A rua Paissandu, no Flamengo, na década de 1930 — Ronaldo Wrobel

16 09 2011

Rua Paissandu, no bairro do Flamengo, década de 1930, Rio de Janeiro.  Cartão postal.

Coloco aqui uma das muitas passagens evocativas da época de 1930, encontradas no romance de Ronaldo Wrobel, Traduzindo Hannah.

“Os bairros do Rio de Janeiro eram tão diferentes uns dos outros que se tinha a impressão de cruzar continentes dentro de um bonde.  Do Relógio da Glória para o sul, por exemplo, já não se viam as ruas abarrotadas e barulhentas do centro, com seus prédios encardidos e letreiros comerciais.  No centro, a pressa não tinha hora; já no Flamengo, a hora não tinha pressa.  O silêncio reinava nas ruas sombreadas por árvores onde senhoras puxavam seus cachorrinhos empertigados.  Carrões deslizavam suavemente entre palacetes não raro ocupados por embaixadas e repartições de alto nível enquanto, nas praças, babás uniformizadas tomavam conta de suas crianças promissoras. 

Max gostava de contemplar as palmeiras que ladeavam a rua Paissandu desde o Palácio Guanabara até a rua Marquês de Abrantes.  Aqueles troncos esguios tinham visto coches com marquesas e barões, broches e tiaras antes que o automóvel infestasse a cidade e a monarquia brasileira se exilasse em museus.  Pois as palmeiras da rua Paissandu não tinham se curvado à modernidade:  nenhuma república saberia roubar sua altivez ou a nobreza daquelas folhagens que se abriam como asas soberanas.  Perto dali ficava o campo do Fluminense com suas torcidas estrondosas.  A cada gol os pássaros disparavam dos galhos em revoadas que adentravam a saleta onde Max descansava ao fim do dia, instalado em sua bergère, ao som da risonha criançada que as mães só tiravam da rua depois da Hora do Brasil. Então escolhia um Haydn ou Mozart, deixando a agulha da vitrola surtir seus melodiosos efeitos enquanto comia algo leve na mesa da copa.  Puxava a manta depois das dez, lendo até adormecer no quarto de fundos, ninado pelos gatos vadios que, lá fora, se enroscavam na escuridão.

Dois andares, a nova casa de Max era grudada nas vizinhas feito irmã siamesa.  Custara uma pechincha porque um velho muito velho estava para morrer e os filhos queriam apressar o negócio, tendo aceitado a oficina da Praça Onze como parte do pagamento.  Inacreditável!  O resto Max ia pagando mês a mês avalizado por ninguém menos que o Capitão Avelar.  Perto da bergère, uma estante de jacarandá compunha com a mesa redonda deixada pelo antigo dono.  Max comprou quatro cadeiras de palhinha e uma fruteira de porcelana portuguesa sempre cheia de maçãs, laranjas e bananas.  Na cozinha mantinha as provisões de sal e açúcar que os vizinhos vinham-lhe pedir em cordiais incursões, para depois revisitá-lo com fatias de bolo ou pudim.   Calçava chinelos para não arranhar o parquê bicolor nem estragar o tapete arraiolo em seu quarto.  Agora, sim, Max tinha uma casa decente.”

Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel, Rio de Janeiro, Record:2010, Pp- 151-2





Boavista Sport Club: exemplo de gerenciamento para o futebol e para as artes

22 02 2011
Margarida e Donald vão a uma vernissage em Patópolis, ilustração Walt Disney.

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Meu primeiro emprego fora da sala de aula — diretora de uma galeria de arte, num centro cultural, uma ONG, nos EUA —  foi uma marco positivo na  minha vida profissional.  Nos quase 4 anos que fiquei por lá, aprendi muito sobre gerenciamento de projetos artísticos, coisa que nenhum dos cursos de graduação ou de pós havia pensado em me ensinar, por anos e anos.  Adorei.  Só saí de lá, porque fui morar na Argélia.  Mas nesse período eu, a galeria e a ONG ganhamos com as nossas diferenças, eu mais do que eles…

O objetivo da galeria era fazer a primeira exposição SOLO de um artista plástico que estivesse em início de carreira, mas que já estivesse a caminho de uma vida auto-suficiente nas artes.   A galeria não era o foco principal desse centro cultural, que também tinha um auditório para 120 pessoas, shows nos fins de semana, de música, principalmente jazz em suas inúmeras variações; uma companhia de teatro, formada por alunos e professores de teatro nas nossas próprias salas de aula; um laboratório de fotografia e cursos de fotografia (antes das fotos digitais); cursos de pintura a óleo, aquarela, desenho; cursos de música: violão e piano;  curso de jóias em prata e ouro; curso de encadernação de livros; cursos para a 3ª idade, das mais variadas matérias; e uma série de conferências às terças à noite de tirar o fôlego.  É claro tínhamos um bom bar e uma lojinha-boutique de presentes, não seria EUA sem essa última.

Localizados numa cidade universitária de 400.000 pessoas contando com os alunos,  a meio caminho entre Nova York e Miami, o centro cultural era onde músicos se apresentavam de maneira íntima, quando em turnês.  Pequeno, liberal, criativo o centro cultural era estimado pelos artistas por sua concepção informal e por facilitar uma apresentação, além de um dinheirinho,  nas viagens entre o norte e o sul do país.  Funcionávamos quase 24 horas por dia, porque precisávamos pagar salários, fazer manutenção diária de limpeza das instalações à pintura de paredes, promover os eventos.   A manutenção estava entre os nossos maiores gastos, e além das pessoas pagas, todos nós ajudávamos.  Era essencial: ninguém gasta dinheiro num show ou numa peça de teatro, ninguém compra uma obra de arte ou passa horas-dias num curso  num lugar emporcalhado, sem trato.

