Da minha mesa de trabalho

21 01 2017

 

 

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DA MINHA MESA DE TRABALHO – nesta semana: Lisianto híbrido, branco e lilás.

 

 

Toda minha vida adulta, enquanto morava nos EUA, dediquei-me aos direitos das mulheres.  Estive em marchas, em Vigílias à Luz de Vela, abracei com centenas de outros manifestantes o prédio do Congresso. Fui membro da NOW — National Organization for Women, gritei nas ruas “Equal pay for equal work”. Levei marido, amigos, enteado, todos que eu conhecia, às marchas comigo, vestidos de branco, cor das sufragistas. Dei todo tipo de apoio que me era  possível pelo direitos da mulher.  Suei horrores na cozinha assando bolos para vender em bazares de levantar fundos para a causa e também servi de intérprete gratuitamente para a Planned Parenthood. Fiz o que estava às minhas mãos.  Dedicada assim como centenas de outras mulheres que conheci e que ainda fizeram muito mais.  Essa luta pela igualdade de direitos é a luta da minha geração, da geração pós Glória Steinem, pós queima de sutiãs, pós radicalismo.  Nunca a deixei de lado mas confesso que, com o tempo, me acomodei.

Não pensei que ainda teríamos que voltar às ruas para defender os direitos da mulher, como aconteceu hoje em todas as grandes cidades americanas, no final da segunda década do século XXI.  Para mim, essa luta tinha um gosto amanhecido, de coisa passada do ponto.  Erro meu.

Agora mais do que nunca esse ativismo é necessário. Estou com a televisão ligada.  Atenta ao movimento de resistência aos projetos do presidente Donald Trump.  Se colocados em prática, seus planos serão um grande passo em retrocesso para toda a nação. Estou orgulhosa de ver milhares, possivelmente milhões de americanos, nas ruas, continuando essa luta, procurando justiça

LIVROS sobre a mesa:  O Príncipe dos Canalhas, Loretta Chase; Tempo é dinheiro, Lionel Shriver; O museu do silêncio, Yoko Ogawa; Três cavalos, Erri de Luca.





Resenha: “A garota de Boston” de Anita Diamant

24 07 2016

 

 

Ginger greenblatt“Front Beach” em Rockport, Ma, 2013

Ginger Greenblatt (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

http://artginger.com

 

 

 

Que bela voz narrativa seduz o leitor de A garota de Boston! Addie Baum, personagem principal, conta para sua neta, prestes a se formar, sobre sua juventude, e sobre a família, imigrantes poloneses que precisavam  trabalhar,  vencer e sobreviver no início do século XX na cidade de Boston.  Com essa premissa Anita Diamant  leva o leitor a revisitar os primeiros trinta e poucos anos do século passado mostrando ao invés de descrever as dificuldades dos imigrantes, de qualquer nacionalidade, em se adaptarem e ajustarem a um novo país.  Ela também nos instrui a respeito de facetas da história americana facilmente esquecidas cem anos depois.

O que empolga a respeito dessa narrativa fácil de ler, dessa suave volta ao passado é a encantadora personagem principal, a única da família já nascida em solo americano e que, talvez por isso mesmo, é aquela com o espírito desbravador e rebelde.  Não é a única rebelde. Addie tem habilidade de se rodear por pessoas que também se rebelam contra costumes da época, hábitos do velho mundo transportados para o novo e consegue, através dos anos, formar com outras jovens com que se relaciona, um grupo de mútuo apoio.

 

 

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Ainda que Addie Baum seja filha de imigrantes judeus, e que os costumes mantidos pela família sejam aqueles o mais próximo possível dos perpetuados na Polônia, Anita Diamant nos faz ver que dentro do judaísmo havia e há diferentes costumes e diferentes enfoques. Além disso, a autora mostra, com sucesso, que a vida do imigrante é a mesma para quase todas as culturas: italianos, judeus, irlandeses.  Foram bem recebidos mas com preconceitos, como parecem ser até hoje em qualquer lugar do mundo.  Os que os hospedam não entendem hábitos diferentes, nem costumes estranhos.  No final são só as gerações futuras que são as verdadeiras donas da terra.

