Resenha: “Os criadores de coincidências”, Yoav Blum

4 01 2018

 

 

John Brack, Jack, Queem and KingValete, dama, rei, 1989

John Brack (Austrália, 1920 – 1999)

óleo sobre tela, 106 x 136 cm

 

 

 

Os criadores de coincidências de Yoav Blum, tradução de Fal Azevedo,  é um livro divertido, uma mistura de thriller e romance; leitura rápida, inconsequente, amena.  É um dos maiores sucessos de vendas em Israel, traduzido e publicado no Brasil antes mesmo de atingir o mercado americano, onde será lançado em março de 2018.

Produzir coincidências é o trabalho de três agentes Guy, Eric e Emíly que recebem ordens para produzirem coincidências na vida de pessoas comuns.  Estas ordens aparecem de maneira misteriosa, indicando a existência de uma organização maior, acima de todos nós simples mortais, onisciente, toda poderosa, com poderes de influenciar diretamente nos nossos destinos.  A partir daí esses agentes, treinados na tal organização, usam de análises matemáticas e complexos projetos, para construir diversos eventos que em cadeia levam a um acontecimento final quando duas ou mais partes se encontram.

 

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A ideia é interessante e divertida. Depois desta leitura você vai pensar duas vezes quando perder um documento num táxi, quando manchar sua camisa com café depois de esbarrar num obstáculo, e certamente jamais achará que existem encontros casuais com conhecidos ou desconhecidos.  Mas houve momentos em que tive a impressão de que o autor estava particularmente orgulhoso de sua obra, e que lhe faltou um bom editor, para ajudá-lo a reduzir algumas ideias bastante astutas.  Os capítulos dedicados às cartilhas dos agentes, às regras a que se submetem, são pela primeira vez que aparecem, e interrompem a narrativa, uma curiosidade repleta de humor, mas quando a história é interrompida mais de uma vez por esses capítulos, temos um  artifício cansativo na composição da história.

 

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Através desta leitura tive a sensação de estar acompanhada do espírito do filme Agentes do Destino (2011), com Matt Damon e Emily Blunt, baseado no conto do escritor de ficção científica já falecido PKD [Philip K. Dick] Adjustment Team, originalmente publicado em 1954.  Não conheço o conto.  Mas vi o filme mais de uma vez, já que é uma das minhas comédias românticas favoritas. Não se trata de cópia, mas a ideia é semelhante.

Se você precisa de distração, este pode ser o livro ideal para colocar na mala e ler nas férias, depois da piscina ou numa rede à beira-mar. É uma leitura leve, divertida, sem consequências, um pouco de mistério, um pouco de romance. Agradável.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Minutos de sabedoria: Nagai Kafu

24 10 2016

 

 

arie-azeneisrael-mulher-lendoMulher lendo

Arie Azene (Israel, 1934)

óleo sobre tela

 

 

“Não é arte se não tiver essa espécie de mágica que se cria no encontro entre o artista e o público.”

 

 

Nagai Kafu

 

nagai-kafuNagai Kafu (1879-1959)

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Tesouro da época das Cruzadas

4 01 2016

 

 

moedas cruzadas, israel, forteMoedas das Cruzadas encontradas no forte do Parque Apollonia, Israel.

Ano Novo, hora de limpar antigas notas e manter o computador completamente limpo, eis que me deparo com um número enorme de artigos de interesse que selecionei para o blog, mas que por falta de tempo, não postei… Resultado vamos nos lembrar de algumas notícias do passado, porque já que tenho as fotos e os dados é melhor passar adiante.

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Um pote de ouro, avaliado em quinhentos mil dólares, do tempo das Cruzadas foi encontrado em Israel enterrado em um forte romano. Aparentemente as moedas foram enterradas por soldados da ordem do Cavaleiros Hospitalários, uma ordem militar cristã criada no século XI, quando se encontraram sob um grande ataque de soldados muçulmanos. Os cavaleiros foram aniquilados em abril de 1265.

