Oportunidades perdidas, texto de Rosa Montero

15 11 2014

 

ALICE BRILL - Casario - OST - CID - dat 1988 - 79 x 42 cm.Casario, 1988

Alice Brill (Alemanha/Brasil, 1920-2013)

óleo sobre tela, 79 x 42 cm

 

“A máquina reduziu a velocidade e entrou em Bernal bufando. Antônia olhou pela janela, ainda meio tonta: uma estação vazia e quente; um carrinho de menino abandonado na plataforma; mais além, por cima das cercas onduladas, as torres de cimento de um bairro em expansão.  Antônia nunca tinha descido em Bernal, e esta cidade era para ela como um cenário de teatro: o costume havia convertido todo o itinerário em uma sucessão de cromos planos, de modo que Valbierzo era só os azulejos quebrados da estação; Valones, o relógio de marco de madeira que estava pendurado em um poste; e Bernal, estas plataformas e a ponta das torres sujas de cimento.  Mas agora Bernal adquiriu volume de repente, e Antônia compreendeu, pela primeira vez, que a cidade se estendia além do fragmento que abarcava a janela: centenas de ruas que nunca havia pisado, milhares de pessoas às quais nunca tinha visto. Engoliu saliva, deslumbrada frente a imensidão do mundo.  E se descesse? E se ficasse aqui? O colossal da ocorrência deixou-a sem fôlego. O trem tremia com respiração hidráulica e os minutos de parada se consumiam rapidamente. E se me levantasse, tirasse a maleta do compartimento, saísse dali, descesse do vagão? Que vertigem, que desfalecimento, que emoção. Estava com a passagem de volta, 5 mil pesetas que Antônio tinha dado para a mãe, 1.200 pesetas suas, uma muda de roupa interior, uma blusa sobressalente, uma camisola, as pantufas, uma escova de dentes, um pente, pó compacto, os remédios que o médico tinha receitado, uma garrafinha de plástico com colônia, dois lenços, as meias de seda da senhora Encarna, um pequeno estojo de cretone com utensílios de costura, uma jaqueta para o caso de fazer frio, um tubo de aspirinas, uma estampa de Niño del Remédio, um envelope com tirinhas, uma revista feminina. E se descesse? Agora era diferente. Agora as mulheres iam e vinham sozinhas para todos os lados, e eram médicas, e advogadas, e até policiais. Imaginou-se de pé na estação vazia, agarrada à sua nécessaire, contemplando como o trem apitava e se perdia ao longe, o caminho de Malgorta; tentou ir além e ver a si mesma saindo da estação em direção ao desconhecido, mas a cena desapareceu: era incapaz de imaginar aquilo que não conhecia. A locomotiva apitou, anunciando a saída. Agora, agora ou nunca, Bernal aí fora, esperando-a, Bernal imensa, cidade fabril, seca cidade da planície. Agora, agora ou nunca, mas o vagão rangia, e já começava a deslizar e Bernal resvalava lentamente ao outro lado da janela e suas dimensões contraíam-se ate fechar de novo no cromo plano e conhecido.

Antônia encostou-se no assento e suspirou com decepção e alívio. O trem ia adquirindo velocidade e atravessava já colinas nuas a caminho de Ruigarbo. O rapaz continuava lendo com o livro apoiado na opulência de suas coxas, o avô cuspia os brônquios em um acesso de tosse, as freiras passavam as contas do rosário entre seus dedos, e Antônia, fechando os olhos, decidiu se unir a elas em suas rezas e começou a murmurar para si mesma o terceiro mistério doloroso.”

Em: Te tratarei como uma rainha, Rosa Montero, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2014, pp 84-86; tradução de Marcelo Barbão.

NOTA: Em espírito, este trecho me lembrou um dos mais interessantes contos de Henry James, A fera na selva, que no Brasil foi publicado como um romance, e nos Estados Unidos como um conto.  Se você não conhece essa obra de James vale a pena dedicar umas duas horas do seu tempo. É um trabalho muito importante.





A obra de ficção mais antiga do mundo!!!

14 11 2013

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Estandarte de UR, 2600 a.C.  [DETALHE]

Concha, calcário, lápis-lázuli e betume

Cemitério Real,Tumba Real, provavelmente do rei Ur-Pabilsag, Iraque.

Museu Britânico,Londres.

