A intrigante primeira frase…

27 04 2019

 

 

 

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Missa, s.d.

José Gallegos y Arnosa (Espanha, 1859 – 1917)

óleo sobre tela, 51 x 71 cm

 

 

“Muito tempo antes que descobrissem que ele tinha dois filhos com mulheres diferentes, um em Drimoleague e o outro em Clonakilty, o padre James Monroe usou o altar da igreja de Nossa Senhora, Estrela do Mar, paróquia de Goleen, West Cork, para denunciar minha mãe com puta.”

 

 

John Boyne em: As fúrias invisíveis do coração, Rio de Janeiro, Companhia das Letras: 2017, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.





Lendo: “Um velho que lia romances de amor”, Luís Sepúlveda

18 01 2018

 

 

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LENDO:

Um velho que lia romances de amor
Luís Sepúlveda
Ática: 1995, 94 páginas

SINOPSE:

O primeiro e mais premiado romance do chileno Luis Sepúlveda está de volta, após ser traduzido em inúmeros países. O autor baseia-se em sua experiência na Amazônia para contar a história de Antônio Bolívar, um homem que vai viver com a mulher na maior floresta tropical do mundo e aprende que a vida na selva não é para qualquer um. Ao sentir necessidade de se transportar para um universo idílico, longe da cruel realidade da vida, Antônio passa a se interessar por romances de amor.





Resenha: “O conto da aia” de Margaret Atwood

1 10 2017

 

 

the-wise-virgins-1965.jpg!HalfHDAs virgens sábias, 1965

Paul Delvaux (Bélgica, 1897-1994)

óleo sobre tela, 280 x 180 cm

 

Tenho uma longa história com O conto da aia.  Lá no final da década de 1980, quando ainda morava fora do Brasil, comprei esse livro em inglês.  Tentei  lê-lo uma vez e não consegui levar a leitura avante.  Mudei-me para o Brasil em 2002 e o livro veio comigo, junto a toda a biblioteca da casa, somos dois dedicados às humanidades, coisa que colabora imensamente para acumulação de livros.  Aqui tentei ler de novo, porque tinha amigos que insistiam que eu o fizesse.  Duas tentativas.  E não consegui levar a leitura adiante.  Sete anos depois, saí de um apartamento grande para um menor e sacrifiquei parte dos livros.  Lá foi ele, sem culpa.  Eventualmente achei um exemplar, no sebo, em português e tentei de novo.  Nada.  Doei-o para o camelô de livros usados do meu bairro (moro próximo à PUC, aqui os camelôs vendem livros).  Passaram-se os anos e meu grupo de leitura decide que este seria o livro na berlinda em outubro de 2017, já que há uma série na televisão baseada em seu enredo. Comprei em inglês no Kindle para que eu e meu marido pudéssemos ler e para que não ocupasse mais lugar nenhum na minha moradia.  Finalmente, sob coerção, fui do início ao fim.  E para a discussão de grupo, peguei emprestado um exemplar em português e passei horas tentando achar as frases que mais me impressionaram para podermos todos achar no texto durante a discussão. Resultado: li.  Achei que é um livro importante de ler.  Acredito que toda mulher deva lê-lo. Vou recomendar às minhas sobrinhas que o façam.  Mas confesso não tive prazer nenhum em degustá-lo.  Margaret Atwood que me perdoe.

