Relógios astronômicos, um conhecimento da época medieval

6 10 2016

 

 

sapienceMiniatura do “Horologium Sapientiae” cerca 1450 de Henrich Seuse, Bibliothèque Royale Albert, Bruxelles MS. IV, f.  111

 

 

“De repente, próximo do final do século XIV, o relógio mecânico ocupou a imaginação de nossos ancestrais. Algo do orgulho cívico que havia anteriormente levado à construção de catedrais estava agora direcionado à construção de relógios astronômicos de surpreendente complexidade e elaboração. Nenhuma comunidade europeia se sentia capaz de levantar a cabeça com orgulho sem que em seu centro planetas girassem em ciclos e epiciclos, com anjos tocando trombetas, galos cantassem e apóstolos, reis e profetas em marcha e contramarcha aparecessem no marcar das horas.

Não era só pela diversidade, pela escala e grande difusão que essas máquinas eram diferentes das de outras eras. Embora muitos fossem parte de igrejas, eles careciam daquele engano piedoso encontrado nos templos gregos. Embora muitos fossem ornamentos nos prédios das prefeituras ou de palácios, sua intenção estava longe do uso político bizantino da máquina, como descrito no século X, por Liutprando de Cremona, para aumentar a veneração ao imperador. Esses novos relógios astronômicos eram apresentados claramente como maravilhas mecânicas e o público se deliciava com eles. Isso, por si só, indica uma mudança de valores na sociedade europeia.”

 

 

Em: Medieval Technology and Social Change, Lynn White Jr, Oxford, Oxford University Press: 1964, essa reimpressão de 1968,páginas 124-125. [tradução destes parágrafos, Ladyce West].

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Ah! como eu amo o meu livro eletrônico!

11 07 2015

 

construção de tróiaConstrução e Destruição de Troia, c. 1406

Mestre Orosius, iluminura para o livro de Santo Agostinho, Cidade de Deus [em francês]; Original em latim; tradução de Raoul de Presles.

The Philip S. Collins Collection

Museu de Arte da Filadélfia, Pensilvânia, Ms. 1945.65.1, fol. 66v.

 

 

Há resenhas de livros tão bem feitas e eloquentes que me levam a querer ler imediatamente os volumes comentados.  Isso aconteceu quando li o artigo de Eric Cristiansen, Two Cheers for the Middle Ages, desta semana no New York Review of Books. É uma resenha de três novas publicações sobre a Idade Média: The Middle Ages, de Johannes Fried (2015), originalmente publicado em alemão e agora traduzido para o inglês; 1381, The Year of the Peasant’s Revolt de Juliet Barker (2014) e Dark Mirror: The Medieval Origins of Anti-Jewish Iconography, de Sarah Lipton (2014).  Os três livros se encontram em edição eletrônica para o Kindle, e os comprei imediatamente para degustação lenta e metódica até o final do ano.

Uso essa postagem nem tanto para falar desses livros, nem tampouco do meu amor pela Idade Média. Muitos de vocês sabem que a minha especialidade em história da arte é Arte Moderna Europeia — da Guerra Austro-Húngara à Segunda Guerra Mundial.  Mas se eu fosse voltar aos bancos universitários, hoje, acho que escolheria a Idade Média.  Nas últimas décadas me tornei uma amante desse período.

Mas  voltando à compra desses livros. Mereceu uma reflexão sobre o livro eletrônico.  Há menos de dez anos eu teria lido a resenha acima e, ao final, suspirado de desejo por adquirir os três volumes.  Poderia até mesmo escolher um deles para comprar. Mas o meu custo inicial seria tão maior que inviabilizaria a compra dos três títulos.  Em papel paga-se mais e o transporte internacional quase dobraria o custo. Em livros ilustrados ou de arte o peso é um grande vilão. E ainda teria que esperar umas seis semanas para sua chegada. Hoje gasto menos, começo a ler imediatamente e não me sinto roubada.