 

 

Israel Herzelia The remains of the old crusader fort of Apolonia AKA Arsuf Apollonia is an archaeological parkForte no Parque Nacional Apollonia, Israel.

 

As moedas valiam uma fortuna, mesmo em 1265, quando se acredita que tenham sido escondidas de propósito, dentro de um jarro quebrado para garantir que não seriam descobertas. O forte construído pelos romanos, hoje no Parque Nacional Apollonia, foi destruído em abril de 1265, pelas forças mamelucas. A ideia de enterrar o jarro quebrado, repleto de areia, com as moedas dentro,foi bem sucedida. O tesouro contém mais de 100 moedas de ouro da época das Cruzadas. O local havia sido conquistado pelos soldados cristãos em 1101 e tomado de volta pelo exército muçulmano em 1265.

 

Fonte: Daily News (Inglaterra)





Escola, poesia de Armindo Rodrigues

17 09 2015

 

 

ESCOLA Michael Peter Ancher (1849 – 1927, Danish) a-village-school-in-skagenEscola em vilarejo de Skagen

Michael Peter Ancher (Dinamarca, 1849-1927)

óleo sobre tela

 

 

Escola

 

Armindo Rodrigues

 

 

Os meninos estão sentados

com um ar baço de tédio

e entre os meninos eu,

eu de mim, menino, lembrado,

mas já distante sem remédio.

 

De novo, menino, oiço

a voz vagarosa e dura

do professor a repetir.

a repetir, como um baloiço,

a mesma pergunta obscura.

 

De novo, menino, fujo,

embora imaginariamente,

da aula monótona e parada

e me perco no pó da estrada

à minha própria procura.

 

 

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 55





Minotauro, de Benjamin Tammuz, resenha

24 07 2015

 

labyrinthminatoaur2Teseu e a viagem a Creta: o Labirinto e o Minotauro, c. 1500-1525

[DETALHE]

Mestre dos Cassoni Campana

(pintor francês ou italiano, ativo em Florença)

óleo sobre painel de madeira, 69 x 155 cm

Museu Petit Palais, Avignon, França

 

 

Minotauro de Benjamin Tammuz não chega a ser um romance. São quatro histórias levemente interconectadas. A última, que leva o nome de Alexander Abramov é a mais completa, mais detalhada e interessante. E as que a antecedem revelam aspectos da trama nela retratada. Só aí, no final, é que encontramos o personagem que reconhecemos eventualmente como pertencendo à primeira história e conectado com as outras duas anteriores. Enfim, parece um romance inacabado, com um espaço oco no meio.

Esse livro me foi apresentado com dois perfis: uma história de amor e uma história de espionagem. Mas não é uma história de amor, nem uma história de espionagem. Em lugar do amor, temos uma obsessão, uma condição psicológica que tenta, e nesse caso é bem sucedida, captar uma presa, possuí-la e por ela ser possuído. O próprio autor nos avisa dos complexos sentimentos explorados por ele, quando declara que “a vítima apega-se ao seu assassino e se apaixona por ele” [95].

benjamin tammuz minotauro

Alexander Abramov, o Minotauro, era filho do judeu Abram Alexandrovich que partiu da Ucrânia, “sólido e saudável como um touro jovem” [115] e da alemã não-judia, Ingeborg Von Hase. Muito rico, o casal Alexandrovich se estabelece em terras que no futuro formarão parte do Estado de Israel. Como Minotauro, Abramov se encontrará prisioneiro de um labirinto musical na sua imaginação [146]. Ele imagina que poderá ser salvo de sua vida agonizante pela mão de uma donzela, como ele observou na gravura que decorava o seu quarto de criança [125]. E essa donzela, ele decide, no dia de seu 41º aniversário é Téa, uma jovem adolescente que não desconfia do destino que Abramov moldará para ela.