Mais que isso, a história de Addie Baum mostra que, diferente do folclore cultural que acredita ser impossível;  mulheres podem, conseguem e fazem amizades profundas com outras mulheres que, por sua vez, lhes servem de equipe de apoio.  A crendice de que mulheres estão sempre competindo com suas iguais é um mito.  Mais do que qualquer homem, elas sabem entender os problemas das outras. Por essa perspectiva A garota de Boston poderia ser considerado um livro feminista, porque é uma história de empoderamento da mulher.  Mas é tão suave e delicioso que a mensagem feminista vem no contexto, quase na reflexão pós-leitura. Enquanto a história se desenrola, torcemos por Addie, por sua independência, por sua necessidade de conhecimento, pelo sucesso, profissional e amoroso que deveria coroá-la.

 

anita diamantAnita Diamant

 

Esta história é uma pouco mais longa do que uma novela ou um conto prolongado.  Diagramação editorial o transforma num livro de quase 300 páginas(272), mas é facilmente devorado num fim de semana.  Nele encontrei uma heroína que não era comum quando eu tinha meus dezesseis anos e procurava exemplos de mulheres que se rebelavam e “dava certo”.  Felizes são as moças de hoje que podem encontrar em Addie Baum alguém em quem se espelhar. É um livro que levanta o espírito, que joga a leitora para uma visão positiva da vida.  Não há nada de errado com isso.  E apesar de minha sobrinha estar com vinte e poucos anos, ela receberá esse livro pelos correios, com um cartão da tia: “Leia, tenho certeza de que vai gostar.”

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Resenha: “A mulher desiludida” de Simone de Beauvoir

26 05 2016

 

 

corot, interrupted readingLeitura interrompida, 1870

Jean-Baptiste Emile Corot (França, 1796-1875)

óleo sobre tela colado  em madeira, 92 x 65 cm

The Art Institute of Chicago, EUA

 

 

 

Fui à luta pelos direitos da mulher quando ainda morava nos Estados Unidos, membro da NOW [National Organization for Women] por alguns anos, participei de passeatas e de outras formas de protestos que pediam a igualdade de direitos e de salários entre homens e mulheres.   É surpreendente, portanto, até mesmo para mim, só agora vir a ler Simone de Beauvoir, a grande feminista francesa, que revolucionou o pensamento de milhares de mulheres do mundo inteiro, no período logo  após a Segunda Guerra Mundial.

Não sei quem tomou a decisão inicial de traduzir pela primeira vez esta série de três contos de Beauvoir e batizá-la com o título insípido de “Mulher desiludida” no lugar de “Mulher destruída” [La femme rompue] do original.  Quem quer que tenha sido cometeu um desserviço ao mundo literário e, sobretudo às leitoras brasileiras, diminuindo mais uma vez a mulher, a leitora, com a suavização da própria denúncia feita pela autora.  Vale lembrar que os portugueses não fizeram isso em suas edições, lá manteve-se o poder conotativo da palavra ‘destruída’.

 

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Quase cinquenta anos nos separam dessa publicação. É natural esperar que a realidade feminina tenha mudado, que alguns dos assuntos abordados nas  histórias pareçam distantes da nossa  realidade. É perturbador olhar à volta e constatar que ainda há um número desconcertante de comportamentos destrutivos no cotidiano feminino, semelhantes aos demonstrados nos contos de Beauvoir.  Talvez pareçam mais atenuados, disfarçados por outros rótulos, com viés moderno, mas lá estão, vivos na maneira de pensar feminina.

A heroína de “A idade da discrição”, primeiro conto da obra, não consegue aceitar que seu filho adulto pense diferente dela. Ela perdeu o poder sobre o jovem profissional.  Mas sua perda é muito maior e bem mais profunda. Seus medos são vários, o pior deles é o preconceito contra o envelhecimento.  É uma intelectual que agora duvida de sua capacidade intelectual porque sua última publicação não tem o sucesso esperado.  Também seu corpo, assim como o filho a trai, não é mais jovem: “um corpo de velho, apesar de tudo, é menos feio que um corpo de velha, disse a mim mesma… [49]. Tudo contribui para seu desequilíbrio.