Você sabia que a história de ficção mais antiga que conhecemos  vem da Mesopotâmia? Pois os Sumérios, que ocupavam o vale entre os rios Tigre e Eufrates, uma região de solo muito fértil que hoje faz parte do estado do Iraque, foram os primeiros a desenvolver a escrita – escrita cuneiforme – por isso mesmo são os autores da primeira história de ficção, que se conhece.  A versão mais antiga que temos dessa obra é de 18 séculos antes da Era Comum [século XVIII a. C.]. Essa obra em versos, chama-se em português A epopéia de Gilgamesh, e conta a história de Gilgamesh e companheiro de aventuras Enkidu. Quando Enkidu morre, Gilgamesh se vê questionando a morte e sai à procura da vida eterna. Acredita-se que essa obra seja o resultado da compilação de diversos poemas e lendas tradicionais do povo sumério, contadas de uma forma poética. É aqui que aparece a primeira referência, anterior à da Bíblia, do Dilúvio Universal.

Há diversas traduções dessa obra para o português e também algumas versões para o público infantil.

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Você lê ficção brasileira?

10 09 2013

benoît van innisIlustração de Benoît van Innis.

Na semana passada foi divulgado na imprensa carioca, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que a literatura estrangeira foi o segmento editorial que mais cresceu em vendas no Brasil. 33% de livros vendidos no primeiro semestre deste ano  foram livros de ficção estrangeira.   Isso reflete um crescimento de 42%, sobre o ano passado, enquanto o mercado de vendas de livros de um ano para o outro cresceu muito menos, só 11%.

Os 30 livros de ficção mais vendidos no Brasil representam 36% das vendas. O poder de um best-seller internacional é bem forte, na pesquisa, feita pela companhia multinacional alemã GFK, ficou claro que sem as vendas do livro Cinquenta tons de cinza, da editora Intrínseca, a venda de ficção estrangeira teria vendido muito menos só 23% em vez de 42%.  Não há falta de leitores no país.  Não é uma questão de preço, porque os livros estrangeiros em geral são mais caros porque custam mais (considere-se direitos autorais e de publicação pagos em outra moeda e despesas com tradução).  O problema não é nem falta de leitores, nem falta de dinheiro.  Então, há uma pergunta que se faz necessária:

Por que os autores brasileiros de ficção não conseguem vender tão bem quanto os estrangeiros?

Fonte: Jornal O Globo, 27 de agosto de 2013.





As melhores frases de abertura de romance em língua portuguesa? Dê o seu palpite!

29 04 2012

Minie lê um livro de autoajuda, ilustração Walt Disney.

Neste domingo, o jornal inglês The Guardian publicou uma lista das dez melhores primeiras frases de romances em língua inglesa.  A lista — The 10 best first lines in fiction — faz parte da seção de entretenimento e cultura do jornal que costuma ter um viés leve e jocoso nos fins de semana.  O objetivo é fazer com que durante o tempo de folga você pense nas suas leituras, e principalmente nas frases que, ao introduzir uma história, o fizeram de tal maneira que a continuação da leitura se tornou inevitável.

A lista inglesa inclui as aberturas para : 1)  Ulisses (1922) de James Joyce; 2) Orgulho e preconceito (1813) de Jane Austen; 3)  Jane Eyre (1847) de Charlotte Brönte; 4)  As aventuras de Huckleberry Finn (1884) de Mark Twain; 5) The luck of the Bodkins (1935) de P.G. Wodehouse; 6) Earthly Powers (1980) de Anthony Burgess; 7) I captured the castle (1948) Dodie Smith; 8) The Bell Jar (1963) de Sylvia Plath; 9) A história secreta (1992) de Donna Tartt; 10) A ilha do tesouro (1883) de Robert Louis Stevenson. [ Mantive os nomes em inglês dos livros que acredito não terem sido publicados em português].

Pensando nesse entretenimento, comecei a fazer a minha própria lista.  Mas resolvi pedir auxílio dos leitores, porque não me acho tão capacitada para o trabalho.  Faço uma sugestão e espero que os leitores possam vir a contribuir com outras.  Lembrem-se: Só a primeira frase. 

Início da lista de primeiras frases de impacto na literatura de língua portuguesa:

1)

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS  (1881) – Machado de Assis

E a sua contribuição?

Aproveite o longo fim de semana e dê tratos à bola…




“Um caso de verão” de Elin Hilderbrand: um mundo de transgressões

26 04 2012

Os valsistas, s/d

Jack Vettriano (Inglaterra, 1953)

Raramente escrevo sobre um livro sobre o qual me sinto tão ambivalente.  Mas há alguns aspectos em  Um caso de verão, de Elin Hilderbrand [Bertrand 2011] que superam as características de que não gosto: 1) parece ter sido escrito com a possibilidade de um filme no futuro, de fácil revisão para um roteiro cinematográfico; 2) há quase tantos diálogos quanto narrativa e frequentemente esses diálogos não trazem informações necessárias, estão ali para imprimir uma leveza, um ritmo de leitura considerado mais fácil;  3)  tem todo o jeito de livro de mulherzinha.  No entanto, suas qualidades superam as birras com que convivi durante a leitura, e por isso, me posiciono aqui para explicar.

