O leão e o camundongo, Olavo Bilac

20 07 2020

 

 

Willy ARACTINGI (1930-)Ilustração de Willy Aractingi (1930-)

 

 

O leão e o camundongo
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.

 

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se  furioso…

Com todo seu vigor as cordas não partiu.

 

Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

 

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,

Deve os fracos tratar com caridade e amor.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 132-3





A rã e o touro, Olavo Bilac

25 06 2020

 

 

illustrations_couleur_fables_de_la_Fontaine_par_Vimar_-_la_grenouille_qui_veut_se_faire_aussi_grosse_que_le_boeufIlustração de Auguste Vimar (1851-1916)

 

 

A rã e o touro
Fábula de Esopo

 

Olavo Bilac

 

Pastava um touro enorme e forte, à beira d’água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e mágoa,

Disse: “Por que razão hei de ser tão pequena,

Que os outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que imensa, causarei às outras rãs espanto!”

Pôs-se a comer e a inchar. E inchava, inchava, inchava!…

Mas em vão! Tanto inchou que num tremendo estouro

Rebentou e morreu, sem ficar  como um touro.

 

Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, pp 127-8

 





Sobre a Inocência, Lachambeaudie

19 07 2018

 

 

03-woman-combing-her-hair-in-front-of-a-mirror degasMulher penteando os cabelos em frente a espelho, 1877

Edgar Degas (França, 1834 -1917)

óleo sobre tela, 46 x 32 cm

Norton Simon Art Foundation

 

 

“Tendo perdido a roupa, diz-se que a Inocência em vão, para encontrá-la, procurou o Prazer, a Fortuna e o Poder.
Quem lha resistiu?
Foi o arrependimento.”

 

Lachambeaudie (França, 1806-18720

Lachambeaudie

 





O reformador do mundo, fábula de Monteiro Lobato

10 03 2017

 

 

DSC01027Zé da Roça tira uma soneca na sombra de uma árvore. © Estúdios Maurício de Sousa

 

 

O reformador do mundo

 

Monteiro Lobato

 

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.  O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia asneiras.

—  Asneiras, Américo?

—  Pois então?!…  Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso.  Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.  Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.  Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

— Mas o melhor – concluiu, é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-pisca, pisca piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu.  Dormiu e sonhou.  Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.  Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf!  Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio o nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

—  Que espiga! … Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta do lugar da jabuticaba?  Hum!  Deixemo-nos de reformas.  Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a Natureza.

 

 

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense:1966, 20ª edição, pp.19-20.

 





Panchatantra, uma das mais antigas coleções de fábulas

19 10 2015

 

 

syrischer_maler_von_1354_001Ilustração do Panchatantra, na versão síria de 1354. Aqui está ilustrada a história em que o coelho engana o elefante mostrando a ele a lua refletida na água. (Bodleian Library, Oxford).

 

 

Panchatantra, quer dizer ‘Cinco Princípios‘ e é uma coleção de fábulas indianas provavelmente compiladas no século III antes da era comum, escritas originalmente em sânscrito.  Os originais já se perderam. Mas a coleção, ainda é muito conhecida. Foi traduzida do hebreu para o latim por João de Capua, em 1270.  Assim como muitas coleções de fábulas, hoje o Panchatantra tem inúmeras publicações em inglês, francês e outras línguas ocidentais, a maioria como livros para crianças.  Mas seus ensinamentos são universais e para todas as idades…





Dois ursos, poema do mestre Sufi, Hafiz

12 09 2015

 

 

m_Tricycle-Bear_tIlustração de Jenny Keith Hughes.  [www.jennykeithhughes.com]

 

 

Dois ursos

Hafiz  (Pérsia, 1320-1389)

 

 

 

Uma vez

Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos

Dois ursos se sentaram em silêncio

Em uma bela paisagem

Observando o sol se por

E se sentindo profundamente gratos

Pela vida.

 

Mas, depois de algum tempo

Uma conversa interessante começou

Versando o tópico da

Fama.

 

Um dos ursos disse,

“Você ouvir falar do Rustam?

Ele ficou famoso

E viaja de cidade em cidade

Numa jaula dourada;

 

Ele faz exibições para centenas de pessoas

Que riem e aplaudem

Suas piruetas

No circo.”

 

O outro urso pensou

Por alguns segundos

 

Então começou

A chorar.

 

 

Tradução Ladyce West, do inglês

 

Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.





As Garças, fábula de Leonardo da Vinci

20 06 2015

 

 

egret-lyse-anthonyGarça

Lyse Anthony (EUA, contemporânea)

aquarela, 24 x 16 cm

Lyse Anthony

 

 

 

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem  segue este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, e também de contar histórias.  Leonardo escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula  As Garças do volume de Leonardo chamado: Lendas, H. 9r.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p. 42

 

 

As Garças

 

O rei era um bom rei, porém tinha muitos inimigos. As garças, leais e fiéis, estavam preocupadas. Havia sempre a possibilidade, principalmente à noite, dos inimigos cercarem o palácio e aprisionarem o rei.

— Que devemos fazer? pensaram elas. — Os soldados, que deveriam estar de guarda, estão dormindo. Não podemos confiar nos cães, pois estão sempre caçando e sempre cansados.  Nós é que temos que guardar o palácio e deixar nosso rei dormir em paz.

Então as garças decidiram tornarem-se sentinelas. Dividiram-se em grupos,  cada grupo zelava por uma área, com mudanças de guarda em horas determinadas.