O terceiro conto que dá título ao livro mostra o desequilíbrio emocional de uma mulher cujo marido, o centro de sua vida, tem um relacionamento extraconjugal. Mas a traição serve como alavanca para sua destruição.  Subitamente Monique percebe que outros aspectos de sua vida não podem mais sustentá-la no mundo idealizado em que vivia. Há a perda da juventude e a realização do tempo que passa.  Há o esvaziamento do ninho e a surpresa ao perceber que seu marido teria gostado que ela tivesse trabalhado, que ainda fosse uma profissional. “As mulheres que não fazem nada não suportam as que trabalham.”, ele diz [107]. A observação a fere.  O fracasso do casamento ela chega a atribuir à maneira como educou as filhas. E ainda perpetua o sofrimento, pois àquela que segue seus passos, que se torna a dona de casa que ela foi, Monique não poupa:  ela a vê com o mesmo filtro com que concebe sua própria imagem.  É um momento revelador e profético sobre a perpetuação do preconceito na próxima geração.

 

simone-de-beauvoirSimone de Beauvoir

 

Infelizmente, A mulher desiludida ainda é atual. À primeira vista parece que já atravessamos um longo caminho: temos maior liberdade sexual;  grande número de mulheres é profissional.  Muitas mantêm trabalho fora de casa, mesmo que, por vezes, só o façam por necessidade, mesmo que casadas.  Mas basta aprofundar este olhar para perceber que ainda precisamos de uma variedade de mudanças na sociedade, sobretudo na maneira de encarar a vida.  Os três contos de Beauvoir são histórias complexas e ambíguas, principalmente a segunda história, “Monologo”, que é um vômito verbal das frustrações de uma mulher contra tudo e contra todos.  Mas todos os contos apontam para uma mudança de rumo para as mulheres, e do papel que os homens exercem em nossas vidas.  De fato, os homens nos contos não são particularmente fortes.  Há em todos um comportamento covarde,  inábil, anêmico, vacilante.  Para que uma mulher nova exista, há de haver também um novo parceiro mais preparado, eficaz e decisivo. Os dois precisam mudar.  Talvez seja por isso que as mudanças não tenham sido mais radicais nos últimos cinquenta anos.

Esta não é uma leitura leve. Bastante deprimente.  Revoltante muitas vezes.  Mas importante:  uma lembrança do caminho percorrido e uma perspectiva sobre aquele por vir. Ainda há muito trabalho pela frente.

 





Quem tem “Medo de voar” com Erica Jong no dias de hoje?

6 10 2013

CRI_151186Aniversário, 1915

Marc Chagall (Rússia, 1887– França1985)

óleo sobre papelão , 81 x 100 cm

MOMA, Nova York

Foi com assombro que me lembrei hoje do livro de Erica Jong Fear of Flying [Medo de Voar — nos dias de hoje publicado no Brasil em formato bolso]. NPR [National Public Radio] nos Estados Unidos comemorou os quarenta anos da publicação desse livro que se tornou, quase imediatamente após sua publicação, um marco no movimento pela igualdade de direitos das mulheres.  Minha leitura desse romance, onde a heroína se dá ao direito de querer e gostar de ter uma vida sexual ativa, foi um tempinho depois da publicação. Eu estava na faculdade, nos Estados Unidos, quando o li e mesmo assim foi um livro de grande impacto.  Não era, nem pretendia ser, uma obra  de grande valor literário.  Mas foi marcante. Na época, eu morava em Baltimore e viajava todos os dias, ida e volta, de trem para College Park,  mais ou menos uma hora de viagem entre as cidades, para estudar na Universidade de Maryland.  Lembro-me de ler este livro nessas longas viagens de trem; e de que, encabulada com o realismo das cenas retratadas, encapei o volume com papel de presente, para não alardear o que eu lia.  A mente era pudica, mesmo que eu já fosse casada.  Na época eu era membro da NOW (National Organization for Women], totalmente engajada,  defendendo, o que considerava ser uma das maiores injustiças no mundo, um dos direitos femininos mais básicos, ainda não completamente satisfeito: a igualdade de salários entre os que fazem o mesmo trabalho.  Nunca voltei a ler Medo de voar.  Já sugeri sua leitura a algumas amigas. Tenho certeza de que se o relesse hoje perderia sua mágica, porque para tudo há o momento certo e revisitar o passado em geral desaponta.  Mas não podia deixar de marcar essa passagem assim como a própria NPR não pode deixar de fazê-lo.  É o retrato de uma época, de uma preocupação.  Um momento da história cultural.