Além disso, depois que voltei a dar aulas, sou capaz de trazer aos meus alunos o que há de mais atual das novas descobertas, das novas teorias.  Os alunos também podem começar uma boa biblioteca que levam consigo onde forem, até mesmo para as bibliotecas que frequentam.  Fazer pesquisa, comparar notas, achar um texto sublinhado é tão mais fácil que corre-se o risco de não se saber mais fazer pesquisas à moda antiga. É tão mais fácil recolher notas e passagens para comparar uma teoria com a outra, que a imagem daquele pesquisador perdido no tempo, escondido em uma biblioteca, rodeado de fichas organizadas em caixas de papelão, parece, isso sim, coisa da Idade Média.  Não há mais como se levar meses e meses à procura de um dado. Além do que, livros especializados, publicados por editoras universitárias, que teriam um público muito pequeno e consequentemente seriam exorbitantes para o consumo privado, fora  as bibliotecas universitárias, hoje podem ser adquiridos e mantidos por todos os interessados.  Isso sim, é democratização do conhecimento.

Adoro os livros eletrônicos. Tenho um Kindle.  Mas leio os textos também no computador, sem qualquer problema. Sim, gosto de sentir o peso de um livro de papel em minhas mãos… mas deixaria de lado essa opção, de bom grado, se tivesse que fazer a escolha entre uma forma e outra. Para mim, o livro eletrônico é um passo muito importante para a difusão de ideias e fatos  daquilo que há de mais novo na pesquisa, e isso, por si só, é o bastante para me deixar muito feliz.





Curiosidade: nomes de mulheres em Portugal medieval

5 06 2015

 

 

cidade das mulheres, christne pizan[DETALHE] Iluminura
O livro da cidade das mulheres, por Cristina de Pisano, c. 1410-1414
[também conhecido como O livro das rainhas]
Atribuído ao Mestre da Cidade das Mulheres e ateliê do Duque de Borgonha
Harley 4431, folio 290
Harley Manuscript Collection, Biblioteca Britânica, Londres

 

Feriado leva a arrumação de estantes e a descobertas dentro de casa…  Nesta semana me deparei com uma pequena lista de nomes femininos usados no período medieval em Portugal, neste caso específico, no Alentejo, do século XV. Incrível como a maioria dos nomes está presente até hoje, 600 anos depois. Como sou responsável pela continuação das árvores genealógicas do lado de pai e mãe, acabei achando o nome de duas antepassadas que viveram no final do século XVIII e início do XIX no interior do estado de São Paulo [área de Ribeirão Preto] e Mato Grosso: Brites e Brígida.

Aqui vai a lista em ordem de popularidade:

Beatriz ou Brites, Catarina, Isabel, Inês, Leonor, Maria, Mor, Constança, Guiomar, Margarida, Aldonça, Ana, Brígida, Cecília, Helena, Iria, Policena, Urraca.

Muito bom para quem deseja escrever romances históricos ou para futuras mamães…   Fato é que um desses nomes já está presente na minha família na geração que hoje tem menos de cinco anos: Beatriz.

 

Em: Imagens do mundo medieval, Iria Gonçalves, Lisboa, Livros Horizonte, capítulo: Amostra de antroponímia alentejana do século XV, p. 77

 





Água, uma fonte de energia já mesmo na antiguidade.

6 11 2014

 

 

lutterellMoinho d’água medieval, iluminura do Livro de Salmos Luttrell, 1320-1340.

 

Água, sua falta e sua abundância, assunto que está em pauta.  Menos do que deveria estar, já que é um elemento essencial para a nossa sobrevivência  e sofre com as mudança climáticas.   Mas pensando nisso me pergunto se não é surpreendente que tenhamos tão pouco uso de água como força geradora em moinhos.

