Amigos e inimigos, texto de Benjamin Tammuz

23 07 2015

 

 

MarktJaffaGustavBauernfeind1887Porto de Jafa, 1888

Gustav Bauernfeind (Alemanha, 1848-1904)

óleo sobre tela, 148 x 281 cm

 

 

“Aqueles árabes que eu, na prática, maltrato, porque caíram nas minhas mãos algemados e derrotados, quem são eles se não aqueles árabes que foram trabalhadores no pátio de nossa casa, aqueles mesmos árabes com os quais persegui lebres; aqueles árabes cujas mães trabalhadoras me seguravam secretamente sob a sombra do galpão e cobriam o meu rosto de beijos; as primeiras mulheres de quem ouvi, quando estava com cinco anos, que eu era bonito, que queriam me raptar e me levar para casa delas. E agora eu coloco os filhos delas sentados sob uma lâmpada elétrica e, em troca das alegrias da infância que conheci com elas e do amor de suas mães, os retribuo com medos mortais.

Não estou pedindo desculpa. Eles nos odeiam mortalmente e eu faço exatamente o que é possível e é preciso fazer. Mas isso não altera o fato de que, pela amizade de um árabe, eu daria dez amigos norte-americanos, ingleses ou franceses. Com um homem europeu eu posso tomar uísque, fazer negócios e chegar a um acordo de que o Estado de Israel é na prática uma extensão da Europa no Oriente. Mas com um árabe posso voltar a rolar na poeira no meio da plantação, respirar o cheiro de esterco queimado de bodes, colher e mascar segurelha, correr em direção ao horizonte e encontrar ali a minha infância e talvez encontrar também um sentido na vida — que agora quase não tem propósito — no local em que se encontra também a colina dos dias da minha infância.”

 

Em: Minotauro, Benjamin Tammuz, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2015, pp, 179-180.

 





Vestígios de comunidade judaica em Coimbra, c. 1370

10 07 2015

MArc Chagall, jewish wedding 1910Noite, 1910

[O casamento judeu]

Marc Chagall (Bielorússia/França, 1887-1985)

óleo sobre tela

 

Há certas notícias que não têm hora para serem publicadas.  Esta é uma delas.  Não sei porque não cheguei a saber dessa descoberta há um ano e meio, quando foi publicada, logo após o Natal de 2013.  Mas não importa, vejam que interessante: um bombeiro, ao fazer um conserto em uma casa na cidade de Coimbra descobriu uma estrutura no subsolo da residência, que depois de examinada pelo arqueólogo Jorge Alarcão, parece ter sido uma mikvá, datando do século XIV.   Há uma boa possibilidade desse ser um dos mais antigos banhos rituais judaicos descobertos na Europa. E mais raro ainda por se destinar a banhos rituais femininos.

978 - inf 43.537 - RVL_21.13xDescoberta em Coimbra, foto O Público.

Sabe-se que a comunidade judaica já existia em Coimbra antes mesmo da existência de Portugal.  E que havia uma parte da cidade dedicada à velha judiaria, que foi desativada durante o reinado de D. Fernando I, por volta de 1370. É por isso que se acredita que os banhos descobertos não podem ser posteriores a essa data.

Fonte: O Público





Banidos: uma dívida a reparar com a nossa história

24 10 2013

Moshe Maimon (1860–1924), Marranos, 1893Marranos, 1893

Moshe Maimon (Rússia, 1860-1924)

Abro espaço nas minhas estantes e estou feliz por arranjar uma casa “do bem” para o livro de Geraldo Pieroni, “Banidos: a inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil”.  Não é um romance. Conta com um ótimo ensaio de apresentação do autor, historiador e com uma pesquisa impressionante revelando uma lista detalhada das pessoas que sofreram durante a Inquisição em Portugal e foram condenadas a viver no Brasil.

Uma grande ironia: a primeira vez que ouvi falar de Inquisição no Brasil foi em uma visita ao Peru, no Museu da Inquisição em Lima.  Foi lá que soube que nós também tínhamos nos dedicado à prática, não só no século XVI, mas nos seguintes até o início do século XIX.  Por que eu não me lembrava de ter estudado essa questão na escola, muito antes de entrar para a faculdade?  Daí por diante, me interessei, quase como um passatempo, pelo assunto de judeus e cristãos judeizantes no Brasil.

banidos

Foi assim que cheguei ao livro acima. Comprei-o na época da publicação, em 2003.  Depois, mudando de residência,  quando me desfiz de uma boa parte dos livros que acumulara, não consegui me desligar de Banidos.  É simples, a lista das pessoas condenadas e banidas é extensa.  E a cada leitura de uns poucos nomes, imagino as vidas que esses condenados levaram depois de chegados ao Brasil.  Sou  tomada de grande respeito por essas vítimas. A imaginação rola e o coração se comprime percebendo a inutilidade de tanto sacrifício. Exemplos:

