Os colonos, poesia de Paulo Setúbal

25 04 2017

 

 

GEORGINA DE ALBUQUERQUE (1885 - 1962) - Colheita, o.s.e., 29,5 X 38,5 cm,Colheita

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)

óleo sobre tela, 29 x 38 cm

 

 

Os Colonos

 

Paulo Setúbal

 

Lá vem o dia apontando…

Que afã! Já todos de pé!

Ruidosos, tagarelando,

 

Vão os colonos em bando

Para os talhões de café.

 

À luz do sol que amanhece,

Por montes, por barrocais,

Por toda parte esplandece,

Com sua esplêndida messe,

O verde dos cafezais.

 

Começa o rude trabalho.

Que faina honrada e feliz!

Inda molhados de orvalho,

Flamejam, em cada galho,

Os bagos como rubis.

 

Trabalham.  que ardor de mouro!

Todos derriçam café.

Parece um rubro tesouro,

Que cai numa chuva de ouro,

Dos ramos de cada pé.

 

Ao meio-dia, aos ardores

Do alto sol canicular,

Os rudes trabalhadores,

Ao longo dos carreadores,

Põem-se todos a cantar.

 

Pela dormência dos ares,

Sob estes céus cor de anil,

Cantam canções populares,

Que lá, dos seus velhos lares,

Trouxeram para o Brasil.

 

Aqui, um forte italiano,

Queimado ao sol do equador,

Solta aos ventos, belo e ufano,

Num timbre napolitano,

A sua voz de tenor!

 

Há uma terna singeleza

Nas trovas que um outro diz;

Um rapagão de Veneza

Tem, no seu canto, a tristeza

Das águas do seu país.

 

E uma sanguínea espanhola,

De grandes olhos fatais,

Em baixa voz cantarola

Uns quebros de barcarola,

Magoados, sentimentais…

 

Que cantem! … Essa cantiga

Brotada do coração,

Seja a prece que bendiga

A terra que hoje os abriga,

A pátria que lhes dá pão.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 56-57.

 

 

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As línguas de um refugiado, texto de Edward Said

3 10 2015

 

 

DRebêlo-Os-Emigrantes-1929Os emigrantes, 1926

Domingos Rebelo (Portugal, 1891-1975)

óleo sobre tela, 235 x 265 cm

Museu Carlos Machado, Açores

 

 

“…De novo reconheci que Conrad [Joseph Conrad] esteve lá antes de mim — exceto que Conrad era um europeu que deixou sua Polônia nativa e se tornou um inglês, de modo que a mudança para ele foi mais ou menos dentro do mesmo mundo. Nasci em Jerusalém e passei a maior parte dos meus anos de formação lá e, depois de 1948, quando minha família inteira se tornou refugiada, no Egito. Toda a minha educação primária, no entanto, tinha sido feita nas escolas coloniais de elite, escolas públicas britânicas construídas para educar uma geração de árabes com elos à Grã-Bretanha. A última que frequentei antes de deixar o Oriente Médio para os Estados Unidos foi o Victoria College em Cairo, uma escola criada com o objetivo de educar a classe dirigente árabe e levantina que iria governar depois que os britânicos saíssem. Meus contemporâneos e colegas incluíram o Rei Hussein do Jordão, diversos meninos jordanianos, egípcios, sírios e saudis que vieram a ser ministros, primeiros-ministros e líderes empresariais, assim como figuras glamorosas como Michel Shalhoub, dirigente da escola e principal atormentador quando eu estava ainda iniciando, que todo mundo conhece na tela como Omar Sharif.

No momento em que você se torna aluno do Victoria College, recebe um manual, uma série de regulamentos governando todos os aspectos da vida escolar – que uniforme usar, que equipamento seria necessário para os esportes, datas dos feriados escolares, horários dos ônibus, e assim por diante. Mas a primeira regra da escola, impressa na página de abertura do manual, dizia: “Inglês é a língua da escola; estudantes apanhados falando qualquer outra língua serão punidos.” No entanto, não havia estudantes de língua materna inglesa, na escola. Enquanto os mestres eram todos britânicos, nós éramos uma mistura de árabes de diversos tipos, armênios, gregos, italianos, judeus e turcos, cada qual com uma língua materna que a escola havia explicitamente proibido. No entanto, quase todos nós falávamos árabe – muitos falavam árabe e francês – e então éramos capazes de nos refugiar numa língua comum desafiando o que percebíamos como uma restrição colonial injusta. O poder do império britânico estava chegando ao fim depois da Segunda Guerra Mundial, e nós estávamos cientes disso, mesmo que eu não consiga me lembrar de qualquer estudante da minha geração, se expressar claramente dessa maneira sobre isso.