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Pateta faz a limpeza do sótão de sua casa, ilustração Walt Disney.

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E precisávamos aumentar a renda sempre.  Isso porque queríamos expandir, melhorar a nossa programação, continuar vivos.   Um grupo criativo sempre aparece com novas idéias do que fazer.  O problema é: como? e com que dinheiro?   Tínhamos algumas fontes de renda essenciais vindas de organizações filantrópicas, e doação em dinheiro ou em materiais de companhias nacionais, locais e de indivíduos.  A importância de fontes de renda de organizações filantrópicas era tão grande que havia uma pessoa paga pela ONG o ano inteiro para competir — por 365 dias, 24 horas, 7 dias por semana – pelo apoio dessas instituições, preenchendo papelada para competição de bolsas governamentais ou daquelas oferecidas por fundações.  Tínhamos também um contador que – porque eu estava sempre do lado que gastava — me parecia um capataz de fazenda cafeeira, que com o chicote na mão: não deixava nada sair do controle, nem por um único mês.  Qualquer projeto que fizéssemos tinha que responder às perguntas iniciais: Quem? O quê? Quando?  Quanto se gasta?  Lucro estava sempre à vista.  Sim, tínhamos que ter lucro.  Éramos uma organização não-lucrativa, mas isso não quer dizer que não iríamos ter lucro para pagar pelos nossos gastos.  Só porque éramos uma ONG, não justificava que se tivesse a intenção de perpetuamente depender do dinheiro alheiro.  Na verdade, a maioria das instituições filantrópicas que nos sustentavam, requeriam que pudéssemos provar que tínhamos condições de nos sustentar.  Senão, não nos dariam apoio.

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Tio Patinhas toma um banho de dinheiro revigorante, ilustração Walt Disney.

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Lembrei-me dessa época, no sábado, 19 de fevereiro, quando li no jornal O GLOBO, caderno de Esportes, o artigo de Carlos Eduardo Mansur — Boavista, um produto em exposição. [não achei o artigo na internet, ainda que o jornal tenha uma versão virtual.] Mansur comenta que o Boavista – que disputará com o Flamengo o título pelo Campeonato Carioca de 2011 —   é um time pequeno que tem surpreendido a todos.  Mansur lembra que o time é diferente dos demais por ter como objetivo a venda de jogadores, por isso, fazer uma boa partida, mostrar a que vieram, está na pauta do projeto do clube.

O sucesso de qualquer empreendimento depende de se entender bem, seu principal objetivo. E depois, gerenciá-lo.  Isso feito, as forças do universo colaboram com você.  Por que a maioria dos empreendedores quando em palestras sobre abertura de negócios enfatiza que se escreva a META da empresa?   Porque ajuda seus donos a sempre se lembrarem do que é necessário ser feito, para não se perder o rumo.

O que o Boavista tem que parece diferente dos outros times cariocas?  É gerenciado como uma empresa que precisa ganhar dinheiro: a Big Ball.  Esta empresa, que controla o time desde 2004, é formada por 3 investidores.  A exemplo de muitos times europeus, a Big Ball gerencia os  profissionais do futebol,  paga seus salários em dia, e investe no bem estar de seu maior patrimônio: o jogador.

É impossível saber através do artigo se Carlos Eduardo Mansur aprova esse sistema.  Seus parágrafos iniciais deixam dúvida:

Quem lançar um olhar objetivo, prático, despido de romantismo, poderá concluir que a chegada do Boavista à semifinal da Taça Guanabara consagra um momento empresarial de fazer futebol.  Um olhar purista talvez reprove uma organização em que o resultado meramente esportivo não é o propósito final.  Seja qual for a corrente de pensamento, uma coisa é certa.  No Boavista, não há rodeios...”

Ora, ora, o futebol, assim como as artes plásticas, é um grande negócio.  O romantismo não cabe na gerência de qualquer um desses empreendimentos.   No futebol, deixemos o romantismo para os torcedores, nas artes ele fica com os compradores.  O erro está em pensar o contrário.

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Pateta joga uma pelada, ilustração Walt Disney.

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Vamos “dar uma espiadinha” nos nossos preconceitos.  Historicamente, em terras lusitanas, quem podia lucrar, fazer dinheiro, eram os nobres e o rei.  Por idiossincrasia, esses não podiam mostrar que se interessavam por ele; nem mesmo levavam uma moeda, que fosse,  consigo mesmos.  Fora eles, quem fazia dinheiro eram os que o emprestavam aos nobres e ao rei, com juros: os judeus, párias da sociedade, mas indispensáveis.  Essa premissa nos levou a considerar – entre outros parâmetros de origem religiosa – que o dinheiro não só era sujo como não deveria estar envolvido com aquilo que realmente amamos.  Puxa, que carma!

Assim, o futebol, por atrair as nossas paixões, não precisa ser levado a sério a ponto de pagar seus jogadores em dia, de requerer um comportamento socialmente responsável de seus ídolos.  Que não paga, não tem moral para exigir nada.  Exemplos abundam à nossa volta de times que são irresponsáveis com seus caixas.  Nas artes, vemos pretensos centros culturais – mantidos com dinheiro alheio — entregues às goteiras, às moscas, aos ratos, porque “denigre” as artes, a preocupação com o dinheiro.  Em ambos os casos a porta para a falcatrua, para o mal gerenciamento, para a pobreza de espírito, para as panelinhas  fica entreaberta, senão escancarada.

Teremos dado um grande passo para o desenvolvimento cultural no Brasil, quando considerarmos nossas organizações artísticas, a exemplo do Boavista Sport Club, um empreendimento que pelo menos seja auto-sustentável.

©Ladyce West, 2011








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