequenas histórias e poemas que li em espanhol. Mas o gosto por essa leitura nunca me seduziu. Anos mais tarde, com os meus dezesseis anos, já fluente em francês, graças à Aliança Francesa, não tive problema em ler em francês, mas nunca me senti confortável com a leitura em espanhol, até hoje.

Se continuo a ler muito devo à minha mãe esse maravilhoso entretenimento. A leitura foi um dos maiores elos de união entre nós duas; personalidades tão diferentes, com gostos tão semelhantes.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.




O início de uma amizade, lembranças provocadas pelo texto de Luís Jardim

8 12 2013

Paisagem com casa, 1946

Virgílio Carvalho de Araújo Lima (Brasil, 1886-1958)

óleo sobre tela, 47 x 65 cm

O texto de Luís Jardim que posto abaixo desencadeou um sem-número de divagações e reflexões, com as quais me lembrei de que a leitura é uma obra de dois autores: um pouco do escritor e muito do leitor.

“– O meu asilo era a casa de Compton.  A nossa amizade era “de madeira de lei”, dizia ele.  E de madeira provinha coincidentemente esse afeto recíproco, o meu pelo nobre estrangeiro ainda mais respeitoso e cheio de admiração.  Conhecemo-nos graças a uma trave de madeira que um dos carros do sítio carregava para uma cumeeira a ser levantada.  O inglês furava poços artesianos nas planícies da Lavoura Seca.  Precisava de um esteio a todo custo.  Dirigiu-se ao carreiro, ofereceu-lhe um preço exorbitante, mas o homem recusou a fortuna porque “o objeto era do patrão”.  Ouvindo-lhe os rogos engrolados, atendi-o:

— Para dar água à minha terra, a trave lhe fica de graça, senhor…

— Compton ou Capitão – disse-me o inglês, já de mão estendida para um laço de amizade.

Daí em diante as nossas relações cresceram e se firmaram.  Antes eu o procurava pela razão mesma da amizade e quase digo para ilustrar-me com o seu convívio.  O nosso perfeito entendimento em nada se alterou pelo fato de que eu desconhecia o seu idioma e ele ainda se encrespasse todo para falar o meu.  Somente, eu não tinha a sua franqueza, pois Compton achava, rindo-se de si próprio, que “arranhava um enxacoco”, palavra da minha língua que eu também ignorava.

Agradava-me particularmente a casa do amigo, de paredes recobertas de couros de bichos, de flechas, de penas, coisas que nos pertenciam, nativamente, e das quais não sabíamos tirar aquele efeito decorativo.  Apreciava as suas panóplias, “bárbaras”, como dizia ele, formadas de velhas e esquisitas pistolas de uso matuto, de facas, de punhais comprados nas feiras populares.  As suas cadeiras macias, o silêncio, os seus livros bem arrumados e cheios de ilustrações, o seu tapete, pele de onça de dentes arreganhados.  A sua casa era o modelo ideal que eu imaginava para a que viesse um dia a construir.  Mas a casa outrora desejada era agora um castelo sobre areia.

Já não eram esses pequenos luxos domésticos, essa paz interior, ornada com discrição e gosto, aquilo que eu procurava no doce lar do amigo.  Nem mesmo a sua amizade, franca e leal.  Procurava determinadamente a sua natureza cheia de experiência, sem devaneios nem fantasias, o seu comportamento de inglês robusto, cuja objetiva curiosidade dissecava as coisas, virando-as pelo avesso para ver como eram, como se constituíam e de onde procediam. Contentavam-me em proveito da minha indecisão, os seus reparos duros e frios, como este que me fez sobre o meu caso oculto, assunto aliás que nunca mais lhe falara:

 — Talvez aquilo que hoje faz sofrer seja exatamente motivo de rir mais tarde.  Contudo, essa é a vida, é óbvio.  Seria talvez absurdo imaginar o contrário.  Eis tudo.

 Era essa a realidade quase em relevo que eu agora procurava, em desacordo com a minha própria natureza.  E esse dom inglês de encarar materialmente os fatos, essa compreensão geral da vida atraía-me e me fazia bem como o ar puro sorvido depois de reclusões sufocantes.”

Em: As Confissões de meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio:1963, 3ª edição.

Uma parede de tesouros, 1636,

Frans Francken , o jovem (Bélgica, 1581 – 1642)

Kunsthistorisches Museum, Viena.