Para mim havia uma complicação maior, ainda que meus pais fossem ambos palestinos – minha mãe de Nazaré, meu pai de Jerusalém – meu pai tinha adquirido cidadania americana durante a Primeira Guerra Mundial, quando serviu nas AEF [American Expeditionary Forces] sob Pershing na França. Ele havia originalmente deixado a Palestina, na época uma província do império otomano, em 1911, aos dezesseis anos, para escapar do recrutamento para a guerra na Bulgária. Invés disso, foi para os Estados Unidos, estudou e trabalhou lá por alguns anos, retornando então para a Palestina em 1919 para abrir um negócio com seu primo. Além disso, com um nome árabe comum, como Said, ligado a um improvável prenome inglês (minha mãe admirava por demais o Príncipe de Gales, em 1935, ano do meu nascimento), fui um estudante anômalo por todos os meus primeiros anos escolares: um palestino frequentando uma escola no Egito, com um prenome inglês, um passaporte americano, e nenhuma identidade precisa. Para complicar, árabe, a minha língua materna, e inglês, minha língua escolar, estavam intimamente associadas: nunca soube qual delas foi a minha primeira língua, e nunca me senti confortável em nenhuma, mas sonho nas duas. Todas as vezes que falo uma frase em inglês, sinto o eco dela em árabe, e vice versa.”

 

Em: No Reconciliation Allowed, de Edward Said, Letters of Transit, reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, diversos autores, ed. André Aciman, Nova York, 1998, pp.94-96

Tradução: Ladyce West

Textos em colchetes são da tradução.





Refugiados, texto de Charles Simic

27 09 2015

 

navio-de-emigrantes, , de Lasar Segall (1939-41), pintura a óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cmNavio de emigrantes, 1939-1941

Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1891-1957)

óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm

Museu Lasar Segall, São Paulo

 

 

“Pessoas deslocadas” era o nome que nos davam, desde 1945, e isso era o que éramos, verdadeiramente. Quando você vê bombas caindo em alguns antigos documentários, seja um exército avançando contra outro, aldeias e cidades consumidas por fogo e fumaça, você esquece dos grupos de pessoas no celeiro. Sr. e Sra. Inocente pagaram alto neste século só por estarem ali. Condenados pela história, como os marxistas gostavam de dizer, talvez pertencendo a uma classe social incorreta, um grupo incorreto ou uma religião incorreta – o que seja – eles eram e continuam a ser uma lembrança desagradável de todas as utopias filosóficas e nacionalistas que não deram certo. Com seus trapos e trouxas e seu ar de miséria e desespero, eles vieram em massa do Leste, fugindo do mal sem ideia de para onde estavam indo. Ninguém tinha muito para comer na Europa e aqui estavam os refugiados famintos, centenas de milhares em trens, campos e prisões, molhando pão dormido em sopa aguada, procurando por piolho nas cabeças de seus filhos e grasnando em dúzias de línguas sobre seu horrível destino.

Minha família, como tantas outras, pode ver o mundo graças às guerras de Hitler e a chegada ao poder de Stalin na Europa Oriental. Não éramos colaboradores alemães ou membros da aristocracia, nem éramos precisamente exilados políticos. Peixes pequenos, não decidíamos por nós mesmos. Tudo foi arranjado por nós pelos líderes do nosso tempo. Como tantos outros que estavam deslocados, não tínhamos nenhuma ambição de sair do nosso bairro em Belgrado. Nós gostávamos de lá. Negociações foram feitas sobre esferas de influência, fronteiras foram redesenhadas, a chamada Cortina de Ferro foi baixada, e nós ficamos à deriva com nossos poucos bens. Historiadores ainda estão documentando todas as traições e horrores que nos atingiram como resultado da Yalta e de outras tantas conferências, e o assunto ainda não chegou a seu ponto final.

