Fábula: O macaco e o gato, texto de Monteiro Lobato

24 08 2013

monkey-and-catIlustração inspirada no trabalho de Marcus Gheeraerts, o velho (Bélgica, c. 1520- c. 1590)

O macaco e o gato

Monteiro Lobato

Simão, o macaco, e Bichano, o gato, moram juntos na mesma casa. E pintam o sete. Um furta coisas, remexe gavetas, esconde tesourinhas, atormenta o papagaio; outra arranha os tapetes, esfiapa as almofadas e bebe o leite das crianças.

Mas, apesar de amigos e sócios, o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre.

Foi assim no caso das castanhas.

A cozinheira pusera a assar nas brasas umas castanhas e fora à horta colher temperos.  Vendo a cozinha vazia, os dois malandros se aproximaram. Disse o macaco:

— Amigo Bichano, você que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.

O gato não se fez insistir e com muita arte começou a tirar as castanhas.

— Pronto, uma…

— Agora aquela lá… Isso. Agora aquela gorducha… Isso. E mais a da esquerda, que estalou…

O gato as tirava, mas quem as comia, gulosamente, piscando o olho, era o macaco…

De repente, eis que surge a cozinheira, furiosa, de vara na mão.

— Espere aí, diabada!…

Os dois gatunos sumiram-se aos pinotes.

— Boa peça, hem? — disse o macaco lá longe.

O gato suspirou:

— Para você, que comeu as castanhas. Para mim foi péssima, pois arrisquei o pelo e fiquei em jejum, sem saber que gosto tem uma castanha assada…

O bom-bocado não é para quem o faz, é para quem o come.

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição, pp 97-98.

José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948).  Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.

Obras:

A Barca de Gleyre, 1944

A Caçada da Onça, 1924

A ceia dos acusados, 1936

A Chave do Tamanho, 1942

A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955

A Epopéia Americana, 1940

A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924

Alice no País do Espelho, 1933

América, 1932

Aritmética da Emília, 1935

As caçadas de Pedrinho, 1933

Aventuras de Hans Staden, 1927

Caçada da Onça, 1925

Cidades Mortas, 1919

Contos Leves, 1935

Contos Pesados, 1940

Conversa entre Amigos, 1986

D. Quixote das crianças, 1936

Emília no País da Gramática, 1934

Escândalo do Petróleo, 1936

Fábulas, 1922

Fábulas de Narizinho, 1923

Ferro, 1931

Filosofia da vida, 1937

Formação da mentalidade, 1940

Geografia de Dona Benta, 1935

História da civilização, 1946

História da filosofia, 1935

História da literatura mundial, 1941

História das Invenções, 1935

História do Mundo para crianças, 1933

Histórias de Tia Nastácia, 1937

How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926

Idéias de Jeca Tatu, 1919

Jeca-Tatuzinho, 1925

Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921

Memórias de Emília, 1936

Mister Slang e o Brasil, 1927

Mundo da Lua, 1923

Na Antevéspera, 1933

Narizinho Arrebitado, 1923

Negrinha, 1920

Novas Reinações de Narizinho, 1933

O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926

O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930

O livro da jangal, 1941

O Macaco que Se Fez Homem, 1923

O Marquês de Rabicó, 1922

O Minotauro, 1939

O pequeno César, 1935

O Picapau Amarelo, 1939

O pó de pirlimpimpim, 1931

O Poço do Visconde, 1937

O presidente negro, 1926

O Saci, 1918

Onda Verde, 1923

Os Doze Trabalhos de Hércules,  1944

Os grandes pensadores, 1939

Os Negros, 1924

Prefácios e Entrevistas, 1946

Problema Vital, 1918

Reforma da Natureza, 1941

Reinações de Narizinho, 1931

Serões de Dona Benta,  1937

Urupês, 1918

Viagem ao Céu, 1932

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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC.  Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC.  Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada.  Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.

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Modelos de comportamento nas ilustrações de livros infantis

31 07 2013

ajudando a consertar a cercaConsertando a cerca, Ilustração de J. H. Wingfield (Inglaterra, 1910-2002).

Uma nova pesquisa sobre livros infantis ilustrados, feita nos Estados Unidos, constatou que os estereótipos de gênero, como as mães dando carinho e os pais sendo responsáveis pelo sustento da família, continuam teimosamente persistentes até os dias de hoje.

Os livros continuam retratando o que hoje pode ser considerada uma ficção dando preferência a uma realidade incompatível com o presente, no dia a dia da criança.  Os livros infantis nos EUA  estão com ilustrações anacrônicas, com papéis sexuais das histórias ilustradas estagnados a décadas atrás.