Nome: Brites Gomes

Inquisição e número do processo: Coimbra — 422

Naturalidade: Vila Real (arcebispado Braga)

Idade: 28

Filiação: Diogo Gomes e Maria Lopes

Moradia: Vila Real

Estado civil: Solteira

Profissão: o pai era mercador

Crime/Acusação: judaísmo

Prisão: 21-04-1642

Sentença: confisco dos bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, degredo de cinco anos no Brasil, penas espirituais.

Auto-da-fé: 15-11-1643

                                                                             [p.149]

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Nome: Luísa Fernandes

Inquisição e número do processo: Coimbra — 6.066

Naturalidade: Trancoso (bispado Miranda)

Idade: 70

Filiação: Luís Fernandes e Isabel Fernandes

Moradia: Trancoso

Estado civil: viúva de João Rodrigues

Profissão: o pai era sapateiro, e o marido, oficial de chocalhos.

Crime/Acusação: judaísmo (¼ cristã nova)

Prisão: 21-02-1667

Sentença: confisco dos bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo, degredo de três anos no Brasil

Auto-da-fé: 26-05-1669

                                                                                    [p.141]

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Emanuel_de_Witte_-_Interieur_van_de_Portugese_synagoge_te_AmsterdamInterior da sinagoga portuguesa em Amsterdã, c.1680

Emanuel de Witte (1617-1692)

óleo sobre tela, 110 x 99 cm

Rijksmuseum, Amsterdã

Pergunto-me qual o futuro que uma jovem de 28 anos, solteira, teria depois de passar mais de um ano na cadeia [veja as datas da prisão e do auto-da-fé] e desembarcar no Brasil, após uma viagem de navio que muitas vezes deixava seus passageiros doentes?  Que faria Brites Gomes  aqui depois de ser entregue como um pacote valioso às autoridades locais? Dinheiro não tinha, seus bens já haviam sido confiscados.  Entregue a quem?  Bonita? Pior ainda… e fica aquela sensação de dor por alguém que não conheci, mas que sei imaginar.  E não é belo, nem justo, o que se desenrola na minha imaginação.

A mesma pergunta faço sobre Luisa Fernandes de 70 anos.  70 anos!  No século XVII era muito mais difícil chegar-se a essa idade. Hoje temos mais recursos.  Que mal poderia esta mulher fazer no futuro que já não houvesse feito na sua vida inteira em Portugal?  Terá chegado ao Brasil viva?  Teria se transformado em pedinte?  Teria morrido de fome? O que uma mulher aos 70 anos poderia fazer para ganhar o seu sustento?  Sim, sei que a história está cheia de injustiças como essas, mas a maioria das vezes elas não têm nome, sobrenome, profissão, estado civil, cidade de nascimento, de moradia, nem nome dos pais.  Aqui, por esses detalhes, passamos a entender um indivíduo em três dimensões. É fácil, então, tomar suas dores, imaginar os seus sorrisos, as mãos, os calos do trabalho árduo, o cheiro das comidas que preparavam.

É por causa dessa imaginação que me tornei ciumenta do livro.  Como se as vidas ali citadas, poucas em relação ao número de aportados ao Brasil nos séculos de colônia, me dissessem “não me esqueça…  faço parte da sua história”.

Dutch Portuguese Sephardim in their sukkah. By French engraver Bernard Picart (1723)Sefardins, judeus portugueses na Holanda em uma sukkah.  Gravura de Bernard Picart, 1723.

Mas os perseguidos pela Inquisição não eram só aqueles habitantes de Portugal que acabavam em alguns casos degredados para o Brasil.  Aqui também a Inquisição perseguiu habitantes da colônia por práticas judeizantes, mandando-os para Angola.  E muitas vezes família inteiras se viram prejudicadas, despedaçadas.

“O encarceramento de um único membro da família era suficiente para destruir todo o clã, como foi o caso dos Lucenas e Paredes, famílias tradicionais de cristãos-novos, proprietários de engenhos de açúcar no Rio de Janeiro. Em Lisboa, no auto-da-fé do dia 27 de março de 1727, foram condenadas oito pessoas, entre as quais vários Lucenas/Paredes: Sebastião de Lucena, 19 anos, solteiro; Maria da Silva, Diogo da Silva e Esperança de Azevedo, todos filhos de Bento Lucena. Os quatro filhos de Manuel de Paredes, também ele senhor-de-engenho de Jacarepaguá, distrito  do Rio de Janeiro, foram condenados nesse mesmo dia; Manuel, 23 anos; Ignês, 24 anos; Maria, 27 anos; Luís, 28 anos. Todos foram condenados a cinco anos de degredo em Angola”. [pp. 95-96]

Como explica Geraldo Pieroni este é um assunto incômodo tanto para portugueses quanto para brasileiros.  Mas a história é feita desses momentos e conhecê-los certamente nos ajuda a não repetir tamanha idiotice.  Precisamos de muito maior divulgação desses fatos que acontecem por mais de 300 anos da nossa história.