A bicicleta e a mulher, uma história sem palavras

18 11 2012

Cartão postal, circa 1900.

Esta postagem tem tudo a ver com a anterior, quando vimos como a bicicleta foi uma boa contribuição para a independência das mulheres. Vimos também como elas podiam ser mal vistas por terem a audácia de dependenrem desse meio de transporte.  Aqui estão 3 postais que datam dos últimos anos do século XIX, contando uma pequena história sobre essa mulher ciclista.  E de quebra a sequência confirma todos os preconceitos gerados por essa atividade abraçada pelo sexo feminino.  Os postais estão em ordem. O primeiro aí em cima e os outros dois seguem.  Divirtam-se.

Cartão postal, circa 1900.

Cartão Postal, circa 1900.




Bicicletas e independência — um trunfo para as mulheres

18 11 2012


A casa das bicicletas no Bois de Boulougne, 1897-1900

Jean-Georges Béraud (França,1849-1936)

óleo sobre tela

Musée de l’ïle-de-France – Sceaux

Quando usamos as bicicletas raramente pensamos no papel importante que elas tiveram para a emancipação feminina. Fui lembrada desse fenômeno quando li, alguns dias atrás, o artigo na publicação da Universidade da Virginia,  sobre estudos americanos: Xroads . Não se sabe ao certo a data da invenção da bicicleta; foi consequência natural de diversos experimentos com quadriciclos e triciclos que apareceram no início do século XIX.  Só na última década do século, a bicicleta se tornou popular e de uma maneira inesperada alavancou o movimento pelos direitos da mulher.

Anúncio francês, 1900.

A popularidade levou não só homens, mas muitas mulheres às aventuras do ciclismo, que dava uma grande liberdade de movimento. Era a  habilidade das mulheres de se movimentarem por si mesmas, para novos lugares, novos espaços, sem a necessidade de acompanhantes.  Essa autonomia assertiva trouxe como consequência um desequilíbrio nos papéis sociais.  Até então, homens e mulheres tinham papeis circunscritos, rígidos. Mas as barreiras impostas a elas estavam caindo e os homens passaram a fortalecer o estereótipo de portadores de bravura e força.  Como o ciclismo aparecia no horizonte como uma atividade física era natural que fosse adotado pelos homens como parte da constelação de esportes das quais faziam parte o futebol, baseball (nos Estados Unidos) e o críquete na Inglaterra, todos dominados pelo sexo masculino.

Cartão postal anunciando novas bicicletas, Boston, EUA.

“Máquina da liberdade” [freedom machine] foi como Susan B. Anthony, a feminista americana que lutou pelos direitos da mulher, denominou a bicicleta. E dela é também , uma conhecida citação: a bicicleta, “fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”.  Inicialmente adotada pelas elites, logo os modelos de bicicletas apresentaram mais conforto, sendo adotadas pela classe média em geral na América do Norte e na Europa, em meados da década de 1890.  Já na primeira década do século XX a bicicleta havia conquistado seu lugar como meio de transporte e também como forma de recreação. Clubes de ciclismo apareceram em todas as grandes cidades.

