Papagaio um fetiche sensual? — algumas observações sobre pin-ups

29 01 2015

 

 

936full-bradshaw-crandellIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

O papagaio, representante de terras distantes e exóticas, adquiriu o simbolismo da luxúria no século XIX. A tendência vinha desde o século anterior, quando a Europa despertou para o mistério dos países sob domínio do Império Otomano. Um dos mais conhecidos exemplos da arte erótica que inclui o papagaio é a tela de Gustave Courbet , Mulher com papagaio, datado de 1866. Na verdade, o tema que ressurge nessa época, não sucumbe de todo até os anos 30 do século XX, período em que nas artes gráficas a melindrosa acompanhada de um papagaio é frequente.

 

gravura 1903Gravura, Mulher com papagaio, França, 1903.

 

Com a facilidade adquirida de reproduzir imagens coloridas no final do século XIX com técnicas inovadoras nas artes gráficas aos poucos tornou-se mais comum vermos gravuras e ilustrações nas primeiras décadas do século XX de mulheres sensuais, ainda que muito estilizadas, para consumo e prazer de uma plateia masculina.

 

gerda wegener dinamarcaSAUTDELITIlustração de 1914 por Gerda Wegener (Dinamarca, 1889-1940).

 

Inicialmente as “meninas travessas” do início do século XX apareciam em cartões postais de fotografias como esse francês, abaixo, que mostra uma moça vestindo ou despindo um espartilho, em um postal colorido à mão.

 

 

 

1910s-pinup-postcardCartão postal, [sem papagaio] c. 1910.

 

Mais tarde, com as mudanças de comportamento pós-Grande Guerra, os postais mostraram imagens mais arriscadas. Nessa época o pássaro preferido dos artistas visuais era o pavão, cujas penas se prestaram a decorações elaboradas das gravuras Art Nouveau.

 

Cartao 1920Cartão postal francês,[sem papagaio] década de 1920.

 

Billy Devorss (EUA, 1908-1985) artista gráfico chegou a combinar, na gravura para anuncio de 1928, “Penas e Pérolas” ambos os pássaros exóticos frequentemente associado às belezas tentadoras.

 

BILLY DEVORSS PINUP GIRL ART DECO FLAPPER BEAUTY WITH PARROTIlustração Billy Devorss (EUA, 1908-1985), Penas e Pérolas, 1928.

 

Foi durante a Segunda Guerra Mundial que as meninas provocantes, sensuais, que nunca mostravam nenhuma parte do corpo explicitamente, só aludiam a uma possível descoberta, tornaram-se mais populares nas folhinhas de oficinas mecânicas, nos bares de sinuca e nas trincheiras da guerra, quando lembravam, à rapaziada com baioneta nas mãos o que lhes esperava de volta à casa.

 slide_372646_4324662_freeExemplo de folhinha de 1930, de Rolf Armstrong (EUA, 1889-1960) para a  Brown & Bigelow.

 

Muitos artistas gráficos se distinguiram nesse período, um dos mais famosos, foi Alberto Vargas (1896-1982), nascido no Peru, emigrado para os EUA, que ficou famoso a partir da década de 1940, quando começou a desenhar essas moças em situações provocantes para a revista Esquire. Ele que provavelmente conhecia uma arara em seu habitat natural, parece não ter se dedicado ao tema. Não encontrei nenhuma imagem por Vargas de uma moça com papagaio.  Isso não quer dizer que ele não tenha feito, apenas que a minha breve pesquisa não encontrou nenhum desenho composto de moça e arara, mas seus colegas de profissão aderiram ao tema.

 

menina com papagaio crandelIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Poucos no entanto se dedicaram com tanta persistência ao tema, do papagaio como Bradshaw Crandell.  Há a típica pin-up dos anos 40 como a desenhada para uma folhinha pelo artista americano H. Weston Taylor (1881-1978) abaixo.  Digo típica porque aqui se repete o que Dian Hanson descreveu em seu livro “The Art of the pin-up” lançado no ano passado, em edição de luxo, editado pelo historiador cultural Sarahjane Blum. “uma imagem provocadora mas nunca explícita de uma mulher atraente criada especificamente para consumo público em meio ambiente masculino“. [ A tradução é  minha].

 

weston-taylor pin up, 1942, para folhinha C MossIlustração de H. Weston Taylor (EUA, 1881-1978), para folhinha 1942.

