A dança dos colonos alemães, texto de Graça Aranha

10 05 2014

 

 

Kerb(fest..[1]Kerb, 1892

Pedro Weingärtner (Brasil, 1853 – 1929)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Os dançantes continuavam no compasso marcial da polaca, executando variadas figuras, ora desenhando meias-luas, ora separando-se em alas, marchando frente a frente, ora fazendo evoluções de homens e mulheres, separados, para se reunirem depois de diferentes voltas. Os movimentos eram tardos e pesados; dentro de sapatos grossos e ferrados, batendo fortemente os pés no assoalho, arrastando-se com esforço, faziam um barulho seco, enorme, que dominava as vozes dos instrumentos. Quando a contradança parava, os pares voltavam-se num mesmo instante como por uma combinação mágica, e todos livres se moviam vagarosamente, procurando os bancos encostados às paredes das salas ou aos cantos das janelas. Muitos saíam até ao terreiro, para se refrescar; namorados passeavam ali no escuro, abraçados; velhos fumavam o seu cachimbo, resmungando conversas preguiçosas, até que de novo a música dava o sinal e todos voltavam à sala, em ordem, sem o menor embaraço, passando a dançar automaticamente, de charuto ou cachimbo ao queixo e chapéus na cabeça, enquanto as mulheres amarravam lenços ao pescoço, por causa do suor que lhes escorria da fronte.

 

Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.

 

 

 





Jornada com Rupert, de Salim Miguel

13 02 2010

Maria Fumaça, s/d

João Barcelos ( Brasil, contemporâneo)

óleo sobre linóleo, 38 x 46 cm

Os americanos têm uma expressão —  “coming of age” –  [chegada à idade] que resume a passagem de um período da vida para outro, a superação dos conflitos em cada um de nós, quando descobrimos que deixamos a adolescência para entrarmos numa outra fase da vida.  Quando finalmente encontramos a nossa identidade, independente daquela que herdamos de nossas famílias ou da cultura à nossa volta.  Este período, esta mudança, tem servido há muitas décadas como tema de inúmeros romances, filmes e peças teatrais, principalmente no mundo anglo fônico.  A idade em que essa mudança ocorre difere de cultura para cultura, de pessoa para pessoa.  Dentre os mais famosos romances em língua inglesa que retratam essa transformação estão: Grandes Esperanças, [Great expectations], de Charles Dickens, O apanhador no campo de centeio, [Catcher in the Rye] de J. D. Salinger,  O sol é para todos [To Kill a Mockingbird] de Harper Lee, A insígnia vermelha da coragem [The Red Badge of Courage] de Stephen Crane.  Mas a lista é numerosa.    Na Alemanha, o “Das Bildungsroman” — o equivalente do romance de iniciação — tem no Os sofrimentos do jovem Werther, [Die Leiden  des jungen Werther] de Goethe, um grande exemplo.  No Brasil esta temática não é tão popular, talvez mesmo porque, na nossa cultura, custamos a deixar a casa paterna em busca do nosso próprio destino.  É uma questão cultural.  E é justamente esta transformação, este momento de autoconhecimento que o romance de Salim Miguel, Jornada com Rupert [Record: 2008] retrata com mestria.

Rupert, o nosso protagonista, chega à vida adulta tarde.  Está com 30 anos quando cria suficiente coragem para deixar para trás o lar paterno e procurar sua própria vida, sua independência.   Encontramos Rupert começando sua viagem para o desconhecido.  E nos lembramos com ele da vida que deixou para trás, das expectativas de seus pais para o seu futuro, expectativas impossíveis de serem preenchidas pelo jovem.    

Nesse ínterim somos levados a considerar as tradições familiares herdadas por Rupert, neto de imigrantes alemães.  E, por causa da memória familiar, das histórias recontadas, sempre que possível, sobre a chegada dos avós ao Brasil,  viajamos no tempo, observando esses primeiros imigrantes, em Santa Catarina, suas expectativas e seus sonhos pelo estabelecimento de uma sociedade mais justa do que a que haviam deixado em solo europeu.  Este relato é maravilhoso pelo contexto histórico que oferece, e ninguém melhor que o filho de imigrantes (Salim Miguel chegou ao Brasil aos 3 anos de idade] para retratar esse complexo de emoções trazidas nas bagagens dos que aqui aportaram em busca de um futuro, de uma vida melhor. 