Há pessoas que conseguem canalizar sua curiosidade para coleções de objetos que transformam ambientes em ninhos acolhedores e ricos em significado. É natural do ser humano o ato de colecionar, tomar posse daquilo que intriga. Desde os tempos nas cavernas arrecadávamos conchas, pedras roliças de rio,  plumas de um pássaro distante.  Está na nossa natureza, na nossa maneira de ser, a necessidade de colher, de trazer para si o que nos fascina. Às vezes é para marcar grandes ocasiões: caçadores que empalham cabeça do veado caçado na floresta.  Às vezes é para adquirir o poder mágico que associamos a um objeto como acontecia com o coral, visto na Idade Média como protetor contra o mau-olhado.  Coleções dizem muito sobre quem as fez.

Há muitos anos, nos EUA, fui ao leilão do espólio de uma senhora que falecera sem herdeiros. Arrematei grande parte de sua biblioteca, que nesse caso foi vendida em caixas, contendo indiscriminadamente 30 a 35 livros cada.  Na família éramos dois professores.  Livros sempre foram algo de corriqueiro, do dia a dia.  Comprá-los é como comprar gêneros de primeira necessidade.  Adquiri também nesse dia alguns itens de cerâmica francesa e outros objetos de cerâmica oriental.  Ms. Jenkins, como ficou conhecida para mim, viajara o mundo, e havia feito algo que eu sempre sonhei em fazer: atravessara a Europa em direção à Turquia pelo Orient Express, isso nos anos 20.  Como sei disso?  Pelos livros que me deixou.  Não que tenha me deixado.  Afinal eu os comprei.  Mas me senti como tendo recebido um presente dessa senhora.  Descobri quando abrimos as caixas de livros que compramos, muitas delas desejadas só por um ou dois títulos, é que nossos gostos, nossas preferências e maneiras de ver o mundo eram semelhantes.  Ms. Jenkins e eu teríamos sido farinha do mesmo saco, ou como dizem os americanos, ervilhas da mesma vagem. Teríamos sido amigas em vida se tivéssemos nos conhecido. Nossos gostos não eram semelhantes só nos livros, nas cerâmicas, nos tapetes, no brique a braque característico de um lar.  Havia algo místico, indefinível, na maneira como a cada caixa aberta, mais ela se fazia presente.

Por isso entendo que Compton no texto de Luís Jardim, acima, tenha se mostrado simultaneamente fascinante e familiar, que sua amizade com o narrador tenha se aprofundado.  Afinal os objetos que o fascinavam, que decoravam as paredes dessa casa de interior, falavam. Era uma linguagem silenciosa mas eloquente.  Foi fácil saber os interesses do dono da casa, reconhecer sua estética.  Daí certamente o senso de conforto do mineiro com o estrangeiro. Este ao abrir a sua casa deixara a descoberto sua personalidade, sua vida interior.  Era terreno fértil para o desabrochar de uma amizade.





Tal mãe, tal filha?

3 07 2013

Cassatt_Mary_The_Bath_1891-92

Banho infantil, 1893

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

Óleo sobre tela, 100 x 66 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

Há datas que são indeléveis para cada um de nós.  O aniversário de minha mãe é uma delas, para mim.  Hoje ela faria 88 anos.   E é só agora, 6 anos após sua morte que começo a vê-la no espelho que me reflete pela manhã.  Sempre fomos muito diferentes, minha mãe e eu.  Física e emocionalmente.  Dois dias antes de seu falecimento, e após viver comigo e com meu marido pelos últimos cinco anos em que lutava contra doença incurável, minha mãe, num gesto de boa vontade, nos chamou para dizer: “sim, eu poderia ter vivido com vocês.”   Como se  até então não o tivesse feito.  Era uma admissão final de que havíamos encontrado uma área comum, uma faixa em que nossos comportamentos, por mais divergentes que fossem, haviam se mesclado e atingido uma zona de conforto.  Eu me surpreendi. Para mim nunca houve qualquer resistência em ter minha mãe comigo, muito pelo contrário, sempre gostei de sua companhia.  Era uma mulher inteligente, informada, sensível.  Só não aprovava grande parte do meu comportamento.  E porque saí de casa muito cedo, para ela, eu provavelmente parecia mais estranha do que realmente era.  Mesmo que tivesse vindo visitá-la nos últimos 20 anos antes do meu retorno oficial ao Brasil, por um mês, uma ou duas vezes por ano.  Ter morado no exterior e adquirido hábitos mais estrangeiros do que brasileiros certamente contribuiu para que ela sentisse um estranhamento que não era recíproco.