É um livro que demonstra as diferenças entre o amor e a paixão: no que se baseiam esses sentimentos, como eles se expressam e o que eles nos fazem fazer.  Paixão e amor são contrastados do início ao fim do romance através de Claire, nossa heroína, o único personagem realmente tridimensional na história.  Não estamos falando simplesmente de uma paixão amorosa, mas paixão pela profissão, pela sua arte, paixão por aquilo que nos tira o sono e  ao que nos dedicamos sem contar horas ou esforço; paixão que leva ao descontrole sobre nossas ações ou emoções.  Como o título retrata, Claire, dona de casa, mãe de quatro filhos, artista de vidro, bem conceituada, com peças em importantes coleções e museus do país, bem casada e ainda enamorada de seu marido, tem um caso, desenvolve, inexplicavelmente, uma paixão por outro homem com quem mantém um relacionamento extraconjugal.

As razões para isso, ainda que não especificamente mencionadas, são pequenas e provavelmente teriam sido contornáveis se Claire não estivesse passando por um momento de grande fragilidade emocional por ser considerada, e se sentir,  culpada pelo nascimento prematuro do último filho, consequência atribuída ao excesso de trabalho.  Mas seu trabalho, sua vocação, era sua paixão e percebemos isso quando depois de meses sem entrar no ateliê  para fazer esculturas de vidro ela se aproxima dele com reverência e volúpia, passando horas desenhando e pensando nas possíveis soluções para a encomenda que recebera.  A justificada permissão para trabalhar vem como uma dádiva, das mãos de quem aprecia sua arte, de um colecionador de arte, e era uma obra beneficente.  Ele, um benfeitor, um mecenas.  Quem não sabe que amar o meu trabalho é me amar?  Quem resistiria à uma pequena transgressão?

Ao fundo, nos relacionamentos do dia a dia, nas viradas de sorte corriqueiras do cotidiano temos um mundo de outros personagens que, como Claire, são transgressores de grande ou pequeno porte:  perdem dinheiro no jogo, bebem, coletam uma pequena fortuna em roubos de colarinho branco; personagens que se revelam na inveja e na maledicência.  Quem merece ser punido?  E como?  Por que motivo?  O padre católico não é capaz de responder aos questionamentos de Claire…  E assim, essa mulher, que tenta manter simultaneamente uma família e uma profissão, procura um ponto de equilíbrio entre o que faz e aquilo que acredita ser correto, vivendo, por um ano, no olho do furacão, no eixo centrífugo de um território transgressor.

Elin Hilderbrand

Frágil, meio-morta, meio-viva, Claire necessitava de algo mais do que a sua família para se sentir satisfeita, bem consigo mesma e sem culpa pelo nascimento prematuro de seu bebê, sem essa mesma culpa que a impulsionou à transgressão.  Claire toma suas decisões no final do livro, mas fica evidente que ninguém tem a resposta certa e que essa vai depender de cada um.  Por esse questionamento, por essas posições, sim, esse romance cresce e ganha em impacto.

Este livro foi a escolha do meu grupo de leitura para o mês de maio.  Andávamos muito cansadas de sagas familiares, de ficção histórica, da Segunda Guerra Mundial, de antissemitismo, enfim de uma série de livros pesados, que nos pareciam todos variações sobre um mesmo tópico.  Um caso de verão foi escolhido para virar uma esquina, para dar uma mexida num caminho que parecia repleto de desgostos sem fim e, de fato, ele nos trouxe uma dinâmica diferente e válida, principalmente por trazer à tona aspectos psicológicos importantes com os quais convivemos diariamente.  É leitura boa, rápida e ideal para um bom fim de semana chuvoso.





O pintor de letreiros, de R. K. Narayan, o conflito entre o novo e o velho

14 01 2012

Dia de feira, s/d
G. D. Thyaga Raj ( Índia, 1922-1981)
aquarela

Foi com grande prazer que descobri, no final do ano passado, o lançamento do romance O pintor de letreiros, de R. K. Narayan (Índia, 1906-2001), publicado pela Editora Guarda-Chuva:2011.   A apresentação de Narayan ao público brasileiro era devida e necessária.  Sua obra já está alinhada entre os clássicos da literatura indiana assim como da literatura de língua inglesa.  [Para ilustrar, a minha edição desse romance, em inglês – The Painter of Signs ––  foi publicada pela Penguin, coleção Clássicos do século XX, em 1982], tal é sua importância.