Sim, achei uma boa residência para o livro que agora irá iluminar e fertilizar outras e quem sabe mais atuantes imaginações do que a  minha.





Um tesouro, a biblioteca Valmadona, ainda errante e sem destino final

13 05 2011

Dois intelectuais judeus lendo as notícias, 1998

Maher Morcos (Egito, 1952)

Em dezembro de 2010 o patrimônio da Biblioteca Valmadona foi a leilão na Southeby´s de Nova York.  O arrematante, anônimo, pagou bem mais do que os USD $25.000.000,00 – vinte e cinco milhões de dólares de reserva — para adquirir uma das mais espetaculares bibliotecas judaicas.  Intelectuais do mundo inteiro e principalmente aqueles cujas especialidades requerem o conhecimento de textos judaicos incomuns sofreram até hoje por não saber onde foi parar essa coleção assombrosa que havia  tomado as estantes – montadas para este evento – nas paredes dos salões de 220m² da exposição pré-venda da casa de leilões.  Nessas estantes estavam alinhados aproximadamente 13.000 livros e manuscritos colecionados por um só homem: Jack V. Lunzer.  Nascido na Antuérpia em 1924, Lunzer, que hoje vive em Londres, enriqueceu no comércio dos diamantes industriais.  Mas ao longo dos anos foi também colecionando textos escritos e impressos em hebraico.

A coleção que leva o nome de Valmadona – em homenagem à cidade na Itália dos antepassados de Lunzer – é considerada uma mais completas coleções do mundo de textos em hebraico.  Dentre suas curiosidades estão uma Bíblia Hebraica, escrita à mão do ano de 1189 – o único texto inglês em hebraico de antes de 1290, quando o rei Eduardo I expulsou os judeus.  Cabe lembrar que em 1190 os judeus da cidade de York foram massacrados, e seus pertences – entre eles muitos livros, manuscritos – foram roubados e vendidos fora da Inglaterra, onde este texto foi encontrado pelo colecionador.

Exposição pré-venda da Biblioteca Valmadona, Foto: The New York Times.

Outra curiosidade não só pelo volume, mas também pela história de sua aquisição é  uma edição do Talmude da Babilônia, datando de 1519-1523, impresso em Veneza, pelo editor cristão Daniel Bomberg.   O primeiro contato de Lunzer com este volume, foi na Abadia de Westminster, em Londres, onde o achou cheio de poeira, de alguns séculos provavelmente.  Eventualmente veio a adquiri-lo por uma permuta com a abadia, oferecendo em troca uma velha cópia do Registro Original da abadia , um documento com mais de 900 anos de idade.

Surpresas parecem estar escondidas em muitos desses livros.  Quem poderia acreditar, por exemplo, que máximas tais como:  Faça dos seus livros seus companheiros, ou Deixe sua estante de livros ser o seu jardim, já eram conselhos pertinentes no século XII, como está gravado no manuscrito judeu-espanhol do estudioso Judah Ibn Tibbon, em um volume dessa coleção?

Para se ter noção de quão abrangente é a coleção da Biblioteca de Valmadona, talvez valha lembrar, que apesar de a prensa móvel ter sido inventada na Alemanha por Gutenberg, por volta de 1439, e de sua primeira publicação ter sido a Bíblia – hoje chamada a Bíblia de Gutenberg — , judeus  no século XV não podiam ser membros das guildas de imprensa, na Alemanha.  Por causa disso, os livros publicados em hebreu através da prensa móvel apareceram primeiro na Itália, a começar por Roma em 1470.  Depois disso, diversas outras cidades italianas deram licenças para a impressão de livros em hebreu.  Mas essas permissões eram dadas e retiradas com grande facilidade, ao bel-prazer dos dirigentes locais.  Um exemplo disso vem da cidade de Cremona, onde a permissão para a impressão de textos durou só 10 anos, de 1550 a 1560.  Pois cada um dos livros publicados nesse período em hebreu está presente na coleção arrebanhada por Lunzer.

Foto: The New York Times.