Abundância de água doce nós tivemos até o século XXI.  Por que então há tão poucos moinhos d’água em funcionamento, nas pequenas propriedades?  E por que a nossa tradição rural não manteve tais moinhos?  São poucos os que resistem até hoje.  Não é por falta de conhecimento.  Desde a antiguidade usava-se a água como força motora.

Essas ponderações me vieram depois da leitura de um capítulo inteiro dedicado ao uso dos moinhos d’água como fonte de energia na idade média.

“As décadas turbulentas em que Roma tentava se expandir para o Levante marcaram outra conquista muito mais duradoura do que a Pax Romana: o início do domínio da energia da água.  Um papiro do século II aEC menciona a noria ou uma roda automática de irrigação no Egito, e em 18 aEC Estrabão menciona um moinho de grão movido a água no palácio que Mitrídates, rei do Ponto havia construído em 63 aEC. Um contemporâneo de Estrabão, Antípatro, celebra o moinho d’água como o libertador da labuta das serventes.  Os primeiros moinhos d’água eram horizontais, revolvendo em torno de um eixo vertical preso à mó. Mas Vitrúvio que por consenso data do século I aEC, dá instruções para uma construção para uma roda de moinho d’água vertical … o moinho de Vitrúvio foi o primeiro grande resultado de design para uma máquina com poder de movimento contínuo.”

Não é para surpreender? Tanta água, tantos rios e tão poucos moinhos…

 

Traduzido do inglês por mim.

 

Em: Medieval Technology and Social Change, Lynn White, Jr., Nova York, Oxford University Press: 1964, essa edição de 1968, p: 80





O papel das mulheres no século XII

2 09 2014

 

 

CodexManesse-1305-40-ManinBasket -- a medieval illumination from the Codex Manness, c. 1304- c 1340Mulher elevando o namorado na cesta até seus aposentos, Codex Manness, c. 1304- c 1340

 

 

Na sala de aula é comum vermos a imaginação das jovens se incendiar quando imagens de belas senhoras ou senhoritas, vestidas como princesas são projetadas na tela para esclarecimento de pontos históricos em um programa de iluminuras medievais.  Realmente há ocasiões em que as roupas parecem maravilhosas, e as festas na cortes coloridas, não se desbotam mesmo passados mais de cinco, seis, sete, séculos.  No entanto a cabeça de quem vive no século XXI tem dificuldade de entender tudo o que era esperado de uma mulher… além é claro de tudo que lhe era proibido na idade média.   Para entender esse período precisamos ler muito. A pesquisa sobre o comportamento social das “pessoas invisíveis” durante a idade média só foi levada a sério na segunda metade do século XX.  Pessoas invisíveis são todas aquelas que não lideraram um território geográfico, que não foram nobreza nem clero de importância, que não foram pensadores.  São as pessoas comuns, mercadores, comerciantes, trabalhadores, homens e mulheres.  Essas últimas só mesmo as mais importantes tiveram ocasião de serem lembradas. Assim, a pesquisa sobre o comportamento desses invisíveis requer muito lida em documentos de difícil acesso  e de difícil leitura.  Mas historiadores europeus, principalmente franceses, deram um grande empurrão nesses conhecimentos.  Hoje sabemos muito mais da textura social na idade média.  O parágrafo que segue é ilustrativo do que era esperado do comportamento de uma mulher na corte, desde a adolescência até viuvez.

 

“No século XII, padres e guerreiros esperavam da dama que, depois de ter sido filha dócil, esposa clemente, mãe fecunda, ela fornecesse em sua velhice, pelo fervor de sua piedade e pelo rigor de suas renúncias, algum bafio de santidade à casa que a acolhera. Era o dom último que ela oferecia a esse homem que a deflorara bem jovem, que se abrandara em seus braços, cuja piedade se reavivara com a sua e que depositara numerosas vezes em seu seio o germe dos rapazes que mais tarde, na viuvez, o apoiaram e que ela ajudaria com seus conselhos a conduzirem-se melhor. Dominada, por certo. Entretanto, que se tranquilizavam clamando bem alto sua superioridade nativa, que a julgavam contudo capaz de curar os corpos, de salvar as almas, e que se entregavam nas mãos das mulheres para que seus despojos carnais depois de seu ultimo suspiro fossem convenientemente preparados e sua memória fielmente conservada pelos século dos séculos”. 