H. Weston Taylor é um daqueles, trabalhando em meados do século, a usar o papagaio como acompanhante da jovem pin-up.

 

bradshaw crandell --Ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Ou ainda nessa versão do tema “alimentando a arara” — que aqui leva o título de “Encontro para Jantar” [Dinner Date] de Bradshaw Crandell.

 

Bradshaw Crandell, dinner dateIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Outro artista famoso por suas meninas travessas, foi Enoch Bolles (EUA, 1883-1976) que produziu esta jovem beijando um papagaio para a capa da revista Film Fun, de novembro de 1936.

 

Enoch BollesIlustração de 1936, por Enoch Bolles (1883-1976).

 

Mas Bradshaw Crandell retorna ao tema, uma, duas três vezes.

lets-be-friendsIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Vamos ser amigos? é o nome dessa ilustração de Bradshaw Crandle.  A  ilustração com a jovem segurando o papagaio com a mão esquerda lembra a ilustração seguinte, anterior, do ano de 1929.

 

4426215661_6afd6aa37d_z.jpgbradshaw crandellIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Titulada “Bela loucura” [Pretty Folly] ela foi usada para o calendário da companhia de seguros de Peoria Illinois, para o ano de 1929.  Na verdade, a expressão em inglês pin-up vem justamente dos calendários. Significando arte para dependurar — pin-up art — essas ilustrações travessas eram frequentemente parte das folhinhas mandadas para os clientes de negócios como lembrança de boa festas, ao final do ano.

14401522_2_lCalendário com ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Só mais tarde, nos anos 40 do século passado, essas ilustrações sensuais passaram a fazer parte das revistas que tinham como principais fregueses a ala masculina da sociedade.

 Bradshaw Crandell - araraIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

Ou a arara ajuda a leitura do bilhete de amor que a moçoila recebeu — como sei que era um bilhete de amor? Olhe para os olhos brilhantes da jovem… Ou ela ajuda à sofisticação do cetim dourado do vestido desse trabalho anterior que leva o nome de Penas Refinadas.

 

Penas refinadasIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Recentemente veio a leilão um dos guaches de Bradshaw Crandell para a ilustração Por Favorzinho [Pretty Please] que vemos abaixo produzido na década de 1930:

 

POR FAVORZINHO decada de 1930Ilustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

O guache preparatório nos oferece uma pequenina janela no processo de criação:

 

Bradshaw crandell, auctionIlustração de Bradshaw Crandell (EUA, 1896-1966).

 

Ainda que sua carreira estivesse no auge depois da Segunda Guerra Mundial, Bradshaw Crandell não parece ter retornado ao tema do papagaio com a moça sexy na década de 1950.  Nessa época dois outros desenhistas de pin-up girls ainda exploraram o tema do papagaio mas nem sempre com a sensualidade de Crandell.

 

elvgren_noyoudont_1956_30x24_oiloncanvas.jpg feather and fashions,Penas e Modas [Feathers and Fashions], 1956 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

A ilustração acima de 1956 por um dos mais conhecidos artistas de pin-up o americano Gil Elvgren (1914-1980), já tem menos romantismo, mas mais humor. Mesmo assim Elvgren, como Crandell, tem uma série grande de moças com papagaios.  Eis alguns seus outros trabalhos:

 

untitledO minimo necessário [Bare Essentials], 1957 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

É interessante notar que todos os títulos dessas ilustrações usam de trocadilhos. Freud já havia há muito tempo explorado o humor como porta de entrada para o inconsciente.  Nada mais justo então que ele seja explorado justamente em imagens que apelam aos mais íntimos desejos do público masculino.

Elvgren cracker capers 1960 Jogo do biscoito, [Cracker Capers], 1960 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

RUFFLED_FEATHERS_1967_1_.jpgGIL ELVGRENPenas eriçadas [Ruffled Feathers], 1967 por Gil Elvgren (EUA, 1914-1980).

 

elvgreenOutra ilustração de Gil Elvgren, mas desconheço o título e a data.

Mais ou menos da mesma época e com um estilo próprio temos um exemplar do artista gráfico Earl Moran (EUA, 1893-1984). Aqui a nossa pin-up girl está cansada do matraquear do papagaio.

 

earl moran, papagaioIlustração de Earl Moran (EUA, 1893-1984).

