Feijão orgânico

16 09 2019

 

6a00e54fabf0ec883300e5529185b48834-500piAnúncio de geladeira para revistas americanas.

 

 

Feijão orgânico

 

Tenho uma amiga dedicada à produção orgânica, com fazenda no interior do estado de São Paulo. Recebi dela um quilo de feijão carioca.

“É para colocar na geladeira. Não precisa deixar de molho de véspera, basta umas duas horas antes de cozinhar. Depois, cozinha em quinze minutos.”

“Você não vai acreditar na delícia que é”, interveio, uma amiga em comum que faz ioga conosco.

“Mas, olha,” disse a fazendeira, “tem que catar. Porque tudo é feito à mão e vem com pedrinhas, palha, alguns elementos da terra.”

Mal sabia que esta demanda iria me causar meia hora de grande prazer, e um dia repleto de memórias. Há muitos anos não cato feijão.  Encontrar impurezas foi encontrar minha avó, depois meu pai e a infância degustatória.

Sentadas, na sala de jantar, o jornal do dia anterior aberto sobre a mesa, uma pilha de feijão no canto cobrindo as manchetes antigas, uma tigela para cada uma, catávamos feijão para o almoço.  Minhas mãos pequeninas, de quatro a cinco anos, selecionavam pedrinhas.  Mostrava, uma a uma, cada sujeira à minha avó que, pacientemente, óculos de perto no nariz, vestido de florzinhas e avental de listras, cabelos grisalhos presos numa rede ‘invisível’, aprovava a seleção para o lixo. Era o ritual da manhã na casa de vovó.  Feijão, tínhamos todos os dias.  Hoje me admiro de sua paciência, quando muitas vezes deveria estar pressionada pelo tempo, para completar a refeição na hora em que deveríamos comer.  Lembro-me de segurar cuidadosamente pedrinhas e palhas, entre o indicador e o polegar, com o dedo mindinho bem para cima, como se segurasse a alça de uma xícara de chá, e perguntar, “vovó, essa aqui também?” Com o olhar rapidamente levantado da tarefa ocupando as mãos, concordava e logo, voltava os olhos para os grãos à sua frente.

Era outro tempo.  Século passado, segunda metade.  Tudo mudou.  Comprávamos feijão, arroz, cevada, lentilha, grão de bico, farinhas diversas, fubás, até macarrão fresco, a granel, nas feiras públicas semanais.  As barracas desses produtos punham as sacas de juta cheias, no chão, próximo ao caminho dos fregueses.  À medida que as vendas aconteciam, enrolavam as beiradas do saco, para deixar a mercadoria restante à vista de quem pudesse se interessar.  Um dos meus prazeres nestas feiras era ir de barraca em barraca, enfiando as mãos até os pulsos, no arroz, feijão, ervilhas e grão de bico.  Papai, que era o comprador de produtos, nunca me repreendia por essas experiências táteis.  Mas não gostou da vez que tentei usar como cortina, brincando de abrir e fechá-la, os talharins frescos, pendurados em paus roliços, nas barracas de massas.  Ir à feira era uma aventura para os sentidos. Papai me levava e deixava mamãe com meu irmão bebê em casa.  Na mão direita, duas sacolas de lona de listras azuis e brancas e minha mão escondida na dele, do outro lado. Eram cheiros e cores intrigantes. E falatório alto dos feirantes chamando os fregueses. Parávamos nas frutas, nos legumes, para papai inspecionar, procurando saber a origem do que via. No entra e sai de sombra e sol, eu espirrava, como se alérgica à luz. O chapéu de palha que sempre me protegeu quando saía com papai, não era suficiente. Voltava para casa avermelhada nos ombros e com marca branca no lugar das alças do vestido. Mormaço era pior, nunca entendi a razão, mas me queimava mais.

