Família moderna, Hanif Kureishi

29 09 2018

 

Patricia_schappler (EUA, ) Eve, graphite & collage drawing 156x 118 cm, 2011-12.Eve, 2012

Patricia Schappler (EUA, contemporânea)

carvão, grafite e colagem, 156 x 118 cm

 

 

“O senhor disse, faz tempo, que se todas as épocas têm sua questão filosófica central, na nossa época essa questão será o renascimento da religião como política. E assim o senhor começou a relacionar o Islã radical e sua sexualidade bizarra com o ódio ao corpo, o corpo queimado na automorte sacrificial. Esse é um gesto da mais profunda submissão. Sabemos que o Ocidente tentou, nos anos 1960, remover o pai, autoritário ou não. Foi assim que acabamos, como o senhor apontou muitas vezes e com grande proveito, com uma cultura de mães solteiras. […]

‘O pai — como sempre fazem os pais — voltou ou na forma de gângster, como em O poderoso chefão e no seu predileto Os Sopranos, ou na forma de autoridade religiosa. Existe também a tentativa do pai de excluir, quando não pisotear, a sexualidade. Pelo menos nos outros. […]

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, tradução de Rubens Figueiredo, São Paulo, Cia das Letras:2016, p. 211





Sobre escritores e suas biografias, texto de Hanif Kureishi

14 06 2018

 

 

 

Dennis William Dring (1904-1990) Royaume-Uni,William D. DringMoça lendo

Dennis William Dring (GB, 1904 – 1990)

óleo sobre tela

 

 

“Sentado ao lado do grande homem, Harry ruminava pensamentos sobre os escritores que crescera adorando. Forster, fazendo em pedaços o colonialismo, absurdo dos absurdos; um Orwell sério; Graham Greene, errático, correndo atrás de encrenca e de morte; Evelyn Waugh, que via quase tudo, e odiava o que via. Mamoon era um dos últimos desse tipo, e de mérito equiparável, na opinião de Harry. E Harry estava na casa dele; andava a seu lado e discutia a sério com ele; ia escrever sobre a vida dele. Seus nomes ficariam unidos para sempre; ele teria uma diminuta fatia do poder do velho. Mas a biografia havia aprendido muito com a imprensa de escândalos; tinha sido sugada na direção da imundície, um processo de perda de qualquer ilusão.  Desmascarar era o grande lance, deixando apenas ossos nus. Você acha que gosta desse escritor? Pois veja como ele maltratou a esposa, os filhos e a amante. Ele até gostava de homens! Tenha ódio dele, tenha ódio de sua obra — de qualquer lado que a gente olhe o sujeito, está tudo acabado. A questão agora era outra: o que podemos perdoar nos outros? Até onde eles podem ir antes que a nossa fé neles vire pó?”

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras: 2016, p. 43





“A Inglaterra dos imigrantes”, texto de Hanif Kureishi

9 04 2018

 

 

767px-The_Secret_of_England's_Greatness'_(Queen_Victoria_presenting_a_Bible_in_the_Audience_Chamber_at_Windsor)_by_Thomas_Jones_BarkerO segredo da grandeza da Inglaterra, 1863

[Rainha Vitória presenteando uma Bíblia na Câmara de Audiência, no Castelo Windsor]

Thomas Jones Barker (GB, ? — 1882)

óleo sobre tela

National Portrait Gallery, Londres

 

 

 

“Por fim, Mamoon abriu os olhos para dizer: “Vivemos num país que só tem passado e nenhum futuro. SE sou conservador é porque desejo conservar o que considero o caráter desse passado, da Inglaterra, e do povo inglês. Sou imigrante, mas a Inglaterra é meu lar. Passei mais tempo neste deserto de macacos, nesta democracia de asnos, do que em qualquer outro lugar. Também tenho acompanhado sua comédia e sua tragédia com muito interesse. Quando eu era criança a Grã-Bretanha era o país mais poderoso do planeta, seus representantes eram temidos e admirados. Adoro o ceticismo que ele desenvolveu nos anos 60, a maneira como as figuras políticas, longe de serem idealizadas, como são muitas vezes em outros países, são avacalhadas e ridicularizadas sem medo.

“Porem agora, ao que parece, nós, escritores e artistas não temos permissão para ofender. Não devemos questionar, criticar ou insultar os outros, com medo de sermos perseguidos e assassinados. Hoje em dia, um escritor sem guarda-costas dificilmente pode ser considerado um escritor sério. Uma resenha ruim é o menor de nossos problemas. Qualquer idiota que acredite em qualquer insanidade deve ser tratado com complacência, porque é seu direito humano. O direito de falar é sempre usurpado, sempre condicional. Temo que o jogo esteja quase encerrado para a verdade. As pessoas não a desejam; não as ajuda a ficarem ricas.”

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras:2016, p. 117

 

 





“A magia das palavras”, Hanif Kureishi

5 02 2018

 

 

(ilustración de Duy Huynh)Ilustração de Duy Huynh.

 

 

 

“Mamoon sempre se preocupou com a tarefa quase impossível de usar palavras reais para descrever coisas invisíveis. Você e eu sabemos que a linguagem é o único encantamento que existe. A magia alternativa — feitiços, cristais, lâmpadas para esfregar, tudo isso não passa de doces futilidades.”

 

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras:2016, p.254





Os leitores, Hanif Kureishi

26 11 2017

 

 

"Lady Reading"Desconheço a autoria.

 

“O mercado havia mudado; hoje em dia havia mais escritores do que leitores. Todo mundo falava ao mesmo tempo e ninguém escutava, como num manicômio. Os únicos livros que as pessoas liam eram livros de dieta, de culinária ou de exercícios físicos. As pessoas não queriam melhorar o mundo, só queriam corpos melhores.”

 

Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras:2016, p.269





Minutos de sabedoria: Hanif Kureishi

16 10 2016

nicolae-tonitzaromenia-duas-irmas-1927Duas irmãs, 1927

Nicolae Tonitza (Romênia, 1886-1940)

óleo sobre cartão

“A verdade é uma tatuagem na testa. Não podemos vê-la sozinhos. Eu sou seu espelho.”

Hanif Kereishi

hanif_kureishiHanif Kureishi

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