Ainda estou sob o impacto da leitura. E muito próxima do texto para realmente poder analisá-lo.  É a obra mais misoginista que encontrei até hoje. É de arrepiar uma leitora. Mas talvez as citações possam falar por si mesmas.  Um livro como esse já foi chamado de ficção científica.  Hoje é mais comum falarmos de ficção distópica. Ou seja, ficção cuja trama, situada em um futuro não muito longínquo, mostra uma realidade repleta de privações, com futuro desesperador e opressivo. Trata-se da história da República de Gilead dominada por uma seita religiosa radical.  Nessa sociedade mulheres têm duas únicas funções: procriar e  ser de uso para homens.  As mulheres também não aprendem a ler.  Na verdade o conhecimento é privilégio de poucos: “Não existem mais revistas, não existem mais filmes …” [34]. As que não conseguem engravidar são consideradas dissidentes e levadas à morte. A orelha do livro registra que essa é a realidade no século XXI.  Essa visão sombria, com conotações apocalípticas é sufocante e permeia toda a obra, transformando-a numa gigantesca aventura asfixiante.  Barbaridades diversas são cometidas através do tempo. Já na primeira página a autora estabelece sutilmente o clima de  ansiedade: “Lembro-me daquele anseio, por alguma coisa que estava sempre a ponto de acontecer e que nunca era a mesma…” [11].

 

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Há horas em que esse mundo parece particularmente medieval, talvez pela crudeza dos eventos, talvez pelas limitações impostas aos habitantes de Gilead.  Essa referência à Idade Média também é sugerida por Margaret Atwood nas entrelinhas.  Nesta sociedade das massas comandadas como robôs há poucafé ou expectativa de uma vida melhor. As pessoas não têm a sensação de poder:  “Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos  não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.” [73] Nesta imagem, há, por exemplo, uma direta referência às ilustrações de manuscritos medievais, onde nas margens encontramos desenhos engraçados, animais diversos, pessoas nas tarefas mundanas, frades e cavaleiros enroscados em videiras floridas.  Nas margens tudo era válido.  Há muito simbolismo na narrativa algo que também remete aos textos medievais herméticos. Além disso, os nomes de mulheres Offred, Offglen, [Of Fred; Of Glen]  são semelhantes a denominações medievais em que o “dono” daquela pessoa é mencionado no nome de batismo, fato até hoje reminiscente em nomes nórdicos e russos: Adamson, Stephenson [filho de Adam, filho de Stephen] ou Kimmeldottir [filha de Kimmel] por exemplo.  Mais uma maneira sutil de acabar com a individualidade feminina.

A tensão emocional aparece quando há lembranças da vida anterior, e sonhos de como poderia ser diferente.  Se todos estivessem robotizados, nada aconteceria.  Mas é agonizante para o leitor, se colocar, como se coloca nessa narrativa em primeira pessoa, no lugar de quem tem flashes de memória de um mundo mais digno. “Eu gostaria que esta história fosse diferente. Gostaria que fosse mais civilizada. Gostaria que me mostrasse sob uma luz melhor, se não mais feliz, pelo menos mais ativa, menos hesitante, menos distraída por trivialidades. Gostaria que tivesse mais forma.Gostaria que fosse sobre o amor, ou sobre súbitas tomadas de consciência importantes para a vida da gente, ou mesmo sobre pores-do-sol, passarinhos, temporais e neve.” [317] Que tristeza! Que agonia!

 

MargaretAtwood1Margaret Atwood

 

O conto da aia é uma história de terror, muito pior do que qualquer livro de Stephen King.  Muito mais misterioso e estranho do que os contos de Edgar Allan Poe.  Há uma parte de mim que acredita que só uma mulher poderia ter escrito esse mundo aterrorizante da política de reprodução.  É um livro cruel. O desespero dessas mulheres que procuram entender o mundo em que vivem é grande: “Inalo o cheiro do sabão, o cheiro desinfetante, e fico parada no banheiro branco, ouvindo os sons distantes de água correndo, de descargas de vasos sanitários sendo puxadas. De uma maneira estranha sinto-me confortada, em casa. Há algo tranquilizador com relação a vasos sanitários. Pelo menos as funções corporais permanecem democráticas. Todo mundo caga,…” [301]

Se gostei da leitura?  Não.  Ela escreve bem?  Sim, muito bem.  É um livro que deve ser lido?  Sim.  Você o recomendaria?  Para todas as mulheres.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





A intrigante primeira frase …

26 03 2017

 

 

woman_in_the_kitchen_8x10_oil_on_board_framed_figurative__figurative__9679b5bfe7cf32bd2b13677008c05381Mulher na cozinha, 2016

David Larson Evans (EUA, contemporâneo)

óleo sobre placa, 25 x 20 cm

 

 

“Certo dia, quando Kit tinha dez anos, uma visitante cortou os pulsos na cozinha.”