Quando se fala dessa coleção espetacular temos também que lembrar das vicissitudes que circundaram os textos hebraicos.  No artigo do The New York Times, A Lifetime’s Collection of Texts in Hebrew, at Sotheby’s Edward Rothstein, nota que só o Talmude, por exemplo, foi objeto de grandes perseguições; esses textos legais, foram confiscados em Paris em 1240, na Alemanha em 1509, e queimados por decreto papal na Itália em 1553.  Que ainda haja cópias intactas e que uma pertença a uma coleção de judaica é uma demonstração não só da persistência que Lunzer demonstrou ao coletar esses textos, mas também da raridade de alguns exemplares da produção intelectual de um povo.

Lunzer  não se interessou nunca pelas publicações em hebreu das Américas.  Sua atenção estava voltada para a documentação das várias comunidades judias no mundo, efêmeras, publicações de séculos passados, de comunidades que produziram textos em hebraico. Como ele mesmo lembra, no artigo mencionado acima, cada um desses volumes só foi impresso quando alguém deu  permissão para ser impresso.  “Cada um deles chora sua própria história.”  Mas hoje, aos 86 anos, Lunzer quer ter certeza de que sua busca, compra e a arrecadação desses textos, servirá para futuras gerações de estudiosos.  Esse será um de seus legados.

Foto: The New York Times.

Grande ansiedade tomou conta dos estudiosos  desde a conclusão do leilão da Biblioteca Valmadona, pela Southeby’s em dezembro de 2010.  O que todos se perguntavam até recentemente era: onde foram parar esses livros, esses documentos da nossa herança cultural?  O arrematante continuava anônimo e uma grande dúvida pairava no ar, até que neste início de maio, através de um artigo de Paul Berger, no The Jewish Daily Forward, Treasured Judaica Library, Feared Lost, Is Back On the Market, ficou-se sabendo que a compra não foi efetuada.  Na verdade, a coleção inteira, todos os seus 13.000 volumes, ainda estão na casa de leilões em Nova York.  Aparentemente o comprador não conseguiu provar para satisfação da Fundação da Biblioteca Valmadona, que as condições de compra iriam ser cumpridas.

E quais são essas condições?

A coleção precisa ser mantida junta, sem venda de qualquer texto, por mais insignificante que pudesse ser considerado.  Essas condições foram claramente enunciadas antes do leilão, e foi justamente para proteger esse patrimônio que a Fundação da Biblioteca Valmadona foi criada. No entanto, após o leilão, o comprador se viu forçado a retirar seu lance, uma vez que não pode demonstrar satisfatoriamente para os interessados que tinha interesse, poder e o compromisso de manter as condições estipuladas pré-venda.

Jack V. Lunzer, foto: The New York Times.

Todo mundo sabe que a coleção Valmadona oferece uma oportunidade sem igual de se adquirir uma das grandes bibliotecas judaicas privadas”, admite Sharon Lieberman Mintz, curadora de arte judaica da Biblioteca Teológica Judaica de Nova York e que também é consultora-sênior de arte judaica da Southeby’s.  A julgar pelo número de visitantes da exposição pré-venda, mais de 4.000 pessoas por dia, formando filas em volta do quarteirão, Sharon Lieberman Mintz  mostra que está certa, o grande público já se conscientizou do valor do trabalho de aquisição a que Lunzer se dedicou nos últimos 50 anos.  E não é por falta de interesse que bibliotecas do mundo inteiro continuam tentando levantar fundos para adquirir este tesouro.  A Biblioteca do Congresso nos Estados Unidos ofereceu, em 2002,  USD 20.000.000 – vinte milhões de dólares, para a biblioteca que estava avaliada na época em USD 30.000.000.  Apesar de negociações dos dois lados, o acordo de compra não foi validado.  Há ainda muitas outras instituições interessadas,. Entre elas conta-se  a Biblioteca Nacional de Israel, os departamentos de Estudos Judaicos tanto da Universidade de Columbia em Nova York assim como seus equivalentes da Universidade de Pensilvânia, Universidade de Nova York, entre outras.

O custo parece ser até agora o obstáculo mais mencionado. Talvez seja um símbolo dos interesses de nossa época, se levarmos em consideração que ontem, dia 12 de maio de 2011, um único quadro do artista Andy Wharol, LIZ NUMBER 5  [um retrato da artista Elizabeth Taylor] vendeu em leilão na Phillips de Nova York, por USD $ 27.000.000 – vinte e sete milhões de dólares.  É uma pena que uma coleção com 13.000 manuscritos históricos não consiga levantar o mínimo de USD$ 25.000.000 – vinte e cinco milhões de dólares necessários para sua aquisição.

