O touro e o homem, conto tradicional do Brasil, coletado por Luiz da Câmara Cascudo

10 01 2020

 

 

 

BENJAMIM SILVA (CE 1927) Bois no pasto - Óleo s tela 54 x 66 cm. ass. inf. direito e verso 1955Bois no pasto, 1955

Benjamim Silva (Brasil, 1927) Bois no pasto

óleo sobre tela 54 x 66 cm

 

 

O touro e o homem

 

Um touro, que vivia nas montanhas, nunca tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por todos os animais que era ele o animal mais valente do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se resolveu a ir procurar o homem para saber se tal dito era verdadeiro. Saiu das brenhas, e, ganhando uma estrada, seguiu por ela. Adiante encontrou um velho que caminhava apoiado a um bastão.

Dirigindo-se a ele perguntou-lhe:

— Você é o bicho homem?

— Não! — respondeu-lhe o velho — já fui, mas não sou mais!

O touro seguiu e adiante e encontrou uma velha:

— Você é o bicho homem?

— Não! — Sou a mãe do bicho homem!

Adiante encontrou m menino:

— Você é o bicho homem?

— Não! — Ainda hei de ser; sou o filho do bicho homem.

Adiante encontrou o bicho homem que vinha com um bacamarte no ombro.

— Você é o bicho homem?

— Está falando com ele!

— Estou cansado de ouvir dizer que o bicho homem é o mais valente do mundo, e vim procurá-lo para saber se ele é mais do que eu!

— Então, lá vai! — disse o homem armando o bacamarte, e disparando-lhe um tiro nas ventas..

O touro desesperado de dor, meteu-se no mato e correu até sua casa, onde passou muito tempo se tratando do ferimento.

Depois, estando ele numa reunião de animais, um lhe perguntou:

— Então, camarada touro, encontrou o bicho homem?

— Ah! meu amigo, só com um espirro que ele me deu na cara, olhe o estado em que fiquei!

 

 

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967. pp 289-90.

 

 





Esmerado: caneta e tinteiro, século XVI

30 04 2019

 

 

 

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Conjunto de caneta e tinteiro (Cavat-I Dawlat), 1575-1600, final do século XVI

ouro cravejado com esmeraldas, rubis e diamantes, com o pássaro sagrado (hamsa) gravado no tinteiro.

Deccan, India Central

 

Objetos como esses, decorados com pedras preciosas, tiveram grande e conhecida importância simbólica no mundo islâmico, onde eles eram um distintivo tanto da importância imperial quanto do alto posto do governo ocupado por seu proprietário.

Essa ressonância ainda era maior no contexto muçulmano por causa do valor da palavra escrita no Corão.  Estojos de canetas eram objetos valiosos dos sultões e de seus principais ministros – o estojo real para uma caneta demonstrava erudição e autoridade reforçada.

Na dinastia Mughal, estojos de canetas e tinteiros foram presenteados pelos imperadores como sinal da mais alta distinção.

Fonte: Revista semanal da loja de leilões Christie’s.





Cuidado, quebra! Vasilha Chinesa século XV

12 03 2019

 

 

xuande dinasty (1426-1435)Vasilha,  reinado Xuande (1426-1435)

Dinastia Ming

Porcelana, com azul e branca, com pintura de frutos

29 cm de diâmetro

Assinada com seis caracteres sob o esmalte

 

Uma das características que mais impressiona na qualidade desta vasilha é a perfeita espessura da porcelana em todo o objeto, qualidade difícil de ser mantida pois a porcelana tende a encolher muito quando colocada no forno em sua fabricação.

Além disso o desenho dos seis ramos com frutos, com características naturalistas, também é original para a época.  Estamos nos dias de hoje acostumados a ver pássaros e frutos desenhados de maneira natural, mas na época, o detalhe de cabinho dos frutos estar subdividido como se tivesse sido arrancado da árvore, é fora do comum, e mostra mão exímia na pintura.

Outra característica que exalta a peça é a assinatura referente ao reinado que aparece proeminente, mostrando orgulho de fabricação.  Em geral, essas assinaturas eram colocada no fundo da peça, do lado de baixo.

 

 

Fonte: Revista da casa de leilão Christie’s.