 

Houve outros artistas de pin up que também se dispuseram a desenhar situações engraçadas de moças sensuais com araras ou papagaios. Destacam-se:

 

Peter DribenPapagaio esperto [Clever Parrot]  Ilustração de Peter Driben (EUA, 1903-1968), desconheço a data.

 

joyce ballentyneIlustração de Joyce Ballentyne (EUA, 1918-2006), desconheço a data.

 

Nem mesmo Joyce Ballentyne uma das poucas mulheres e artistas gráficas desenhistas de pin-ups escapou do tema como vemos na ilustração acima.  Harry Ekman (EUA, 1923-1999) é outro artista de pin-up girls de quem tenho o desenho original anterior ao produto acabado e publicado. Com o nome de Penas e Pérolas [Feathers and Pearls] ele nos apresenta um jovem sensual entretida com uma arara — um papagaio — que segura uma fio de pérolas com o bico.

 

harry ekmanIlustração de Harry Ekman (EUA, 1923-1999).

 

ParrotandPearls_previewDesenho preparatório a lápis, com instruções, para a ilustração Penas e Pérolas, de Harry Ekman (EUA, 1923-1999).

Note-se que o título desta ilustração é o mesmo da ilustração Billy Devorss (EUA, 1908-1985), Penas e Pérolas, 1928, bem no início desta digressão sobre papagaios e sensualidade. Tenho certeza de que ainda há muitos outros a serem descobertos.  Inclusive entre os artistas gráficos ainda vivos.

Como também Baron von Lind (EUA, 1937), que se assina simplesmente Baron.

 

Baron von Lind (American, 1937)Desconheço o título e a data.
Baron von Lind (American, 1937) - erinDesconheço o título e a data.

Agora, digam-me: devo aconselhar as moças solteiras que conheço que adotem um papagaio como animal de estimação para melhor atraírem o sexo oposto?

Se não, podem me explicar a ligação entre sensualidade e as araras?

 

— Currupaco!




Casamentos na pintura: homenagem a Sto Antônio, o santo casamenteiro

13 06 2012

Casamento, 1968

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

óleo sobre madeira, 50 x 40 cm

Relativamente falando há poucos casamentos registrados na pintura.  Minha coleção de imagens de telas de casamentos, contém um pouco mais do que 400 telas.  Não  que eu conheça tudo que foi pintado no assunto.  Não sou nenhuma especialista em iconografia do casamento.  Mas a história da arte não entrou na minha vida ontem.  Já vi muita coisa.

O casamento, 1997

Bo Bartlett (EUA, 1955)

óleo sobre tela, 210 x 275 cm

E-

Há alguns casamentos específicos como aqueles que uniam famílias nobres, reis, telas comissionadas a  artistas para captar o momento solene da união de famílias cuja aliança se fazia necessária para manutenção de fronteiras, além de outros interesses econômicos.

O casamento de Alfonso XIII e Victoria Eugênia, na Igreja de São Jerônimo, em Madri, 1906

Juan Comba y Garcia (Espanha, 1852-1924)

óleo sobre tela

Sala Afonso XII, Palácio Real, Madri

Curiosamente, talvez o mais famoso casamento na pintura, A boda dos Arnolfini, 1434 de Jan Van Eyck, [ilustrado abaixo] não retrata um casamento como a tradição do título sugere.  Trata-se de fato do retrato do rico comerciante Giovanni do Nicolao Arnolfini e sua esposa, em casa, na cidade de Bruges, hoje na Bélgica.  [E antes de passar para o próximo casamento, deixe-me clarificar, que não, a Sra. Arnolfini não está grávida.  A exuberante e luxuosa roupa da época é típicamente longa e ela simplesmente segura a saia rodada para poder se movimentar. Vale notar também que a região era conhecida por seus tecidos luxuosos e que a abundância textil no retrato só enriquece a posição social do casal].

A boda dos Arnolfini, 1434

Jan Van Eyck (Bélgica, 1345-1441)

óleo sobre madeira [carvalho], 82 x 60 cm

National Gallery, Londres

Enquanto o mundo dos banqueiros, de outros comerciantes bem sucedidos no século XVII na Holanda quase não é representado em casamentos, é desse período A noiva judia de Rembrandt.

A noiva judia, 1665-1669

Rembrandt van Rijn (Holanda, 1606-1669)

óleo sobre tela, 121 x 166 cm

Museu Rijks, Amsterdam

O casamento mais representado, acredito eu, nas artes antes do aparecimento da classe mercantilista na Europa do Norte, nos séculos XV e XVI, talvez seja sem dúvida As Bodas de Canaã.  Uma das representações mais antigas, na pintura, desse milagre é a de Giotto, reproduzida abaixo.