 

Em: As damas do século XII, Georges Duby, São Paulo, Companhia das Letras: 2013, p. 248.





Ormuz, o início da viagem de Marco Polo

23 08 2014

 

 

 

Marco Polo at the gates of Hormuz City(maybe) Livres des Merveilles, Snark, Bibliotheque NationaleMarco Polo às portas da Cidade de Ormuz [há dúvidas sobre essa identificação].Livres des Merveilles, Snark, Bibliothèque Nationale, Paris

 

Há dois anos leio de vez em quando uma passagem do livro Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen.  Isso depois de já ter lido o livro inteiro.  Na primeira leitura fui marcando as cidades pelas quais passava Marco Polo. [Quem lá na companhia americana 3M inventou as Post-it notes ™, na minha opinião tem entrada garantida no céu…  Que delícia poder marcar um livro todo sem desfigurá-lo!] Bem, fui marcando cada passo da viagem de Marco Polo, para procurar na internet o que se sabe desses locais e se existem construções da época [século XIII].  Sei que isso pode parecer coisa de quem não tem o que fazer, e provavelmente é.  Mas para quem gosta de história isso é uma fonte incrível de entretenimento, muito mais atraente do que grande parte dos programas de televisão, do que muito romance na lista dos mais vendidos.  Com um pouquinho de informação, com o Google Maps, e fotos, com acesso a bibliotecas inteiras na rede, a imaginação se solta e com tempo e tenacidade preencho muitos dos espaços que desapareceram apagados pelas pegadas de invasões, guerras, pestes, e todo tipo de calamidade que já nos atingiu e continuará atingindo. Há muito pouca informação segura ainda sobre esses locais, principalmente em regiões como a Pérsia (maior parte do Irã hoje) que se encontra em grande turbulência faz muito tempo.  Sítios arqueológicos nem sempre permaneceram abertos através dos diversos confrontos bélicos e corremos o risco de perder muito do que ainda poderia ser resgatado. Mesmo assim essa viagem eletrônica pelo mundo de Marco Polo tem sido fascinante.

 

640px-Braun_Hormus_UBHDOrmus” (Braun e Hogenberg. “Civitates Orbis Terrarum“, 1572)

 

Ormuz é um dos locais — visitado por Marco Polo no início de sua viagem — que encontra numerosas referências na rede.  Tem mais: muitas dessas referências são em português.  Isso porque os portugueses estiveram por lá em 1507, dominaram a cidade, e tentaram construir o Forte de Nossa Senhora da Vitória, mas foram surpreendidos pela deserção de três capitães.  Os portugueses tentavam colocar o cabresto no comércio internacional que obrigatoriamente passava por essa ilha na entrada do Golfo Pérsico. Mas  inicialmente não foram bem sucedidos.  Só em 1515, Afonso de Albuquerque, já governador da Índia, estabeleceu a suserania de Ormuz submetida ao governo da Índia.  A Ormuz que atraía os portugueses não era mais aquela visitada por Marco Polo, pois os portugueses estiveram por lá trezentos anos depois da viagem do mercador italiano, mas desde o período medieval que o local era de grande importância para o comércio de produtos exóticos vindos do Oriente.