 

 

Hilary Mantel em Mudança de Clima, Rio de Janeiro, Record, 1997. Frase da introdução.





A intrigante primeira frase…

6 03 2017

 

 

VICENTE ROMERO (Espanha, 1956) Leitura - Pastel - 60 x 81.Leitura

Vicente Romero (Espanha, 1956)

Pastel,  69 x 80 cm

 

 

“Meu irmão é adotado, mas não posso nem quero dizer que meu irmão é adotado.”

 

 

Julián Fuks em A resistência, São Paulo, Companhia das Letras:2015, página 9, primeiro capítulo, primeira página.

 

 

 





A intrigante primeira frase …

9 05 2016

 

1-hippo-watercolor-painting-juan-boscoIlustração Juan Bosco.

 

 

“O primeiro dos hipopótamos, macho da cor das pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009.”

 

 

Juan Gabriel Vásquez em O ruído das coisas ao cair, Rio de Janeiro, Objetiva: 2013, página 13, primeira frase, primeiro capítulo.





A intrigante primeira frase …

3 05 2016

 

 

Victoria FrancesIlustração de Victoria Frances.

 

 

“No final do dia do funeral de Felix Palmer, Ginny, a viúva, se deparou com Emma, a amante.”

 

 

Hilary Mantel em Mudança de Clima, Rio de Janeiro, Record, 1997. Primeira Frase, primeiro capítulo.





Cães famosos na literatura brasileira

4 01 2016

 

Puppies PaintingIlustração de Ian Ward. www.ianward.co.uk

 

 

 

Hoje passei os olhos num artigo sobre cães literários.  O artigo era americano. Citava o nome de alguns personagens cães que fazem parte da literatura americana. E que passaram a fazer parte da cultura americana em geral.  É claro que disparei para o Google procurando lista semelhante no Brasil.  Achei uma pequena e adicionei um ou outro nome de personagem literário canino, de que me lembrava.

Aqui vai:

 

Amigo Cachorro, Belmiro Braga

Baleia, Graciliano Ramos

Biruta, Lygia Fagundes Telles

Bruno Lichtenstein, de Rubem Braga

Firififi, Dalton Trevisan

Japir, José de Alencar

Madrugada, Orígenes Lessa

Mila, Carlos Heitor Cony

Perigo, de Domingos Pellegrini

Pingo-de-ouro, de Guimarães Rosa

Plutão, Olavo Bilac

Quincas Borba, Machado de Assis

Samba, Maria José Dupré

Tentação, de Clarice Lispector

Tusca, Marina Colasanti

Uno, Walcir Carrasco

Veludo, de Luiz Guimarães

Zig, Rubem Braga

 

Alguém se lembra de outros cães famosos?  Há de haver….

 

Adicionando sugestões dos leitores:

Floquinho, Maurício de Sousa

 





Resenha: “O leitor do trem das 6h 27” de Jean-Paul Didierlaurent

8 10 2015

 

Aliberto BARONI (Brasil, 1911-1994) - Figuras no bonde - OST -CIE - 50 x 70 cm.Figuras no bonde

Aliberto Baroni (Brasil, 1911-1994)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

 

Amantes da leitura em geral têm um fraco por histórias, romances, novelas em que livros são protagonistas ou fazem parte essencial da trama.  O leitor do trem das 6h 27 de Jean-Paul Didierlaurent já pelo título nos prepara para um deleite do gênero.  E é.   No entanto, essa é uma história cuja tema central talvez não seja livros mas o cultivo da amizade e do amor através da palavra escrita.