A pesquisa se baseou em uma amostra aleatória de 300 livros infantis “fáceis” de mais de 1.400 listados no catálogo de livros infantis, usado para ajudar bibliotecas escolares e comunitárias na escolha de livros de qualidade.  Os livros foram então divididos de acordo com a data de publicação, começando com um grupo de 50, publicados entre 1900 e 1959. Grupos adicionais de 50 foram escolhidos a partir de cada uma das últimas quatro décadas do século XX. Os últimos 50 foram escolhidos dentre os livros publicados no ano de 2000.

ajudando a fazer a camaFazendo a cama, ilustração de J. H. Wingfield (Inglaterra, 1910-2002)

Os pesquisadores procuraram por atitudes específicas dos pais representados, observando o comportamento de pais e mães nas ilustrações. Dividiram em comportamentos de afeto  ou conforto à criança;  comportamentos de prestação de cuidados (como preparar refeições ou limpar a criança); comportamentos disciplinares (como repreensão), companheirismo (como brincar com a criança ou dar um passeio), e o trabalho fora de casa.

Ninguém se surpreendeu de ter encontrado uma grande quantidade de estereótipos de gênero. Mas ao contrário das expectativas, esta tendência não diminuiu significativamente com o passar do tempo.  Pais em geral sendo retratados trabalhando fora e as mães sendo as principais cuidadoras das crianças. Os pesquisadores relatam esses estereótipos têm suavizado ao longo das décadas, mas apenas ligeiramente e de forma esporádica. Houve  um pico de de ilustrações de comportamentos mais modernos,  em 1970, mas desde então tudo permaneceu no mesmo patamar até o ano 2000.

“Os pais, em livros publicados em 2000, se mostraram, nas ilustrações como capazes de  maior prestação de cuidados e carinho do que em  períodos anteriores, e as mães foram representadas em maior número trabalhando fora de casa”, sugeriram os pesquisadores. “Mas falta significância nos resultados estatísticos para que isso seja considerado uma tendência.  O exemplo de 1970 mostra que pode haver picos de mudanças e depois as coisas darem para trás.  Há evidentemente uma teimosia cultural que não deixa o retrato da vida no presente.  Há uma idealização de papéis? .

FONTE: PS MAGAZINE





Imagem de leitura — Jenny Nyström

31 01 2013

Meninas lendo livro

Jenny Nyström ( Suécia, 1854-1946)

[cartão de Natal]

Jenny Nyström nasceu em Kalmar, na Suécia em 1854.  Pintora e ilustradora de livros, fez fama com seus inúmeros cartões de Natal  e ilutrações para revistas.  Em 1865 começou a estudar pintura na Göteborgs Escola de Arte e em 1873 foi aceita na Real Academia de Arte da Suécia, em Estocolmo onde estudou por oito anos.  Conseguiu uma bolsa e foi para Paris, onde permaneceu de 1882-1886 estudando. Foi em Paris que descobriu o mercado dos cartões postais que estavam muito populares.  Começou a produzí-los e assim entrou também para a ilustração de livros. Casou-se aos 33 anos. Faleceu em Estocolmo, em 1946, depois de uma carreira de sucesso.





Imagem de leitura — Xavier Gosé

24 09 2012

Mulher lendo

Xavier Gosé (Espanha, 1876-1915)

Guache sobre papel

=

Xavier Gosé i Rovira nasceu em Alcalá de Henares, na Catalunha em 1876.  Depois da morte do pai, quando ele tinha quatro anos, foi para Barcelona com a família de sua mãe. Estudou de arte com José Luís Pellicer.  Terminado o aprendizado, trabalhou com ilustração para as  maiores revistas da época, de 1895 a 1898.  Expõe na Catalunha, inclusive no conhecido Quatre Gats.  Em 1900 mudou-se para Paris onde passou a contribuir primeiro  com caricaturas para revistas de humor e depois para todo tipo de publicação. Tornou-se um ilustrador requisitado por todo o mercado. Com a aproximação da Primeira Guerra Mundial retornou à Catalunha.  Mas, morreu logo a seguir,  em Lleida,  em 1915, de tuberculose.





Palavras para lembrar — Sam Levenson

20 08 2012

Menino lendo na cama

Anni Matsick ( EUA, contemporânea)

www.annimatsick.com

“Qualquer criança que tenha dois pais interessados nela e uma casa cheia de livros não é pobre”.


Sam Levenson





Pintor Rafael Falco, ilustrador da Revista Caça e Pesca

9 07 2012

Jaguatirica na árvore, Capa da Revista Caça e Pesca de abril de 1943, ilustração de Rafael Falco.