Os cafés de antigamente

13 09 2018

 

 

Coffeehouse01-768x491Um café em Londres, por volta de 1705.

 

Muita gente acha que o café, lugar de encontro para bater papo, para tomar uma bebida quente, para fazer e encontrar amigos é uma invenção moderna. Enganam-se todos que assim pensam.

Os primeiros cafés de que se tem notícia foram estabelecidos em Meca, e se tornaram em meados do século XVI, um problema para os imãs, porque se tornaram lugares de discussão política e lugares de ingestão de bebidas.  Por isso mesmo,  foram proibidos por doze anos entre 1512 e 1524.  No entanto, a necessidade de um lugar onde se pudesse tomar um café era intensa e foi em 1530, em Damasco que os cafés saíram do domínio de Meca para o resto do mundo.  Logo depois Cairo se tornou um grande centro de cafés. E em 1555 sabe-se da abertura do primeiro café, lugar de encontros, em Istambul, naquela época chamada de Constantinopla.

Veneza foi a primeira cidade da Europa ocidental a se orgulhar de um café, aberto em 1629.  A influência do império otomano nesta cidade mercantil explica o acontecimento. Da península itálica os cafés, como lugares de encontro, de conversas e discussões políticas, foram para a Inglaterra, outro país dependente do comércio internacional. Em 1650, o primeiro café inglês abriu na cidade de Oxford.

Nos 15 anos entre 1670 e 1685 foi grande o número de cafés abertos em Londres. E populares, tornaram-se locais de debate público. Foi só em 1672 que se tem notícia do primeiro café parisiense que teve monopólio sobre esse comércio por 14 anos quando, em 1686, o Café Procope abriu suas portas, à Rue de l’Ancienne Comédie, VI arrondissement, local que também tem o título de mais antigo restaurante de Paris em uso contínuo.





Esmerado: Capa de livro, século IX

10 09 2018

 

 

02lorsc1Capa de livro, c. ano 810

Autor desconhecido

Alemanha, marfim

Victoria and Albert Museum, Londres

 

 

Essa capa de livro já enfeitou o Evangelho de Lorsch.

No centro a Virgem Maria é retratada sentada no trono celestial segurando Jesus Cristo, ela está acompanhada de Zacarias, ao seu lado direito, que aparece com o hábito religioso e, à esquerda, de São João Batista que segura um pergaminho em branco.

Abaixo cenas: Natividade, Presépio e Anúncio dos Anjos aos Pastores no campo.

 

 

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Capa detrás do Evangelho de Lorsch.

As molduras de metal torneado, que embelezam cada um dos cinco painéis decorativos produzidos no século IX, foram adicionadas mais tarde para que servissem de par com a capa da frente, que está em Roma.

No painel central vemos Cristo Salvador, com  dois anjos a seu lado.  Abaixo, cena da corte de Herodes, e  Adoração dos Reis Magos.

 





Esmerado: Tabuleiro de xadrez e gamão, 1537

20 07 2018

 

 

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Tabuleiro de xadrez e gamão, 1537

Obra de Léonard Limosin, em Limoges

Cobre esmaltado, 46 x 47 cm

Museu do Louvre, Paris

 

Tabuleiro de dois lados, para xadrez e gamão.  Composto de 64 quadrados preto e branco xadrez para e tabuleiro para gamão com borda em verde escuro e quatro grandes losangos com retratos em perfil.  Os tabuleiros são emoldurados com 16 longos painéis decorados por elementos derivados dos troféus clássicos.  Um objeto bastante refinado, datado e assinado por Léonard Limosin.

 

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Anedota sobre Oscar Wilde

16 07 2018

 

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Uma vez, quando era hóspede numacasa de campo no interior da Inglaterra, Oscar Wilde  irritou-se com a rudeza de um dos convidados lá hospedados que, em voz alta e clara, declarava que todo esforço na criação artística não passava de uma triste perda de tempo.

Meu caro Wilde, ele disse numa manhã, por favor, diga como passou a manhã?

Oh, estive muito ocupado,” Oscar Wilde respondeu sério.”Passei o tempo todo revisando os textos para meu novo livro de poemas.” E o filisteu perguntou então sobre o resultado dessa atividade.

Foi um trabalho importante,” ele disse, “tirei uma vírgula.”

