Imagem de leitura — Marie Laurencin

31 10 2019

 

 

 

ca6da85148ef85783f133a240b79cd77A leitora

Marie Laurencin (França, 1883 -1956)

óleo sobre tela, 27 x 22 cm

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

18 09 2019

 

 

 

Emmanuel_Zamor_-_Alho-porro_s.d.Alho-poró, s. d.

Emmanuel Zamor (Brasil/França, 1840 – 1919)

óleo sobre tela, 33 x 55 cm

Coleção Particular





Resenha: “Talvez uma história de amor”, de Martin Page

9 09 2019

 

 

 

TELEFONE westelec_phone 1948aIlustração de anúncio da companhia de telefonia Western Eletric, 1948.

 

 

Em menos de seis meses, este é o terceiro livro que leio em que um telefonema, ou uma mensagem deixada por telefone, dá início à trama.  Deve ser coincidência. Espero.  Pois, de repente ficou um início batido.  Não surpreende. Neste caso, no romance de Martin Page, Talvez uma história de amor, nosso anti-herói, Virgile,  chega em casa e ouve a mensagem deixada em sua secretária eletrônica (parece coisa antiga, não é mesmo?): Clara termina o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não se lembra de ter qualquer relacionamento com alguma Clara. Passamos, portanto, as próximas 150 páginas tentando esclarecer essa questão que se torna obsessiva para ele: quem era Clara e teria ele tido um relacionamento com ela?

Achei a premissa muito interessante. Intrigante mesmo.  E fui em frente à espera das mais mirabolantes possibilidades. Não sei como eu resolveria essa questão caso fosse eu o romancista,  mas não deixei de ter uma pequena decepção com o desenrolar da trama.  Primeiro porque Virgile lembou-me Do contra Hiromashi,  personagem da Turma da Mônica, cujo nome sugere está sempre a contrariar, muitas vezes sem propósito algum, o senso-comum da sociedade, do lugar onde vive, daquilo estabelecido por comum acordo.  Preso a essa faceta, Virgile, de nebuloso caráter, que trabalha numa agência de publicidade, começa a voltar atrás, seguindo seus próprios passos do passado recente, para se certificar da saúde de sua memória, ou se, de fato, havia se relacionado com alguém de quem não se lembrava.

 

TALVEZ_UMA_HISTORIA_DE_AMOR_1261448471B

 

A volta ao passado é ensejo para nos familiarizarmos com os amigos de Virgile, com  trabalho, amores, e principalmente maneira de ver as coisas.  Como publicitário de sucesso, e prestes a receber uma promoção, Virgile tem um jeito interessante de se expressar, e há diversas passagens que surpreendem, astutas, que nos fazem voltar atrás e ler de novo, deliciosas por um breve momento, como: “Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica.” [69-70].  Mas não passam de observações interessantes sem particular significado.  O que parece um pensamento sagaz, profundo, quando relido, mostra não ter lastro, ser tão leve quanto a obra inteira. É um sopro de encontro à brisa.

A solidão que encapsula Virgile é criada, construída, por ele mesmo.  Frequentemente mencionada pelos leitores e resenhistas da obra, fiquei surpresa de ver que outros leitores a consideraram aspecto importante da personalidade do personagem. A mim, me deu a impressão de ser mais uma questão de postura existencialista, do que verdadeira solidão.  Há em Virgile, muito do teatral, muito de gesto no lugar da ação.  Há também uma adolescente vontade de chocar,  um tanto descabida para um homem feito, com sucesso no trabalho e muitos amores para contar.