Papai fazia as compras, tanto na feira, aos sábados, quanto na mercearia chamada O Grilo, no centro da cidade, depois da feira, assim como no Rei dos Cabritos, à Rua Riachuelo.  Voltávamos para casa com o carro cheio.  Na mercearia, comprávamos enlatados e engarrafados da marmelada ao azeite.  Invariavelmente, polpa de tamarindo da marca Bandeira que vinha numa lata grande, verde e dourada, para fazer suco em casa,  minha bebida preferida.  Bananas, comprávamos na penca, que dependurávamos na varanda de serviço. Até meus pais envidraçarem o local, dividíamos nossas bananas com os morcegos do bairro. Filho de portugueses, papai gostava da mesa farta, mesmo que a abundância deixasse minha mãe atarantada com espaço na geladeira e nos armários da cozinha.

Foi no Rei dos Cabritos que vi pela primeira vez a carcaça dos animais que comíamos.  Tinha porco, cabrito, carneiro, coelho (parece um gato, sem pele e sem cabeça) e inúmeras aves vivas, prontas para serem abatidas na hora da compra.   Aves, não comprávamos lá, porque a loja que hoje é uma hamburgueria na Gávea, naquela época  vendia aves e ovos. As galinhas vinham vivas para casa.  Mas mamãe não sabia matar.  Vovó sim, mas não tinha gosto em fazê-lo.  Cabia sempre à empregada matar a galinha.  Aliás, estava entre as perguntas importantes que mamãe fazia na hora de contratar uma cozinheira: “Sabe matar galinha?”  Depenar, era outra tarefa trabalhosa e repugnante.

Voltar para casa era bom.  A esta altura eu já estava cansada. Mas melhor mesmo era o mate que sempre tomávamos, numa padaria de esquina, talvez na entrada do Bairro de Fátima.  Vinha num copinho de papel na forma de chapéu de palhaço invertido, dentro de um recipiente de alumínio também em forma de cone. Gelado, espumante e açucarado.  Era nossa última parada, exaustos e suados púnhamos um maravilhoso ponto final nas manhãs de sábado sem praia.

Já éramos orgânicos naquela época!

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 16 de setembro de 2019





O som mais triste… poesia, Ladyce West

20 05 2019

 

 

 

Lasar Segall- titulo Auto-Retrato Retratando o Cotidino em Vina-Lituânia, óleo sobre placa de papelão, medindo 67cm x 47cmAuto-retrato, Retratando o cotidiano em Vina-Lituânia, s/d

Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1889 – 1957)

óleo sobre papelão, 67 x 47 cm

 

 

O som mais triste…

 

Ladyce West

 

Na indolência de um domingo de verão,

quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,

 

Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,

envolve o corpo e reprime pensamentos,

 

Quando a inércia paralisa insetos,

cala pássaros, esconde peixes,

 

No meio da tarde indiferente,

preguiçosa, frouxa e incandescente,

 

Um solitário acordeon se faz ouvir.

 

É gemido desditoso, lamento sofrido.

Queixume penoso.

 

No ar estagnado do bairro,

por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,

 

por cima do asfalto amolecido das ruas,

mascarando o borbulhar do riacho,

 

vibram notas saudosas, melodias sofridas,

canções de outras eras, de outras terras.

 

Gemidas.

 

A nostalgia se espalha.

Manta transparente, que envolve.

Aderente.

 

Libação sonora, suadouro enlutado,

carpindo na tarde.

 

Canto solitário de imigrante europeu,

Chora a terra, a distância,

a perda do lugar em que nasceu.

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019.





“Chuva de verão”, Ladyce West

8 01 2019

 

 

tropical+storm+-+tiffany+blaiseTempestade Tropical

Tiffany Blaise (Austrália, contemporânea)

óleo e cera sobre papel, 42 x 29 cm

 

 

Chuva de verão

 

Ladyce West

 

Ar denso, turvo,

Grávido de umidade

Pesa na fronte, nos ombros,

no âmago da alma.

 

Afoga os pulmões, martiriza o corpo,

Apoia-se no cenho, escorre da testa,

desliza  nas costas,

brita nas têmporas,

vaza na nuca.

 

A camisa, segunda pele, adere.

Restringe, circunscreve

Movimentos, pensamentos.

O peso do mundo escorado nos ombros.