Mas antes dessa popularidade, não foram poucos os gritos de imoralidade, quando uma mulher andava de bicicleta. O que mais causava revolta nos homens era a adquirida habilidade de movimento para sexo feminino.  Ajudadas pela produção em massa desse meio de transporte, que cada vez mais se mostrava seguro e prático as mulheres e a classe trabalhadora, ela não se privaram da liberdade adquirida e transformaram a bicicleta no símbolo da Nova Mulher.  Essa Nova Mulher se desvencilhou  das roupas restritivas de movimentos, do espartilho e das saias até o tornozelo, substituindo-as por calças. Bem comportadas, largas nos quadris, apertadas no joelho ou do joelho para baixo, mas calças; chamadas de roupas para ciclismo.  Mesmo assim não foi fácil para mulheres andarem de bicicleta vestidas desta forma.  Muitas foram ridicularizadas, multadas, até mesmo tratadas como mulheres vulgares, sem escrúpulos, como lembra muito bem o artigo.

Cartão postal, c. 1895.

Apesar disso, as mulheres modernas, essas Novas Mulheres, não se deixaram vencer e enfrentaram os preconceitos.  Elas viam o poder que as duas rodas lhes davam e previam um futuro mais equilibrado.  Sabiam que eram vistas como um desafio aos preceitos da época que tratavam as mulheres como seres inferiores.  Não foram poucos os homens que proclamaram que as bicicletas eram uma ameaça à ordem social e à estrutura familiar porque permitiam às mulheres viajar para mais longe do que estavam acostumadas, sem serem vigiadas por seus maridos, irmãos, pais, pelos homens que conheciam os perigos a que elas se expunham. Além, é claro, de permitir que uma jovem pudesse estar na companhia de companhia masculina sem alguém que a acompanhasse.

Em seguida, a lista do que fazer e não fazer na bicicletas.  Texto de 1895 do New York World foi sindicalizado e a foto abaixo mostra o texto no jornal de Chicago.  A lista e o artigo em que me baseio saíram no Brainpickings.  Traduzi um grande número das regras mas houve umas três delas que têm expressões de época não encontradas nos meus dicionários.  Divirtam-se.

——–

Não se amedronte.

Não desmaie na rua.

Não use um chapéu de homem.

Não use ligas apertadas.

Não se esqueça da bolsa de ferramentas.

Não se deixe levar sem tração é perigoso.

Não se vanglorie de longas viagens.

Não critique as “pernas” dos outros

Não use meias que chamem atenção.

Não recuse assistência quando subindo uma colina.

Não use roupas que não caibam bem em você.

Não use joias enquanto estiver na bicicleta.

Não entre em corridas.

Não use botas com cadarço.

Não imagine que todos estão a observando.

Não vá à igreja vestindo roupas de ciclismo.

Não use o chapéu de festa ao ar livre com suas calças.

Não conteste o fato de que bondes têm preferência.

Não coma goma de mascar.  Exercite suas mandíbulas em casa.

Não use luvas brancas de couro.  Seda é o costume.

Não pergunte, “O que você acha das minhas calças?”

Não use gíria de bicicleta, deixe isso para os rapazes.

Não saia à noite sem a companhia masculina.

Não saia sem agulha, linha e dedal.

Não tente combinar todos os itens de sua vestimenta.

Não deixe seus cabelo louro aparecer nas costas.

Não permita que o lindo cachorrinho a acompanhe.

Não acenda um fósforo no assento de suas calças.

Não converse sobre as calças com os homens que conhece.

Não apareça em public até que você saiba andar bem de bicicleta.

Não se canse, deixe que o ciclismo seja uma recreação e não um trabalho.

Não ignore as leis do trânsito porque você é uma mulher.

Não tente usar as roupas de seu irmão para saber como elas vestem.

Não grite se você der de cara com uma vaca. Se ela a vir primeiro, ela saira do caminho.

Não use tudo que é moderno porque você pode dirigir uma bicicleta.

Não imite a atitude de seu irmão se ele balança a bicicleta paralela ao chão.