Mas a esperança de que essa coleção ainda vá ser comprada por uma instituição pública não morreu. Desde que a notícia circulou pelos meios intelectuais sobre a venda frustrada, e sobre a volta ao mercado dessa coleção, o interesse na Biblioteca Valmadona parece ter re-acendido.  Seria uma grande aquisição para qualquer biblioteca do mundo, em qualquer lugar.  Porque a história dos judeus está tecida na história do mundo ocidental de maneira inescapável, e uma biblioteca como essa certamente tornará qualquer cidade, em que a coleção se estabeleça, num grande centro de pesquisa internacionalmente aclamado.





História, mistério e aventura: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler

24 04 2011

Leitura ritual em sinagoga, iluminura, manuscrito em Emília, na Itália.

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Raramente no grupo de leitura a que pertenço nos dedicamos a livros lançados há muito tempo, porque nem sempre é fácil para os membros conseguirem comprar volumes esgotados.  Mesmo sabendo que o livro é muito bom temos o cuidado de verificar se está disponível nas livrarias antes de o recomendarmos.  Isso nos faz ler principalmente os mais recentes lançamentos.  Foi, portanto com prazer que verificamos que a editora Best Bolso [Grupo Editorial Record] havia lançado O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, originalmente publicado no Brasil em 1997 e que havia sido muito bem recomendado por amigos leitores.

Valeu à pena seguirmos essa indicação.  O romance de mistério e também histórico passado em Lisboa, em 1506, se concentra num assassinato que acontece ao mesmo tempo em que no centro da capital portuguesa aproximadamente 2000 judeus e cristãos novos são exterminados em praça pública, sacrificados vivos numa grande fogueira.  É na semana dessa horrível, desmesurada ,matança, fato histórico comprovado, instigada pelos Dominicanos, que se passa o assassinato que Berequias Zarco investiga. A vítima era Abraão, seu tio e mentor no estudo da Cabala.

O romance começa com um aceno, uma referência, às tradições românticas do século XIX, quando um autor, antes de desfiar a sua narrativa, a enquadra como vinda da descoberta de um manuscrito recém-encontrado.  Os escritores Bram Stoker (irlandês) e Nathaniel Hawthorne (EUA) são apenas dois nomes que vêm à mente quando penso nesse tipo de gancho na narrativa. Tratando-se de O último cabalista de Lisboa essa introdução é de grande efeito, porque sabemos que as histórias que conhecemos do período da Inquisição em Portugal na época de D. Manoel, O Venturoso,  são escassas e tendenciosas.  Grande parte dos manuscritos – judaicos ou não – que faziam parte da biblioteca de mais de 70.000 volumes da Coroa Portuguesa, desapareceu no terremoto de 1755.  Assim, a suposta descoberta de um manuscrito em Constantinopla, dá, desde o início da narrativa, um cunho de verdade, como um crédito para aliviar a nossa descrença.

É bom afirmar desde logo que este não é um romance religioso.  É principalmente uma história de mistério, de resolução de um crime, que acontece numa semana de grande inquietação social nas comunidades não-cristãs:  judaica e muçulmana, na Lisboa de 1506.  As referências à Cabala – estudo da natureza do que é divino – não são mais do que um pano de fundo, uma ferramenta de uso dramático, que ajuda a apresentar ao leitor, através de liberais pinceladas culturais, alguns aspectos do dia a dia da Alfama moura e judia.  A Cabala permeia o texto através de citações filosóficas de fácil compreensão, tais como “os livros são feitos por letras mágicas”, entre outras.   Torna-se evidente, logo após as primeiras 50 páginas que a intenção de Richard Zimler (um judeu americano naturalizado português que reside na cidade do Porto) é a de escrever um livro de suspense que absorva o leitor de tal maneira que não possa deixá-lo de lado.  E isso ele consegue facilmente.  Também é sua intenção, acredito, manter a memória viva de todos os sacrifícios pelos quais o povo judeu passou.  Mas seu retrato da brutalidade da época, das maneiras rudes da população, dos medos, das doenças, da peste, das crendices, do sexo, tudo que ele descreve, nos leva, a nós também, que não somos judeus, a querermos manter a memória viva dessa e de outras épocas — sobreviventes que somos todos nós dos augúrios do passado — para que chacinas, preconceitos, extermínios não se repitam nunca mais.  Nem pelas nossas mãos, nem pelas de outrem.