Téa é vítima de uma obsessão que cerceará sua vida cotidiana e seu destino. Testemunhamos o controle obcecado de Abramov sobre os movimentos de Téa. Aprendemos também a maneira como ele consegue interferir na vida da jovem, eliminando sistematicamente qualquer competição que possa ter de outros homens. Seu comportamento é tão fora da norma quanto havia sido o comportamento de sua mãe que sofria de um profundo desequilíbrio emocional, razão de sua morte prematura.

 

Benjamin-Tammuz1Benjamin Tammuz

 

A espionagem, a que esse romance alude tem duas facetas: é a última profissão de Abramov, e é também o modo pelo qual ele resolve viver seu grande amor, o amor de uma pessoa doentia, insana. Existe uma expressão em inglês que melhor descreve essa ação, “to stalk someone”, como um lobo caça uma lebre, ação, é bom lembrar, considerada crime nos Estados Unidos. Talvez seja por isso que a primeira das quatro partes deste romance, titulada Agente Secreto, tenha sido de leitura fascinante, mas desconfortável. Abramov faz uma escolha aleatória ao focar o seu amor. A presa, Téa, uma moça que ele vê por acaso em um ônibus, mais de vinte anos mais nova, será daí em diante, fruto de sua obsessão. Cartas e mais cartas anônimas estabelecem contato entre os dois. Ela inicialmente curiosa, ingênua, lisonjeada responde inocentemente ao interlocutor, sem perceber que entreabria assim a porta para o assédio. Daí por diante ela não terá paz. Envolve-se emocionalmente, e será incapaz de se esquivar do futuro que Abramov projeta para os dois. É uma luta desequilibrada, perversa, saturniana, antropófaga.

O desfecho é inevitável e anunciado. Paralelos com tragédias gregas são inevitáveis, ainda mais porque elas são citadas através do texto. Mas no final esse foi um romance que não se resolveu completamente, que não passou de quatro excelentes partes sem grande contextualização que as envolvesse.





Amigos e inimigos, texto de Benjamin Tammuz

23 07 2015

 

 

MarktJaffaGustavBauernfeind1887Porto de Jafa, 1888

Gustav Bauernfeind (Alemanha, 1848-1904)

óleo sobre tela, 148 x 281 cm

 

 

“Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles se não aqueles árabes que foram trabalhadores no pátio de nossa casa, aqueles mesmos árabes com os quais persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente sob a sombra do galpão e cobriam o meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando estava com cinco anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para casa delas. E agora eu coloco os filhos delas sentados sob uma lâmpada elétrica e, em troca das alegrias da infância que conheci com elas e do amor de suas mães, os retribuo com medos mortais.

Não estou pedindo desculpa. Eles nos odeiam mortalmente e eu faço exatamente o que é possível e é preciso fazer. Mas isso não altera o fato de que, pela amizade de um árabe, eu daria dez amigos norte-americanos, ingleses ou franceses. Com um homem europeu eu posso tomar uísque, fazer negócios e chegar a um acordo de que o Estado de Israel é na prática uma extensão da Europa no Oriente. Mas com um árabe posso voltar a rolar na poeira no meio da plantação, respirar o cheiro de esterco queimado de bodes, colher e mascar segurelha, correr em direção ao horizonte e encontrar ali a minha infância e talvez encontrar também um sentido na vida — que agora quase não tem propósito — no local em que se encontra também a colina dos dias da minha infância.”

 

Em: Minotauro, Benjamin Tammuz, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2015, pp, 179-180.

 





Em três dimensões: Claes Oldenburg

21 07 2015

 

 

2 Claes Oldenburg The Apple Core at the Israel Museum, in JerusalemO centro da maçã, 1992

Claes Oldenburg (Suécia, 1929)

aço inoxidável, espuma de uretano, resina, esmalte, 300 x 200 x 200cm

Museu de Israel, Jerusalem








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