Não tente um passeio longo se você não está confiante de que pode fazê-lo com facilidade.

Não dê a aparência de que você está procurando um recorde ou quebrar um recorde. Isso é competição.

Para mais informações visite o portal do Brainpickings, link acima.





Literatura como mensagem política, ainda funciona? E o feminismo?

31 05 2011

Moça lendo, s/d

Mikhail Vasilyevich Nesterov (Rússia, 1862-1942)

óleo sobre tela

No jornal The Independent da semana passada, Arifa Akbar no artigo Is feminism relevant to 21st  century fiction?  levantou algumas questões interessantes que pretendem determinar se o Feminismo ainda tem lugar na literatura contemporânea, ou melhor, na literatura do século XXI.

Qualquer produção literária que queira refletir uma posição política ou social corre o risco de ficar comprometida.  Isso serve para o feminismo, para o socialismo, para escrita revolucionária de direita ou de esquerda, e até mesmo para a literatura com a intenção de mudar dogmas pré-estabelecidos nas sociedades:  dos proselitismos religiosos ao missionarismo contra chagas sociais tais como o racismo, purificação das raças, opções sexuais que por mais perversos que sejam são melhor combatidos de outras formas.  O mesmo acontece quando um escritor é comissionado para escrever um romance em que alguma companhia seja a patrocinadora.

Melina de verde, 1930

Emma Fordyce MacRae (Áustria 1887- EUA, 1974)

óleo sobre tela

www.emmafordycemacrae.com

Um caso que me vem à lembrança é o da escritora inglesa contemporânea Fay Weldon. Conhecida por seus temas sociais e feministas, Fay Weldon — que ficou muito famosa com o romance The life and loves of a she-devil – [no Brasil, A Maligna, vida e amores de uma mulher-demônio, Art:1986] um retumbante sucesso no exterior, transformado em roteiro de filme [de menos sucesso]: Ela é o diabo, 1989, dirigido por Susan Seidelman —  aceitou, no início da década passada,comissão da famosa joalheria Bulgari para que fizesse – ao que tudo indica – um  “product-placement” em um de seus romances.  Isso se resume a um anúncio disfarçado de um produto, como quando as marcas de produtos de beleza, hidratantes e muito outros, aparecem nas novelas televisivas brasileiras, para citar um exemplo.  Fay Weldon foi fartamente criticada pela imprensa inglesa, especializada ou não.  O resultado foi um romance meio sem graça, Conexão Bulgari [Record, 2005].  Falo isso com pesar, porque admiro bastante o trabalho da autora que parece sempre estar antenada para assuntos que afetam o universo do comportamento feminino de maneira inteligente, crítica e bem humorada.

Mas a verdade é que em termos de romancistas feministas, Fay Weldon foi, e ainda é, relevante, assim como muitas de suas contemporâneas e sucessoras como Margaret Drabble entre muitas outras, que trouxeram, para um público muito maior do que aquele que lê ensaios sociológicos, o feminismo do dia a dia da mulher do século XX.  Quais outras escritoras contemporâneas conseguiram atingir a tantas mulheres que não se davam conta de que os problemas que enfrentavam eram o que se chamava de feminismo?  Fay Weldon estava dando voz a uma geração pós Doris Lessing, a verdadeira pioneira do feminismo literário na Inglaterra.

Hora da leitura, s/d

John Weiss ( EUA, contemporâneo)