[À parte: toda vez que leio sobre as explorações portuguesas na Era dos Descobrimentos sinto profunda admiração pelos homens que se atreveram a explorar o desconhecido. Na Era  dos Descobrimentos, a população de toda a Europa é estimada em 60 milhões e a população total de Portugal entre 1400 e 1500 é estimada em um milhão de pessoas.  Um país tão pequenino, com uma população ínfima [1/60 de toda a Europa] que se jogava em frágeis embarcações, sair pelo mundo, conquistando, brigando, construindo, lutando, guerreando, tendo o atrevimento de desbancar governos locais, já estabelecidos, tem algo de mágico, do mitológico, do conhecido enredo do arquétipo do “pequeno contra o gigante”, que me comove.  Os obstáculos eram enormes, as dificuldades aterrorizantes, as doenças intermitentes, o desconhecido era abismal e assim mesmo, espada em punho, foram aos muitos cantos do mundo. É muito impressionante.] Para ter uma ideia dos perigos enfrentados em Ormuz, pelo viajante no século XIII,  fica aqui abaixo uma citação do livro de Laurence Bergreen, com citações diretas da descrição original de Marco Polo.

 

MARCO_POLO_DE_VENEZA_A_XANADU_1250679902P

 

Para o grupo de viajantes, a visão de tanta água após passarem meses no deserto os fez recordar Veneza e o Mar Adriático, porém, observando-a melhor, Ormuz não era exatamente a joia que tinham  avistado de longe. Em primeiro lugar, “se um mercador aqui morre, o rei confisca todos os seus bens”.  O clima também trazia riscos aos viajantes desprevenidos. O vento do deserto circundante podia ser “tão sufocantemente quente que seria mortal se, tão logo percebessem sua chegada, os homens não mergulhassem na água até o pescoço para escapar do calor”.

Enquanto estiveram em Ormuz, Marco ficou horrorizado ao saber que o vento mortal apanhara de surpresa  pelo menos 6 mil soldados (5 mil a pé, o restante a cavalo) no deserto e sufocara “todos eles, de sorte que ninguém sobreviveu para levar a notícia ao senhor”. Com o tempo, os “homens de Ormuz”, souberam da morte em massa e decidiram enterrar os corpos para evitar infecções, mas “quando os suspenderam pelos braços para levá-los às covas, eles [os cadáveres] estavam tão ressecados pelo calor que os braços caíram do tronco, de forma que eles [os homens] tiveram que fazer as covas ao lado dos cadáveres e empurrá-los.”

 

Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 68-69.

 





Jacques Le Goff: um adeus sentido

3 04 2014

540px-Roi_de_France_Louis_IX_en_mer_vers_TunisSão Luís rumo à Tunísia, em sua segunda cruzada, depois de 1332, antes de 1350.

Mahiet, Mestre do Missal de Cambrai

Cambrai, Bibliothèque municipale ms. no. 224

Há pessoas que nos influenciam apesar de nunca as termos visto ou encontrado.  Devo muito a Jacques Le Goff, o grande historiador que faleceu dia 1º aos noventa anos, em seu país de origem, França. Não, ele não sabia da minha existência. Nunca trocamos uma palavra em carta, email, telefone. Ao que eu saiba não temos amigos em comum. Mas seus livros fizeram parte da minha vida, uma grande parte da minha vida.

Não fui uma criança prodígio. Não descobri em tenra idade aquela habilidade que outros dissessem, “vá estudar história da arte …  Você tem sensibilidade nata para o assunto“. Pelo contrário, cheguei aqui por caminhos tortos, becos sem saída, pela constante reinvenção e redirecionamento dos meus objetivos. Quem hoje examinasse os meus boletins dos anos de adolescência descobriria que minhas notas em história não eram boas.  Ninguém poderia imaginar que este seria o caminho a ser traçado no futuro.  Não.  O oposto parecia apontar no horizonte.  Pensei seriamente em fazer medicina, isso depois de pensar em ser astrônoma e engenheira naval.  O curso de letras que foi a entrada para as ciências humanas, não havia sido minha primeira escolha. E a história da arte aconteceu de surpresa, caminho conduzido em parte por uma excelente professora de literatura, na Universidade Federal Fluminense, que ao ensinar Balzac trouxe para a sala de aula imagens de quadros franceses da época. Ideias trocadas, informações sobre pintores e descobri que havia a tal história da arte.  Que influência bons professores exercem sobre seus alunos!

