Ética e estética, por Arnon Grunberg

16 05 2018

 

 

Paul Wonner The Newspaper 1960 painting oil on canvas, 120x 138O jornal, 1960

Paul Wonner (EUA, 1920 – 2008)

óleo sobre tela,  120 x 138 cm

 

 

“Não há ética sem estética. Quem negligencia a estética mais cedo ou mais tarde também pode enterrar a ética.”

 

Em: O homem sem doença, Arnon Grunberg, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2016, p. 53





De olhos vendados, resenha de “A mulher silenciosa”, de A.S.A. Harrison

30 09 2014

 

 

frag_blindCabra-cega, 1756

Jean-Honoré Fragonard (França, 1732-1806)

óleo sobre tela,  116 x 91 cm

Toledo Museum of Art, Ohio

 

 

Ralph Waldo Emerson estava certo ao dizer: “É o bom leitor que faz o bom livro”. Isso se tornou evidente após a leitura de A mulher silenciosa de A. S. A. Harrison. Enquanto a maior parte das resenhas se concentra no suspense da trama, considerando esta publicação detetivesca, no meu grupo de leitura, o livro foi foco de uma discussão de hora e meia considerando o retrato psicológico da pessoa que se nega a ver a realidade de que não gosta. No hemisfério norte este livro foi lançado como ‘leitura de verão’, ‘leitura de férias’, o que quer dizer algo leve, inconsequente – aqui no Brasil estamos longe dessas segmentações editoriais por falta de leitores mesmo — e como ‘leitura praiana’ é entendida para a maioria como bom entretenimento, corretamente aliás, para nós, que aceitamos essa publicação sem a expectativa de um prazo de validade tão curto quanto a estação mais quente do ano, abre-se a possibilidade, não preconceituosa, de encontrarmos na intriga literária espaço para uma discussão aferventada sobre comportamentos decorrentes de traumas psicológicos.

Creio que fomos ajudadas em grande parte por termos duas psicanalistas na rodada de discussões, que nos enriqueceram o suficiente com referências de Freud a Lacan. Para mim, de forma oblíqua, este livro me lembrou um dos livros mais marcantes que li há uns anos, A solidão dos números primos de Paolo Giordano, por tratar das consequências na vida adulta de grandes problemas na infância. Em A mulher silenciosa, Jodi Brett é uma psicanalista que para -sobreviver traumas de infância, comporta-se como se não existissem, conseguindo mesmo esquecê-los providencialmente. Ela silencia. Passa a vida dessa maneira, organizada, sistemática, em controle. Vive maritalmente com um empreiteiro de sucesso, pelos último vinte anos. Ele, Todd Gilbert, também vítima de outro tipo de problema na infância, apesar de não gostar de falar no assunto, não o nega. Os dois parecem satisfeitos.

 

 

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Todd que é um Don Juan tem casos inconsequentes com diversas mulheres. Jodi sabe. Age como se só desconfiasse. Mas, na prática, cala sobre o problema, movendo-se como um gato, silenciosamente, cozinhando sedutores jantares na esperança de mantê-lo no ninho caseiro o maior tempo possível. Ela trabalha só pelas manhãs e ele, homem de sucesso financeiro, permite que nada falte na vida luxuosa que têm em Chicago, à beira do lago, com o cachorro Freud, e sem filhos. O problema é que Todd se envolve com uma moça muito mais jovem. Envolvimento típico de crise de meia-idade, mas ela leva a sério. Engravida. Separação à vista para Jodi, vindo de surpresa. Há perda, muita perda, emocional, financeira e de confiança. Com o casamento dele, a pressão emocional aumenta e situação financeira despenca. Tudo acontece muito rápido e de modo definitivo. À beira da ruína, Jodi, traída, sente-se tentada a tomar uma atitude radical. Há dúvidas… Se ela toma ou não faz parte do enredo com desfecho absolutamente inesperado.

 

MAC18_THE_ENDMERGE-150x150A.S.A. Harrison

Mas não é a trama a única parte interessante deste romance. São as questões levantadas, principalmente aquelas girando em torno da ética, do comportamento moral de todos os quatro principais personagens do romance. Omissão e silêncio são as grandes ferramentas que alavancam essas questões. Culpa é uma companheira próxima. Fica assim a porta entreaberta para as considerações de responsabilidade pessoal de cada qual com a vida que se leva, e o alerta: temos muito a ver com destino que nos damos. Este desenvolvimento da leitura fica muito mais claro quando consideramos os fatos que levam ao final surpreendente.