À medida que a viagem ao passado se desenrola podemos perceber que o problema de Rupert não é só causado pela chegada à vida adulta, solucionável  pela partida da casa dos pais, mas é, sobretudo, um problema de identidade.   Diferente da colônia portuguesa, por exemplo, que no Rio de Janeiro teve seus integrantes assimilados rapidamente na cultura local, os imigrantes alemães, vieram para o Brasil e formaram comunidades, onde língua, hábitos, comidas tudo se reportava ao país de origem.  Essa vida, em pequenas aglomerações de outros alemães, fomentava uma cultura paralela, não só à brasileira, mas também à alemã.  É interessantíssimo seguir a narrativa de Salim Miguel e ver que a realidade que fez com que esses imigrantes deixassem a Alemanha em meados do século XIX, vai sendo romanceada à medida que é recontada.  Aos poucos, o lugar que deixaram é diferente, é idealizado, é sonhado.  É muito melhor do que anteriormente.

Salim Miguel

Quando nos anos 40 do século XX, encontramos Rupert, mais de cem anos depois da imigração de seus avós, vemos seus pais apoiando Hitler.  Rupert, que se considera primeiro brasileiro, não os apóia, nem a Hitler.  Mais do que uma questão política, para ele, o apoio ou não a Hitler foi uma questão de identidade, de identidade brasileira.   E cada qual, desses netos de imigrantes, dessa geração que chegou à idade adulta na década de quarenta, acha sua maneira de expressar a sua brasilidade.   Ilze, a amiga de infância de Rupert, chega primeiro à independência, ao conforto de deixar co-habitarem suas raízes alemãs e brasileiras, simultaneamente.  Embarca para o Rio de Janeiro e consegue, vivendo como tradutora, fundir todas as partes numa só.  Acredita-se que Rupert saberá fazer o mesmo, e terá sucesso nessa empreitada.  É o que esperamos, mas para Rupert a viagem só começava. 

Muito bom.  Vale a leitura e, sem dúvida, uma re-leitura.





As diferentes levas imigrantes na literatura brasileira

5 11 2008

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Chegada dos imigrantes alemães em 1824

Ernst Zeuner ( Alemanha 1895- Brasil 1967)

óleo sobre tela

 

 

 

 

 

Quase todos os países das Américas têm uma massa de imigrantes que lhes dá características específicas.  O Brasil assim como os EUA, o Canadá, a Argentina tem uma população de origem muito diversa que só nos enriquece.  Cada grupo de imigrantes nestes países veio por não agüentar situações de guerra, de pobreza, de fome, perseguições políticas e religiosas em suas terras natais.  As terras do Novo Mundo eram a oportunidade do Eldorado (por mais defeitos que o país adotivo tivesse), eram a oportunidade de sobrevivência decente.  Este espírito empreendedor de quem veio de terras distantes para as Américas caracteriza todos os recém-chegados que sonham em construir um país diferente de onde vieram e marca seus filhos de maneira visível.

 

O escritor Salim Miguel

O escritor Salim Miguel

Países como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, a Argentina têm uma grande dívida com esses homens e mulheres corajosos que deixaram suas culturas, suas terras, suas línguas, seu folclore, seus laços de família, seus feriados religiosos, para trás, muitas vezes para nunca mais voltarem a ver pais, irmãos e outros parentes próximos.  Há povos que são conhecidos por terem mandado emigrantes para os quatro cantos do mundo.  Fala-se com freqüência da diáspora dos judeus, assim como se fala da diáspora portuguesa. 

 

 

 

 

 

Só agora no final do século XX e início do XXI, que os brasileiros — tendo adquirido um melhor e mais democrático nível de educação e maior interesse na sua história, tem-se conscientizado da saga vivida por seus antepassados, dos sacrifícios que nossos pais, avós, bisavós fizeram para chegar aqui e suas contribuições para a cultura brasileira.

