Refeições na Idade Média, texto de Alexandre Staut

25 04 2017

 

 

The Temperate and the Intemperate, about 1475–80, Master of the Dresden Prayer Book. Flemish. The J. Getty MuseumOs moderados e os desmedidos, c. 1475-1480

Mestre do Livro de Orações de Dresden

Bélgica

The J. Paul Getty Museum

 

 

“Em toda a Europa predominavam refeições coletivas em que inteiras, incluindo os funcionários, sentavam-se juntos. Era uma recomendação da Igreja contra o egoísmo e a arrogância.  Porém, perto do final da Idade Média, os ricos procuraram escapar do espírito coletivo, retirando-se em salas privadas para desfrutar de privacidade durante as refeições.

Durante o período medieval os ricos atentaram para a importância da limpeza e de hábitos saudáveis antes e durante as refeições. Nas mesas havia tigelas de água e toalhas para que pudessem lavar as mãos.”

 

Em: Paris-Brest, Alexandre Staut, São Paulo, Cia Editora Nacional: 2016, p.152





O Livro de Orações da Rainha Claude de França

9 04 2017

 

 

7720Pequeníssimo, completamente ilustrado, livro de orações da Rainha Claude, c. 1517, The Morgan Library & Museum, NY.

 

O Livro de Orações da Rainha Claude é uma obra de  c. 1517, ano da coroação dessa Rainha de França.  Ele foi iluminado por um artista desconhecido a que se deu o nome de Mestre de Claude de França, por ter sido ele também o iluminista de outro livro,  o par digamos assim,  o Livro das Horas da Rainha Claude, hoje numa coleção particular francesa. O brasão da rainha aparece três vezes neste livrinho que contém 132 cenas da vida de Cristo, da vida da Virgem Maria e de inúmeros santos.  As bordas são decoradas assim como verso e reverso de cada uma das folhas.

 

Claude abiertoBue

 

A rainha Claude morreu de varíola aos vinte e cinco anos (1499-1524), depois de ter sete filhos, um corpo deformado por escoliose e aparentemente ter um toque de estrabismo.  Casada com François d’Angoulême (1494–1547) que se tornou rei de França em 1515, como parte de um contrato político, Claude, duquesa de Duchy, peça no jogo de xadrez político da Europa,  não tinha atração pela política, nem muito interesse nos filhos. Dedicou-se principalmente aos estudos religiosos.

 

Interior-of-Queen-Claudes-Prayer-BookPágina com o Arcanjo Gabriel Anunciando à Maria.

 

Pouco sabemos sobre o Mestre da Rainha Claude. Trabalhou ativamente na cidade de Tours nas duas primeiras décadas do século XVI (1500-1525).  Seu estilo poderia ser considerado como extremamente elegante, com cores delicadas e aplicadas de tal maneira que não se percebe as pinceladas na pintura.  Só se conhece cerca de uma dúzia de manuscritos desse artista.

Esse livro-joia faz parte da coleção da Morgan Library em NY, presente de um colecionador americano.

 

Cover-of-Queen-Claudes-Prayer-BookCapa

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Panchatantra, uma das mais antigas coleções de fábulas

19 10 2015

 

 

syrischer_maler_von_1354_001Ilustração do Panchatantra, na versão síria de 1354. Aqui está ilustrada a história em que o coelho engana o elefante mostrando a ele a lua refletida na água. (Bodleian Library, Oxford).

 

 

Panchatantra, quer dizer ‘Cinco Princípios‘ e é uma coleção de fábulas indianas provavelmente compiladas no século III antes da era comum, escritas originalmente em sânscrito.  Os originais já se perderam. Mas a coleção, ainda é muito conhecida. Foi traduzida do hebreu para o latim por João de Capua, em 1270.  Assim como muitas coleções de fábulas, hoje o Panchatantra tem inúmeras publicações em inglês, francês e outras línguas ocidentais, a maioria como livros para crianças.  Mas seus ensinamentos são universais e para todas as idades…





Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?

18 02 2014

almanac-topPagina do almanaque comprado pela Biblioteca Wellcome.

Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?  100.000 libras esterlinas  aproximadamente R$ 400.000, hoje.

No finalzinho do ano passado, depois do Natal de 2013, a Wellcome Library, biblioteca londrina, especializada na história da medicina,  pagou exatamente essa quantia pelo pequeno almanaque médico medieval. Este volume tem um história interessante além da páginas decoradas à mão. Pertenceu a excêntrica poeta e crítica literária Edith Sitwell.  O almanaque é um calendário combinado a mapa astrológico e também a um  livro de medicina.  E cabe na palma de uma mão.