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Richard Zimler

O último cabalista de Lisboa apresenta uma história sobre anti-semitismo e os judeus em Portugal.  Somos levados a considerar, mais uma vez, as conseqüências de uma nobreza associada por baixo dos panos ao financiamento dos empréstimos judeus, e acima da mesa à uma religião cega, dominada pelo medo e mantenedora da  ignorância do povo.  Lembramos com esse romance do fiasco das conversões forçadas e das reações às doenças da época.  Temos que confrontar os hábitos porcos, insalubres, violentos e amorais da era das grandes descobertas lusitanas.  E de sobra somos apresentados aos valores das reais e das falsas amizades.  Tudo isso num ritmo frenético, de grande suspense.  Que mais se pode pedir de um romance de mistério?  Leitura gostosa, com passagens violentas, mas de grande lucidez e magia.





Chuva dourada, de Gina B. Nahai

26 02 2010

Sócios no aprendizado, s/d

Elia Benzaquen ( Escócia, 1965)

Quando eu ainda morava nos Estados Unidos, fiz amizade com um casal judeu iraniano. Quando os conheci, a minha ignorância sobre o Irã e sua população era tão grande que não pude esconder a minha surpresa ao aprender que no Irã da época do Xá, havia uma grande comunidade judaica, a maior no Oriente Médio fora de Israel.  Naqueles anos, o  Aiatolá Khomeini já havia se cansado de requisitar a cabeça do escritor Salman Rushdie pelo livro Versos Satânicos!  Levando isso em conta, simplesmente assumi que a maioria dos judeus persas houvesse emigrado.  No entanto, para escrever a resenha do livro que acabo de ler, busquei informações na rede e me surpreendi, uma vez mais, ao  saber que ainda há uma pequena e devota comunidade judia na capital, Teerã.  A mim, parecia improvável que houvesse tolerância no mundo xiita aos judeus, principalmente no Irã, que nas últimas décadas não tem sido visto como um país particularmente aberto a opiniões que diferem do conservadorismo xiita.  Abordo esse assunto porque as famílias dos personagens centrais do livro  Chuva dourada, de Gina B. Nahai [Ediouro: 2007],  pertencem a famílias judias, residentes no Teerã, e suas histórias se passam nos anos imediatamente anteriores à revolução que depôs o Xá da Pérsia.

Este foi um romance me deixou silenciosa e pensativa.  Acabei de ler suas 332 páginas em dois dias  e passei a tarde e a noite do último dia, após fechar o último parágrafo,  tendo que considerar a potência dos preconceitos contra mulheres, que também afetam os homens.  Preconceitos  arraigados por religiões e  culturas milenares limitam, cerceiam, podam e contorcem os espíritos ricos, as mentes empreendedoras, os gritos rebeldes das almas que precisam se expressar.  De particular amargor é ver mais uma vez o retrato da discriminação contra a mulher.  Este é um assunto que me cala.  Mas ainda é difícil imaginar o rancor que mulheres como Bahar [nome que em farsi significa Primavera ], personagem principal da trama, trazem dentro de si, encobrindo como um manto todos os desejos de crescimento emocional e educacional a que aspiram e que preconceitos variados lhes tolhem, a todo momento, o simples ato de viver bem ou dignamente.  Inadvertidamente, essas mulheres, passam para suas filhas, para a próxima geração,  os mesmos traumas com que cresceram, repetindo numa cadeia infinita, as pragas de se ter uma filha mulher, a tristeza de não se ter um filho homem.  Perpetuam assim a injustiça que sofreram e da qual não conseguiram se libertar.

A história de Bahar, tenho certeza, não é única.  Nem é simplesmente um excesso da imaginação de uma iraniana que se libertou e emigrou para os EUA, como aconteceu com a autora.  Aos 17 anos Bahar encontra Omid [ cujo nome em farsi significa Esperança]. Ela é de uma família judia pobre.  Ele de uma família judia rica.  Eles se casam contra a vontade da família dele.  E o que deveria ter-se tornado um conto de amor, passa a ser uma história de abuso, de preconceito, de tortura, não dos agentes que poderíamos esperar, mas da sociedade, da cultura, do círculo familiar.  Omid logo encontra o amor de sua vida, uma mulher muçulmana, livre, amante de um outro homem.  E por sua própria inabilidade de administrar a vida, os sentimentos e o mundo em que vive, só piora a situação em casa, em seu próprio casamento.  Mais uma calamidade aflige  o casal, e principalmente Bahar, eles têm uma filha com surdez progressiva.  A já depauperada, oprimida Bahar, agora sofre duplamente, não só é mulher e teve uma única filha, também mulher, mas esta filha não preenche todos os requerimentos necessários, pois não é “perfeita”.

