Da minha mesa de trabalho

31 10 2016

 

 

dsc01530Nesta semana, cravinas com pétalas de bordas vermelhas na leiteirinha da minha avó.

 

Primavera. Para mim neste apartamento isso significa FORMIGAS. De onde elas vêm? Acho que de dentro das paredes. Essas flores, que você vê na foto são foco e atenção de diversos tipos de formiga. Minha mesa parece organizada e limpinha? Porque todos os dias limpo sua superfície com álcool e mais de uma vez por semana, passo remédio contra formigas? Já passei horas seguindo caminhos, longas filas de trabalhadeiras… que desaparecem aqui ou ali, por debaixo de um rodapé, na fresta de uma janela de correr. Vai que um dia o edifício, que esconde tantos seres cai por causa dos formigueiros dentro dele?

As flores que compro as atraem. Principalmente as flores, como essas cravinas, que têm uma coloração artificial: as bordas vermelhas. Fora os crisântemos brancos, praticamente todas as outras flores, coloridas e alegres, chamam para si formiguinhas famintas, que encontram os caminhos mais trabalhosos para chegar os seus caules.

As Formigas é o título de um livro de grande sucesso de Bernard Weber. Ficção científica em três volumes. Eu estava prestes a dizer que não gosto de ficção científica, mas não é verdade. Gosto. Mas sou muito seletiva. Gostei de Haruki Murakami 1Q84, que considero uma das obras primas deste século. Gostei de Fahrenheit 451, que li há muitos anos. E de muitos outros. Fiquei no primeiro volume dessa série chamada O Império das Formigas. Mas muitos leitores que conheço gostaram. O autor nos mostra como elas construíram um universo paralelo. Não consigo parar de pensar neste livro enquanto me defendo diariamente das tropas invasivas de formigas na minha mesa de trabalho. Chamemos as papa-moscas, as lagartixas e demais controladores da super população de formigas, porque assim como está não dá.

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Livros lidos, esperando respectivas resenhas:

A garota do trem — Paula Hawkins

A última palavra — Hanif Kureishi

Guerra de gueixas — Nagai Kafu

Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie

O fuzil e a caça — Yasushi Inoue

Enclausurado — Ian McEwan

Dois extras:

Lido há anos e aqui para textos no blog:

As confissões do meu tio Gonzaga, de Luís Jardim.

Leitura no meio —

Night of Many Dreams de Gail Tsukiyama

Sem aparecer na foto, mas lendo no Kindle:

Sapiens:uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari

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Formigas históricas, texto de Viriato Corrêa

2 05 2012

São Luiz do Maranhão, s/d

Fernado Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

Pintura

http://casteloartes.blogspot.com.br/

Formigas históricas

Viriato Corrêa

Naquele primeiro decênio do século XVIII os frades capuchinhos do Convento de Santo Antônio de S. Luiz do Maranhão estavam de um azar horrível.

A horta, a linda horta que cultivavam na gorda e vasta terra do quintal do convento, não dava positivamente nada. A couve era pouca para a sopa e os cozidos, o repolho não chegava sequer a arredondar, o cebolinho não medrava, a alface, o nabo, a bertalha — uma miséria.

E tudo isso por que? Porque as malditas saúvas, as infernais formigas, proliferavam assustadoramente por todos os cantos do terreno dos frades.

Era uma canseira aquilo. Quando a plantinha ia começando a viçar, quando os tomates, os pepinos, a alface, o coentro, a celga, tudo ia dando os primeiros sinais de vida, zás!  lá vinham as formigas e, numa noite, inutilizavam o trabalho de um mês inteiro. Um inferno.

O superior dos capuchinhos fez tudo que era humanamente possível fazer contra formigas: regos em roda dos canteiros de plantas, figi à boca dos buracos, água abundante na “panela mestra” dos formigueiros, mas tudo foi inútil. As formigas desapareciam por uns dias, por semanas, mas voltavam sempre, cada vez mais numerosas e cada vez mais daninhas.

