“Jacinto”, texto de Eça de Queirós

16 07 2018

 

 

8547f88f72ecad7dc93a8994f80218bcFotografia de jovem desconhecido, século XIX.

 

Jacinto

 

Eça de Queirós ou Eça de Queiroz

 

Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta. ca[ia em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléa, orquídea ou tulipa. fundidas numa mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.”

 

[Exemplo de Retratos Descritivos]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 74.





O ideal de nhonhô, texto de França Júnior

9 05 2017

 

 

Timotheo da Costa, Menino, ostMenino

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre madeira

 

 

O ideal de nhonhô

 

França Júnior

 

“Eu era pequeno e rechonchudo, como uma bola. O nariz escondia-se-me entre as bochechas e não havia mostrado ainda essa tendência para disparar pela cara, como aconteceu mais tarde. Pediam-me beijos e diziam, segurando-me no queixo: “Que menino bonito!”  — Não se riam, a gente daquele tempo não era lá das mais exigentes. O meu ideal, em ser republicano, era o da liberdade sem limites. No dia em que o grito de: férias! ecoava quatro cantos do colégio, uma sensação inexprimível se apoderava de todo o meu ser.  Férias! Nessa palavra mágica não se encerrava só a ausência de palmatória e o abandono dos livros, mas principalmente a roça com todos os seus prazeres e encantos. Quinze dias a correr pelos campos, a perseguir como um louco as borboletas azuis, virar cambalhotas na relva, adormecer extenuado à sombra do arvoredo, tudo isto bulia-me por tal forma com o sistema nervoso que eu sentia comichões em todo o corpo e não podia estar cinco minutos sem dizer: “Chi! Que belo! Vamos amanhã! Tomara que fosse hoje já! Trá la´lá, lá li, li!”

 

[Exemplo de narrativa com retrato]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 234.

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O cavalo sertanejo, texto de Gustavo Barroso

29 09 2015

 

 

ANTONIO PARREIRAS - (1860 - 1937) - Cavalo - osm - 50 x 70 - cidCavalo

Antônio Parreiras (Brasil, 1860-1937)

óleo sobre madeira, 50 x 60 cm

 

 

O cavalo sertanejo

 

Gustavo Barroso

 

O cavalo sertanejo é esguio, sóbrio, pequeno, rabo compridíssimo, crinas grandes, capaz de resistir a todas as privações, a todos os serviços e a todos os esforços. É o melhor auxiliar do vaqueiro e ele o estima e trata com o maior carinho. O cavalo do sertão é feioso como um corcel quirguiz. Lá uma vez aparece um exemplar bonito, esbelto, alto. Não tem saracoteios, nem saltos, nem corcovos, salvo quando espantadiço. O olhar só brilha quando se apresenta ocasião de correr; depois as pálpebras murcham numa sonolência lassa. É ativo e parece ronceiro; forte e parece fraco; ágil e parece pesado. É pasmosa a sua agilidade. Nos imprevistos das furibundas carreiras pelos matos em fora, salta galhos baixos, mergulha sob os altos, alonga-se, encurta-se, pula de lado, faz prodígios.  É necessariamente baixo para essas ligeirezas; a aridez do clima não produz outro. É raridade um animal de sete palmos do casco à cernelha. O meio torna-o sóbrio e magro. Passa dias sem comer, quase sem beber. Num dia faz quinze léguas, puxando um pouco; dez faz normalmente. É manso; quando o cavaleiro cai, para ao lado.

 

[Exemplo de descrição de animal]

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 85.





O arroz doce, texto de Eça de Queiroz

27 05 2015

 

 

Joseph Clark (British artist, 1834-1926) A Christmas Dole 1800sBonus de Natal

Joseph Clarke (Grã-Bretanha, 1834-1926)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

O arroz-doce

 

“Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a ideia patriarcal:

-Arroz-doce! Está escrito com dois ss, mas não tem dúvida… Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.

Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingênua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:

Ad Manes, aos nossos mortos!”

 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras

[Exemplo de Narrativa Descritiva]

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 194.

 

NOTA: Ad manes é a abreviação da expressão em latim Ad manes abiit, que significa: Aos mortos, aos que morreram.








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