Como sempre, houve diferentes graus do mal e da tragédia. Minha família não se deu tão mal quanto outras. Milhares de russos que os alemães haviam forçado a trabalhar para eles nas indústrias e fazendas foram devolvidos a Stalin contra a vontade deles pelos Aliados. Alguns foram assassinados, outros mandados para os ‘gulags’ para que não contaminassem o resto da população com novas ideias adquiridas pelo capitalismo decadente. Nossas perspectivas foram melhores. Tínhamos a esperança de acabar nos Estados Unidos, Canadá ou Austrália. Não que isso fosse garantia. Entrar nos Estados Unidos era particularmente difícil. A maioria dos países da Europa Oriental tinha cotas muito pequenas, diferente da Europa Ocidental. Aos olhos dos especialistas em genética e dos políticos da imigração, eslavos do sul não era material étnico altamente desejável.”

 

Em: “Refugees”, Charles Simic, Letters of Transit: Reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, ed. André Aciman, New York, The New Press: 1990, pp. 120-121
Tradução Ladyce West.





Expatriados, texto de Bharati Mukherjee

13 09 2015

 

Gli-Emigranti-raffigurazione-di-Angiolo-Tomasi-1895-Galleria-dArte-Moderna-di-RomaA saída dos imigrantes, 1896

Angiolo Tomasi (Itália, 1858-1923)

óleo sobre tela

Galeria de Arte Moderna, Roma

 

 

“Expatriação é um ato de quando alguém faz uma autoremoção sustentável, da sua própria cultura nativa; uma remoção contrabalançada pela resistência, determinada, a ser incluído totalmente à nova sociedade anfitriã. Os motivos de expatriação são tão numerosos quanto os expatriados: afinidade estética e intelectual; um emprego melhor ou uma vida mais interessante e menos complicada; maior liberdade ou simples melhoria de impostos, assim como os motivos para a não integração podem ir de  princípios pessoais, à nostalgia, preguiça ou medo.  A lista de expatriados conhecidos só no campo da literatura é imensa, rica em honrarias e respeitável: Henry James, T.S. Eliot, Joseph Conrad, V. S. Naipaul (antes de serem aceitos como cidadãos ingleses), Vladimir Nabokov, James Joyce, Samuel Beckett, Paul Bowles, Mavis Gallant, Gabriel Garcia Marquez, Witold Gombrowicz, Anthony Burgess, Graham Greene, Derek Walcott, Malcolm Lowry, Wilson Harris — nomes que, mesmo com algumas omissões óbvias qualquer audiência educada poderia preencher as lacunas, mas que, todos concordamos, chega ao ápice de qualquer lista das mais notáveis produções do século XX.

Eles são, na verdade, nossas maiores vozes do modernismo e do pós-modernismo; suas produções são enciclopédicas, suas visões irônicas e incisivas, suas análises imparciais e escrupulosas, seus estilos experimentais e cristalinos. Se o objetivo final da literatura é chegar à universalidade e uma espécie de onisciência divina, expatriação — a fuga da mesquinhez, das frustrantes irritações — pode ser o fator que mais contribui para isso.

O expatriado é o artista que constrói a si mesmo, até na escolha da língua em que vai se expressar, como Conrad, Beckett, Kundera e Nabokov mostram. … É possível na expatriação, sair das limitações em que se nasce e exercitar uma visão de estrangeiro desapegado. O expatriado húngaro, checo ou polonês de outra época, ou o iugoslavo, o bengalês, o argelino ou o palestino expatriado de hoje, pede só para que a cultura anfitriã o deixe manter o âmago estrangeiro sem comprometimento nem capitulação. Assim, o acordo é feito: eu serei um residente modelo em troca da sua tolerância e indiferença. Não atacarei os defeitos fundamentais da sua sociedade, com o mesmo zelo com que analisarei meu próprio povo. Imaginarei uma nova pátria construída em terra recuperada.”

 

Em: “Imagining Homelands”, Bharati Mukherjee, Letters of Transit: Reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, ed. André Aciman, New York, The New Press: 1990, p. 71-72.
Tradução e edição Ladyce West.