Quando hoje fazemos uma pesquisa sobre qualquer assunto, a primeira ideia que nos chega é consultar a internet.  Lá, deve haver alguém que se preocupou com o assunto que nos aflige.  Nem sempre é o caso.  Principalmente quando tratamos das artes visuais no Brasil. Há pouca informação. Não é de todo culpa daqueles que usam a internet, nem é  por falta de interesse. É que temos que nos reeducar.  Aprender a dividir conhecimentos, algo raro num país em que por tantos séculos o saber, o conhecimento eram a maneira de se manter classes sociais distintas.  Somar forças ainda é a melhor maneira de se combater um mal. Ainda bem que a internet chegou, democratizando a cultura.  Sem ela, a postagem de hoje não existiria não fossem os esforços de muitos e principalmente de duas pessoas: 1) do artista plástico, arquiteto, mestre em arqueologia pelo MAE/USP, Paulo Araújo de Almeida.  Dele são todas as fotos das capas das revistas Caça e Pesca.  2) ao médico e cirurgião Benedito Martins de Lacerda, descendente de Rafael Falco, cujas pesquisas sobre a família e o paradeiro das obras de Falco contribuíram para essa postagem e ainda irão aumentar o nosso conhecimento sobre esse pintor brasileiro no futuro. Dele são alguns dados pessoais sobre a famíia do pintor.  A minha pesquisa se resumiu até hoje a uma ida à Biblioteca Nacional onde minhas esperanças de maior informação não foram de todo vãs, mas ficaram aquém do esperado.  De qualquer maneira, segue aqui o que já se conseguiu a respeito.  Aqueles que estão pegando esse bonde andando, sugiro que leiam as postagens sobre o pintor Rafael Falco nesse blog.

Pesca de rio, Capa da Revista Caça e Pesca de janeiro de 1943, ilustração de Rafael Falco.

Rafael Falco nasceu em Oran, na Argélia em 1885 [Dicinário de Pintores Brasileiros, Walmir Ayala, 2 volumes, Rio de Janeiro, Spala: 1986]. Filho de Gaspar Falco e de Antonia Falco Jaén, ela de família originária de Alicante na Espanha, [informações da família de Rafael Falco]. A família diz que o pai de Rafael foi um soldado Zuavo, do exército francês.  Os zuavos eram soldados da infantaria da Argélia, a serviço do exército francês, desde 1830.  Tinham um uniforme diferenciado e eram todos nascidos na Argélia.  Eram comandados por um militar francês, mas eram argelinos – que na época era território francês.  Como Oran também era uma cidade com grande população de espanhóis – até hoje a influência espanhola pode ser sentida na cidade em sua Plaza de Toros, entre outras construções típicas da região – é possível que tanto o pai como a mãe de Rafael Falco fossem realmente naturais da Argélia, trazendo a cidadania francesa por terem nascido em território de domínio francês. [No entanto, veja ao final do parágrafo a informação que sua neta conseguiu na documentação de imigração.] Se o casal sempre residiu em Oran, ou não, ainda está para ser documentado.   O casal teve seis filhos entre eles Rafael.  A família emigrou para o Brasil a tempo de Rafael Falco passar a infância em Taubaté, onde fez seus primeiros estudos.  Sua neta Isabelle, que generosamente dividiu conosco algumas informações, pesquisou e encontrou documentação em São Paulo sobre a data de chegada da família no Brasil: 1890.  Nesses documentos a família consta como de origem espanhola. Por esses documentos sabemos que Rafael Gaspar Falco tinha cinco anos quando chegou ao Brasil.

Pesca noturna, Revista Caça e Pesca, novembro de 1943, ilustração de Rafael Falco.

“Transferindo residência mais tarde para São Carlos (SP) passou a lecionar na Escola Normal dessa cidade.  Sua tela, ‘Tiradentes ante o carrasco’, exposta no XVI Salão Paulista de Belas Artes, recebeu o Prêmio Prefeitura de São Paulo, e depois de passar alguns anos no Palácio Tiradentes, foi transferida para o Palácio do Planalto, em Brasília, tendo sido aproveitada para ilustrar as notas novas de cinco mil cruzeiros, emitidas pelo Tesouro Nacional.”  [Dicinário de Pintores Brasileiros, Walmir Ayala, 2 volumes, Rio de Janeiro, Spala: 1986].  A família de Rafael Falco menciona que foi um familiar, Emmanuel, sobrinho de Rafael Falco, quem serviu de modelo para Tiradentes nessa obra.

Caça, Revista Caça e Pesca, abril de 1944, ilustração Rafael Falco.