Da horta já tinham passado para o pomar. As laranjeiras ficavam peladas de dia a dia, os tamarindeiros não tinham mais folhas, as jaqueiras já não vingavam uma carga. Um pavor!

Os frades reuniram-se, conferenciavam, tramavam, rezavam à beira dos formigueiros, mas tudo baldadamente. O demônio das formigas voltavam, voltavam sempre, às fieiras, aos milhões, destruindo e devastando.

Uma manhã o irmão dispenseiro acordou alarmando o convento.  Estava tudo perdido para a comunidade capucha de S. Luiz do Maranhão!  As formigas agora já se não satisfaziam com o pomar e a horta.  Tinham invadido (parecia incrível, mas tinham!) a despensa da ordem e estavam (que raios de formigas!) a furtar, rigorosamente a furtar, a farinha com que os frades faziam os seus ricos pirões!

Ilustração: desconheço a autoria.

A fradalhada pôs as mãos na cabeça.  Aquela perseguição dos diabólicos himenópteros iria até à destruição total da Ordem no Maranhão. Era o cerco com todos os característicos, era o assédio da fome.

E os frades vieram à despensa verificar o estrago.  Um deles solta um grito aterrador.  A desgraça não estava somente no furto da farinha: as formigas cavavam os seus buracos, afundavam as suas “panelas” debaixo dos alicerces do convento, e as paredes abaladas nos fundamentos, acabariam por vir abaixo, mais tempo menos tempo.

Aquilo era uma invasão de propriedade!  aquilo era o esbulho de um direito!  Para as situações extremas as extremas medidas.

E qual o remédio? Processar as formigas, e processá-las judicialmente. Talvez que a autoridade do juiz desse um remédio aquele abuso.

E os frades capuchos propuseram a ação no foro eclesiástico de S. Luiz. Quanto à data da propositura da demanda não há nenhuma segurança histórica. João Francisco Lisboa*, que teve o processo nas mãos e que dele tirou uma cópia, não lhe encontrou as primeiras folhas.

O processo segue a marcha regular dos processos comuns. Os frades oferecem a acusação e testemunham-na. São pobres, vivem de esmolas e estão sendo insistente e irremediavelmente lesados pelas formigas “animais de espírito contrário ao Evangelho”. As formigas não só os roubavam, tirando-lhes o pão da boca com a destruição da horta e do pomar e subtração da “farinha de pão guardada para o cotidiano abasto da Comunidade”**, como também os queriam expulsar de casa. E terminavam pedindo que fossem mortas as formigas.

O juiz nomeia um curador para as rés. Este, a 17 de janeiro de 1713, contradiz as testemunhas apresentadas pelos frades. As testemunhas são irmãos terceiros da Ordem de S. Francisco, ligados intimamente aos capuchinhos e, portanto, suspeitas de parcialidade.

A 24 do mesmo mês e do mesmo ano o juiz, o padre vigário geral, o licenciado José Teixeira de Morais, despreza os embargos de contradita oferecidos pelo procurador das formigas.

Antes, em dezembro do ano anterior, tinha havido a inquirição das rés.  Cinco testemunhas foram por elas apresentadas.  De uma delas conserva-se o nome – o capitão Urbano Rodrigues – que, no tempo, dizia ter 94 anos de idade. É uma testemunha a valer. Afirma que as formigas não podem ter malícia nenhuma no prejuízo que estão dando aos frades, pois que não há nelas o uso da razão, visto que são irracionais e, pelo que se sabe, os irracionais não conhecem a diferença do bem e do mal.  Afirma ainda que elas eram naturais da terra: sempre ali viveram, sempre se espalharam por todos aqueles lugares da cidade e dos matos e que (aí é que, segundo a gíria moderna, “matou os frades na cabeça”) quando os religiosos ali chegaram, já ali estavam as formigas.

Ilustração do livro “Palestina Pitoresca”, sem notação de autoria.

