Bibliotecas e eleitores, José Eduardo Agualusa

6 11 2017

 

 

Anderson, Stephen TriuirEithne (Three Enyas), 1998As três Ênias, 1998

Steven Warde Anderson (EUA, 1953)

Guache, caneta, lápis sobre painel de ilustração,  60 x 100 cm

Rockford Art Museum, Illinois, EUA

 

 

“Bibliotecas nunca desiludem. Um bom leitor é um eleitor mais informado e responsável; formando leitores estamos também desenvolvendo a empatia e o interesse pelo outro. A longo prazo esse esforço irá traduzir-se numa sociedade mais exigente, mais interventiva e, por extensão, numa classe política um pouco menos bruta do que a atual.”

 

Em: “Sobre livros e revoluções“, José Eduardo Agualusa, O GLOBO, 06/11/2017, Segundo Caderno, página 2





Dois tipos de escritores, José Eduardo Agualusa

11 04 2017

 

 

Metro Darren ThompsonO Metro

Darren Thompson (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela colada em placa, 30 x 40 cm

Coleção Particular

 

 

“Os escritores podem dividir-se entre aqueles que dizem sofrer enquanto escrevem e os que afirmam divertir-se. Podem também dividir-se entre os que escrevem para saber como termina a história que começaram, e os que só se sentam para escrever depois que desenharam, dentro da cabeça, a estrutura inteira do romance e definiram o enredo, ao mínimo pormenor.”

 

 

Em: “A melancolia do criador depois do fim”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 03/04/2017, 2º caderno, página 2.

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A chamada do escritor, José Eduardo Agualusa

22 02 2017

 

 

 

gevork-kotiantz-russia-1906-1996-estudante-1969-ost-100-x-100-cm

Estudante, 1969

Gevork Kotiantz (Rússia, 1906-1996)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

 

 

“Imagino que, pesquisando, seja possível encontrar, para cada romancista, o episódio fundador da sua escrita: o distante relâmpago, a pequena humilhação, um primeiro amor impossível, a mãe controladora, um crime íntimo, a morte do pai.

Todos nós gostaríamos de saber de que selva fabulosa saíram os tigres de Jorge Luís Borges; de que ruínas barrocas ou jardins perfumados emergiram as baratas de Júlio Cortázar ou as belas ninfetas e mariposas (serão a mesma coisa?) de Vladimir Nabokov. Não creio que o segredo da criação se esgote nesse conhecimento, e nem me parece que tal fosse desejável. Talvez tenha até o efeito contrário, levando-nos a reler os livros que mais amamos e que mais nos marcaram, e a encontrar nessa releitura novos e mais profundos mistérios.”

 

 

Em: “Um relâmpago que atravessa vidas”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 20/02/2017, 2º caderno, página 2.

 

 

 





“Ana Sebastiana”, texto de José Eduardo Agualusa

3 11 2016

 

 

 

Lacombe.Ilustração de Lacombe.

 

 

“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável.  Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa.  O juiz deu-lhe razão.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.

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“Bailundo”, texto de José Eduardo Agualusa

8 09 2016

 

 

Cristie HenryA longa jornada da noite, ilustração de Christie Henry.

 

 

Fala de Alfonsina, a que ama o mar

 

 

Nasci no Bailundo, você não conhece, o Bailundo é um segredo no mapa da nação. O céu: clara imensidade! O azul de um azul que não existe em mais lugar nenhum. O azul do céu no Bailundo — costumava dizer-nos o padre Cotovia — é o mesmo do princípio do mundo. Às vezes sonho com o céu do Bailundo, brilhante e molhado, e então me transformo em pássaro e voo. Acordo e canto como um pássaro. Fico igual a Pintada. Nessas alturas consigo falar com ela em passarês do mato. Tem muito verde lá, paus de toda a espécie, os nomes eu nem sei, mas sempre sons bem doces porque o umbundo é a língua que os anjos usam para namorar — também era o padre Cotovia quem falava isso, deve ser verdade. Luanda, mal comparada com o Bailundo, é tipo um peixe seco junto a um peixe vivo. No Bailundo a vida é muito cheia de brilhos, veste roupa de carnaval, espelhinhos, miçangas ao pescoço, chocalhos no calcanhar, e sempre seja noite ou dia, sempre a dançar. Mas eu não tive sorte. A mamã pisou uma mina, não dessas de explodir e mutilar, arranca pé, arranca perna, não, paizinho, não dessas, uma mina de feitiço, ouviu falar?, nunca?!, são uma arte nossa, armas tradicionais, a mamã pisou a mina quando estava grávida, e a mina me atingiu foi a mim no silêncio macio da barriga dela. Não sou feiticeira, espero que você entenda, sou enfeitiçada, mas isso só soubemos depois, quando eu não cresci. Você duvida? Lá em Portugal não tem feitiço? Em todo o lado tem. …”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.273.