Infelizmente não teremos nenhuma outra obra da autora. A. S. A. Harrison faleceu aos 65 anos de câncer, logo após a publicação deste livro.





1Q84 de Haruki Murakami, 1.280 páginas de sedução!

28 07 2014

 

 

1133271241496be8felGaleria labiríntica, 2008

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

 

 

1Q84 foi uma das mais envolventes leituras que fiz nos últimos tempos, uma experiência rica e extravagante, li 1280 páginas em 17 dias, e ainda me encontro sob seu feitiço. Boa literatura permite ser lida em diversos níveis e esta obra de Haruki Murakami não é exceção. É difícil rotular esse romance, é um thriller, mas é muito mais. Há fantasia e dimensões além da nossa realidade. Há mistérios por toda parte e os personagens têm que superar barreiras físicas e psicológicas para sobreviverem. Não é um romance distópico, como alguns caracterizaram, nem pertence ao mundo da ficção científica. Mas aborda a existência de realidades paralelas.  Os principais personagens têm que vir a termos com essa realidade paralela onde, se não tiverem cuidado poderão se perder por lá, para sempre. As aventuras e incessantes perseguições são envolventes e é fácil o leitor se identificar com os personagens sem se preocupar com as questões filosóficas levantadas pelo autor. A mais central pode ser delineada pela pergunta: quando uma ação “do mal” é ou pode ser justificada?

O mundo de Murakami, em qualquer dimensão, relativiza a questão da moralidade. Todos os retratados têm aspectos de retidão e ética, mas ficamos ambivalentes porque todos eles, sem exceção, agem de maneira questionável. O leitor se encontra em um dilema: identifica-se com todos eles, porque são retratados como pessoas que entendemos, que conhecemos intimamente, com falhas e qualidades, muitas delas semelhantes às nossas. Mas há um viés do mal em cada um deles, mesmo nos mais angélicos. As perguntas sobre ética se proliferam à medida que a história se desenvolve: planejar um assassinato é justificável desde que a vítima seja uma pessoa perversa? Há ocasiões em que participar, com pleno conhecimento, de uma fraude pode ser perdoado? Qual é exatamente o ponto em que a cobrança de uma dívida deixa de ser cobrança e passa a ser perigosa perseguição e assédio? Pode uma crença religiosa abonar a prática do incesto? Há outras perguntas relevantes, cada qual acompanhando um personagem diferente.

Essas perguntas adquirem urgência quando se busca soluções à medida que a trama se abre, como um leque oriental mostrando, em cada varinha uma vida, um drama pessoal. Em todas nos perguntamos, à maneira de Malcolm Gladwell, qual é o “Ponto de Virada”, como e em que circunstâncias isso ou aquilo pode ser aceito? Há no capítulo 15, vol. 1,  por exemplo, um excelente diálogo entre Aomame, a personagem feminina  principal e sua empregadora, onde Murakami claramente faz um alerta sobre o perigo da arrogância, quando imaginamos que certas de nossas ações podem ser justificadas, já que nossos sentimentos são puros.  É por isso que aceitamos pagamento, para nos enraizarmos na realidade. Fato é que ninguém em 1Q84 passou pela vida incólume, sem ter à flor da pele as cicatrizes dos maus-tratos infringidos por progenitores, por família, por suicídios, por abandono, por maridos, por orfandade, por fanatismo religioso e pobreza.  E, no entanto, nenhuma dessas perguntas é respondida. Fica para o leitor a procura da resposta e a ponderação sobre a diferença das éticas entre as realidades de 1Q84 e 1984.  Isso poderia ser expandido em um ensaio muito maior, envolvendo até mesmo a obra de George Orwell.  Murakami nos deixa refletir, menciona a Ética a Nicômaco de Aristóteles, no capítulo 11 do primeiro volume, em uma longa passagem de página e meia, mas não impõe uma resposta, exceto pelo vago aceno à espiritualidade nas páginas finais do romance. Murakami organiza o livro com referências éticas no primeiro e no terceiro volumes, salpicando observações sobre as diferença entre o bem e o mal através de toda a obra.