A língua na nossa identidade, texto de Eva Hoffman

29 08 2015

 

 

-theresa-bernstein-1923-the-immigrants.The Immigrants, 1923, oil on canvas, Thomas and Karen Buckley Collection.Os imigrantes, 1923

Theresa Bernstein (EUA, 1890-2002)

óleo sobre tela

Thomas & Karen Buckley Collection

 

 

“Por um tempo, assim como tantos outros emigrantes, estive, para todos os efeitos, sem linguagem, e da tristeza daquela condição, compreendi o quanto o âmago da nossa existência, a nossa compreensão de identidade, depende de ter uma língua viva dentro de nós. Perder toda a linguagem interna é sucumbir a uma escuridão inarticulada em que nos tornamos estrangeiros para nós mesmos; perder a habilidade de descrever o mundo é retratá-lo um pouco menos vívido, um pouco menos lúcido. E além, a riqueza na articulação propicia tonalidades de sutileza e nuance às nossas percepções e ao pensamento. Para mim, uma das passagens mais sensíveis na escrita de Nabokov é sua invocação dos sons do russo, ao final de Lolita. Lá ele evoca não só a melodia, a eufonia dos sons do russo, de maneira convincente, mas também a profundidade e a totalidade da existência da língua no nosso ser. É essa relação com a língua, mais do que o domínio superficial dela, que é difícil de duplicar nas línguas que se aprende posteriormente.”

 

 

Em: “The New Nomads”, Eva Hoffman, Letters of Transit: Reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, ed. André Aciman, New York, The New Press: 1990, p. 48.
Tradução minha.





Retratando o exílio, texto de André Aciman

30 05 2015

 

 

766px-Dante_exileDante no exílio, 1860

Domenico Peterlini (Itália, 1822-1891)

óleo sobre tela

Palácio Pitti, Florença

 

 

Hoje vendo notícias sobre os imigrantes haitianos lembrei-me desse ensaio de André Aciman.  Enquanto morei por muitos anos fora da minha terra natal passei um bocado de tempo interessada na questão dos imigrantes e dos exilados, que, quer voluntariamente, quer aqueles obrigados a deixar suas terras natais por governos que lhes eram antagônicos, mostravam sinais de uma tristeza profunda, uma cicatriz emocional, mesmo naqueles que melhor pareciam ter-se adaptado.  Muitos escreveram sobre o tema no final do século XX. André Aciman é um dos mais citados. Aqui, falando dos exilados, como ele próprio:

 

Eu queria que tudo permanecesse o mesmo. Porque isso também é típico dos que perderam tudo, incluindo suas raízes ou a habilidade de criar novas raízes. Eles podem ser móveis, espalhados, nômades, sem lares, mas permanecem completamente imóveis no seu estado de agitação transitória. É exatamente porque não têm raízes que não se mexem, que se amedrontam com mudanças, que preferem construir em qualquer lugar, do que procurar por uma terra. Um exilado não é simplesmente uma pessoa sem casa; é alguém que não consegue achar outra, que não pode pensar em outra. Alguns nem sabem mais o que um lar significa. Eles reinventam o amor com o que sobrou a cada reviravolta. Algumas pessoas trazem consigo o exílio, assim como o sofrem não importa onde estejam.

 

[Tradução minha]

 

Em: Shadow Cities, de André Aciman, Letters of Transit, reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, diversos autores, ed. André Aciman, Nova York, 1998, p.21

 

O texto integral pode ser achado na WEB aqui.





A dança dos colonos alemães, texto de Graça Aranha

10 05 2014

 

 

Kerb(fest..[1]Kerb, 1892

Pedro Weingärtner (Brasil, 1853 – 1929)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Os dançantes continuavam no compasso marcial da polaca, executando variadas figuras, ora desenhando meias-luas, ora separando-se em alas, marchando frente a frente, ora fazendo evoluções de homens e mulheres, separados, para se reunirem depois de diferentes voltas. Os movimentos eram tardos e pesados; dentro de sapatos grossos e ferrados, batendo fortemente os pés no assoalho, arrastando-se com esforço, faziam um barulho seco, enorme, que dominava as vozes dos instrumentos. Quando a contradança parava, os pares voltavam-se num mesmo instante como por uma combinação mágica, e todos livres se moviam vagarosamente, procurando os bancos encostados às paredes das salas ou aos cantos das janelas. Muitos saíam até ao terreiro, para se refrescar; namorados passeavam ali no escuro, abraçados; velhos fumavam o seu cachimbo, resmungando conversas preguiçosas, até que de novo a música dava o sinal e todos voltavam à sala, em ordem, sem o menor embaraço, passando a dançar automaticamente, de charuto ou cachimbo ao queixo e chapéus na cabeça, enquanto as mulheres amarravam lenços ao pescoço, por causa do suor que lhes escorria da fronte.

 

Em: Canaã, Graça Aranha, 1902, em domínio público.