 

Silêncio.

Céu de chumbo.

Um lágrima grossa cai;

Duas, um choro sofrido

Raivoso, ruidoso, calamitoso.

 

A chuva é cortina fechada.

Estrondosa. Cortante.

Correntes d’água aprisionando

Homens, mulheres, animais,

Andantes.

 

Entorta árvores

Torce fios, destrói muros,

Placas, pavimentos.

Caudalosa torrente, batelada.

 

Os deuses despejam fúria liquida

nas ruas,  casas, praças da cidade.

Montanhas se escondem

Nuvens se iluminam

Raios rompem o céu

Soam trovões enraivecidos.

 

Meia hora. Silêncio.

Tudo volta à norma.

Lavado.  Límpido.  Nítido.

Submerso em água.

 

Mas o suor continua

desliza sobre o corpo.

O calor abafa e sufoca.

É verão sob o trópico de Capricórnio.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019





9 de janeiro e uma saudade

9 01 2018

 

 

 

Regina Antonia Fontenelle ReisRegina Antônia Fontenelle Reis

 

 

Todos os anos no dia nove de janeiro homenageio mentalmente uma de minhas grandes amigas que se foi, muito antes do tempo. Regina Antônia Fontenelle Reis não foi uma amiga de infância, mas quase.  Eu a conheci por volta dos meus 16 anos.  Ela era um pouquinho mais velha, mas não muito.  Namorou e casou com meu primo irmão, quase irmão mais velho, que me acompanhava nas festas, na praia, no cinema, na vida. Tínhamos muito em comum dentro da familiaridade de uma vida inteira de férias, brincadeiras, carnavais, passeios.   Morávamos no mesmo bairro e ele e sua irmã se aproximavam de mim em idade.   Dizer que a primeira vez que vi Regina foi como participante de uma gincana, na qual competiam alunos da PUC-Rio, pode dar a ideia do crescimento de uma amizade superficial.  Mas, a partir deste dia, passamos a nos ver quase todos os fins de semana, pela meia dúzia de anos que se seguiram até minha ida para fora do Brasil, onde fiquei décadas.  Mas todas as vezes que vinha ao Brasil, podia não ver todas as pessoas que conhecia, mas certamente me encontrava com Regina algumas vezes durante minha estadia.

Namorados a tiracolo Regina e eu fomos nos conhecendo e compreendendo naqueles anos iniciais.  Ela foi uma das pessoas mais criativas que conheci.  Formada em jornalismo teve uma breve carreira no jornal O Globo, até engravidar de sua primeira filha, minha afilhada.  Depois dedicou-se à maternidade até descobrir o teatro.  Era dramaturga.  Escreveu peças infantis e para adultos. Tocava piano.  Escreveu peças infantis com música e letra de sua autoria. Regina era também uma sonhadora.  Não havia um centímetro de praticidade em seu mundo e decidia fazer ou não alguma coisa, respondendo simplesmente às suas sensibilidades.  Se havia uma maneira prática e direta de resolver algo, você podia apostar que ela não iria optar por esta solução.  Era mística, também, quando adolescente pensou em ser freira.  E quando mencionava isso eu a imaginava como Santa Teresa em êxtase de Bernini.  Viajou por diversas religiões africanas e voltou ao cristianismo.  Pelo menos na última vez que a vi.  Dedicava-se de corpo e alma aquilo em que acreditava, apesar dos sacrifícios exigidos dela.  Em inglês há uma palavra cuja tradução não reflete bem seu total significado.  Whimsical.  Regina era whimsical: extravagante no pensar e no amar; mutável no dia a dia.  Ela fluía de um assunto ao outro. Era um tanto inconstante… uma borboleta perpetuamente à procura do essencial para sua alma, indo de flor em flor, de paixão em paixão. Entregando-se.  E também fazendo felizes aqueles que a amaram justamente por essas qualidades nem sempre bem compreendidas. Regina era uma força de amor.  Amou seus filhos, ainda que muitas vezes de maneira caprichosa, quase excêntrica. Adorava estar grávida,  gostava daqueles nove meses de espera.  Uma vez me confessou que, por ela, estaria grávida a vida inteira, pois seu corpo se sentia completo desta maneira.  Não é por acaso que teve quatro filhos, maravilhosos.  E hoje, muitos anos depois de sua morte, quando os vejo, cada um  me traz dela uma pontinha, um relampejo dessa amiga, pequenos detalhes que eles não sabem mostram sua presença entre nós.