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1Q84 é um romance de poucos personagens, retratados a fundo. Nos dois primeiros volumes a história é alternadamente contada pelo cotidiano de Aomame e Tengo, que formam o casal romântico da trilogia. No terceiro volume mais um personagem, Ushikawa, um detetive, passa a ter nossa atenção, somos guiados a conhecê-los todos a fundo. É justamente através desses personagens que nos envolvemos em questões de ética. Tamaru, o chefe de segurança da Senhora, coreano e gay, fala por Murakami. É com ele que percebemos a visão do autor, principalmente no terceiro volume. Ele é sábio. Conhece a vida e conta histórias que a fazem relevante. Ele é o ponto de equilíbrio e quem soluciona os problemas. Personagem importante, que não ganha capítulos com seu nome, mas sua presença e poder de decisão são essenciais. Tem muitas características do herói. Eu certamente me apaixonei por ele, mas nem ele é um exemplo de ética. Todos, como nós, têm seus calcanhares de Aquiles.

Muitas críticas a essa obra falam de repetição e do final fraco. Não achei repetitivo. Cada vez que voltávamos a um assunto ele era expandido e novas camadas de conhecimento adquiridas. A cada repetição mais se firmaram os pontos importantes.  O final não poderia ser diferente. De fato, ainda no primeiro volume, Murakami, no capítulo 14, ao descrever como o mundo da ficção se tornara relevante para Tengo adolescente, estabelece que ela, a ficção, não acha soluções para a vida real, no máximo ela pode apontar para o caminho a ser tomado. Assim como aceitamos os elementos fantásticos da trama, sem questioná-los devemos aceitar também o seu abandono. De fato, é o estilo de Murakami que mais contribui para essa aceitação do que não é comum na nossa realidade. Ele estabelece o misterioso, o fantástico com uma precisão tão eloquente que não nos deixa espaço para dúvida. Tanto que nos momentos mais aterrorizantes sentimos com os personagens o terror que eles sentem. Confesso que em alguns momentos tive reações físicas à narrativa: pés e mãos gelados, aumento do batimento cardíaco. Se isso não é um sinal de uma prosa convincente e admirável, não sei o que é.

Murakami, HarukiHaruki Murakami

Só consigo me lembrar de duas ocasiões em que tive semelhante dedicação a uma leitura. Foram livros bem escritos e de aventuras. Aos quatorze anos passei pela primeira vez uma noite em claro para não parar de ler As minas do rei Salomão, de H. Rider Haggard, publicado em 1885, em brilhante tradução de Eça de Queiroz. Uns dez anos depois o mesmo aconteceu com The Once and Future King, de T.H. White, originalmente publicado em 1958. Li na edição de bolso, avidamente, mais de 600 páginas que não couberam em uma única sentada, precisando de uma noite e mais um dia. Com 1Q84 fiquei acordada algumas noites até as quatro da manhã, ignorando o trabalho que me esperava nas manhãs seguintes… Falta de juízo. Isso não é costumeiro… Por que? Por que esse livro? Esse autor? Porque é uma obra espantosa, brilhante e inesperada.





A natureza humana em O advogado do diabo de Morris West

9 11 2013

José LIMA, Interior de Igreja, OST, Capela da Ordem III de S. Francisco, Olinda, PE, 1972, 60x73cm,Interior de Igreja, 1972

[Capela da Ordem Terceira de São Francisco, Olinda, PE]

José Lima (Brasil,?-?)

óleo sobre tela, 63 x 70 cm

Eu já havia lido O advogado do Diabo de Morris West na minha adolescência.  Tinha gostado.  Mas,  por causa do novo papa, Francisco I,  a conversa no grupo de leitura caiu sobre a Igreja Católica e resolvemos voltar a este livro. Os dezessete membros do grupo já haviam lido esse romance na adolescência, o que atesta para sua popularidade.  Este e As Sandálias do Pescador do mesmo autor. Qual não foi então a minha surpresa, ao descobrir enquanto lia o romance, que eu não me lembrava de quase nada da história! Foi como ler um novo livro. E que livro!  Prazer do início ao fim.