 

martin-page-author-b5f13b2a-079d-40df-bfce-5918266354c-resize-750Martin Page

 

Este é o segundo livro de Martin Page que leio.  Meu primeiro, A libélula dos seus oito anos, não me agradou.  Achei Talvez uma história de amor, tradução de Bernardo Ajzenberg, mais interessante como tema, e com melhor desenvolvimento, mas, assim como na leitura anterior Martin Page me deixa surpresa por seu sucesso.  Tornou-se um escritor muito considerado desde o lançamento de seu primeiro livro, Como me tornei estúpido, mas para mim, sua ficção necessitaria de mais conteúdo e menos forma para que o autor se tornasse um de meus favoritos.  Fico na dúvida: estou cega para o que o faz um sucesso? –  ou são os outros que talvez não esperem tanto das horas de leitura que dedicam a um autor?  Mas sem dúvida, ele escreve bem.  O bastante para manter esta leitora até o fim. Três de cinco estrelas.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





“McDonald’s in Paris”, por Martin Page

26 08 2019

 

 

 

Hemingway in Paris, by Michela Akers.Hemingway in Paris, gravura de Michela Akers.

 

 

“Desceu para tomar o café da manhã no MacDonald’s. Não se achava merecedor de mais do que um suco de laranja azedo e um croissant gorduroso. Deixou de lado o saquinho de chá e bebeu a água quente. Seu vizinho de mesa, um homenzinho com um boné de golfe todo roído de traça, uma barba de quinze dias e uma camisa suja, comia batata frita e bebia um refrigerante; sua mão pairava sobre um bolo de chocolate como se o protegesse. Virgile não admitiria isso para ninguém, mas gostava de ir ao McDonald’s. Não era um local agradável ou bonito, mas sentia-se em casa ali. Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica. Os pobres, os estudantes e o pessoal da periferia sabem muito bem disso; podem-se checar e-mails, estudar para uma prova ou para as aulas, escrever; os moradores de rua leem os jornais de distribuição gratuita e fingem beber alguma coisa de um copo que pegaram em uma bandeja. A ideia de um local de alimentação para pessoas simples fora deixada nas mãos de uma caricatura de empresa capitalista. O fast-food tornara-se o único local caloroso, vivo e popular.  Era deprimente.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 69-70.





Palavras para lembrar: Ernest Hemingway

14 08 2019

 

 

 

Jean-François Martin – Illustration le Monde des livres (2012)O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.

 

 

“Não há amigo mais fiel do que um livro.”

 

 

Ernest Hemingway





“Vou morrer” texto de Martin Page

11 08 2019

 

 

 

d'espagnat, georges, mulher lendo no jardimMulher lendo no jardim

Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)

óleo sobre tela, 64 x 80 cm

 

 

“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.

Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo?  Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos,  pensava Virgile,  o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.

Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild.  A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos.  Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.

Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.





Resenha: “Limonov” de Emmanuel Carrère

22 07 2019

 

 

 

s-l1600Sem título, da Série Dois

Martin M (Rússia, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 18 x 13 cm

 

 

Limonov, de Emmanuel Carrère, foi best-seller na França e recipiente do Prêmio Renaudot da Língua Francesa e do Prix des Prix, em 2011.  Traduzido por André Telles e publicado pela Alfaguara em 2013, não fez marolas por aqui, até ser indicado por Marcelo Rubens Paiva para uma editora que publica livros por assinatura em 2017.  Não é leitura fácil, em parte porque o biografado, Eduard Limonov, é uma pessoa desprezível, canalha, ordinário e sem-vergonha.  Mas que descrito pelo autor parece uma pessoa fascinante.  “Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe.  Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris, soldado perdido nas guerras dos Balcãs e agora no imenso caos do pós comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados…”  Com essa introdução por Carrère é natural que se espere mais de Eduard Limonov do que o repelente marginal, personalidade secundária, um ser asqueroso, cuja vida seguimos em grande detalhe.

Limonov é descrito como biografia. Mas premiado como romance.  Como?  Por que?  Em parte porque Carrère só entrevistou Eduard Limonov uma vez por duas semanas e a esta altura com o livro quase pronto.  Por outro lado, porque a vida do biografado e a do biógrafo se intercalam e aos poucos descobrimos a paixão, ou até mesmo a inveja de Carrère, não pelo homem Limonov, (Carrère para de escrever o livro por mais ou menos um ano, duvidando da própria razão deste trabalho) mas pela sedução que a vida de aventuras de seu biografado parece ter acendido.  Passei, então, a ver o livro não como uma biografia, mas como um interlóquio entre o escritor e Limonov.