O grupo maior postou-se no prado que cercava o palácio. Outro grupo colocou-se do lado de fora de todas as portas. E o terceiro decidiu ficar no quarto do rei, a fim de vigiá-lo o tempo todo.

— E se nós adormecermos? perguntaram algumas garças.

— Temos um modo de evitar adormercermos, respondeu a mais velha de todas. — Cada uma de nós vai ficar segurando uma pedra com o pé que estiver levantado enquanto permanecermos paradas. Se uma de nós dormir, a pedra cairá no chão e o barulho a acordará.

Todas as noites, desde então, as garças vigiam o palácio, mudando a guarda de duas em duas horas. E nenhuma, ainda, deixou cair a pedra.





A formiga e a cigarra, poesia de Afonso Louzada

18 12 2014

 

la cigale et la fourmiIlustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.

 

 

A formiga e a cigarra

 

Afonso Louzada

 

 

Depois de acumular barras e barras de ouro,

a formiga, afinal, sentiu o último alento,

pesarosa, talvez, como bom avarento,

de não poder levar consigo o seu tesouro.

 

–“A minha vida foi um trabalho incessante!

Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

 

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,

exausta de cantar, a boêmia da cigarra

o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,

à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

 

— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,

que a vida é só amor; o resto não é nada!”

 

E, juntas, para o céu elas foram subindo.

A cigarra cantava, estuante de alegria:

— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”

— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

 

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;

o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”

 

— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,

a alegria da vida, a alegria do amor”.

 

— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”

Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

 

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.

Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

 

sob a fascinação do canto da cigarra)

se levaste, afinal, uma vida bizarra

 

alegraste, porém os corações aflitos

que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

 

…  E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,

abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

 

 

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.

 





O califa e o ancião, texto de Latino Coelho

21 10 2014

 

 

an_arab_horseman-large 13Um cavaleiro árabe, 1865

Gustave Boulanger (França, 1824-1888)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

O Califa e o Ancião

Latino Coelho

 

Ia o califa Harum-al-Raschid por um campo, aonde andava a folgar à caça, quando sucedeu de passar por pé dum homem já muito velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então disse o califa aos do seu séquito:
— “Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contasse como certo vir a gozar dos frutos desta planta.” Indo-se então o califa em direitura ao velho, perguntou-lhe quantos anos tinha. “– Para cima de oitenta”, respondeu o velho; “mas, Deus seja louvado, sinto-me ainda tão robusto e saudável, como se tivesse apenas trinta.” “– Sendo assim”, redarguiu o califa, quanto pensas tu que ainda hás de viver, pois que nessa idade já tão adiantada estás a plantar uma árvore que por natureza só daqui a largos anos dará fruto?” “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando, sem inquirir se serei eu ou outros atrás de mim quem lhe colherá os frutos. Assim como nossos pais trabalharam por nos legar as árvores que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, com que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e a enriquecer-se. E, se hoje nos sustentamos dos frutos do seu trabalho e se foram nossos pais tão cuidadosos do futuro, como havemos de retribuir em desamor aos nossos filhos o que de nossos pais recebemos em carinho e previdência ? Assim, semeia o pai para que o filho possa vir a colher.”

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 201

 

Texto usado hoje em alguns colégios no 6º ano do ensino fundamental.





Presença de espírito de um árabe, texto de Latino Coelho

19 06 2014

 

 

1860_corot_le_peintre_dumax_01O pintor Dumax em trajes árabes, 1860

Camille Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

Coleção Particular

 

Presença de espírito de um árabe

Latino Coelho

 

El Hadjaje, governador de uma província de África, saíra um dia com seus grandes oficiais a caçar, e como seguisse tenazmente uma rês, afastou-se dos que o acompanhavam a ponto, que não sabia depois como voltasse.
Quando estava a meditar no que devia fazer viu um árabe velho, em um próximo campo, a mirá-lo muito atento.
— Donde és tu? disse o governador.
— Daquela cabana que vês além.
— Não és dos de Beni-Adjel?
— Tu o disseste: este campo pertence-lhe.
— Ora, conta-me cá bom velho, que se diz por aí dos agentes do governo?
— Diz-se que são homens sem honra, sem fé, e sem vergonha, que roubam, perseguem e oprimem os habitantes.
— E tu formas deles a mesma opinião?
— A mesma exatamente.
— E que me dizes de El Hadjaje?
— Digo que é o pior de todos. Deus o faça tão negro como um carvão, e amaldiçoe o Califa que lhe confiou o mundo.
— Sabes com quem estás falando?
— Em verdade, não sei.
— Pois eu sou El Hadjaje.
— Folgo em conhecer-te, disse o ancião sem perturbar-se. E tu sabes quem eu sou?
— Não, respondeu o governador maravilhado.
— Chamam-se Zeid-ben-Aamer, e sou o louco de Beni-Adjel. Todos os dias, um pouco antes do sol posto, perco a razão. São quatro horas talvez; não me pode tardar muito o acesso.
O governador não procedeu contra o pobre do homem, e depois de lhe perguntar pelo caminho que devia seguir, deu-lhe algum dinheiro, e abalou.

***

Em: O Panorama: semanário literário e instrutivo, volume IX, primeiro da terceira série, publicado em 5 de setembro de 1846 a 15 de dezembro de 1852. Lisboa: 1852, p. 312.

 








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