Gravura, 30 x 28 cm

Sempre me senti em cima do muro quanto a feminização dos estudos nas artes.  Duas de minhas melhores amigas, que se formaram em história da arte comigo, tornaram-se especialistas em assuntos feministas, uma delas, hoje,  é diretora da Faculdade de Estudos Feministas de uma grande universidade americana.  E apesar de ter abraçado o movimento feminista com zelo, de ter pertencido à National Organization for Women, sempre achei que um momento chegaria, em que estas especializações não teriam mais sentido de existir.  Talvez fosse pura esperança, de que um dia o trabalho feminino fosse considerado do mesmo valor que o masculino.  Por outro lado, reconheço que até mesmo no fechado círculo dos historiadores da arte, muitas foram as mulheres pintoras e escultoras, cujos trabalhos, que não deixavam nada a desejar em relação aos dos seus colegas homens, só vieram a ser mais ou menos conhecidas  depois que algumas portas se abriram para a pesquisa de campo nesse setor.  Foram e ainda são décadas e décadas de dedicação nos porões de museus conhecidos à procura de artefatos dessas artistas plásticas, desbravadoras das artes.  E os resultados se acumulam.  E não teriam aparecido não fosse a dedicação, a devoção à uma causa, das historiadoras de arte feministas.  Um dos exemplos mais convincentes é o caso da pintora americana Mary Cassatt, que era considerada uma boa pintora impressionista americana, mas que só obteve o lugar de destaque que hoje exibe depois que houve abertura em dois campos de pesquisa que sofriam preconceito:  arte americana (EUA) — quando tudo o que era considerado bom era europeu; e arte por uma mulher, com temas exclusivamente femininos.  A abertura dos estudos feministas e de estudo da arte americana — a princípio muito esparsos — nas maiores universidades dos EUA só se deu mesmo a partir da década de 1970.  E o lucro cultural, além dos valores econômicos que essas “descobertas”  trouxeram é enorme, impossível mesmo de se calcular.  Para não se falar na auto-estima de metade da população do mundo.  O mesmo aconteceu na literatura: nos EUA duas escritoras “re-descobertas” foram Kate Chopin e Charlotte Perkins Gillman.  Dou exemplos dos EUA, porque foi lá que passei grande parte da minha vida profissional, mas o mesmo aconteceu na maioria dos países do ocidente.

Jovem mãe no jardim, s/d

Mary Cassatt (EUA, 1844-1926)

Acredito que nas artes visuais assim como nas literárias haja realmente uma grande diferença de enfoque entre os sexos.  Uma das minhas decisões mais radicais na década de 1990, foi no campo da literatura, eu não iria ler NADA, absolutamente NADA escrito por um homem.   Como leio muito, foi uma década de intenso perambular pela criatividade feminina.  E confesso que adorei, porque há uma diferença palpável na percepção do mundo, da realidade, da fantasia entre homens e mulheres.   O que nos preocupa não é necessariamente o que preocupa um escritor homem.  Menciono isso porque o artigo do jornal The Independent mencionado acima questiona se ainda há a necessidade de se ter um prêmio literário, nesse caso o Orange Prize, exclusivo para  escritoras mulheres. [O Orange começou em 1996 com o propósito de premiar escritoras mulheres, por sua excelência, originalidade.] Não sei.  Provavelmente ainda há.  Ainda que eu acredite — talvez até fantasie — que daqui a uns poucos anos essas divisões não sejam necessárias.  Exemplos das ganhadoras do Orange Prize mostram que o prêmio não foi em vão:  Barbara Kingsolver (2010), Rose Tremain (2008), Zadie Smith (2006).

Mas ao que tudo indica, pelo menos ultimamente, há um sentimento  de aversão, bem delineado, ao feminismo,  uma posição que se reflete na capa e no conteúdo do último número da Revista Granta, [nº 115],  que, numa alusão a um palavrão em inglês,  intitula esta publicação de  The F. word.   Nesse meio tempo, como lembrou Arifa Akbar, a Austrália considera inaugurar um prêmio literário exclusivamente para mulheres.  O que parece é que o Feminismo está mudando de cara.  A fase inicial de contestação e a fase de reconhecimento, pelo menos em alguns lugares do mundo, já se esgotaram.  Talvez não haja oxigênio suficiente para que o Feminismo sobreviva como o conhecemos.  Uma nova variação deve estar a caminho, sem alguns excessos, talvez mais inclusiva.  Talvez seja essa a variação a despontar.  Nada muito diferente da conhecida evolução Darwiniana.  Esperemos.

©Ladyce West, 2011








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