 

 

 





Adeus, Stalin! Olá, Brasil!

31 01 2012

Bazar Kolkhozean, 1934

Alex Afanassievitch Coquelles (Rússia, 1880-1956)

óleo sobre tela

Adeus, Stalin! – memórias de uma menina que fugiu da guerra, de Irene Popow [Rio de Janeiro, Objetiva: 2011] vem a preencher uma lacuna na historiografia brasileira, de um assunto que se faz presente em outros países do Novo Mundo: a transmissão de relatos de imigrantes, relatos das guerras e da sobrevivência de milhares de pessoas que encontraram um lar nas Américas. A característica fundamental dos países do Novo Mundo é, em diferentes proporções, mas sempre constante, a variedade das levas de imigrantes além da pluralidade de influências culturais que formam uma nova e única cultura.

O texto de Irene Popow me levou de volta aos cursos de pós-graduação em História da Arte que fiz nos EUA, onde mais da metade dos professores que tive havia imigrado para lá, ainda crianças ou jovens, por terem se encontrado em campos de pessoas deslocadas depois da Segunda Guerra Mundial: judeus, russos, poloneses, franceses, italianos que criaram novas raízes nos EUA e lá se aliaram às melhores universidades do país.  Lendo Adeus, Stalin!  me dei conta dos poucos relatos de imigrantes vindos depois da Segunda Guerra, que fizeram do Brasil sua nova moradia e raiz de nova identidade. Mesmo entre os conhecidos de meus pais, lembro-me só de dois amigos deles com esse perfil: Sr. Ladislau, polonês e Sr. Eugênio, prussiano. Procurei por outras publicações, depois de ler esse livro e percebi que são poucos os relatos dedicados a contar as vidas desses novos brasileiros, antes e durante a guerra, como Irene Popow o faz.


A narrativa de Adeus Stalin! encanta.  Uma senhora que conseguiu guardar as percepções de criança, conta o dia a dia da vida na Ucrânia sob o domínio russo, com Stalin como figura máxima do país.  Seguimos a perseguição que este regime faz à sua família e o pular de cidade em cidade daqueles que eram considerados inimigos do estado.  Ficam claras para o leitor as vicissitudes encontradas e ultrapassadas pelos ucranianos e a persistência em se tentar manter uma vida normal no período de ocupação soviética do país.  Seus pais e tantos outros foram os grandes heróis, por conseguirem manter a unidade familiar intacta diante dos obstáculos. E ainda depois desses percalços somos testemunhas de como Irene e sua família, continuam a insistir numa vida “quase normal”,  indo à escola, fazendo os afazeres domésticos, mesmo depois da invasão alemã.  Temos o retrato da garra dos sobreviventes nos campos de trabalhos forçados, que conseguem manter um módico de dignidade mesmo que sujeitos às mãos inimigas.  E por fim, a lentidão e o viver nos campos de pessoas deslocadas, que perderam tudo e principalmente sua terra e sua nacionalidade: apátridas.

Não fosse a mão de dois interessantes personagens no destino dessa família não sabemos se teriam sobrevivido.  Depois de estarem no campo de pessoas deslocadas, foi o jeitinho do inglês Simon Bloomberg que, não tão ingênuo quanto os americanos seus aliados, percebeu o que aconteceria com a família se ela voltasse para território russo como os russos reivindicavam e conseguiu blefar os comunistas, trocando a nacionalidade da família da autora para polonesa.   Depois veio o jeitinho brasileiro, quando o cônsul Ubatuba, flexionou os limites das leis brasileiras de imigração: só estávamos aceitando engenheiros agrônomos.  A família de Popow só tinha um engenheiro de construção de minas de carvão, um engenheiro químico e um engenheiro geólogo.  Será que eles se importariam de entrar no Brasil como engenheiros agrônomos?

Irene Popow


Outra característica dessa narrativa é não tentar esconder, por simpatias políticas, as agruras da vida sob o comunismo de Stalin.  Assim como as condições de vida em Cuba são hoje ignoradas pelo nosso governo simpático a Fidel Castro, também as condições de vida sob o comunismo foram e são ignoradas pelo posicionamento de esquerda de muitos dos nossos intelectuais.  Irene Popow não faz desse livro uma narrativa de denúncia do regime comunista, mas conta, de maneira cativante e convincente, os sofrimentos passados por aqueles que viveram sob a presidência megalomaníaca de Stalin.