Nessa época era comum associar-se os signos do zodíaco ao corpo humano.  Na verdade até o final do século XVI médicos anotavam regularmente a posição dos signos, e a fase da lua quando atendiam a seus pacientes.

Medical almanacO mapa do corpo humano ilustrado no manuscrito da Biblioteca Wellcome, em Londres.

Por ter uma função específica, auxiliar o médico em sua tarefa de cura, o almanaque de medicina  era em geral muito manuseado. Além disso muitos deles eram presos ao cinto ou à sacola do médico que o levava para atender seus pacientes.  Por isso mesmo poucos restam da época medieval. Este manuscrito é do século XV.  Só 30 desses almanaques são conhecidos dessa época.  Excepcionalmente, este era um objeto de luxo, iluminado com cores ricas e folha de ouro, e encadernado em brocado de seda.

Não se conhece a história do proprietário original desse manuscrito e nem mesmo de como ele conseguiu chegar em tão boas condições até 1940, quando foi dado de presente à Edith Sitwell. São 600 anos de mistério.  Mas agora ele estará ao alcance do público numa biblioteca especializada.

FONTE: The Guardian





O mais antigo manuscrito cristão da África

8 02 2014

Garima-gospels_2_1672773cOs Evangelhos de Garima, iluminura, c. 330-660 EC.

Em janeiro passou sem referência na imprensa carioca uma descoberta anunciada em quase todos os  jornais europeus: novas datação para os Evangelhos de Garima, que os transformam no mais antigo manuscrito ilustrado cristão do mundo.  Esses dois volumes, um de 348 páginas com 11 páginas iluminadas e  outro de 322 página com 17 iluminuras, foram encontrados em um mosteiro etíope na região montanhosa do país  a 2.150 m de altitude.  Os Evangelhos de Garima haviam sido anteriormente datados de 1100 da Era Comum, mas novo exame por rádio carbono realizado em Oxford sugere data anterior:  entre 330 e 650EC, tendo os anos de 487-488 a data mais indicada. Esta descoberta tem duas conseqüências: muda o nosso conhecimento sobre o desenvolvimento de manuscritos iluminados e lança uma nova luz sobre a difusão do cristianismo na África subsaariana. Preservados em um mosteiro isolado na região de Ti Gray, os Evangelhos de Garima permanecem como únicos exemplares datados de antes do século XII,  pré-datando todos os outros manuscritos cristãos por mais de 500 anos.  Essa nova informação sobre o manuscrito pode ligá-lo diretamente ao tempo de Abba Garima, fundador do mosteiro.  Vindo de Constantinopla, o monge Garima chegou à a Etiópia por volta de 494. Diz a lenda que ele copiou os Evangelhos em um único dia.  Para ajudá-lo a concluir esta longa tarefa, Deus teria adiado o por do sol.

garima_gospels2.jpgOs Evangelhos de Garima

A sobrevivência dos Evangelhos Garima é surpreendente,  já que todos os outros manuscritos etíopes anteriores parecem ter sido destruídos em tempos de turbulência. Muito pouco se sabe sobre a história do Mosteiro de Abba Garima, mas ele pode ter sido invadido na década de 1530 por muçulmanos.   E em 1896 essa área foi o centro de resistência das forças italianas que lutavam para manter a colônia.  Além disso a igreja principal do monastério pegou fogo em 1930. Sabe-se que esses evangelhos estavam escondidos, talvez por séculos ou até mesmo por mais de um milênio.  Em 1520, capelão Português Francisco Álvarez visitou o mosteiro e registrou que havia uma caverna (agora perdida ou destruída), onde acreditava-se que Abba Garima havia vivido. Álvarez relatou que os monges desciam até a gruta por uma  escada para fazer penitência.  Especula-se,portanto, que  os Evangelhos possam ter sido escondidos nesta caverna.

FONTE: The Art Newspaper





Um dia de diletantismo, uma volta pelas hortas medievais…

3 04 2012

Trabalhos agrícolas nos doze meses do ano, 1459

Iluminura, Tratado de agricultura de Pietro de Crezcenzi  [ MS 340 ]

Musée Condé, coleção  em Chantilly

Hoje foi um dia de diletantismo involuntário.  Mas mesmo assim diletantismo.  Estou desenvolvendo uma série de palestras sobre as artes em contexto.  E precisava de uma demonstração das roupas usadas por peões na Idade Média, mais precisamente na época de Carlos Magno.   Eu queria poder ilustrar as descrições do excelente livro Daily life in the World of Charlemagne, de Pierre Riché [Philadelphia, Univesity of Pennsylvania: 1978] sobre esse período na história da França.  É irrelevante sabermos porque eu estava fixada nesse ponto.  Depois do dia de hoje, já não importa.  Mas fato é que não encontrei o que queria, na internet.  Não porque não haja, mas porque me distraí.  E a culpa dessa distração segue abaixo, na deliciosa ilustração de colméias em manuscrito medieval.