785px-Boethius_initial_consolation_philosophyInicial iluminada, Boécio ensinando a seus alunos, 1325

Manuscrito: Consolação da filosofia, Itália (?)

MS Hunter 374 (V.1.11), Glasgow University Library

Há mais de uma maneira de se ensinar. Minha paixão pela história só se acendeu, através de dois grandes historiadores cujos livros, lidos paulatinamente, parágrafo a parágrafo, incendiaram minha imaginação e me acompanharam desde então a qualquer hora, em qualquer momento: Arnold J. Toynbee e Jacques Le Goff.  Toynbee já havia morrido quando fui apresentada ao seu trabalho. Um bom escritor vive para sempre através de seus leitores, e sua prosa era de fácil entendimento. Apaixonante sua visão da imensa continuidade da história, para não falar de sua erudição.  Jacques Le Goff foi o outro historiador que marcou a minha formação principalmente aquela formação pós-universitária, quando temos a liberdade de ir atrás dos pequenos detalhes que nos deixam curiosos, sem a preocupação de preencher um currículo ou uma determinada etapa da vida.  Jacques Le Goff foi aquele historiador de quem eu esperava as novas publicações com ansiedade. Foi ele quem fez a história europeia pós-império romano viva para mim. Concentrando-se no homem comum ele coloriu o mundo pré-renascentista de tal maneira e com tanta precisão que podemos nele ver as raízes de muito das nossas vidas diárias hoje.  Não sou medievalista.  Minha porção de especialização formal é a era moderna europeia: 1860-1945. Pelo menos foi assim que deixei os bancos universitários.  Mas a cada nova contribuição de Le Goff e de todos aqueles que ele formou mais me virei para a Europa medieval, esses grandes e sedutores séculos. Séculos que parecem cantos de sereia nos levando a profundezas enigmáticas. Mesmerizantes.  É portanto com muito pesar que recebo a noticia de que não poderemos mais contar com suas brilhantes publicações.  Registro então o vazio que sinto pelo que não virá, e o agradecimento pela riqueza do que ele nos deu.

 





Muito além do coração: uma joia musical

8 03 2014

open_bookChansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Também conhecido como Chansonnier Cordiforme (em formato de coração)

[Paris, Biblioteca Nacional, Ms. Rothchild, 2973]

Há mais ou menos um mês, através de uma aluna, descobri alguns manuscritos em forma de coração.  Foram novidade para mim, mas diga-se não sou medievalista.  Tudo indica que não são muitos. Dentre eles, talvez o mais divulgado seja o Chansonnier  de Jean de Montchenu (Cancioneiro de Jean de Montchenu) que recebeu recentemente uma edição maravilhosa em fac-símile.  Esse manuscrito foi encomendado na França, em  Savoy [Saboia] entre 1460 e 1477.  Encomenda feita por Jean, cânone de Montchenu — daí sua designação — que  mais tarde, em 1477,  se tornou Bispo de Agen e Bispo de Vivier (1478-1497).  O cancioneiro é composto por 43 músicas.  Entre elas há obras de Guillaume Dufay (Du Fay, Du Fayt) nascido em 5 de agosto, acredita-se que de  1397 e falecido a 27 de novembro de 1474.

DufayBinchoisDufay, retratado aqui à esquerda e Gilles de Binchois à direita no manuscrito em Martin le Franc, “Champion des Dames”, Arras 1451.