Sim, há um leitor que lê em voz alta páginas soltas de livros diversos, para uma plateia no trem da manhã. Muitos de seus ouvintes se encantam com as passagens escolhidas ao acaso: elas fazem a imaginação borbulhar, trazem excitação ao dia a dia e são capazes de preencher vidas que de outro modo poderiam ser alienadas. Um por um, cada ouvinte encontra sua verdade, sua história, na interpretação dos trechos de ficções  narrados pelo leitor do trem. É o que acontece com as irmãs Delacôte que eventualmente convidam o leitor do trem para sessões de leitura e entretenimento, para elas e amigos.

 

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Nesse pequeno romance de Jean-Paul Didierlaurent as palavras escritas são mágicas.  Elas são a chave do amor e da amizade.  Elas saram, purificam e restabelecem. Garantem companheirismo e fraternidade, benevolência e apego.  Os gestos de ternura, de simpatia, entre o leitor e seu colega Giuseppe, vítima de um acidente no trabalho,  são verdadeiras odes à mágica da palavra impressa. Até mesmo o leitor do trem, que solitário cultiva a companhia de um peixinho de aquário, eventualmente sucumbe à magia da palavra escrita e  por ela encontra o amor.

 

didierlaurentJean-Paul Didierlaurent

 

O mundo de Guylain Vignolles, funcionário de uma companhia de desencalhe de livros, parece inicialmente sem esperança, abjeto, rude e descortês.  Mas aos poucos testemunhamos os pequenos milagres, aqueles que acontecem quando prestamos atenção nas palavras impressas. E… surpresa!  Quase tudo se resolve. Hábil contador de histórias, Didierlaurent escreveu um conto de fadas para a nossa época. Há monstro, vilão, mágica, boas ações, madrinhas, princesa e final feliz. Que mais podemos querer para cultivar um bom astral?





Biografias são ficção, nada mais

17 06 2015

 

 

lendo segredosCarequinha e Bolinha conversam sobre o livro: Segredos

 

 

Fiquei muito feliz com a decisão da Suprema Corte do Brasil de permitir toda e qualquer biografia. Biografias, semelhantes a obras de outros gêneros são obras de ficção. E, portanto, proibi-las seria proibir a própria ficção. Demos um passo à frente para a cultura brasileira. Minhas razões para celebrar o evento se enraízam na convicção de que uma narrativa é sempre ficcional. Com exceção daquilo que podemos provar por equações matemáticas, todo o resto é narrativa.

Para uma historiadora isso é gritante. Ver os mesmos dados serem contados, interpretados por diferentes gerações e diferentes culturas, mostra de maneira explícita o quanto dependemos da visão e da interpretação de quem narra. Sei que posso resgatar dados, procurá-los, ir atrás de testemunhas. Posso encontrar pistas do que poderia ter acontecido, quer no passado distante, quer nas últimas 24 horas. Mas não posso nunca deixar de reconhecer que tudo, absolutamente tudo, é ficção. Nem mesmo duas pessoas que participam de um mesmo ato, conseguem narrar objetivamente aquilo que lhes aconteceu. Cada qual tem seu enfoque pessoal, cada qual vem de um lugar interno, pessoal, diferente. A subjetividade está sempre presente. E como não há memória sem narrativa, todo o passado em comum que temos como grupo familiar ou nação é subjetivo, é interpretação, é ficção.

Não há necessidade de vermos o mundo divididos em extremos: verdade x mentira. Nem tudo é branco ou preto. Tudo é cinza. Cinza porque nossa interpretação do que já foi cai indubitavelmente no subjetivismo do narrador.

Não há historiador objetivo. Não há relato objetivo. No momento em que um acontecimento, um fato, um evento passa pelo ser humano ele é subjetivo. Daí a minha satisfação de se permitir que a ficção continue no Brasil. Proibir a escrita de biografias, sobretudo daqueles que se colocaram como líderes musicais, políticos, sociais, para um grande público é proibir a maneira criativa de interpretação que fazemos deles.

Ganhamos todos com a decisão da Suprema Corte.








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