Começaram os debates escritos nos autos.  O procurador dos capuchos faz carga sobre as destruidoras dos haveres do convento; o procurador das rés defende-as rigorosamente.

A defesa citada pelo padre Manuel Bernardes é interessante. O Criador dera às formigas o benefício da vida, elas tinham portanto o direito de conservá-lo por aqueles meios que Deus lhes ensinara. Que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes que acautelando os futuros, e guardando para o tempo de necessidade: “Formicae populus infirmus qui proeparat in messe cibum sibi”.

E mais: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o dos frades em ajuntar, porque a carga era muitas vezes maior que o corpo, e o ânimo que as forças. Que, apesar dos frades serem mais nobres e dignos do que as rés (para os autores da ação este argumento devia ter sido decisivo) diante de Deus não passavam eles de miseráveis formigas. As rés não estavam a usurpar direitos: quando os capuchinhos ali chegaram, já elas ali viviam e que, portanto não deviam ser esbulhadas e, se isso fosse tentado,  “apelariam para a coroa a regalia do Criador que tanto fez os pequenos como os grandes, e a cada espécie deputou seu anjo conservados”.

E finalmente: a terra era de Deus e não deles, os frades.

Passam-se seis meses.  Há como uma pedra em cima da demanda.

As formigas, ao que parece, teimam em destruir os cebolinhos, os nabos e os repolhos dos frades. Eles continuam a ação. Recomeçam-na requerendo a reinstauração da instância perempta. O vigário forâneo, o licenciado Manuel Homem, defere-lhes o pedido.  Procede-se a diligência. A certidão, João Lisboa fez conhecida:

“ Eu, escrivão do eclesiástico, abaixo assinado, fui ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, e sendo lá na sua cerca, citei as formigas em sua própria pessoa por todo o conteúdo da petição e despacho acima, lendo-lhes tudo verbum ad verbum, havendo-lhes nesta forma a citação por feita, em fé do que passei a presente em S. Luiz 19 de junho de 1716 – Joseph Guntardo de Backmannz”.

Pelo que diz o padre Manuel Bernardes, a demanda foi até a sentença final. O juiz determinou que os frades sinalassem dentro da cerca do quintal do convento, um lugar para as formigas viverem e que estas, sob pena de excomunhão, não mudassem de vivenda, “visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo”.

“Lançada a sentença, é o autor da Nova Floresta quem escreve, foi o religioso, de mandado do juiz, intimar, em nome do Criador, aquele povo, em voz sensível, nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso, e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor, de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum! Imediatamente: It nigrum campie agmen, saíram a toda pressa milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e, livres de sua molestíssima opressão, aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação do seu poder de providência.”

Frade no jardim, gravura italiana 1416.

Nada disso é verdade.  A demanda das formigas não foi até a sentença final.

João Lisboa, que estudou o processo, afirma no Jornal de Timon que a questão  parou a 20 de junho de 1714, quando é nomeado o novo curador ad litem para as formigas. Parou no termo de vista dado ao procurador dos frades.

E há uma circunstância interessante para mostrar a falsidade das afirmações do grande estilista português.

Em 1714, nos autos da demanda das formigas, ainda se escreviam termos de vista às partes e, a Nova Floresta, onde vem a narração do feito, impressa em Lisboa de 1706, já conta da sentença final.

A demanda das formigas houve.  João Lisboa teve-lhe os papéis nas mãos cento e cinquenta anos depois.

Por onde eles andam agora é o que ninguém sabe.

Em 1860, mais ou menos, frei Vicente de Jesus deu-os de mimo a um particular.***

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*           João Lisboa — Jornal de Timon.

**         Padre manuel Bernardes — Nova Floresta.

***       João Lisboa — Obra citada.

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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956





As formigas — texto de Coelho Neto [trecho]

17 03 2009

krakatoa-butterfly_net-jason-chinIlustração: Jason Chin

 

 

 As formigas

        A sombra d’uma faia, no parque, enquanto o príncipe, que era um menino, corria perseguindo as borboletas, abriu o velho preceptor o seu Virgílio e esqueceu-se de tudo, enlevado na magia dos versos admiráveis.