Muito de sua obra me atrai, mas principalmente o fato de não haver respostas aos problemas apresentados, não haver soluções fáceis.  Os romances de Narayan têm a característica de apresentarem no cotidiano, enfrentados por pessoas comuns, moradoras da fictícia Malgudi — um vilarejo que cresce, cresce até formar uma pequena cidade, isso através de volumes de sua obra –  e terminarem sem respostas fáceis.  Narayan é um daqueles escritores indianos formados na época em que a Índia ainda fazia parte da Comunidade de Nações Britânicas.  Sente-se em sua narrativa o contato íntimo com o melhor da literatura inglesa.   Entre essas características está o descrever de um todo, de um problema complexo, às vezes até político-social, pelos conflitos e resoluções de personagens menores,  mas que no final são quem realmente irão resolver, no dia a dia de suas fainas,  as mudanças necessárias para uma solução aceitável.  É o indivíduo, o homem comum, com todas as suas idiossincrasias que aparece agindo pelo todo.   É como se os romances fossem a respeito de nada, porque não há eventos, ações,  momentos grandiosos.  Não há heróis, nem grandes conquistas. Tudo parece muito corriqueiro e diário, mesmo quando se trata de uma mudança de grandeza social.  É com o homem comum, com a pessoa de pequeno porte, a formiguinha trabalhadora e mantenedora dos princípios sociais, religiosos e morais, é através desses personagens, tomando pequenas decisões, que  o romance e os leitores  se transformam.


E é o humor de Narayan que serve de porta de entrada ao nosso mundo e nos transforma. Com uma narrativa irônica e bem-humorada vemos, em O pintor de letreiros, as dificuldades de Raman.  Participamos de suas dúvidas, de seus anseios e principalmente de sua incompreensão a respeito da mulher amada.  Isso porque solteiro inveterado, na terceira década de vida, esse pintor de cartazes, educado na universidade, vê sua existência como exemplo de um ser pensante de uma racionalidade quase cartesiana.  Mas em seu destino aparece Daisy, a moderna, independente jovem trabalhadora que, com zelo missionário, tenta educar, persuadir e revolucionar os habitantes de pequenas cidades e vilarejos a usarem de planejamento familiar para controlar com sucesso os números do crescimento populacional da Índia.  Esta é a vida moderna.  A Índia de hoje.  Raman, não tem dificuldade nenhuma em aceitá-la.  Apaixona-se por ela… Moderna, instigante, livre, dedicada e inescrutável. Mas será que ela se apaixonaria também por alguém tão pouco fervoroso sobre o futuro?

Em casa, Raman tem o exemplo de outra nação.  Lá está diariamente sua tia, que dedicou toda sua vida à educação e ao crescimento de Raman emocional e intelectual, que se sacrificou pela família, pelos valores  e pela memória dos antepassados.  Com suas idas diárias ao templo, sua comida em forno de barro, com suas  histórias do passado, ela é o mundo de onde ele veio, a Índia com toda a tradição cultural milenar.  Preso entre dois amores, seu mundo desaba, não sem antes termos deliciosos momentos de humor e ironia na trama.

R. K. Narayan

Narayan nos dá a dimensão precisa das mudanças que ocorrem na Índia da década de 1970, quando por esforço governamental de grande magnitude, a necessidade de controle da natalidade foi colocada em destaque.  Ele nos mostra como a tradicional cultura indiana recebe essas mudanças.  São abordados assuntos complexos tratado numa linguagem clara, límpida, sem rebuscados artifícios.  Justamente por isso conseguimos pensar na complexidade de pequenas decisões diárias que afetam ou são afetadas pelo todo.   O charme de O pintor de letreiros é característico do autor: não está na trama – que é de uma simplicidade quase ingênua – mas nos retratos dos personagens, nas descrições que nos levam de início ao fim, às vezes com um tênue sorriso nos lábios, ocasionalmente um riso comedido e espontâneo, até o fim da leitura.

A publicação em português está excelente.  Vale a pena enriquecer as suas férias, os seus dias de verão, com essa leitura leve e significativa de um clássico autor indiano.





