O virador de páginas de David Leavitt – Resenha

4 09 2014

 

 

caillebotte-gustave-jovem tocando piano, 1876, ost, col partJovem tocando piano, 1876

Gustave Caillebotte (França, 1848-1894 )

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Nas mãos de Guy de Maupassant esse romance teria sido exemplar. Levaria todas as cinco estrelas que tenho direito a dar. Digo isso porque há algo de Maupassant na leveza com que a narrativa se desenrola e na intenção sócio-realista. Infelizmente falta a David Leavitt o cuidado com a estrutura da trama e com os diálogos, características em que o escritor francês se esmerava. Assim como está, esse romance dá a impressão de uma obra feita às pressas, na coxa, sem finesse. Por vezes a narrativa muda de ponto de vista abruptamente e ênfase é dada a personagens secundários em detrimento de um aprofundamento nas emoções e nas razões do comportamento dos que identificamos como principais. Por que certos detalhes são acentuados roubando o vigor à história? Toda a narrativa, da estrutura ao diálogo, do ritmo ao desfecho – e este é inconcluso — poderia ter sido trabalhada e como resultado O virador de páginas seria uma obra de impacto. Falta conteúdo psicológico e emocional.

 

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David Leavitt é um desses nomes que aparecem em conversas literárias aqui e ali, um nome com peso social, amplamente divulgado nos círculos gays e literários. É possível que eu tenha escolhido para minha apresentação ao autor um de seus livros mais fracos. Pena, porque vou custar a abrir outra publicação dele.

Os temas, os assuntos, são de primeira linha. Todos são temas universais, tratando das dificuldades por que passam os seres humanos. Em primeiro plano: a difícil, frustrante, aniquiladora descoberta das nossas limitações. Saber que sonhos afagados por anos, por uma vida inteira, não poderão jamais se concretizar, porque sonhamos além das nossas habilidades. Em segundo: a apresentação, quando ainda se é muito jovem, aos desencontros amorosos, para os quais a vida parece ser terreno fértil — o dar-se a quem não merece, a quem não dá valor; e o ser desejado por quem não temos atração; assunto explorado por muitos e tão sucintamente colocado no esplêndido poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Esses dois temas recheiam o que há de melhor na produção literária há séculos e permanecem em pauta porque falam de condições inerentes ao ser humano. Falam da paixão.

 

118David Leavitt

As ideias centrais em O virador de páginas são boas, mas pobremente executadas. Como está, o livro é medíocre. Sérgio Viotti que fez a tradução, escreve na orelha: “Ouvido de uma precisão teatral, que suas cenas dialogadas podem facilmente ser diálogos para ver e escutar…” Infelizmente Viotti numa tentativa de exaltar o romance, se concentrou justamente no que achei de mais leviano na obra. Os diálogos são sim, como falamos. E nossa fala é repetitiva, muitas vezes vazia, sem qualquer intenção de criatividade. Obrigar o leitor a ler diálogos que não levam a nada é desmerecer a atenção que o leitor lhe dá. Não é estofo para uma obra literária. Vamos a um exemplo de muitos:

“– Alô?
— Alden?
— Não, Paul.
— Paul, aqui é Joseph Mansourian. Como vai?
— Estou bem. – Sentando-se, Paul tirou o som da televisão, ajeitou o cabelo para trás, com a mão.” [p.156]

Sinto não poder recomendar O virador de paginas. Sei que em breve o terei esquecido, porque ainda há obras literárias que merecem o  cuidado da minha atenção.





Uma visita à galeria do Sr. Walter em Bel-Ami de Guy de Maupassant

9 08 2010

 

Conde Ludovico Lepic e senhoras vendo uma exposição, s/d

Julius LeBlanc Stewart ( EUA, 1855-1919)

Óleo sobre tela, 39 x 28 cm

Coleção Particular

Há uma passagem no romance de Guy de Maupassant, Bel-Ami, que se tornou extremamente  sedutora para mim.  Ela conta da visita que o personagem principal, Duroy, faz a um conhecido, e do prazer e orgulho que o dono da casa tem em mostrar a Duroy sua coleção de quadros.   Li e reli o trecho, várias vezes.  Os pintores são todos conhecidos, ativos em Paris no final do século XIX.   Só os quadros mencionados, esses sim, parecem ser produtos da imaginação de Guy de Maupassant.  No entanto, o escritor mostra grande familiaridade com o mundo artístico da época:  todos os títulos e  descrições das cenas representadas na coleção do Senhor Walter, que visitamos juntamente com Duroy, se encaixam perfeitamente com os temas e os  títulos e, digamos assim, preocupações estéticas de cada pintor mencionado.  A minha curiosidade venceu e contra qualquer aspiração que eu poderia ter de mostrar bom senso resolvi a todo custo achar representações de quadros equivalentes aos da suposta coleção de arte do Sr. Walter.  Como não poderia deixar de ser, não há caçada que se preze sem mostra das presas, assim, coloco aqui não só a passagem do livro mas sobretudo as telas que encontrei que seriam equivalentes — na maneira do possível — as que formariam o acervo do colecionador retratado por Maupassant. 

***

Duroy havia levantado os olhos para as paredes, à falta de outra ocupação, e o Senhor Walter lhe gritou de longe, num visível desejo de fazer valer seus objetos: — Está olhando meus quadros? — O meus destacou-se. — Vou mostrá-los. — E apanhou um candelabro para que ficassem visíveis todos os detalhes.

— Aqui, as paisagens — disse ele.

No centro da parede, via-se uma grande tela de Guillemet, uma praia na Normandia, sob um céu de borrasca.  Por baixo, um bosque, de Harpignies, depois uma planície da Argélia por Guillemet, com um camelo no horizonte, um grande camelo de pernas longas, semelhante a um estranho monumento.