Enquanto ela era muito linda, com cabelos naturalmente negro-azulados, olhos verdes com uma estrela amarelo-dourada dentro deles e a pele branco-leite, um tipo comum na Europa do norte, principalmente na Irlanda; eu nasci de cabelos vermelhos cor de cenoura que, depois de caírem, viraram louros e mais tarde louro-escuro bem cor de chumbo; olhos azuis, pele muito clara,  mais para o dourado.   Enquanto nela, as cores lilás e tons frios de azul e rosa caíam bem; em  mim essas mesmas cores tornavam a pele amarelada; só os tons de terra, o verde-musgo, os beges, coral e marrons coloriam favoravelmente.  E, no entanto, hoje ao acordar e me olhar no espelho, com freqüência vejo minha mãe refletida,  a olhar-me de volta.  Temos algo em comum,  a idade anda nos fazendo semelhantes. O cabelo de repente é igual ao corte que ela usava?  Ou será que é a maneira como as rugas aparecem em volta dos olhos?  Temos a mesma boca, isso é verdade, larga, pronta para o riso, nós duas ríamos com facilidade. É de família.  Mamãe era mignon, ombros pequenos, mãos alongadas como as de sua mãe, unhas ovaladas.  Eu tenho as mãos de papai, largas e quadradas, ombros largos; e não demonstro fragilidade.  E, no entanto, sou eu a “manteiga derretida”, cujas lágrimas são incontroláveis quando me machucam emocionalmente. À moda inglesa, — que ela não era – mamãe conseguia manter o famoso “stiff upper lip” que me escapa.  Nas dores físicas fomos semelhantes, duras e sem choros.  Não sou ciumenta; não escondo o jogo; detesto manipulação emocional.  Não me incomodo com o que os outros pensam de mim; não faço grandes sacrifícios pela vaidade; não tenho medo de médico, de dentista e nunca vou a eles acompanhada.

???????????????????????????????Nós duas, Praia do Flamengo, Rio de Janeiro

Mamãe contava uma história que leu quando era criança na Revista Tico-tico.  Era sobre um menino pobre que vivia no andar térreo de um edifício e que tinha por vizinho de cima um menino rico.  Da janela o menino pobre via os papéis de bala coloridos que o menino rico jogava fora e para não se sentir mal, o menino pobre imaginava os papéis de bala serem borboletas, que voavam coloridas pelo jardim.  Essa historieta infantil descreve as diferenças entre mãe e filha.  Mamãe era uma sonhadora.  Seus pés finos e pequeninos  a mantinham levemente presa ao chão; eu por outro lado provavelmente teria colecionado os papéis coloridos do menino do andar de cima.  Tenho os pés quadrados, largos, romanos, que fazem meus sonhos serem bastante atados à realidade que me cerca.   Sou aventureira, flor selvagem, rústica; mamãe era flor de estufa, delicada e caprichosa.

Mas então o que herdei dela para que a veja a me olhar do outro lado do espelho?  Dela, herdei  a sensibilidade para as artes visuais; a curiosidade, a necessidade de estar em dia com as notícias;  herdei também a facilidade para línguas, a necessidade de viver em um ambiente belo e confortável; a  impaciência, o humor quase apalhaçado e a dificuldade de lidar com bebês.  Nós duas sempre preferimos as crianças quando elas já sabem falar.  E, no entanto, há horas em que sinto que um gesto meu é um eco dela; que uma observação que faço, ela teria feito; que o modo como ando na rua reflete o andar dela.  É,  por mais diferentes que tenhamos sido, a semente não cai nunca muito longe da árvore.  Feliz aniversário minha mãe.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2013.





Sobre memórias e diários, texto de Gilberto Freyre

24 04 2012

Retrato de senhora*, 1787

Adélaïde Labille-Guiard (França, 1749-1803)

Óleo sobre tela

Musée des Beaux-Arts, Quimper

*Anteriormente identificado como Retrato de Jeanne-Marie Roland de la Platiere (1754-93), conhecida como Mannon Philipon.

Diários e memórias

Gilberto Freyre

É um gênero de literatura – às vezes subliteratura, é certo, porém, outras vezes de literatura na sua expressão mais forte e na sua forma mais transbordante de vida – de tradição muito débil na nossa língua: o diário ou o livro de memórias.  Entretanto, reúne ao interesse artístico ou literário – quando o possui, ostensivo ou dissimulado – um interesse humano, considerável.  É material ótimo para a análise e interpretação do caráter de um povo ou da fisionomia ,de uma época, através da personalidade ou simplesmente da pessoa que, ora pelo excesso de extroversão, ora pelo gosto de introspecção revela aspectos interessantes ou traços profundamente íntimos do seu tempo ou da sua gente.  E não apenas de sua própria e restrita intimidade individual. Traços de patologia social e não apenas da pessoal.