Morris West não foi um autor popular por demagogia ou marketing. É um ótimo escritor. Cuida dos personagens. Introduz nuances psicológicas, problemas sociais, e, além disso, é um excelente observador da natureza humana, de suas frustrações e insatisfações.  Conhece e retrata os valores de cada personagem com abundância de detalhes e economia de palavras que fazem um texto enxuto, preciso e ponderado. Encantador.

O título O advogado do Diabo – por favor, não confundir com o filme mais recente com o mesmo nome que não tem nada a ver com este livro – se refere ao processo dentro da Igreja Católica pelo qual todos aqueles que estão sendo considerados para beatificação precisam passar. Entendo que esse processo sofreu mudanças depois das reformas trazidas à Igreja pelo Papa João XXIII, mas o romance de Morris West é anterior a 1963 e nele vemos a Igreja Católica como ainda operava depois da Segunda Guerra Mundial. Mas então, qual a razão do título?  A Igreja não pode confiar só no que seus fiéis lhe dizem. Precisa ter certeza de que os milagres aconteceram, de que os candidatos eram dignos.  Chamavam de advogado do Diabo, aquele membro da própria igreja, que é designado para descobrir as falhas de caráter, de ações, de intenções de quem é considerado para beatificação. O advogado do Diabo é o religioso que tem como dever provar que o candidato à santificação não deveria ser santificado. É o promotor digamos assim e não o advogado de defesa do candidato à santificação.

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Este é o enredo.  Aparente.  Mas  o texto pode e deve ser lido em diferentes níveis.  Além da perseguição à verdadeira vida do possível santo, processo que corre como em um livro policial, vemos o mundo pelos olhos de um homem submerso em uma crise emocional e de identidade: o Monsenhor Maredith Blaise, católico de nacionalidade inglesa, que há muito mora na Itália, está distante do mundo e de si. Encarregado da investigação e diagnosticado com câncer terminal, encontra-se contrabalançando duas empreitadas distintas — viver com dignidade e julgar a santidade de outrem — certo ele só tem a certeza de que o futuro é de dias contados. Portanto, aproxima-se dessa investigação de maneira distante e duvida do acerto de sua escolha.  Temos uma visão do que lhe aflige pelas palavras do Cardeal Eugenio Marotta que, ao lhe dar a missão de advogado do diabo, o descreve assim: “Não há paixão na sua vida, meu filho. O senhor nunca amou uma mulher, nem odiou um homem, nem sentiu piedade por uma criança. Apartou-se demasiado tempo e é, agora, um estranho no seio da família humana. Jamais pediu nada nem deu nada. Jamais conheceu a dignidade da privação nem a gratidão de um sofrimento compartilhado com outrem. Eis aí a sua enfermidade. Eis aí a cruz que o senhor talhou para os próprios ombros. Aí é que começam não só as suas dúvidas, como também os seus temores…pois um homem que não pode amar o seu semelhante tampouco pode amar a Deus”.

Confrontado, mais tarde, com a vida do milagroso Giàcomo Nerone, enquanto julga a possibilidade de beatificação, o monsenhor tem a oportunidade de fazer amigos e desfrutar do calor de suas companhias: Aurélio, o Bispo de Valenta se mostra uma pessoa interessante e genuinamente solícito; enquanto a seriedade e determinação do judeu e médico da aldeia Aldo Meyer movem sua admiração.  Tecidos nessas amizades estão os verdadeiros sentimentos de Meredith Blaise que reaparecem e tomam vigor, na mesma proporção em que seu corpo se deteriora. Mas a meio caminho floresce a compaixão, o amor ao próximo e o entendimento de que as pessoas são o que são e tudo o que se pode fazer é mostrar a elas as escolhas que têm.  Cada qual tomará o seu caminho e será responsável por ele.

morris westMorris West (1916-1999)