Chuva Dourada não é um romance leve, cheio de momentos bucólicos.  Muito pelo contrário.  É uma história triste e fascinante, de um mundo que – aqui no ocidente, numa cultura de inclusão como a nossa – parece pertencer a um tempo cravado nos primeiros séculos da Idade Média, cuja realidade custamos a acreditar co-habite com a nossa, dia a dia, ano a ano.   Muito bem narrada, a autora  não poupa ao leitor o sofrimento de Bahar e de todas as mulheres nela representadas.  Este é um romance sobre expectativas nunca alcançadas.

Gina B. Nahai

Recomendo esse livro.  Com todas as cinco estreles que me dão.  Estou emprestando meu volume a todos os amigos que gostam de boa literatura.  E também porque não posso deixar de tentar abrir os olhos, sempre que possível, para o problema da discriminação contra a mulher.  Vá ler Chuva Dourada.  Não é leve.  Mas vale todas as palavras nele escritas.

***

NOTA:

Há horas em que tenho a impressão de que não há ninguém no comando das nossas editoras.  É impressionante a falta de cuidado com os livros aqui impressos.  No caso deste livro, de Gina B. Nahai a pergunta que não cala é:  Quem foi que deu a este romance o título de Chuva Dourada?  Procure pelo título na internet e verá o que qualquer pessoa com um pouco mais de conhecimento percebe:  esta é a expressão usada para  a urofilia, ou seja para a prática sexual em que a urina está envolvida.  Alguém dormiu no volante… É simplesmente inacreditável!   O título no original em inglês é Caspian Rain. Caspian se refere ao Mar Cáspio.  No romance a palavra Caspian está associada à cor do Mar Cáspio… Por que então não evitar a infeliz conotação implicada no título em português?  Ei,  onde estava o editor?  Onde estavam as cabeças pensantes da Ediouro?  O livro não chegou às livrarias com esse título sem a aprovação de alguém…





Cartas de viagem: Espanha IV

19 09 2009

 

cordoba juderia

Córdoba, Espanha.

 

Córdoba, outubro de 19…

 

 Meus queridos: 

Córdoba e Granada são duas jóias espanholas.  Decidimos não rever Sevilha desta vez, porque estaremos de volta a Sevilha, tudo permitindo, durante a Semana Santa.

Desta vez visitamos ambas as cidades com uma calma invejável.  Revisitar é também redescobrir.   Nenhuma delas nos deixou desapontados.  Eu estava com medo de que Córdoba não fosse, nesta segunda visita, tão interessante quanto a achei da primeira vez.  Mas a minha memória não me falhou, e ainda a acho um dos lugares mais interessantes que conheço.  Tenho uma afeição inexplicável por ela.

Não faz sentido tentar descrever para  vocês a grandiosidade da arquitetura islâmica na Espanha.  Seria impossível.  O Alhambra é mesmo um castelo das Mil e Uma Noites e os jardins Generalife fazem a maioria dos outros jardins e parques, orgulhos nacionais de outros países, parecerem projetos primitivos.  A mesquita de Córdoba também cai nessa mesma categoria.  São todas obras de príncipes visionários que tinham muito dinheiro, sábios matemáticos nas suas cortes e mão de obra abundante (em grande parte escrava) para construírem para seu desfruto pessoal as maravilhas arquitetônicas que nos restam.  Acho que vocês não devem saber – porque eu também só aprendi agora – que os escravos utilizados pelos califas no sul da Espanha, não eram africanos, como pode vir a nossa mente hoje em dia, mas eram, em sua grande maioria, portugueses e espanhóis, cristãos capturados durante as invasões na península ibérica pelos muçulmanos e feitos escravos nessa época medieval.   

 

cordoba, patio

Pátio em Córdoba.

 

Gosto especialmente de Córdoba, por causa de sua atmosfera e também por causa de sua Juderia – bairro judeu da idade média.   A maioria das cidades da Andaluzia e também do resto da península ibérica que estiveram sob controle islâmico tem áreas das cidades de residência para os judeus.  São em geral enclaves interessantíssimos dentro do perímetro urbano, que começaram a ser evacuados pelos judeus quando a Inquisição bateu firme e forte: 1488 na Espanha e 1496 em Portugal. Esses bairros atingiram o seu apogeu durante a dominação islâmica porque os mouros eram mais tolerantes do “povo da Bíblia”, que seus inimigos cristãos.  

A Juderia de Córdoba é um grupo de talvez 30 a 40 ruas bem estreitas (da largura de um carro) e becos.  Tem casas de dois ou três andares dos dois lados, que são todas brancas.  Tão brancas que poderiam ser usadas nos anúncios de “que sabão lava mais branco?”  Em geral, ela tem uma porta bem larga, no centro do prédio, que anteriormente talvez pudesse ser usada por uma carreta de mão.  Este portão leva a um saguão coberto de azulejos decorados com motivos mouriscos.  Esse saguãozinho deixa-nos perceber através de portões de ferro batido os jardins internos das casas.  Esses jardins são tão famosos que os atuais donos dessas casas deixam suas portas abertas para que passantes, como nós, possam ver e desfrutar de seu charme, olhando lá dentro.