Digo que a narrativa é encantadora porque não é amarga.  São memórias.  São memórias de tempos muito difíceis cujo tempo ajudou a esvair o fel que deveria impregná-las.  O distanciamento de Irene Popow é distinto.  Diferente de muitos outros imigrantes ela teve a oportunidade de voltar à terra natal e descobrir que já não era mais, para ela, o mundo dela.  Era o mundo de seus pais.  Ela, sim, ganhara uma nova vida, uma nova identidade.  Como imigrantes eles conseguiram o seu quinhão.  Deram a volta por cima.  Sem alarde, sem vanglória.   E hoje, Irene Popow pode olhar para a Ucrânia de maneira distante, vê-la como outra terra, com muitas afinidades com o seu mundo, mas estrangeira. Belíssimo relato.





Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel, até agora o melhor livro do ano

24 08 2011

Canal do Mangue, Rio de Janeiro, década de 1930.  Flickr — Rio antigamente

Se me coubesse a votação para um prêmio nacional de literatura — melhor livro do ano — ele iria para Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel [Record:2010].  O livro já foi um dos finalistas, este ano, do Prêmio São Paulo, nessa mesma categoria, quando o vencedor foi  Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo.  Mesmo assim, continuo convencida de que o romance de Ronaldo Wrobel, escancara as portas para novos rumos da literatura brasileira contemporânea.   O que faz esse livro merecer tanto entusiasmo?  Tema, estilo, narrativa, leveza, humor, ironia e pesquisa. 

O tema é um retrato de grupos de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, fugidos de desastrosas realidades: guerra, fome, desemprego, perseguição.  Tais como milhares de outros imigrantes, que ao longo dos séculos vieram se estabelecer no país.   Acentuando a narrativa, trazendo-a para o nível de deleite literário, está o estilo de Ronaldo Wrobel, leve e solto, com uma refrescante e fértil maneira de expressão: imagens, figuras de linguagem soam novas, soam belas e vivazes.  Permeando todo o texto há uma leve ironia, um humor fugaz que nos faz sorrir, quase rir em certos trechos sem, no entanto, termos diante de nós nada mais do que a mera e justa comédia humana.  Sua pesquisa foi preciosa, o que tornou fácil imaginar as andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Lapa, pelo Catete, pela Praça Onze, mesmo que hoje esses locais sejam tão diferentes. 

A história tem início na década de 1930. Max Kutner sapateiro, imigrante e judeu polonês, que já havia estabelecido uma pequena clientela no centro do Rio de Janeiro, é convocado, durante o governo Vargas, para trabalhar na censura de cartas.   Traduzir do iídiche para o português passa a ser sua segunda ocupação.   Ele se enfronha na intimidade da comunidade judaica através das cartas que traduz.  No processo, também se familiariza com as irmãs, Hannah e Guita, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, e se interessa em conhecer Hannah.  Quando isso acontece, descobre que ela não era bem a pessoa que ele imaginava ser quando lia sua correspondência. 

Ronaldo Wrobel

Deste momento em diante passamos a uma grande aventura em terras cariocas.  Num ritmo galopante, vamos de espionagem a contra-espionagem.  A cada capítulo uma surpresa e um aprofundamento da trama.  Como num teste de visão, vamos corrigindo nossas lentes, passo a passo, enquanto acompanhamos o progresso de Max Kutner que, como nós, precisa acertar a combinação de lentes para ver, entender, compreender e digerir tudo que o rodeava.  Traduzindo Hannah é uma pequena obra-prima burlesca, inteligente e histórica.  Não deixe de ler.  Um deleite!

UMA ENTREVISTA COM O AUTOR





Resenha: “Brooklyn”, de Colm Tóibín, uma história inesquecível!

20 06 2011

Prospect Park, Brooklyn, s/d

William Merrit Chase ( EUA, 1849-1916

óleo sobre tela

Há um nicho literário que cobre as experiências de deslocamento social de imigrantes.  Países do Novo Mundo como os Estados Unidos e o Brasil têm tido regularmente em sua literatura adições significativas da experiência do imigrante.  No Brasil, esta experiência pode ser delineada mais recentemente, nas obras de Milton Hatoum, Nélida Piñon, Salim Miguel, Francisco Azevedo, para nomear alguns.  Essa tradição ainda é mais vigorosa nos EUA que, assim como o Brasil, receberam levas e levas de imigrantes do mundo inteiro, Michael Chabon, Amy Tan, Jhumpa Lahiri, Bernard Malamud estão entre dezenas de escritores americanos que desde o século XIX, se dedicaram aos desassossegos funcionais e emocionais causados pela imigração.