Dufay foi um dos compositores dos Países Baixos mais conhecidos na época do Renascimento, figura central na Escola da Borgonha, onde desempenhou o papel mais famoso e influente na Europa em meados do século XV.  Sua música foi copiada, distribuída e cantada em todos os lugares que a polifonia tinha criado raízes. Quase todos os compositores das gerações seguintes absorveram alguns elementos do seu estilo. A ampla distribuição de sua música é ainda mais impressionante, considerando que morreu décadas antes a disponibilidade de impressão de música. Ou seja, suas músicas tinham que ser copiadas à mão. 

gc178-4Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

Há também algumas cantigas de Gilles de Binche, contemporâneo de Dufay, nascido por volta do ano 1400, tendo falecido em 1460 e que foi também um compositor muito influente. Suas músicas apareceram em cópias décadas após sua morte, e muitas vezes foram usados ​​como fontes para a composição de Missas  por compositores posteriores. Sua música é simples e clara.  Empregado pelo Duque de Borgonha, Binchois  (como era também chamado) escreveu todo tipo de música: as canções seculares de amor além das músicas sacras que atenderam as expectativas e satisfizeram o gosto de seu patrão.  Outros compositores como Ockeghem , Busnoys também têm composições incluídas nesse manuscrito único.

montchen_m_1Chansonnier de Jean de Montchenu, década de 1470

O livro fechado tem a forma de um coração, aberto parece uma borboleta formada por dois corações. Os românticos veem nisso dois corações amantes. As canções são em francês e italiano e escritas para diferentes vozes.  Quando a palavra coração aparece no texto ela é representada por um imagem de um coração delicado.

montchenu4Página do Manuscrito de Montchenu, em que a palavra coeur [coração] aparece substituída pela imagem de um coração.

Duas ilustrações de página inteira aparecem no códice. Na primeira, um Cupido atira flechas contra uma jovem, enquanto ao seu lado Fortuna gira sua roda. No outro, dois amantes se aproximam um do outro com amor.  em todo o manuscrito, os pentagramas, música e poemas de amor são cercados por bordas de animais, pássaros, cães, gatos e todos os tipos de flores e plantas em ouro abundante e desenhos delicados. A encadernação é  em veludo cor vermelho, como apropriado  à  forma.

montchenu2Detalhe da página do manuscrito de Montchenu ilustrada na primeira fotografia desta postagem.

James de Rothschild recebeu este manuscrito junto a uma enorme coleção de seu pai Henri de Rothschild, e doou-o para a Biblioteca Nacional da França.

746299c15092a4867af370b608eac528Detalhe de uma das bordas do manuscrito de Montchenu.




Veneza do século XIII: os primórdios do capitalismo e da globalização

9 01 2014

Marco Polo sailing from Venice in 1271, detail from an illuminated manuscript, c. 15th century; in the collection of the Bodleian Library, Oxford, Eng.Marco Polo saindo em navio de Veneza, em 1271.  Detalhe de iluminura de um manuscrito do século XV, na Biblioteca Bodleian, na Universidade de Oxford.

QUASE TODOS em Veneza dedicavam-se ao comércio. As viúvas investiam em atividades mercantis e qualquer jovem desprovido de meios podia intitular-se “mercador” simplesmente aventurando-se no negócio. Apesar dos riscos enormes, riquezas inimagináveis atraíam os mais arrojados, os empreendedores e os bobos. Fortunas surgiam e evaporavam da noite para o dia, e muitas fortunas familiares venezianas provinham do êxito de uma única expedição comercial a Constantinopla.

Os mercadores venezianos desenvolveram todo tipo de estratagema para lidar com mudanças bruscas em seu meio de vida, o comércio mundial. Na ausência de padrões para o câmbio, as diversas moedas em uso eram um pesadelo na hora da conversão. O Império Bizantino tinha os seus besantes, as terras árabes seus dracmas, Florença seus florins. Confiando na proporção entre ouro e prata numa moeda para determinar o seu valor, Veneza tentava acomodar todas. Mercadores como os Polo evitavam o difícil sistema monetário, com sua inevitável confusão e depreciação e negociavam, com gemas tais como rubis, safiras e pérolas.