 

juderia de cordoba, patio de la juderia

Pátio da Juderia, Córdoba.

 

Do lado de fora, essas casas são cobertas de vasos e potes de cerâmica, carregadinhos de plantas, de trepadeiras e choronas, e parecem estar colocadas nas paredes sem nenhuma ordem visível.  Não há grandes áreas de paredes pintadas de branco sem que alguém não coloque ali pelo menos uns vinte potes de plantas, pendurados nas paredes e também há  potes dependurados em arames que vão de lado a lado das ruas, dando a elas, dessa maneira, um teto de verduras, que sombreia o caminho.

Os nomes das ruas são também maravilhosos:  Rua das Flores, Rua da Lua, Esquina do Ouro, Rua dos Judeus, Praça do Burro.  Esses becos e ruas, de vez em quando, se abrem em pracinhas minúsculas, que podem  ter pequeninos monumentos, como encontramos um ao filósofo e astrônomo árabe  Averroes  e outro ao judeu andaluz, Maimonedes, rabino, médico e filósofo.  As ruas mais largas ( um carro e meio de largura) têm laranjeiras dando sombra às diminutas calçadas.  Nesta época do ano essas árvores estão carregadas de frutos.  E que aroma!

Bares e restaurantes freqüentemente usam esses jardins internos  como suas salas de almoço.  Sentados à mesa a gente pode apreciar todos os potes de plantas que populam as paredes internas dessas casas.  De vez em quando, ouve-se alguém cantarolar uma típica melodia andaluza.  

Na Juderia há uma pequena sinagoga do século XIV, uma das pouquíssimas ainda em pé na Espanha ( a outra famosa sinagoga é a de Toledo).  Essa construção também tem à moda das casas e da mesquita, um jardim interno e por incrível que pareça foi construída num estilo bem islâmico de arquitetura semelhante ao encontrado nas mesquitas da época.  A arquitetura cristã em Córdoba deixa muito a desejar.  Preservados também estão os banhos árabes, hoje parte de uma loja de artigos turísticos, que tem quatro de seus cômodos dos fundos tombados, por serem os antigos banhos das cidade.  E há também na Juderia o Museu do Touro – o melhor que conheço na Espanha.   Assim como a Inquisição e a Guerra Civil Espanhola nesse século, a fascinação do espanhol com o touro está na lista daqueles assuntos que qualquer pessoa que queira entender a Espanha, tem que um dia destrinchar.

 

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Plaza de las Tendillas, Córdoba.

 

Mas Córdoba também é o desfile de seus habitantes nas ruas.  Gentes de todas as idades passeiam da Plaza de las Tendillas.  Observar as pessoas, por volta das cinco da tarde, de um dos muitos cafés nessa praça, é o grande passatempo tanto de espanhóis quanto dos turistas que visitam o local. Regado a chocolate quente com churros todos observam e são observados.   Todas as cidades espanholas têm esse fenômeno do andar/desfilar.  Todas as cidades espanholas são, conseqüentemente, dos melhores lugares para se observar pessoas, o comportamento humano.  Cada cidade tem sua personalidade; a mais barroca dessas atividades é a que se desenrola em Barcelona, sem dúvida.  Mas Córdoba é pequena o suficiente para que, depois só de alguns dias, sentada no mesmo café, a gente possa começar a conhecer os transeuntes.  Reconhece-se a senhora que vem passear acompanhada de sua filha, ou a adolescente que fez de tudo, no dia anterior, para ganhar a atenção de um rapaz, que hoje já não está com a camisa vermelha que lhe caía tão bem.  Em Córdoba é mais fácil a gente se sentir como parte da cidade; perde-se logo a noção de estarmos olhando para o cenário de uma peça teatral, como a gente se sente no início. Ao invés, a gente passa a se sentir como um extra numa cena de bar, depois de termos ido lá uma meia dúzia de vezes, e acompanhamos o roteiro da peça imaginária logo ali, debaixo dos nossos narizes.    E, no momento em que a gente se levanta para ir embora, de repente a gente cruza aquela linha imaginária que nos separava de um ator principal.  Como num passe de mágica, passamos a ser um deles, desfilando também na Plaza de las Tendillas, deixando que outros nos olhem e observem.  

 

Beijinhos a todos, e muitas saudades,  L.

 

 PS: Sabem que eu adoro esses 3 pingos da palavra beijinhos?








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