Walmir Ayala em seu Dicinário de Pintores Brasileiros lista as principais coletivas do pintor:

1939 – Salão Paulista de Belas Artes, medalha de bronze, São Paulo (SP)

1940 – Salão Palista de Belas Artes, pequena medalha de prata, São Paulo (SP)

1951 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Prefeitura de São Paulo (SP)

1960 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Assembléia Legislativa, São Paulo (SP)

1961 – Salão Paulista de Belas Artes, medalha de prata, São Paulo (SP)

1965 – Salão Paulista de Belas Artes, Prêmio Prefeitura de São Paulo (SP)

Caça à onça pintada, Revista Caça e Pesca, junho de 1943, ilustração Rafael Falco.

Já Theodoro Braga, no livro de referências bibliográficas, Artistas Pintores no Brasil, São Paulo, Ed. São Paulo, 1942. lista as seguintes fontes bibliográfcas para Rafael Falco.  Isso quer dizer, para quem não está acostumado com esses termos, ele lista os seguintes artigos que se referem à obra de Rafael Falco.

Catálogo do VII– 1940, Salão Paulista de Belas Artes

Diário Popular, São Paulo, 20 de dezembro de 1939.

Revista da Semana, Rio de Janeiro, 8 de abril de 1939.

Belas Artes, Rio de Janeiro, abril de 1938, nº 35-3, página 3

O Estado de São Paulo, São Paulo, 12 de fevereiro de 1941, página 8

O Revelador, São Paulo, Janeiro de 1942, Ano IX, nº 1

Diário Popular, São Paulo, dezembro de 1941

Grupo Escolar em Taubaté, (São Paulo), 1904

Escola Normal Secundária de São Carlos, SP, 1911

Catálogo VIII — 1942, Salão Paulista de Belas Artes, página 39

Catálogo do V e do VI, 1938-1939, Salão Paulista de Belas Artes

Pescador, Revista Caça e Pesca, agosto de 1943, ilustração Rafael Falco.

A família de Rafael Falco encontrou uma foto do pintor ainda jovem, de 1904, do Clube Taubateense. Mas ainda não a recebi.  A família também já entrou em contato com a escola em São Carlos, que confirmou possuir algumas obras de Rafael Falco, todas no momento em estado precário, necessitando restauro.  Assim, aos poucos talvez possamos reconstituir parte da trajetória desse artista que como muitos outros, foi um competente pintor, que caiu no esquecimento por não estar entre os mais inovadores. No entanto, a nossa história cultural deve uma grande porção a esses artistas que estabeleceram para muitos, alguns princípios estéticos rudimentares.  O caso de Rafael Falco é emblemático de muitos outros artistas que se dedicaram à ilustração para ajudar nas contas do fim do mês. Sua obra talvez tenha sido a única forma de arte que muitas pessoas, menos ligadas aos movimentos artísticos, tenham conhecido, entre elas caçadores e pescadores que viram, que entraram em contato, mês após mês, com as capas bem feitas, ilustrativas da época.

Já está mais do que estabelecido, fora do Brasil, que foram ilustradores — aqueles responsáveis pelas capas de revistas de grande circulação —  que acabaram estabelecendo uma linguagem estética que aproximava a pessoa comum das obras de arte.  Exemplos existem às centenas desses “educadores visuais”: Norman Rockwell, William Morris, Beatrix Potter, George Barbier, entre muitos e muitos outros.  Alguns, como o pintor surrealista belga René Magritte, dedicaram-se não só às páginas de revistas, mas às capas de partituras musicais, folhinhas, rótulos de bebidas, cartazes e assim modificaram, ajustaram, formaram o gosto do público à sensibilidade estética da época.

Ataque de porcos do mato, Capa da Revista Caça e Pesca, setembro de 1941, ilustração de Rafael Falco.

Falta no Brasil um levantamento dedicado a esses trabalhadores incansáveis.  Falta reconhecimento de sua importância como linha de frente na batalha da educação estética.

Não dá para sabermos ainda as técnicas de trabalho de Rafael Falco.  Muitos de sua geração usavam a aquarela sobre papel — que melhor se ajustava às necessidades de impressão a cores das capas de revistas.  Grande parte dos ilustradores em outros países usam a aquarela.  Mas recentemente tive acesso aos trabalhos do ilustrador Henry [Hy] Hintermeister, nascido na Suiça, que tendo emigrado para os Estados Unidos, fazia algumas cenas quase cômicas de suas ilustrações bastante divulgadas nos anos 1920 a 1950 — como capas de revistas — em óleo sobre canvas.  Isso não é tão comum.  Qualquer informação sobre a técnica de Rafael Falco será bem-vinda e eventualmente partilhada por aqui.