As bodas de Canaã, 1304-1306

Giotto di Bondone ( c. 1267 – 1337)

afresco

Capela Arena, Pádua

Depois de As Bodas de Canaã, talvez a mais popular representação de casamentos seja O casamento da Virgem.  Sua mais famosa representação — a de Rafael di Sanzio, na Pinacoteca de Brera em Milão — foi certamente inspirada pela tela, menos fluida, menos sofisticada, talvez, do mesmo tema de Pietro Perugino que reproduzo abaixo, pintada aproximadamente um anos antes da de Rafael de Sanzio, O casamento da Virgem 1504, óleo sobre madeira, 170 x 118cm, Pinacoteca de Brera, Milão.

O casamento da Virgem, 1503

Pietro Perugino (Umbria, Itáia, 1448-1523)

óleo sobre madeira, 234 x 185cm

Museu de Belas Artes de Caen, França.

[Click aqui para ver a versão de Rafael]

O Casamento da Virgem, tema representado muitas vezes no século XVI, certamente serviu de base para a representação do casamento de Maria de Médici com Henrique IV.

Casamento por procuração de Maria de Médici com Henrique IV, representado por Ferdinando I, Grão-duque da Toscana, 1600

Jacopo di Chimenti da Empoli (Florença, 1551-1640)

óleo sobre tela, 242 x 242cm

Galeria dos Uffizi, Florença

[há outras versões desse quadro]

É só mesmo depois da revolução industrial, em pleno século XIX, quando a classe mercantil se estabelece mais solidamente nas sociedades européias e industriais, que temos um muito maior número de casamentos em telas.  Mas o interessante é que não são retratos das famílias mais abastadas que vemos na pintura, ao contrário, são os casamentos anônimos.  É o ato do casamento que se eterniza.

Até que a morte separe, 1878

Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1853-1922)

Óleo sobre tela,

Coleção da Revista Forbes

E as preocupações de época começam a aparecer, assim como na literatura do final do século XIX vemos em autores como Victor Hugo e Charles Dickens o retrato das diversas classes sociais, dos costumes da cidade em contraste com os costumes do campo, o tema também é abordado na pintura de gênero.

Um casamento no campo, 1904-1905

Henri Rousseau, Le Douanier

Óleo sobre tela, 163 x 114 cm

Museu  de l’Orangerie, Paris.

O cortejo nupcial, 1878

Theodore Robinson (EUA, 1852 – 1896)

Óleo sobre tela, 57 x 67cm

Terra Foundation for American Art, Daniel J. Terra Collection

É essa vertente, a vertente que mostra o casamento no campo, no interior, na cidadezinha pequena que eventualmente se torna popular no Brasil, sobretudo por causa das festas juninas.  Há aqui no nosso imaginário uma justaposição do casamento de interior ( que pode acontecer a qualquer momento) e do casamento junino.  O exemplo na abertura desse texto, com a tela de Marysia Portinari pode ser  colocado em qualquer data, mas  outras representações do casamento na pintura brasileira invariavelmente associam a representação às festas juninas. Um exemplo abaixo:

Casamento na roça, s/d

Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela, 98 x 79 cm

Os noivos, s/d

Fé Córdula [Francisco de Assis Córdula] (Brasil, 1933)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

Mas a representação das bodas nupciais no século dezenove não se limita às diferenças entre o campo e a cidade, também muito bem representado na literatura, por exemplo por Eça de Queirós.  Os pintores parecem sensíveis também aos sentimentos das noivas que no até as primeiras décadas do século XX  muitas vezes não se casavam com quem queriam mas com quem era conveniente.  Tal é o caso em:

Um casamento desigual, 1862

Vasiliy Pukirev (Rússia, 1832–1890)

Óleo sobre tela

Galeria Tretya kov, Moscou

Além desses temas há também a curiosidade pelo pitoresco, pelo outro, pela diferença, pela maneira como os outros se comportam, que permeou tanto da cultura européia do século XIX.  Esse interesse pelo OUTRO levou a temas pertinentes à representação de cenas do Oriente Médio, do Extremo Oriente, entre outros. É assim que temos representações de casamentos árabes, turcos, judeus, russos, aqueles em que a vestimenta, os hábitos, as cerimônias não se assemelhassem às conhecidas festas da Europa Ocidental.

