As possessões da classe alta, texto de Julian Fellowes

15 11 2016

 

 

antiquárioClarabela vai ao antiquário © Walt Disney.

 

 

“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.

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Resenha: “Esnobes” de Julian Fellowes

31 08 2016

 

 

caça Arthur_E_Becher01Caçada, ilustração de Arthur Ernst Becher (EUA, 1877-1960).

 

 

 

Quando me dei conta de que Julian Fellowes era responsável por escrever e criar o roteiro de Downton Abbey, uma excelente série britânica para a televisão e que também fizera os roteiros para os filmes Assassinato em Gosford Park, (2001, premiado com o Oscar), Feira das Vaidades (2004) e A jovem rainha Vitória (2009), tive receio de ficar desapontada com primeira publicação em prosa do autor . No passado autores premiados nem sempre me agradaram como esperado. Felizmente isso não aconteceu com Esnobes.

Foi uma leitura divertida, entretenimento certo, repleto do mais perverso humor britânico e crítica aos costumes sociais da aristocracia inglesa. O tom segura firmemente a narrativa feita pelas observações de um homem, cuja identidade ignoramos, mas que pertence à classe social retratada, da mesma forma que Julian Fellowes na vida real é um membro da aristocracia britânica, e como o personagem que descreve no livro dedica-se ao teatro.  Atravessamos as barreiras de classe, entramos e saímos dos diferentes grupos sociais, pela mão firme de um homem que conhece as curvas do caminho.  Há momento em que ele me lembrou Arsène Lupin, pela facilidade com que  alça  a cortina de proteção dos bem-nascidos e revela, como faz o personagem de Maurice Leblanc, as idiossincrasias da classe aristocrática.  A ação se movimenta através dos diversos eventos sociais de que o narrador participa.  Não chega a ser uma resenha social daquelas publicadas nos diários impressos sobre jantares e caçadas, fins de semana no campo, corridas de cavalos, reuniões nos fechados clubes londrinos. Mas há um delicioso ar de mexerico, intriga ou boato no tom irônico das observações detalhadas.

 

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Superficialmente essa poderia ser uma história para moçoilas, livreto da “Biblioteca das Moças”.  Afinal não passa de uma Cinderela. Será? Edith Lavery, menina da classe média alta, depois de frequentar as melhores escolas encontra-se sem perspectivas para um bom casamento até que de repente tem a oportunidade de fisgar um membro da aristocracia, com título, que lhe garantirá um futuro seguro para sempre feliz. Ao contrário de Cinderela os obstáculos a esse relacionamento não estão personificados em duas irmãs invejosas.  Nem mesmo na sogra, a mais interessante personagem do livro.  Os obstáculos estariam no comportamento requerido de Edith, mas estes ela domina com facilidade. O que não consegue é ir contra sua própria disposição rebelde. O embate é pessoal. Ela é de fato sua verdadeira inimiga.

Boa parte dos detalhes desta história pode ser melhor degustada por quem está familiarizado com a cultura inglesa. Mas o desconhecimento dos hábitos da ilha não impedirá o leitor de apreciá-la.  Bem desenvolvida, a narrativa tem o ritmo do teatro: é dividida em três tempos, da introdução com situação e personagens; desenvolvimento dos possíveis conflitos seguido de uma conclusão inesperada para os verdadeiros corações românticos.  Percebe-se, no entanto, que a aristocracia inglesa está ciente da decadência de sua importância social e num gesto de grandiloquência se  arrasta pelo mundo de hoje, validando os conceitos da era anterior à Primeira Guerra Mundial.

 

Julian FellowesJulian Fellowes

 

Esta é uma boa história. Retrata a estratificação da sociedade inglesa com bom humor.  Repleta de comentários críticos com que narrador em off nos presenteia, é uma leitura leve, rápida, na tradição da comédia de costumes tão apreciada pelos leitores ingleses.  Fino humor. Sutil.  Sensível, elegante e sagaz. Assim como as obras do autor para  cinema e  televisão, Esnobes pode ser apreciado pelas nuances de comportamento de seus personagens. Recomendo para os leitores sensíveis à enigmática ou inexplicável sedução exercida pela aristocracia inglesa em todo o mundo.

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O casamento, texto de Julian Fellowes

19 08 2016

Their_First_Quarrel,_Gibson2A primeira briga, 1914

Charles Dana Gibson (EUA, 1867-1944)

gravura

 

 

“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio.”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, página 164.

 








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