Para resolver suas necessidades financeiras sofisticadas e exóticas a cidade desenvolveu o sistema bancário mais avançado na Europa Ocidental. Bancos de depósito do continente são originários de Veneza. Em 1156, a República de Veneza tornou-se o primeiro estado desde a Antiguidade a obter um empréstimo público. Ela também emitiu as primeiras leis bancárias da Europa, com o fim de regulamentar a nascente indústria bancária. Como resultado dessas inovações, Veneza dispunha das mais avançadas práticas de negócios da Europa.

Veneza adaptou os contratos romanos às necessidades dos mercadores que negociavam com o Oriente. Sofisticados contratos marítimos de empréstimo ou de troca estipulavam as obrigações entre armadores e mercadores inclusive faziam seguro – obrigatório em Veneza a partir de 1253. O tipo de acordo mais comum entre os mercadores era o comenda ou, no dialeto veneziano, collegantia, um contrato baseado em modelos antigos. Numa tradução aproximada, o termo significava “negócio de risco” e, mais que um conjunto de princípios legais consistentes, era um reflexo dos costumes prevalecentes no comércio. Apesar de esses contratos do século XII e XIII pareceram antiquados suas exigências de precisão contável são surpreendentemente modernas. Eles exprimiram e respaldaram uma forma rudimentar de capitalismo muito antes do surgimento do conceito.

Para os venezianos, o mundo era assombrosamente moderno de outra maneira: ele era “plano”, isto é, mundialmente ligado para além das fronteiras e dos limites, fossem estes naturais ou artificiais. Eles viam o mundo como uma rede de rotas comerciais e oportunidades constantemente em mutação que se estendiam por terra e mar. Por barco ou em caravanas, os mercadores venezianos viajavam aos quatro cantos do mundo em busca de especiarias, gemas e tecidos valiosos. Graças à sua iniciativa, minerais, sal, cera, remédios, cânfora, goma-arábica, mirra, sândalo, canela, noz-moscada, uvas, figos, romãs, tecidos (especialmente seda), peles, armas, marfim, lã, penas de avestruz e papagaio, pérolas, ferro, cobre, pó de ouro, barras de ouro,  barras de prata e escravos asiáticos chegavam à Veneza, provenientes da África, do Oriente Médio e da Europa Ocidental, por meio de complexas rotas comerciais.

Itens ainda mais exóticos chegavam à cidade a bordo de galés estrangeiras. Imensas colunas de mármores, pedestais, painéis e blocos, arrancados de templos ou edifícios em ruínas em Constantinopla ou alguma cidade grega ou egípcia, amontoavam-se no cais. Esses restos da antiguidade, lápides de civilizações mortas ou moribundas, terminavam em uma esquina qualquer da Piazza San Marco, ou na fachada de um palazzo ostentoso habitado por algum duque ou rico mercador.

A diversidade de mercadorias levou Shakespeare a comentar por meio da personagem Antônio em O Mercador de Veneza, que “o lucro e o comércio da cidade/dependem de todas as nações”. O comércio veneziano era sinônimo de globalização – outro conceito embrionário da época. Para estender seu alcance, os venezianos formavam parcerias com governos e mercadores distantes que desconsideravam as divisões raciais e religiosas. Árabes, judeus, turcos, gregos e, mais tarde, mongóis faziam parcerias comerciais com Veneza, mesmo quando pareciam ser seus inimigos políticos…

Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 28-30.





Imagem de leitura — Laurentius de Voltolina

5 07 2013

MedievalClassroomFullSzHenrique da Alemanha dando aula na Universidade de Bologna, c. 1350-60

Laurentius de Voltolina ( Itália, ativo em Bologna na segunda metade do século XIV)

Liber ethicorum de Henricus de Alemannia

pintura sobre pergaminho, 18 x 22 cm

Kupferstichkabinett SMPK,

Staatliche Museum Preussiischer Kulturbesitz, Min. 1233








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