Paisagem costeira com figuras, s/d

Jean Baptiste Antoine Guillemet (França, 1843-1918)

óleo sobre tela

***

Paisagem, s/d

Henri-Joseph Harpignies ( França, 1819-1916)

Óleo sobre tela

Walter passou à parede seguinte e anunciou com um tom sério, de mestre-de-cerimônias:  — A grande pintura. — Eram quatro telas:  Uma visita ao hospital, de Gervex.  A ceifeira, por Bastien-Lepage; Uma viúva, por Bouguereau, e Execução, por Jean-Paul Laurens.  Esta última obra representava um padre sendo fuzilado na parede de sua igreja, por um destacamento de azuis.

A colheita, 1880

Bastien Lepage (França, 1848-1884)

Óleo sobre tela

***

O dia dos mortos, 1859

William Adolphe Bouguereau ( França, 1825-1905)

Óleo sobre tela

***

A execução do Duque d’Enghien, s/d

Jean-Paul Laurens (França, 1838-1921)

Um sorriso passou pela figura grave de Walter ao indicar a parede seguinte: — Aqui os fantasistas, — Via-se em primeiro lugar uma pequena tela de Jean Béraud, intitulada O alto e o baixo.  Era uma parisiense bonita subindo a escada dum bonde em marcha.  Sua cabeça parecia no nível do tejadilho, e os senhores sentados nos bancos descobriam, com satisfação ávida, o rosto jovem que vinha ao encontro deles, enquanto os homens, de pé na plataforma de baixo, olhavam as pernas da moça, com expressões diferentes de despeito e desejo.

Jovem mulher atravessando a rua, s/d

Jean Béraud (França, 1849-1936)

óleo sobre tela

***

Walter segurava a lâmpada no alto e repetia rindo, com um trejeito maroto: — Hein?  não é engraçado?  não é engraçãdo?

Depois iluminou um Salvamento de Lambert.

No meio de uma mesa vazia, um gatinho sentado sobre o traseiro, examinava com espanto e perplexidade uma mosca afogando-se num copo d’água.  Tinha uma pata levantada, pronta a apanhar o inseto com um golpe rápido.  Mas não estava completamente decidido.  Hesitava.  Que Faria?

Depois do jantar, s/d

Louis Eugène Lambert ( França, 1825-1900)

óleo sobre tela

O patrão mostrou depois um Detaille: A lição, que representava um soldado na caserna, ensinando a um cãozinho a tocar tambor, e declarou: — Aqui há espírito!

Duroy ria com um riso aprovador e extasiava-se: — Como é encantador, como é encantador, encan… — Parou bruscamente, ao ouvir, por trás dele, a voz da Senhora de Marelle, que acabava de entrar.

1806: Ponto avançado da cavalaria,  sem data

Jean-Baptiste Edouard Detaille ( França 1848-1912)

óleo sobre tela.

O diretor continuava a iluminar as telas e explicá-las. 

Mostrava agora uma aquarela de Maurice Leloir: O obstáculo.  Era uma cadeirinha parada, por se achar a rua obstruída por uma luta entre dois homens do povo, dois valentões, brigando como Hércules.  E pela janela da cadeirinha, via-se um lindo rosto de mulher que olhava… que olhava… sem impaciência, sem medo, e com certa admiração, o combate dos dois brutos.

A última visita de Voltaire a Paris, s/d

Maurice Leloir ( França, 1853-1940)

Walter continuava dizendo sempre: — tenho outros nas outras peças seguintes, mas são de gente menos conhecida, menos classificada.  Aqui é o meu salão.  Compro dos jovens do momento, dos mais jovens, e ponho-os de reserva nos quartos mais internos, esperando os autores tornarem-se célebres.  — Depois disse, muito baixo: — É a hora de comprar quadros.  Os pintores morrem de fome.  Não têm dinheiro, não têm dinheiro…

Em: Bel-Ami, Guy de Maupassant, São Paulo, Editora Abril:1981, tradução de Clóvis Ramalhete, pp: 111-113





O Folies-Bergère, uma passagem de Guy de Maupassant

29 07 2010

Moulin Rouge, 1893

Louis Anquetin (França, 1861- 1932)

óleo sobre tela

Estou lendo Bel-Ami de Guy de Maupassant.  E as imagens dos quadros de pintores franceses do final do século XIX, não param de vir à minha mente.  Resolvi então, à medida que estas passagens aparecem durante a minha leitura, colocá-las aqui, lado a lado.  Uma ilustrando a outra e vice-versa.

 

A fumaça dos cigarros velava um pouco, como um nevoeiro muito fino, os lugares mais distante, o palco e o outro lado do teatro.  Elevando-se sem cessar, em pequenos filetes esbranquiçados,  de todos os charutos e de todos os cigarros que toda esta gente fumava, a bruma ligeira subia sempre, acumulavase no teto e formava em torno do lustre, sob a cúpula, acima da galeria do primeiro andar, cheia de espectadores, um céu enevoado de fumaça.

 

No vasto corredor de entrada que leva  ao passeio circular, onde vagueava a tribo bem vestida das prostitutas,  misturada à multidão sombria dos homens, um grupo de mulheres esperava os que chegavam, diante de um dos três balcões, onde dominavam, pintadas e gastas, três mercadoras de bebida e de amor.

 

Os altos espelhos, atrás delas, refletiam suas costas e os rostos dos passantes.

 

[Uma visita ao Folies-Bergère].

 

Em: Bel-Ami, de Guy de Maupassant, tradução de Clóvis Ramalhete, São Paulo, Editora Abril: 1981, página 16.








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