Theatrum Sanitatis, c. 1450-1475

de Ububchassym de Baldach

Códice 4182

Biblioteca Casanatense de Roma

Saí à cata de mais colméias, de mais abelhas…  Adoro mel, mas tenho uma facilidade tremenda para a insectofobia, sim,  não gosto de coisinhas que voam, ou não, que tenham muitas patinhas, que adoram subir pelas nossas pernas, braços, voar sem rumo em nossa direção.  Enfim, o que aconteceu foi que também não encontrei muitas abelhas, mas encontrei… hortas.  Sim, representações em iluminuras, da plantação de legumes, ervas, alimentos e me perdi.  Perdi o rumo, perdi a direção, tal qual uma abelha zunindo daqui para lá, pegando o néctar das iluminuras medievais para sabe-se lá fazer o quê com elas além de postá-las aqui e dividí-las com os leitores?  Segue um passeio pelas hortas medievais.  Espero que vocês possam sentir o cheirinho das folhas verdes e a umidade do solo, como eu fiz.

Cebolas, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Aipo, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Endro, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Espinafre, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Feijões, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Grão de bico, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Milho miúdo, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Panicum, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Cenouras, século XV [ 1400-1500]

Tacuinum Sanitatis, (BNF Latin 9333)

Plantando o aipo, c. 1370-1400

Tacuinum Sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644)

Plantando cebolinhas, c. 1370-1400

Tacuinum Sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644)

Plantando endro, c. 1370-1400

Tacuinum Sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644)

Plantando repolhos, c. 1370-1400

Tacuinum Sanitatis (ÖNB Codex Vindobonensis, series nova 2644)





Antigos manuscritos gregos na internet

2 10 2010
Salmo Theodoro

A Biblioteca Britânica que está na vanguarda dos esforços de digitalização de manuscritos,  digitalizou e colocou na internet mais de um quarto dos seus manuscritos gregos, totalizando 280 volumes.  Foi mais um passo rumo à digitalização completa desses importantes documentos antigos.  Ela possui uma das maiores coleções do mundo de manuscritos gregos: mais de 1000 manuscritos, mais de 3.000 papiros.  A digitalização cuidadosa dos mais antigos textos do Novo Testamento, o famoso Codex Sinaiticus é um dos projetos que a biblioteca tem em conjunto com a Biblioteca Universitária de Leipzig, a Biblioteca Nacional da Rússia em São Petersburgo, e com o Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.

Os manuscritos, disponibilizados mais recentemente,  e gratuitamente podem ser encontrados no portal www.bl.uk/manuscripts  e são parte de uma das mais importantes coleções localizadas fora da Grécia para o estudo de mais de 2 mil anos de cultura helênica.   As informações ali presentes interessam a acadêmicos que trabalham com literatura, história, ciência, religião, filosofia e arte do Mediterrâneo Oriental durante os períodos clássico e bizantino.

 “Isso é exatamente o que todos esperávamos da nova tecnologia, mas raramente tínhamos”, disse Mary Beard, professora de cultura clássica da Universidade de Cambridge.Isso abre um recurso precioso para qualquer um ¿ do especialista ao curioso ¿ em qualquer lugar do mundo, gratuitamente.”

Entre os destaques do acervo digitalizado estão os Salmos de Theodoro, altamente ilustrados, produzidos em Constantinopla em 1066, e as Fábulas de Babrius, descobertas em 1842 no monte Atos, que contêm 123 fábulas de Esopo corrigidas pelo grande acadêmico bizantino Demetrius Triclinius.  Também foram colocados à disposição do público na rede Os Diálogos de Luciano, manuscrito do século X.  Luciano ficou famoso por seus diálogos satíricos.

A digitalização de manuscritos raros ou outros documentos primários tem, obviamente, uma série de vantagens: facilidade de acesso aos dados já que os interessados. Além disso, um documento digital não é exposto a muitas pessoas  e, portanto, o original é salvo de danos devido ao manuseio e exposição à luz. 

Fonte:   Greek Manuscripts Online at the British Library








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