O gosto pela leitura de tais documentos – quando não os iluminam, de dentro para fora, as luzes festivas de personalidades em grande evidência ou de vida espetacular – não é, entretanto, um gosto comum e fácil. Ao contrário: precisa, em geral, de ser adquirido.  Adquirido aos poucos.  É um tanto como o gosto pelo uísque e pela própria cerveja amarga em relação com o entusiasmo fácil – de adolescente, de moça, antigamente, de deputado federal brasileiro – pela champanhe doce e pelos vinhos de sobremesa.  Mas é um gosto que, uma vez adquirido, nos enriquece a vida.  Junta a experiência a cada uma variedade de experiências alheias; ao sabor de nossa época, ou de outras épocas; ao conhecimento da intimidade do nosso povo, ou da intimidade de outros povos. E a verdade é que esse conhecimento ou esse sabor do geral através do particular, nós o vamos recolher mais puro em diários onde se registram o miúdo de preferência ao grandioso; e memórias onde se anotam as repetições de vida doméstica ou pessoal, de preferência aos fatos extraordinários ou excepcionais.

É claro que para o leitor guloso de pitoresco ou ansioso de dramaticidade ou de regalo simplesmente literário ou estético – o leitor a quem só um dannunzio memorialista é capaz de contentar – tais repetições se apresentam como coisa monótona e tristonha, nas quais ele não acha jeito de enxergar valor histórico de espécie alguma; nem significação sociológica ou psicológica por mais rasteira.  Diante de uma memorialista pachorrenta que nos fale voz igual e baixa, de nascimento de filhos e de netos, de casamentos e mortes na família, de doenças predominantes em sua casa, de fugas de suas crias, de remédios caseiro e tradicionais, de intimidades suas e de parentes – tudo isso com simplicidade e mesmo com simplismo, com candura e até com ingenuidade – é natural que o guloso de pitoresco, de variedade, de aventura, de heroísmo, de drama, se sinta incomodado e até revoltado, como um meu conhecido que muito se indignou com a publicação do diário íntimo do engenheiro Vauthier e, depois, o do velho Félix Cavalcanti.

Mas se do mesmo leitor alguém se interesse em experiências de transformar amantes de champanhe em amigos de bebidas profundas como uísque, fizer não só um estudante de literatura menos ostensivamente literário, dando-lhe a ler memórias e diários clássicos – desde Santo Agostinho aos ingleses, e desde o velho Pepys aos da época de colonização puritana nos Estados Unidos – como um estudante de sociologia e de psicologia, que chegue até ao estudo sociológico e psicológico dos diários e das confissões e à análise e interpretação das recorrências na vida doméstica, estou certo de que o mesmo leitor – admitido, é claro, o seu bom capital de inteligência, de sensibilidade e de gosto – se tornará um entusiasta dos diários e das memórias monótonas. E um entusiasta – aventuro-me a acrescentar – capaz de preferir, às vezes, tal monotonia à prosa polifônica dos memorialistas d’annunzianos.  Não que estes não sejam sugestivos e até fascinantes com sua exaltação do heroico, do raro, do genial e até do anormal. Falta-lhes, porém, o encanto da rotina, da repetição, da constância, da normalidade, da regularidade, na qual tantas vezes é agradável descansar do ruído das exterioridades grandiosas e da impressão das aventuras heroicas. Não só agradável como proveitoso à saúde intelectual.  É humano, demasiadamente humano.

Em: Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.

Nota de rodapé desse texto:

Este artigo foi recortado do Jornal do Comercio do Recife, numa época em que o organizador deste livro ainda não tinha qualquer ideia de referenciação bibliográfica, o que explica – embora de modo nenhum justifique – a omissão da data.  Deve ser de 1940, quando, aluno da primeira série do curso pré-juridico e por recomendação do Professor Moacir de Albuquerque, leu Casa Grande e Senzala e começou a se interessar pela obra de Gilberto Freyre.




Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

3 07 2011

Natureza morta com tomates, 2008

Deb Kirkeeide (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 20cm

www.dailypainters.com

São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara.  Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam.  De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias.  Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos.  Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções.  Foi o que me aconteceu na leitura de  Vermelho amargo [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário.  São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas.  Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão.  Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe.  E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão Vermelho amargo, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato.  Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume.  Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil.  É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

Bartolomeu Campos de Queirós

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas.  O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir.  Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão.  Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte.   As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo.  Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, que as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira, que o argumento passa a segundo plano.  Tal é o caso de Vermelho amargo.  Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata.  Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada.  Uma língua poética.  Fascinante.  Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante.  É uma ode ao idioma.  Aproveite-a.

Nota:  Agradeço à leitora desse blog, Nanci Sampaio, a recomendação da leitura desse livro.








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