 

A experiência brasileira de inclusão só se parece pela total diversidade dos que aqui chegaram, com aquela encontrada nos Estados Unidos.  Como no país da América do Norte a educação da população em geral foi mais universal do que no Brasil o fenômeno da imigração, um tópico comum entre os americanos do norte,  só agora  aparece como tema perene na literatura brasileira.  Digo agora mas refiro-me principalmente da segunda metade do século XX até hoje.

 

Foi, portanto, interessante ver as repostas que Salim Miguel deu a Miguel Conde, em entrevista publicada no jornal O Globo no caderno Prosa e verso, de 25 de outubro de 2008.  Salim Miguel para quem ainda não o conhece é um grande escritor brasileiro, catarinense, ( nasceu no Líbano mas mudou-se para o Brasil ainda criancinha) que acaba de lançar mais um romance, Jornada com Rupert, (Record:2008) onde a trama se passa em Blumenau entranhando-se pela colonização alemã na cidade.   Vou transcrever aqui três das perguntas feitas ao escritor na entrevista, porque como ele, acredito que salim-miguel-rupert1nós ainda não exploramos o suficiente na literatura e como identidade cultural  o assunto da colonização, da imigração no Brasil.

 

MC – Nur na escuridão, que está sendo relançado e Jornada com Rupert, seu novo livro, contam histórias de imigrantes no Brasil, um tema recorrente em sua ficção e que faz parte de sua biografia também.  Queria saber como ficção e memória se separam, ou se confundem em sua escrita.

 

Salim Miguel – Em primeiro lugar se há uma coisa que eu tenho muito boa é a memória.  Mas é claro que, nos meus livros o que é contado ao mesmo tempo é e não é a realidade, pois há elementos de ficção que permeiam tudo.  No caso de Nur na escuridão, trabalhei em cima da minha família, embora o livro não seja uma biografia, nem uma autobiografia.  Jornada com Rupert é um pouco diferente porque fala de colonos alemães.  Logo que minha família chegou ao Brasil, nós vivemos em duas comunidades de imigração alemã.  Foram os primeiros lugares onde nós moramos, foi um livro mais difícil de escrever.

 

MC – Jornada com Rupert faz um painel da vida de imigrantes em Santa Catarina, e ao mesmo tempo conta um drama individual, se aproximando em alguns momentos do tom do romance de formação.  O senhor sabia bem, ao começar o romance, que livro queria escrever, e como costurar as duas histórias?

 

Salim Miguel – Eu sempre sei o que pretendo fazer, mas não sei como pretendo fazer.   Não me interesso por ficção histórica, embora goste que nos meus livros o enredo esteja associado a fatos reais da história do Brasil.  Eu queria contar esta história de colonização em Santa Catarina que se estende por um século, mas de um jeito que não fosse linear, que não tivesse um único narrador onisciente.  Por isso, a história é contada na forma de recordações, todas acontecidas em um dia, durante uma viagem de trem do protagonista.

 

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MC – Vários escritores brasileiros exploraram ficcionalmente a vida dos imigrantes, de Lya Luft até mais recentemente, Cíntia Moscovich.  O senhor se interessa por esses livros?

 

Salim Miguel – Gosto muito dos livros da Lya Luft.  Tenho lido tudo que encontro sobre o tema, de Graça Aranha a Milton Hatoum e Raduan Nassar.  Diante da importância da imigração para o Brasil, acho que nossa literatura e mesmo nossos ensaístas ainda não deram ao tema a atenção devida.   Existe um processo muito rico, de formação de uma sociedade a partir da chegada dos estrangeiros, da convivência deles numa terra nova, que ainda foi pouco explorado em nossa ficção.

 

Julgando-se pela produção de romances, de livros de ficção com o motivo da imigração nestes outros países mencionados, acredito como Salim Miguel que ainda há muito, mas muito a ser explorado pelo escritor brasileiro.  Mãos à obra…

 

 

 

 

 

 








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