Um casamento judeu no Marrocos, 1841

Eugênio Delacroix(França, 1798-1863)

óleo sobre tela, 105 × 140 cm

Museu do Louvre, Paris

O casamento judeu, 1903

Josef Israels (Holanda, 1824-1911)

óleo sobre tela, 137 x 148cm

Museu Rijks, Amsterdam

E ainda mais uma tendência no século XIX, pertinente também à literatura —  podemos citar Alexandre Herculano, Sir Walter Scott, Charles Reade, Mark Twain entre outros  — é a volta ao passado, à época medieval, aos costumes da renascentistas.  Temas tais como os casamentos na Idade Média, na Renascença, tornaram-se  mais frequentes, dentro desse nicho.

Depois da cerimônia,1882

Adrien Moreau (França, 1843-1906)

óleo sobre tela,  61 x 81cm

Christie’s Leilão de 2007, Nova York

O chamado da guerra, 1888

Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1853-1922)

óleo sobre tela, 91 x 61 cm

Coleção Particular

No século XX, entre muitos outros, Mark Chagall, dedicou-se a muitas representações de casamentos, muitos deles com noivos flutuando no céu.

O casamento, 1910

Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)

óleo sobre tela

E as representações de Chagall  podem ter influenciado Cícero Dias, como vemos na tela abaixo.

Recife lírica, década de 1930

Cícero Dias ( Brasil, 1907-2003)

óleo sobre tela, 140 x 260 cm

Coleção Sylvia Dias, Paris

O século XX tem um outro comportamento na representação de casamentos.  Levarei esse tema adiante amanhã e ainda talvez nos dias que se seguem. A observação por tema da história cultural e da história da arte pode trazer esclarecimentos importantes para o entendimento dos valores de época.  Até a próxima!





Reflexões sem compromisso sobre o dia de hoje: Todos os Santos

1 11 2010

Cristo glorificado rodeado por santos e anjos, 1423-24

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Predela central do altar do Convento de Fiesole

National Gallery, Londres

Nada melhor a fazer no Dia de Todos os Santos  do que expiar as nossas culpas e pedir interferência de TODOS OS SANTOS a nosso favor. Redimindo-me: mea culpa, mea culpa, mea culpa —  deveria ter guardado as notas de aula do curso de Arte Bizantina que freqüentei na Universidade de Maryland, uma versão pálida da extensão do conhecimento passado pela Profª. Marie Spiro.  Sim, porque agora, algumas décadas mais tarde, dando aulas sobre adornos no Clube dos Decoradores do Rio de Janeiro, senti muita falta das detalhadas informações sobre os mosaicos bizantinos que me lembro terem sido copiosas e importantes.

Na extensão do meu curso como historiadora da arte, minha especialidade, meu maior interesse tinha a ver com a pintura européia moderna, do final do século XIX até a Segunda Guerra Mundial.  Isso não desabona a minha segunda área de especialização – que na época era obrigatória – desenhos e gravuras do barroco holandês – quando fui aluna do Prof.  Arthur Wheelock, curador da National Gallery de Washington DC de Pintura Holandesa, nem o meu interesse perene na arte africana, de onde saiu minha monografia para minha primeira graduação em história da arte.   Mas, minha ênfase, por gosto e afinidade, durante os 10 anos que me dediquei ao estudo da História da Arte, tinha tudo a ver com o Dadaísmo e o início do Surrealismo: movimentos de arte e literatura, dois pólos sempre presentes no meu horizonte e completamente dependentes um do outro, de acordo com o meu entendimento do mundo naquela época.  Com isso em vista, a arte bizantina, magnífica sem dúvida, me parecia rígida demais, na sua representação do mundo. 

Painel dos santos e precursores de Cristo, 1423-24

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Painel do altar de San Domenico do Convento em Fiesole

National Gallery, Londres

Foi necessário que eu deixasse o magistério e enveredasse para “o mundo real” gerenciando uma galeria de arte contemporânea, e mais tarde, abrisse a minha própria versão de uma galeria de arte/antiquário para que eu voltasse à história e à arte pelo mero prazer, sem as necessidades impostas por testes, provas escritas e orais, defesas, para vir a compreender a imensa importância da “rígida” arte bizantina, não só para as artes, mas sobretudo como meio de estender o conhecimento do mundo medieval, parte da história da civilização ocidental que através das duas últimas décadas tornou-se um verdadeiro ponto de interesse para mim,  um hobby, um cacoete de leitura digamos assim, do qual não consigo escapar.

