O amor do cavaleiro medieval, texto de Georges Duby

24 11 2014

 

 

Leighton-God_Speed!Deus o abençoe, 1900

Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1853-1922)

óleo sobre tela, 160 x 116 cm

Coleção Particular

 

 

“… Na época carolíngea, o palácio do rei era uma escola de boas maneiras. As obras compostas pelos escritores à sua disposição tinham, assim, uma função pedagógica. Ensinavam os usos que distinguem o homem bem-educado, o homem de corte, o “cortês”, do “plebeu”, do grosseiro, do rústico. Ensinavam em particular os guerreiros a tratar segundo as conveniências as mulheres das quais se aproximavam no círculo dos príncipes.

Enfim, sentiam-se responsáveis pela ordem. O Todo-Poderoso dignava-se lhes delegar seu poder. Esperava que mantivessem a paz. Uma de suas preocupações mais aflitivas era conter a turbulência desses guerreiros que, mesmo se estivessem avançados na idade, eram chamados “jovens” porque não eram casados. Muito numerosos, pois a autoridade familiar, a fim de evitar a divisão dos patrimônios, velava para que os rapazes mais jovens não gerassem herdeiro legítimo e obrigava-os ao celibato. Todos esses homens sem esposa, ciumentos de um irmão mais velho que toda noite ia ao encontro da sua, alimentavam a discórdia na sociedade cortês. Lançavam-se sobre o patrão, reclamavam que lhes dessem por mulher uma prima, uma sobrinha, uma jovem viúva de um vassalo defunto. O patrão não podia casá-los todos. A maior parte permanecia ali, errante, instável, à espreita, prestes a apanhar alguma presa. Por certo, não tomá-la à força, raptá-la como se fazia no século IX. Ao rapto sucedera a sedução. Os “jovens” procuravam, enganando as famílias, captar os favores das moças casadouras ou então, enganando os esposos, os das damas. Muito disponíveis, a crer em Etiènne de Fourgères. E isso era, como diz o mesmo Etiènne, “semente de guerra”.

Para esses cavaleiros, a bela aventura, a façanha de que se vangloriavam tanto ou mais do que ter conquistado o prêmio na noite de um torneio, não era a proeza sexual, essa mirabolante aptidão para o jogo amoroso, exaltada por certas canções do conde de Poitiers. Era atrair para seus braços a fada, uma dessas estranhas e fugazes sílfides que os contemporâneos de Burchard de Worms esperavam encontrar um dia na orla de um bosque, era, sobretudo,apoderar-se da mais severamente proibida de todas as mulheres, ou seja, desafiando os terríveis castigos prometidos ao adúltero e ao traidor, arrebatar a dama, a esposa do senhor. Duplo delito, por certo. Mas brilhante demonstração de audácia, o mais invejado dos títulos de glória.”

 

Em: As damas do século XII, George Duby, São Paulo, Cia das Letras: 2013, edição de bolso [Companhia de Bolso], pp: 339-340





1200 anos atrás já se sabia da necessidade de uma boa educação!

13 01 2014

learning-to-readAprendendo a ler, s/d

Iluminura.

Desconheço a identificação do manuscrito.

Carlos Magno, também chamado de “O Pai da Europa”, unificou grande parte do território da Europa Ocidental, que estava subdividida em pequenos domínios desde a queda do império romano.  Além de ser um grande guerreiro e administrador, Carlos Magno acreditava na boa educação.  Durante o seu reinado fomentou a melhoria da educação e patrocínio nas artes, literatura, e arquitetura, o que levou seu reinado a ser mais tarde denominado de Renascimento Carolíngio. [final do século VIII ao século IX].  Em suas diversas campanhas entrou em contato com a cultura e observou a qualidade do ensino em outros lugares, na Espanha visigótica, na Inglaterra anglo-saxã, e na Itália lombarda. Vendo o progresso do ensino em outras culturas fez questão de aumentar a oferta de escolas e de scriptorias monásticas, lugar dedicado às cópias de livros, nos rincões do seu reino. Sua contribuição para a cultura ocidental não foi pequena já que a maioria das obras sobreviventes hoje do latim clássico foram copiadas e preservadas por estudiosos no reino carolíngio.

A falta de alfabetização latina na Europa Ocidental do século VIII causou problemas para os governantes carolíngios, limitando severamente o número de pessoas capazes de servir como escribas da corte em sociedades onde o latim era valorizado. Ainda mais preocupante para alguns governantes foi o fato de nem todos os párocos possuírem a habilidade de ler a Bíblia Vulgata. Um problema adicional é que o latim vulgar do Império Romano do Ocidente  tardio começou a divergir abrindo portas para os dialetos regionais, os precursores das línguas latinas de hoje, e estavam se tornando mutuamente ininteligíveis, prevenindo estudiosos de uma parte da Europa se comunicarem  com pessoas de outra parte da Europa.

Carlos Magno ordenou a criação de escolas no documento chamado Carta de Pensamento Moderno, emitido em 787.  Seu programa de reforma tinha como objetivo atrair muitos dos principais estudiosos cristãos para sua corte.  Chamou primeiro os italianos: Pedro de Pisa, Paulino de Aquileia e Paulo, o Diácono. Mais tarde chamou o espanhol Teodolfo de Orléans, Alcuíno de York e Joseph Scottus, irlandês.  Entre os esforços principais do reino carolíngio está a organização de um currículo padronizado para uso nas escolas recém-criadas; o desenvolvimento da minúscula carolíngia, um “livro de mão” [cartilha] que introduziu uso de letras minúsculas. A versão padronizada do latim também foi desenvolvida, permitindo a cunhagem de novas palavras ao mesmo tempo que mantinha as regras gramaticais do latim clássico. Este latim medieval tornou-se uma linguagem comum de bolsa de estudos e administradores,  permitindo que viajantes pudessem se fazer entender em várias regiões da Europa. Carlos Magno tornou o sistema educacional um pouco mais acessível, ainda que não abrangesse a sociedade inteira. As escolas carolíngias foram organizadas de acordo com o princípio de sete artes liberais, com os estudos divididos em dois níveis: o Trivium (gramática, retórica e lógica) e o Quadrivium (aritmética, astronomia, geometria e música).

Carlos Magno criou bolsas de estudos, incentivou as artes liberais na corte, providenciou para que seus filhos e netos fossem educados com esmero. Seguindo a tradição de igualdade entre os sexos, comum nas culturas germânicas, Carlos Magno tratou com o mesmo cuidado da educação das mulheres de sua família (3 filhos e 5 filhas). Já rei, dedicou-se à sua própria educação, tendo como tutor Pedro de Pisa, com quem aprendeu gramática; Alcuíno, com quem estudou retórica, dialética (lógica) e astronomia (era muito curioso sobre o movimento das estrelas), e Einhard, que o ajudou em seus estudos de aritmética.








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