Então,” retrucou o homem, “foi só isso o que fez?

Oscar Wilde respondeu educadamente, “de modo algum, depois de muito pensar, coloquei a vírgula de volta.

O homem não aguentou, e tratou de pegar o próximo trem para Londres.

 

Em: The quote investigator





Entre História e Romance, texto de Bernhard Schlink

11 05 2018

 

 

 

Allan Österlind. (1855 - 1938)The women at the windows,Duas mulheres à janela

Allan Osterlind (Suécia, 1855 – 1938)

óleo sobre tela

 

 

 

“Não leio romances, apenas livros de história. O que aconteceu de verdade é diferente daquilo que as pessoas imaginam. Quando nos informamos sobre a história, aprendemos sobre a realidade, não fantasias engenhosas, com frequência, tolas.  E quem acha que romances são mais coloridos que a história não usa sua fantasia imaginando como foram, por exemplo, César que amava Brutus como a um filho e foi apunhalado por ele; ou os astecas, que foram dizimados pelas doenças dos brancos antes mesmo de lutarem contra eles; as mulheres e crianças que foram pisoteadas na neve ou empurradas nas águas geladas, atravessando o rio Beresina, seguindo o exército de Napoleão. Tragédias e comédias, sorte e azar, amor e ódio, alegria e sofrimento — a história oferece tudo isso. Romances não conseguem nos oferecer nada mais.”

 

 

Em: A mulher na escada, Bernhard Schlink, tradução de Lya Luft, Rio de Janeiro, Record: 2018, pg 36.





Cuidado, quebra!

9 02 2018

 

 

 

louvre-bassin-devise-ardet-aeternumBacia, c. 1579

Ateliê Patanazzi

Faiança,  45 x 47 cm

[Parte do serviço de jantar de Alfonso II d’Este, Duque de Ferrara (1533-1597)]

LOUVRE

 

 

Peças de jantar com narrativa [istoriato] como esta eram feitas para grandes serviços, em Urbino. Em geral decoradas em toda superfície como nesta bacia com três lóbulos que fez parte do serviço de jantar comemorando o casamento de Alfonso II d’Este com Margherita de Gonzaga em 1579.  Foi atribuído  ao ateliê Patanazzi.  Nele encontra-se duas marcas do Duque de Ferrara: a pedra em chamas e a legenda “Ardet Aeternum” que representam a família dos duques de Ferrara.

 

 

a532604243ca0e8480a3f3ed11779a15Reverso, parte de baixo da bacia.

 

outo5a8adfe10468e327ac7fb8048048618b detalheDetalhe no topo a pedra em chamas e a legenda dos duques de Ferrara.

 

 





Terrorismo? , texto de Yuval Noah Harari

29 01 2018

 

 

Copacabana, praia, turismo, Jack PotterIlustração de Jack Potter, anúncio da Coca-cola, Praia de Copacabana, RJ, ao fundo, 1960.

 

 

“… O terrorismo é uma estratégia de fraqueza adotada por aqueles que carecem de acesso ao poder de fato. Ao menos no passado, seu funcionamento era resultado mais da disseminação do medo do que de danos materiais significativos. Terroristas normalmente não têm o poder de derrotar qualquer exército, de ocupar um país ou de destruir cidades inteiras. Em 2010, enquanto a obesidade e doenças relacionadas a esse mal mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram 7.697 indivíduos em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento. Para um estadunidense ou europeu mediano, a Coca-cola representa um perigo muito mais letal do que a Al-Qaeda.

Como, então, terroristas conseguem dominar as manchetes e mudar a situação política em todo o mundo?  Provocando nos inimigos uma reação desmedida. Na essência, o terrorismo é um show. Os terroristas encenam um tenebroso espetáculo de violência que captura nossa imaginação e nos transmite a sensação de estar escorregando de volta ao caos medieval. Em consequência, os Estados frequentemente se sentem obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um show de segurança, orquestrando imensas exibições de força, como a perseguição a populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maioria dos casos, essa reação exacerbada representa um perigo muito maior a nossa segurança do que aquele decorrente de atentados terroristas.”

 

 

Em: Homo Deus, Yuval Noah Harari, tradução de Paulo Geiger,  Cia das Letras: 2016, pp 27- 28.








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