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São dois homens que pararam emocionalmente na adolescência.  Basta dizer que para ambos os livros que mais marcaram suas vidas foram os de aventuras de Alexandre Dumas e obras do americano Jack London.  Eduard Limonov ( Eduard Savenko) nasceu na Ucrânia (portanto cidadão de segunda classe na hierarquia soviética) e passou a vida como rebelde. Pobre, sem respeito por mãe ou pai, Limonov se rebela contra o status quo de qualquer situação.  Seu verdadeiro objetivo é ser do contra.  Mesmo quando o que advoga, por anos, acontece, ele rapidamente muda de posição e torna-se um insurgente, um do contra, já que o que defendia tornou-se norma.  Revolta, seu nome é Limonov.  E sua maneira de revoltar-se não passa de grandes gestos juvenis, sem esteio ou fundamento.  Tanto que no frigir dos ovos Limonov não consegue nada, não passa de um energúmeno, machista, inepto e idiota.

Emmanuel Carrère, por outro lado, desfrutou de uma família bem estruturada: pai executivo, mãe historiadora e professora universitária.  Cresceu e continuou como adulto a se beneficiar das benesses da vida burguesa parisiense. Não se revoltou contra o estabelecimento.  É o verdadeiro oposto de Limonov.  E, ainda que pudesse ter interesse intelectual sobre os revolucionários russos, a mim, escapa a fascinação do autor por um membro tão desnorteado da cosmografia russa.  Não posso deixar de pensar numa pequena revolta contra sua própria mãe, especialista em história russa.  Será que Carrère, deveria ter dedicado tanto de seu tempo e indústria construindo um altar ao anti-herói? Talvez sua mãe, se assim quisesse, pudesse nos dar valor mais acertado do verdadeiro papel de Limonov na resistência, se relevante, contra a abertura do sistema soviético do final do século XX.  E ainda, a fascinação com o “revolucionário” lembra-me defensores do comunismo severo, do stalinismo ou seguidores de Trotsky, que, aqui no ocidente, dormindo em camas macias com lençóis de seda, dirigindo carros do ano, comendo e bebendo á vontade, abrigando-se em belas e espaçosas casas, continuam achando que uma revolução ou um sistema semelhante ao que se estabeleceu na antiga URSS seria a solução para as desigualdades no mundo.  É uma visão idealista, sem qualquer pé na realidade e primária. E, nós mesmos, leitores de Limonov testemunhamos a falácia do sistema através da própria narrativa de Carrère.

 

emmanuel-carrere (2)Emmanuel Carrère

 

Há duas grandes qualidades nesta obra.  A primeira é a habilidade de Carrère de nos manter atentos ao texto, de tal modo que mesmo execrando as ações de Eduard Limonov,  o que nos é contado, de maneira muitas vezes rude ou crua, nos faz  continuar página após página a seguir o fanático e imbecil personagem que o autor nos impôs. A segunda qualidade é o retrato da Rússia sob o governo comunista e sob a abertura iniciada por Gorbachev e da Rússia que conhecemos hoje, a Rússia de Putin, que mais do que nunca aparece como cidadão bastante perigoso.  Poucas vezes temos a oportunidade de ler uma obra que nos traz ações tão contemporâneas, referências a momentos históricos que vimos na televisão ou lemos nos jornais. Essa parte política, tenho certeza, foi de grande valia para que o livro se tornasse best seller na França.  Para os franceses o que acontece em Moscou é de grande importância.  Eles estão muito próximos, apesar dos diversos países que os separam: Bélgica, Alemanha,  Polônia, Bielorrússia. A título de curiosidade procurei a distância entre Paris e Moscou.  É um pouco mais de 2.800 km.  Colocando em nossos termos é menor do que a distância entre Porto Alegre e Palmas, esta é superior a 2.900 km.  Assim, tudo que acontece na Rússia é de muito maior interesse para os franceses do que para nós, aqui em outro continente separados por mar e terra imensos.

Não sei para quem devo recomendar este livro.  Li.  Não gostei.  Mas apreciei as informações que me foram dadas.  E apreciei a habilidade de Carrère.  Mas de cinco estrelas, três estão de bom tamanho.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

 








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