Publicado em 1959, nem a Igreja nem o mundo são mais os mesmos que aparecem no romance. Mas isso não afeta o seu entendimento, o prazer da leitura e, sobretudo os princípios humanistas expostos tão sucinta e claramente pelo autor. Tudo embalado em uma das mais interessantes narrativas que encontrei nos últimos tempos: Morris West consegue fazer dos vários e muitos habitantes da pequena  Gemello Minore— do candidato a santo ao padre local e sua empregada; do médico à amante do “santo” e seu filho bastardo; da já-nem-tão-jovem condessa ao seu companheiro homossexual e pintor medíocre  — , faz de todos, verdadeiros personagens, tridimensionais, com dilemas morais e de sobrevivência que os leva a ações nem sempre lógicas; mas mesmo que não simpatizemos com eles ou seus problemas, conseguimos entendê-los graças à habilíssima narrativa com que nos são apresentados.  A prosa refinada, com alguns parágrafos que nos fazem querer recortar o livro, separá-los e meditar sobre suas implicações, é a cereja do bolo.  Este é um romance policial, histórico,  psicológico; rico em questões de ética, pronto para o debate moral. Como um bom livro acaba mais ou menos em aberto, deixando que o leitor defina por si e para si o verdadeiro significado do que lhe é apresentado. Um romance que entrega muito mais do que se espera.  E como tal, prova o grande escritor que o produziu.  Segue então, muito recomendado.  Vou reler outros do autor.





O caso de Van Gogh: o que é mais importante, a vontade do pintor ou a nossa curiosidade?

21 03 2012

A Arlesiana, 1888

[Retrato de Mme Ginoux]

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela,  92 x 73 cm

Metropolitan Museum of Art, Nova York

Nos últimos anos tivemos uma verdadeira onda de descobertas de novos quadros de Vincent Van Gogh.   Em 2010, um quadro que se suspeitava falso, provou ser verdadeiro: uma pequena paisagem, de 1886, retratando o moinho Le Blute-fin em Paris.  A história curiosa, ainda que comum, do colecionador apaixonado que acredita ter em mãos um verdadeiro Van Gogh, defendendo-a mesmo quando muitos estudiosos não acreditavam, deu a  Dirk Hannema (1895-1984), dono da pintura e fundador de um pequeno museu na cidade de Zwolle, uma grande  vitória sobre seus contemporâneos descrentes, quando o quadro foi considerado um verdadeiro Van Gogh sem qualquer suspeita de dúvida, pelo Museu Van Gogh de Amsterdam…  Pena que tenha sido uma vitória posterior à morte de Hannema.  Uma vitória póstuma!

O moinho Le Blute-fin em Paris, 1886

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

Quando, ainda em 2008, outro quadro de Van Gogh – dessa vez : o rosto de uma camponesa —  foi descoberto adormecido sob outra pintura dele mesmo, uma tela com de um terreno com capim, foram poucas manchetes a respeito.  Mas o incidente lembrou outro, de 2007, ano anterior, quando especialistas em Van Gogh descobriram também debaixo da tela  A Ravina, 1889,  outra tela retratando uma vegetação nativa.   É fato conhecido que muitos pintores, e Van Gogh está incluído entre esses, re-utilizaram telas quando o trabalho inicial não se mostrou satisfatório para o próprio pintor.  Preferindo não abandonar uma tela, que pode ser dispendiosa para tantos, o pintor simplesmente pinta por cima de um quadro ou inacabado ou que ele considera fraco.

A ravina, 1889

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

No caso de A Ravina houve motivo para grande alegria com a descoberta, já que a existência de um quadro retratando uma vegetação selvagem já havia sido preconizado por um desenho  de vegetação selvagem, bem conhecido dos especialistas.

Hoje, os jornais estão cheios de notícias sobre a “novas telas” de Van Gogh.  As novas telas são duas:  uma, a Natureza morta com flores do campo e rosas cuja autoria estava em debate, e a outra, a tela de dois lutadores, sobre a qual Van Gogh pintou a natureza morta. Sabia-se da existência da tela com lutadores pois ela havia sido mencionada por Vincent em carta ao seu irmão Theo.  Mas sabê-la sob a natureza morta, ajuda a autenticação desta.

Natureza morta com flores do campo e rosas

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela

Museu Kröller-Müller em Otterloo, Holanda.