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Resenha: “As mulheres do meu pai” de José Eduardo Agualusa

1 08 2016

 

 

Tamara_Natalie_Madden's,_The Black Queen (2010) by Tamara Natalie Madden.A rainha negra, 2010

Tamara Natalie Madden (Jamaica, contemporânea)

técnica mista

 

 

Este é a quinta obra de José Eduardo Agualusa que leio. O vendedor de passados, Teoria geral do esquecimento, Manual prático da levitação e Um estranho em Goa foram livros deliciosos que misturavam um tanto de fantasia com realidade, num estilo típico do autor.  As mulheres do meu pai toma um caminho um pouco diferente: a obra inteira é escrita na linha fronteiriça entre o sonho e a realidade.  Agualusa trabalha como psicopompo guiando o leitor entre o mundo interior e o exterior.

O meio é uma viagem.  Laurentina, uma diretora de cinema, decide fazer um documentário sobre a vida do falecido pai, famoso músico angolano, que ao morrer deixou sete viúvas e dezoito filhos.  Sai com sua equipe à procura das viúvase dos passos e eventos marcantes na vida de Faustino Manso. Para tanto precisa viajar de Angola a Moçambique passando por todo o sul do continente africano. O próprio título já se mostra um tanto fantástico instalando a incredulidade linear e aristotélica no leitor ocidental.  “Como mulheres de meu pai? Como sete viúvas?

 

 

AS_MULHERES_DO_MEU_PAI_1349724856B

 

A proposta é genial e permite que Agualusa mostre a variedade cultural ao sul do continente que sofre da visão ocidental de considerá-lo um todo, único, sólido e imutável, quer as pessoas retratadas estejam no norte, no centro ou no sul. E ainda faz mais, Agualusa mostra o contraste entre duas ex-colônias portuguesas em lados opostos do continente.

No entanto, o que mais impressiona o leitor é a destreza com que somos levados do onírico ao tangível com facilidade e garbo.  Vinhetas de viagem são uma das maneiras de narrar; outras são as histórias contadas oralmente aos viajantes; outra ainda é a maneira particular de julgamento entre o importante e o trivial dos personagens encontrados ao longo dessa excursão. Ao fim viajamos todos, dentro e fora de nós mesmos, marchando de maneira inclemente na fronteira entre a divagação e a realidade.

 

josé-eduardo-agualusa-696x466José Eduardo Agualusa

 

 

Enquanto reconstruimos os passos de Faustino Manso somos expostos ao lirismo do autor, à poesia africana.  As mulheres de meu pai é, como o próprio nome indica, plural. A narrativa se vale de diversas formas da escrita de poemas a cartas, histórias contadas à reflexão do viajante e consegue ao final, com cada retalho a que somos apresentados, formar uma grande colcha de retalhos abraçando a multiplicidade do continente e fazendo com ela uma única obra, espiritual e confortadora.

Belíssimo trabalho.

 

PS: Esta resenha foi re-editada no dia 7/8/2016.

 

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Os pombos, texto de José Eduardo Agualusa

28 07 2016

 

 

Marina Shkarupa Painting, PigeonsPombos

Marina Shkarupa (Ucrânia, contemporânea)

acrílica e óleo sobre tela, 60 x 60 cm

http://www.saatchiart.com

 

 

 

“Noor conta que em 1975, pouco antes do início das demolições, conseguiu comprar uma vivenda em Athlone. Levou consigo, para além, evidentemente, da mulher e dos filhos, os pombos-correios, vencedores de vários prêmios, construindo o segundo pombal com a madeira salva do primeiro. Ao fim de três meses decidiu soltar as aves. Nenhuma regressou. Ansioso, após uma noite em  branco, Noor foi de carro ao que havia sido o Distrito Six. Distinguiu, em meio ao imenso descampado em ruínas, um claro rumor de asas. Meia centena de pombos esperavam-no, atônitos, no exatao lugar do primeiro pombal. Ainda hoje um espanto semelhante paira sobre a cicatriz, no chão vazio, onde deveriam erguer-se as casas.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.139.








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