Dizem que não há coincidências.  E apesar de não saber o que algumas coincidências possam significar, reconheço que nas duas últimas semanas, vira e mexe, a arte bizantina, em diversas de suas versões, preencheu os meus pensamentos e as minhas recordações.  Comecei com os preparativos para três horas de aulas sobre mosaicos no Clube dos Decoradores  — e não se fala em mosaicos sem se pelo menos passar os olhos nos mosaicos bizantinos; foram dois ícones na exposição de um leilão residencial que visitei nas Laranjeiras; foi a exposição do Islã que visitei no CCBB no centro do Rio de Janeiro – onde a LINHA DO TEMPO estampada na parede – lembra aos visitantes da longevidade do Império Otomano.  Na sexta-feira à noite, na casa de amigos, cheguei a falar da minha frustração quando passei dez dias na Grécia, e fui barrada de dois diferentes monastérios cujos mosaicos eu conhecia por fotografia, pelo simples fato de ser mulher e não poder visitar esses locais.  E hoje, dia 1º de novembro, quando pensei: não conheço nenhuma iconografia específica sobre a representação de TODOS OS SANTOS.

O último julgamento, 1431

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Museu de San Marco, Florença

Uma rápida busca na internet mostra o que eu intuitivamente já sabia: a representação visual de todos os santos é em geral associada aos santos representados nas imagens da Glória de Cristo, onde Cristo é em geral representado no centro da pintura com um grande número de santos abaixo.  É o caso de Glória de Cristo rodeado de santos e anjos, 1423-1424,  de Fra Angelico (1385-1455 ), predela central do altar do Convento de Fiesole, hoje na National Gallery em Londres, primeira ilustração desta postagem.  Ou como me pareceu mais corriqueiro o uso da imagem de um outro painel do mesmo altar de Fra Angélico, de San Domenico, desta vez representando Os santos e precursores de Cristo  [ segunda ilustração da postagem].   Às vezes os santos de Todos os Santos são representados por um detalhe – do lado dos bons –  [note-se: sempre o lado direito de Cristo, nunca no lado esquerdo ou sinistro] em qualquer cena do Último Julgamento, como acontece  com a representação também popular de Fra Angélico.

Dança Cósmica dos santos e anjos, DETALHE

O último julgamento, 1431

Fra Angélico ( 1387-1455)

Têmpera de ovo sobre madeira [álamo]

Museu de San Marco, Florença

No entanto, o dia de Todos os Santos, não se restringe aqueles santos que aparecem no Último Julgamento, ou aos outros que precederam Cristo, ou a qualquer conglomerado de almas santas da Igreja.  Ele foi provavelmente instituído por volta do século IV, para que todos, TODOS os mártires da igreja, fossem lembrados.  Porque na Igreja, mesmo nos seus primeiros séculos de existência, havia santos mais populares que outros, santos mais queridos, mais milagreiros.  E a Igreja queria uma data em que se comemorasse a todos, populares ou não, mesmo que ainda assim se mantivessem as datas específicas dos santos mais populares.

E foi assim que voltei à arte bizantina.  Porque numa igreja bizantina, a decoração interior do espaço mostra bem a popularidade e a importância de um santo:  quanto maior sua proximidade ao chão, ao nível dos fiéis, menor a importância do representado, na cosmografia do templo.   A altura da representação da imagem dos santos está diretamente relacionada à sua importância naquela igreja.  No topo, quase sempre o Pantocrator [Pantokrator] Deus onipresente, e todo poderoso, rodeado de santos e anjos [os mais chegados].

Pantokrátor [Pantocrator]: Cristo todo poderoso, século XIII

Afresco

Igreja de São Themonianos

Chipre, Turquia

Voltei ao ponto de partida.  Não deveria ter-me desfeito das notas de aula de arte bizantina.  Bem, acho que, talvez, isso sirva de motivo para uma volta aos livros sobre o assunto, e certamente, planos para uma viagem que inclua alguns pontos altos das igrejas bizantinas.  Entre elas, gostaria de ver os mosaicos de San Vitale, em Ravena, [Itália] que nunca cheguei a visitar.  Talvez eu peça uma ajudinha a Todos os Santos, para realizar esse pequeno milagre…








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