A noiva do tigre, de Téa Obreht, o folclore europeu em nova roupagem

29 09 2011

O tigre na floresta, 1891

Henri Rousseau, le Douanier ( França,1844-1910)

óleo sobre tela, 162 x 130 cm

The National Gallery, Londres.

Assim como milhões de pessoas hoje, cresci com as imagens dos contos de fadas dos desenhos animados de Walt Disney.  São encantadores apesar de estarem longe das histórias ouvidas e recontadas por nossos antepassados, reunidas no século XIX por Andersen ou pelos Irmãos Grimm.  Mesmo depois de ter o desenho animado Bambi rejeitado por educadores atuais, sob a alegação de triste demais para as crianças de hoje, podemos dizer que Walt Disney foi o precursor dos contos de fadas limpinhos, engraçadinhos, passados pela assepsia americana, histórias com maldades limitadas, sem crueldade, diluídas dos terrores de antanho, que a turma do politicamente correto, hoje, entende como o preferencial para a proteção emocional de nossas crianças.  É importante, no entanto, lembrar que a maioria dos contos de fadas tem raízes no folclore europeu, em crenças seculares, ainda vivas nas imaginações das pequenas aldeias, tecidas com os preconceitos culturais de séculos.   Essas antigas histórias refletem a cultura de povos que lutaram pela sobrevivência nos mesmos lugares, nas mesmas regiões geográficas, rejeitando bravamente invasores de outros grupos, outras tribos.  A repetição dessas histórias folclóricas,  até hoje é comum e muitas vezes o pouco que resta de uma identidade cultural, que luta para sobreviver.  São justamente essas lendas que adicionam grande encantamento à narrativa de A noiva do tigre, de Téa Obreht [Leya: 2011].

Esse romance parece um produto criado pela necessidade de honrar uma herança cultural rica,  de não deixar morrer a memória de um povo.  Passado na antiga Iugoslávia – que tinha aproximadamente a área total do estado do Piauí e hoje está subdividida em 6 países [Croácia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Macedônia, Sérvia e Montenegro e um protetorado da ONU Kosovo] – parece natural que o choque das guerras, o medo do extermínio, da perda da memória coletiva, esteja presente nos sobreviventes.  Mas o que surpreende nessa narrativa é a habilidade da autora de não situar o romance em nenhum lugar específico além dos Bálcãs, [ela nasceu em Belgrado, hoje parte da Sérvia]; não especificar a época [exceto que foi depois das guerras] e fazer a transição de uma possível narrativa realista para uma narrativa onírica sem emendas.  Um feito extraordinário.

No romance acompanhamos uma pequena viagem feita por Natália, uma médica, que tendo perdido o avô recentemente, aproveita a missão de inoculação de crianças de uma aldeia distante, para recolher os objetos de uso pessoal de seu avô que morreu longe de casa, num lugarejo de fácil acesso à cidade costeira onde a vacinação ocorre.  Nesse ínterim, ela relembra o avô, as histórias que ele contava.  E ficamos a par de alguns mitos e crendices que ainda estão presentes nos dias de hoje, relativos aos rituais de enterro e salvação das almas dos mortos.

Um fato curioso a respeito do texto é a linha de emenda entre o real e o folclore, entre as lendas e o que se passa no mundo moderno: um produto literário, O livro da Jângal de Rudyard Kipling.  Para os que, como eu, tiveram seus anos de juventude envolvidos com escotismo, a figura de Shere Khan, o tigre malvado e bandido das histórias contadas pelo escritor inglês, serve de imediato ponto de conexão entre o real e o imaginário.  A presença dessa obra literária em todos os capítulos do livro nos lembra da importância que uma história, que um conto, pode ter para o seu leitor e por fim, como a memória cultural é enriquecida por aqueles livros ou histórias que nos tocam, e que passam a fazer parte de quem somos.

Téa Obreht

A noiva do tigre foi o romance vencedor do prestigiado Orange Prize para ficção por autora mulher, este ano.  No Brasil, teve uma tradução fluente de Santiago Nazarian, mas teve também algumas falhas de edição que fazem o leitor ter reler para entender.  Cito aqui um único exemplo, mas existem outros. “Voltando de Zdrevkov, parei em Kolac para pegar as balas das crianças, segurando a caixa da loja de conveniência do posto de gasolina quando ia fechá-la.” [sic](página 191, abertura do capítulo 8).   Para os amantes de um romance da ficção fantástica esse é um excelente livro.  Para os que gostam de uma forte voz narrativa também.  Há poucos diálogos, e como nas histórias baseadas na memória oral, há alguma repetição.  Mas o encantamento prevalece.








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