        Os melros cantavam nos ramos, as libélulas esvoaçavam nos ares e ele não ouvia as vozes das aves nem dava pelos insetos: se levantava o s olhos do livro era para repetir com entusiasmo, um hexâmetro sonoro.

         Saiu, porém, o príncipe a interrompê-lo com um comentário pueril sobre as pequeninas formigas que tanto se afadigavam conduzindo uma folhinha seca; e disse:

         –– Deus devia tê-las feito maiores.  São tão pequeninas que cem delas não bastam para arrastar aquela folha que eu levanto da terra e atiro longe com um sopro.  

 

  

 

formiga-christine-penkuhn-brasil-ost

Ilustração:  Christine Penkuhn

 

        O preceptor que não perdia ensejo de educar o seu imperial discípulo, aproveitando as lições e os exemplos da natureza, disse-lhe:

        — Lamenta V.A. que sejam tão pequeninas as formigas…  Ah! Meu príncipe, tudo é pequeno na vida: a união é que faz  a grandeza.  Que é a eternidade?  Um conjunto de minutos.  Os minutos são as formigas do Tempo.   São rápidos e a rapidez com que passam fá-los parecer pequeninos, mas são eles que, reunidos, formam as horas, as horas os dias, os dias compõem a semana, as semanas completam os meses, os meses perfazem os anos, e os anos, Alteza, são os elos dos séculos.

        Que é um grão de areia?  Terra; uma gota d’água?  Oceano; uma centelha?  Chama; um grão de trigo?  Seara; uma formiguinha?  Força.

        Quem dá atenção à passagem de um minuto?  É uma respiração, um olhar, um sorriso, uma lágrima, um gemido; juntai, porém, muitos minutos e tereis a vida.

        Ali vai um rio a correr – as águas passam aceleradas, ninguém as olha.  Que fazem eles na corrida?  Regam, refrescam, desalteram, brilham, cantam e lá vãp, mais ligeiras que os minutos.

       Quereis saber o valor de um minuto, disso que não sentis como não avalias a força da formiga?  Entrai de mergulho n’água e tende-vos no fundo – todo o vosso organismo, antes que passe um minuto, estará protestando, a pedir o ar que lhe falta.  Ora!  O ar de um minuto, que é isso?  Direis.  É a vida, Alteza.

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EM: Coelho Neto e a ecologia no Brasil 1898-1928, ed. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002,

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Outros textos sobre formigas neste blog:

Olavo Bilac,





Malandragem não tem vez no formigueiro!

11 01 2009

ants_gather-chris-shafer

Ilustração Chris Shafer.

 

O formigueiro tem muitos diferentes tipos de formigas.  As trabalhadoras em geral não se reproduzem para poderem cuidar dos filhotes da rainha.  Um grupo de pesquisadores da Alemanha e dos EUA descobriu que algumas matérias químicas produzidas por algumas formigas “trapaceiras” deixavam estas formigas férteis.  

 

Eles estudaram a espécie Aphaenogaster cockerelli aplicando um produto sintético (típico das formigas férteis) em formigas trabalhadoras.  Nas colônias em que a rainha estava presente, as formigas com o químico da fertilidade foram atacadas, mordidas, puxadas e aprisionadas por suas colegas.  Mas, o mesmo não aconteceu nas colônias em que não havia nenhuma rainha.  

 

As formigas que não obedecem às regras sociais são punidas.  A restrição à reprodução afeta diretamente na harmonia social do grupo.  Dr. Jürgen Liebid, da Universidade de Arizona, lembrou que o sistema social harmônico depende sobretudo da prevenção e da punição daqueles que queiram burlar o sistema, uma regra que pode ser aplicada às sociedades bem sucedidas.

 

BBC

 

Outros textos neste blog sobre formigas:

 

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