Realmente é excitante termos a clara autenticação de algum quadro cuja autoria possa estar em debate.  Também é bom sabermos da localização de um quadro que o pintor menciona em suas cartas ao irmão.  Mas tenho muitas dúvidas quanto à divulgação dessas imagens que estão sob as pinturas conhecidas.  A pergunta que preciso levantar é sobre a ética de fazermos públicas imagens que o próprio pintor escolheu deletar de seu acervo.  Não será o mesmo que ir na lata de lixo de um escritor examinar os trechos de um romance que ele desistiu de escrever?  De que serve isso além de satisfazer o nosso voyeurismo, a nossa curiosidade?

Quando Vincent Van Gogh decidiu cobrir com uma natureza morta a tela dos lutadores, e não outra das dezenas de telas que ele tinha em seu quarto, é porque de todas aquelas essa era a que menos o satisfazia.  Ele, assim como dezenas e dezenas de outros pintores escolheu “apagar” aquele trabalho.  Que direito temos nós de revelarmos o que ele escolhera descartar?

A Arlesiana com luvas e guarda-chuva, 1888

[Retrato de Mme Ginoux]

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853-1890 )

óleo sobre tela,  92 x 73 cm

Museu d’Orsay, Paris

Assim como respeitamos o direito a que ele se deu de manter à vista de todos os diversos retratos de Mme Ginoux, conhecidos com A Arlesiana, sem considerar tapá-los com uma nova pintura, apesar de serem, muito parecidos,  variações sobre o mesmo tema, pergunto se não é um invasão de seus desejos fazer com que essas imagens —  com as quais ele não estava satisfeito o suficiente para mantê-las “vivas”  ao alcance do olhar alheio — sejam feitas públicas.

Acredito que os especialistas, os curadores dos museus e os donos dessas telas tenham o direito de saber o que está por trás.  Mas fica aquele sentimento de que eles são mais ou menos como médicos que têm um paciente nas mãos e o dever de não divulgar dados publicamente das doenças que o aflige.  É como se estivéssemos olhando Van Gogh se despir pelo buraco da fechadura.  É voyeurismo.  Há uma discrição que se faz necessária.  Ou não?  Após a morte vale tudo?





Ellen van Deelen e a ética dos treinos de animais

30 07 2009

rato no pianoEllen van Deelen, Rato ao piano.

 

Num dia de poucas notícias, algumas coisas diferentes aparecem nos portais dos grandes jornais.  Este foi o caso da BBC Brasil que hoje trouxe aos olhos do leitor brasileiro o trabalho da fotógrafa holandesa Ellen van Deelen, em que ratos com pequenos instrumentos musicais são fotografados como se estivessem de fato fazendo solo numa pequena orquestra. 

 

rato flautista

Ellen van Deelen, Rato fautista.

 

O trabalho de Ellen van Deelen, que mora em Roosendaal na Holanda,  já é bastante conhecido aqui e fora do Brasil, como atestam as dezenas de fotografias, de sua autoria, encontradas na web.  Reconheço que há algo interessante e por uma fração de segundo, talvez até menos, a mente do observador possa se interessar.

 

rato sax

Ellen van Deelen, Rato saxofonista.

 

No entanto, esses animais retratados não passam de pequenos roedores.  Ratos propriamente ditos que não podem nem se classificar como camundongos porque são grandes demais.  E eu me pergunto:  onde estão os defensores dos direitos dos animais quando alguma coisa como essa é engendrada?

rato acordeão

Ellen van Deelen, Ratos com acordeão.

 

Quando por muitos anos tive um antiquário nos Estados Unidos, minha companhia era uma das companhias contribuintes para a SPCA, [sociedade de proteção de animais].  Minha loja tinha um cachorro dentro da loja, (lá é permitido) todos os dias.  Eles eram cachorros dos funcionários, que faziam o rodízio de segunda a sábado de comum acordo com a administração.  Meu antiquário era conhecido por seus membros caninos:  Garth, um fox-terrier, por Max, um sheltie, e por Pebbles, um spaniel King Charles.  Outros membros da companhia tinham gatos, mas esses não faziam rodízio, já que não eram treinados para ficarem quietinhos.  Dou esta relação toda de antemão, para dizer que gosto de animais.  No entanto, acho a personalização de animais de estimação: o vestir, as botinhas, as sainhas, os laçarotes, uma anomalia do comportamento de um dono de animal de estimação.  Como o conhecido Cesar Milan, do programa de televisão O Encantador de Cães, não se cansa de dizer, cães, cachorrinhos de estimação, não são bonecos com os quais brincamos de vestir e fantasiar.