Agradeço mais uma vez a Paulo Araújo de Almeida, a Benedito Martins de Lacerda e a Isabelle Polz que generosamente dividiram suas informações para que essa postagem ficasse mais completa.

Partida, Revista Caça e Pesca, janeiro de 1943, ilustração Rafael Falco.

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NOTA: O nome do pintor pode aparecer como Rafael Falco, Raphael Falco ou Raphael Gaspar Falco.  Para quem quiser aprofundar a pesquisa essas três variações precisam ser testadas.  Como todos os documentos de época também eram na sua maioria escritos à mão há que decifrá-los.  Também há possibilidade de erros na transcrição de um documento para outro pode gerar diferenças em como se escreve um nome ou sobrenome.





As fabulosas ilustrações em silhueta, da série “Vamos Estudar?”

7 03 2012

Menina na cozinha com bandeja para o chá.

Os livros escolares de Theobaldo Miranda Santos, que foram usados por muitas das escolas primárias brasileiras nas décadas de 1940, 50 e 60, publicados pela editora Agir, têm, de vez em quando, algumas das mais deliciosas ilustrações em silhueta, como o exemplo acima de uma menina na cozinha.  Não me lembro de ter estudado nos livros desse autor, apesar deles terem algumas facetas que me são extremamente familiares, principalmente a divisão de cada capítulo, com exercícios e pequenos parágrafos que eram usados como ditado.  Minha memória sobre textos escolares que usei na escola municipal é muito vaga, só me lembro mesmo com uma antologia de textos literários. Mas como tenho um grande número dos livros de Theobaldo Miranda Santos, posso me deliciar com essas ilustrações e gostaria de dividir esse prazer com vocês.  Talvez elas venham a acender uma fagulha de boas recordações para quem estudou com elas.

Na venda, na quitanda, no armazém…  Menina fazendo compras.

Em nenhum, absolutamente nenhum dos volumes de Vamos estudar?  — quer seja a edição para o estado do Rio de Janeiro, quer seja para o Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, tenho livros para cada um desses estados  — em lugar algum há a indicação de autoria dessas ilustrações quadradinhas, de crianças em ação.  Já revirei a internet à cata de informações sobre sua autoria e ainda não achei nada.  Sei de uma coisa, no entanto, são americanas. Isso é simples de decidir, afinal de contas há em uma dessas tetéias a representação de uma vidraça quebrada próxima a um menino com o uniforme e o bastão de basebol.

Menino com uniforme de basebol e bastão.

Todas elas aparecem sem texto de referência, sem título e acredito que tivessem sido usadas para exercícios de redação, ora de narração, ora de descrição.  Coletei simplesmente nove dessas ilustrações que apareceram através das diversas séries primárias, às vezes em tamanho grande, às vezes do tamanho de um selo, preenchendo espaço.

Menino no balanço com cachorrinho.

Vez por outra elas aparecem com uma moldura negra bem grossa, ou aparecem como essa aí em cima sem qualquer moldura.  Mas parecem ser todas da mesma autoria.  Pelas características do desenho elas me parecem ter sido feitas nos anos da década de 1930.

Menino brincando com gatinho, jogando bola.

Essas ilustrações mostram crianças em atividades que poderiam ser aplicadas a qualquer criança na época.  Brincar com o gato, andar de balanço, fazer uma compra para a mamãe, estudar, ler com a família, fazer um piquenique.

Reunião com a família.

Acredito que a editora tenha comprado um grupo de 9 ou até 10 ilustrações diferentes com todos os direitos e as tenha espalhado nos livros escolares mais ou menos umas 5 ou 6 por livro.  Não eram as únicas ilustrações dos livros dessa série.  Muito pelo contrário.  Esses livros eram preenchidos com bons textos e muitas, muitas ilustrações em geral tendo a ver com a lição em questão.  Mas essas se destacam.

Menino estudando na escola.

Gosto muito do detalhe do aquário na janela.  Isso me lembra das nossas plantinhas que tínhamos que manter viva.  Espero que os peixinhos das escolas americanas tenham tido mais sorte do que os nossos feijões crescendo no algodão tiveram.  Mas reparem bem as roupas, isso é década de 1920-30.

Mãe e menino fazendo um piquenique.

Quem souber onde achar informações sobre essas ilustrações eu adoraria saber.  Só mesmo por uma questão de curiosidade.  Afinal tenho certeza de que aqui mesmo, entre os visitantes desse blog, há de haver muita gente que se lembra dessas imagens.  Muitos devem ter crescido com elas.  Vamos descobrir?








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