Antes do voo da ave, Fernando Pessoa

27 08 2018

 

 

 

sky-and-water-ii.jpg!LargeCéu e água II, 1938

M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)

Xilogravura

 

XLIII

 

Antes do voo da ave

 

Antes do voo da ave,

que passa e não deixa rasto,

Que a passagem do animal

que fica lembrada no chão.

A ave passa e esquece,

e assim deve ser,

O animal,

onde já não está

e por isso de nada serve,

Mostra que já esteve,

o que não serve para nada.

A recordação

é uma traição à Natureza,

Porque a Natureza

de ontem não é Natureza.

O que foi não é nada,

e lembrar é não ver.

 

Passa, ave, passa,

e ensina-me a passar!

 

 

Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.

 

 





“Chove. É Dia de Natal”, poema de Fernando Pessoa

4 12 2017

 

 

 

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Chove. É Dia de Natal

 

Fernando Pessoa

 

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

 

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

 

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

 

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

 

Em: Cancioneiro, Fernando Pessoa, Cyberfil: 2002 –  página 34





Um dia de chuva, poema de Alberto Caeiro

30 03 2017

 

 

Carmelo gentil Filho,(Brasil, 1955) São Paulo Antiga, ost, 60 x 80 cmSão Paulo antiga

Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

Um dia de chuva

 

Alberto Caeiro

 

Um dia de chuva

é tão belo

como um dia de sol.

Ambos existem;

cada um como é.

 

 

Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, página, 296

 

 





Nunca sei, poema de Alberto Caeiro

17 02 2017

 

 

 

carol-kossak-polonia-1845-brasil-1968-marinha-com-veleiros-oleo-s-tela-60-x-455-cm

Marinha com veleiros

Carol Kossak (Polônia 1845 – Brasil 1968 )

óleo sobre tela,  60 x 45,5 cm

 

 

 

Nunca sei

 

Alberto Caeiro

 

 

Nunca sei como é

que se pode achar

um poente triste.

Só se é por um poente

não ter uma madrugada.

Mas se ele é um poente,

como é que ele

havia de ser uma

madrugada?

 

 

Em:Poemas completos de ALberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, página, 243





Ó sino de minha aldeia, poema de Fernando Pessoa

24 11 2016

 

José Pancetti, Igreja do Senhor do Bonfim, 1945,ost, 46x38Igreja do Senhor do Bonfim, 1945

José Pancetti (Brasil, 1902-1958)

óleo sobre tela, 46 x 38 cm

 

 

 

Ó sino de minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro de minh’alma.

 

E é tão lento o teu soar,

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

 

Por mais que me tanjas perto

Quando passo, sempre errante,

És para mim como um sonho,

Soas-me na alma distante.

 

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto a saudade mais perto.

 

 

Em: Poesias, Fernando Pessoa, Lisboa, Ática, 1987, 12ª edição, p. 95-6.

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Sublinhando…

24 09 2015

 

 

albertvon-keller(Suiça)Lesende,1873,osm,18,5x13,5cmLeitora, 1873

Albert von Keller (Suíça, 1844-1920)

óleo sobre tela, 18 x 13 cm

 

“Onde pus a esperança, as rosas
Murcharam logo.”

 

 

Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Onde pus a esperança, 1920.





Sublinhando…

19 08 2015

 

Hubert-Denis Etcheverry - La dame en bleuSonho  [Dama em azul] c. 1930

Hubert-Denis Etcheverry (França, 1867-1950)

óleo sobre tela

Museu Bonnat-Helleu, Bayonne

 

 

“Por que fiz eu dos sonhos

A minha única vida?”

 

Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Contemplo o lago mudo.








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