 

Cesar Milan e um monte de cachorros

Cesar Milan, O Encantador de Cães, e alguns de seus cachorros.

 

Daí, aparece Ellen van Deelen, que é uma excelente fotógrafa.  Basta ver suas fotos de insetos, pessoas, pássaros para perceber.  Mas que explora este tênue caminho entre o fotógrafo que como ela mesma diz testemunha a natureza e a obra divina: “Como sou cristã, espero que minhas fotos mostrem um pouco da linda criação de Deus“.  

 

joaninha

Ellen Van Deelen, Joaninha.

 

Há um apelo muito grande para o marketing nessa carreira profissional de fotógrafa que me desagrada profundamente, porque extrapola o mundo natural e cria à custa de um treinamento à base de premiação com comida, animais que mudam o seu comportamento para que agradem às nossas fantasias.  Animais que não tem nada a ver com um saxofone ou um carrinho de bebê, ou qualquer outra característica humana, são obrigados a se comportarem de uma maneira esdrúxula ao seu  mister.  Para isso, existem os ilustradores, que, esses sim, sem abusar da relação homo sapiens e animal, podem dar largas à imaginação e colocar um coelho com um relógio na história de Alice ou pato vestido de marinheiro como Donald.  

4 gatinhos felizes elizabeth webbe 1956

Quatro gatinhos felizes, ilustração de Elizabeth Webbe, 1956.

 

Isso tudo me parece mais um desrespeito à obra da Natureza, do que uma reverência.  E antes que me perguntem: não, não acho esses ratos engraçadinhos.

FONTE: Portal Terra, BBC Brasil





Animais sabem a diferença entre certo e errado

27 05 2009

macaquinhos com bananas MW Editora & IlustraçõesMacaquinhos: MW Editora & Ilustrações

 

Novas pesquisas demonstram que os animais tem um sentido do que é certo ou errado.   Muitas espécies, dos ratos aos lobos, demonstram serem portadores de emoções bastante complexas.   Até recentemente pensava-se que só o homem pudesse tê-las, no entanto, o Professor Marc Bekoff, da Universidade de Colorado em Boulder, acredita que estas emoções estão impressas nos cérebros dos mamíferos.

 

Um dos exemplos citados por ele é o de lobos maiores e mais fortes que suprimem sua força quando estão brincando com lobos mais fracos e menores, mostrando que aceitam pequenas mordidas, mesmo que não sejam fortes.    Por sua vez, os chimpanzés também

Mostram emoções complexas, principalmente em relação aqueles que se desviam do código de conduta do grupo.  Neste grupo de primatas, os animais com deficiências ou mais fracos, também são tratados de maneira diferenciada, sem violência.

 

lobo e ratinho

 

Golfinhos e baleias são conhecidos por sua capacidade de empatia, atribuído à células fusiformes que estes mamíferos têm em comum com os seres humanos.  Experimentos com ratos mostram que eles preferem não comer, se acreditam que sua escolha pela alimentação venha a causar a um outro ratos alguma dor.  Por outro lado, camundongos reagem mais fortemente a dor quando vêem outro companheiro sofrendo de dor.

 

A crença de que só os seres humanos desfrutam da noção de moral é um pressuposto muito comum, no entanto, estudos e pesquisas mais recentes sugerem que este talvez não seja o caso.   É verdade que cada espécie parece ter um código moral específico e diferente entre as espécies.  Mas eles existem para cada uma delas.   Mais estudos serão necessários para termos certeza dos detalhes do comportamento analisado, mas tudo indica que a pesquisa de Berkoff  venha a ser provada correta.  Muitos relatos de comportamento animal, como golfinhos que ajudam seres humanos a escapar de perigosos predadores no mar; ou de elefantes que fazem o mesmo, na selva, já demonstram que existe mais do que um simples comportamento selvagem sem códigos de ética estabelecidos como se acreditou até os dias de hoje.

 

Baseado no artigo de Richard Grey para o jornal britânico The Telegraph.

FONTE:  The Telegraph  — 








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