O deslocamento cultural tem sido também objeto de estudo do escritor  Amin Maalouf, cujo fantástico In the Name of Identity: Violence and the Need to Belong, [Penguin: 2003] –  demonstra as falhas de requerermos que um indivíduo faça uma única escolha de identidade, quando somos de fato a comunhão dos fatores que nos formam.  Maalouf está hoje entre os mais influentes pensadores contemporâneos no assunto.  Talvez porque eu tenha vivido a maior parte da minha vida adulta fora da minha identidade de nascença, este assunto há algumas décadas me fascina e sensibiliza.

Em Brooklyn [Cia das Letras: 2011] Colm Tóibín se dedica ao assunto retratando a imigração de Eiliss Lacey, uma jovem irlandesa que vai para os Estados Unidos na década de 1950.  O romance é simultaneamente um romance em que a protagonista principal cresce e aprende, na tradição literária do Bildungsroman [romance de educação] e um retrato da impotência feminina diante do papel que lhe é reservado nas relações familiares da época.

Eiliss Lacey é a filha mais moça de uma família irlandesa.  Introvertida e tímida, depois de um curso técnico em contabilidade não consegue encontrar um emprego satisfatório na pequena cidade onde mora.  Seus irmãos já saíram de lá à procura de melhores oportunidades.  Sua irmã mais velha, calorosa, cheia de vida, ainda está em Enniscorthy.  Eiliss sobrevive dentro dos parâmetros de uma vidinha limitada e medíocre, até que é surpreendida pela família que arranja de emigrá-la – através de um contato com um padre irlandês nos EUA – para o outro lado do Atlântico.  Sua opinião não é requisitada.  E Eiliss embarca, com seus muitos receios abafados, na estarrecedora viagem transatlântica.

Colm Tóibín

Com a chegada a Nova York o mundo de Eiliss se amplia.  Diferente de muitos imigrantes ela não precisa lidar com dificuldades por causa da língua.  De fato, seu mundo tem muitas similaridades com o que deixou para trás, como se os elementos que o compõem fossem os mesmos, só que arranjados de maneira diversa.  Esses ecos servem para contrastar, ao final da leitura, os dois mundos em que vive a jovem: são dois rapazes com quem se envolve; são duas chefes de trabalho difíceis; são duas matronas irlandesas que dispõem a bel-prazer da vida de Eiliss; são dois grupos de amigas irlandesas, são dois salões de dança.  A distância que os separa também os une e encontram terreno fértil nas emoções da moça.

Colm Tóibín dá continuação, em Brooklyn, a diversas tendências da literatura inglesa.  Eiliss Lacey, tem parentesco com Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito [Jane Austen] apesar de não ter o mesmo senso de humor.  Como ela, no entanto, vive presa pela teia das convenções sociais e dos laços familiares.  Além disso, ele retrata as pequeninas transformações na vida de uma pessoa comum, com a precisão e o colorido de dezenas de outros escritores britânicos, que se superam no retrato rigoroso dos detalhes da vida cotidiana.  Desta maneira, Colm Tóibín consegue extrair do particular, o universal.  Ampliando em muitas vezes a relativa grandiosidade das decisões tomadas por seu personagem.

Com uma narrativa enxuta que não desmerece as minúcias reveladoras que nos auxiliam no entendimento de Eiliss Lacey, e de sua época, Colm Tóibín nos induz a compreender as  dúvidas e a solidão da personagem.  Percebemos também o vazio daqueles à sua volta; a autoridade dos familiares e dos homens com quem se relaciona; as teias sociais que a aprisionam em ambos os lados do Atlântico.   Mas como na vida há surpresas, e algumas tão grandes que mudam a projetada trajetória do destino, assim acontece aqui.  E o que parece ser um final surpreendente torna-se simplesmente um final em aberto, como também são as grandes decisões que tomamos na vida.  Apesar de um início vagaroso, a história ganha um ritmo crescente e de suspense que arrebata o leitor até o último parágrafo, deixando um travo ou uma pergunta.  Este é um livro cuja história continua a ser contada nas nossas imaginações, muito depois da última palavra lida.








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