Não sei exatamente como chegamos a ser tão boas amigas, porque éramos muito diferentes.  Mas sempre soubemos aceitar na outra aquilo que nos diferenciava. Nunca tentamos mudar a outra.  Apenas nos aceitamos.  Sinto sua falta até hoje e neste dia que seria seu aniversário finalmente ponho por escrito a minha saudade.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2018.




A máscara, de Ladyce West

26 02 2017

 

 

lucia-helena-redig-de-campos-brasil-1945

Mulher com máscara, 2005

Lucia Helena Redig de Campos (Brasil, 1945)

óleo sobre tela

 

 

 

A máscara

 

Ladyce West

 

 

Máscara?

Que máscara?

Somos todos mascarados.

Cada qual com seu disfarce

Na passarela, no palco,

Na escola, na corte,

No hospital, no bar da esquina,

Na reunião em família,

Na lágrima sem dor.

No Bom Dia! Na Boa Noite!

No “foi bom para você”?

No obrigado ingrato.

Até os super-herois precisam de suas máscaras.

Não me venha com essa de tirar a minha máscara.

Você me reconheceria?

E ao espelho de manhã?

Fazendo a barba.

Tem certeza de que sabe quem está do outro lado?

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, dezembro, 2016.




Das perdas do divórcio…

21 06 2015

 

 

divorcio, willliam hogarthDivórcio

William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)

Gravura

 

 

Das perdas do divórcio…

Pouco se fala nas perdas emocionais do divórcio, fora o casal e seus filhos, se esses existirem. O vazio, a perda vai muito além do parceiro ou parceira. Com o divórcio perde-se também a família maior: os sogros, cunhados, sobrinhos, tios, todos que, um dia, foram considerados membros de uma unidade, de um universo familiar. Esses podem desaparecer de um momento para o outro como se engolidos por um buraco negro. Lá se afunda, no meio do nada, uma constelação de contatos, de alianças, de pontos de amizade e camaradagem.

Ontem soube que a mãe de meu primeiro marido, minha sogra, faleceu. Ela desocupou a posição oficial de minha sogra há muito anos, mas o coração é grande e em uma parte dele ela sempre reinou. Diferente do estereótipo cultural, eu gostava dela. Tomei-a como exemplo não só durante os nove anos do casamento, mas também nos anos que se seguiram, muito tempo depois, quando eu já fazia parte de outro círculo familiar, resultado de um casamento mais feliz.

Conheci minha primeira sogra, quando eu tinha dezesseis anos e namorava seu filho mais velho. Quatro anos depois, quando nos casamos, ela soube participar dos preparativos e ao mesmo tempo se distanciar quando necessário.

Depois de casada encontrei nela fonte de muitos conselhos práticos, de orientação da cozinha às costuras. Aprendi também o valor dos pequenos rituais; de viver sem dar extrema importância ao que os outros pensam; assim como o dar-se permissão por se ter um gosto diferente, um ponto de vista único. Minha sogra tinha um excelente senso de humor; era independente, determinada e ocupava-se nas ações filantrópicas com a mesma energia que dedicava à família. Era justa. Nos quase quatorze anos de convivência, tive momentos de grande aproximação, principalmente nos meses em que morei com ela, enquanto meu marido, fora do país, começava seu curso de doutoramento e eu, aqui, terminava o ano de estudos no Rio de Janeiro. Ela sempre me tratou bem com carinho, atenção, respeito, camaradagem e cumplicidade. Por uma questão de afinidade, ela se tornou, de fato, membro do meu cosmos familiar.

O divórcio, fora do Brasil, de um casal sem filhos, trouxe um abismo sem fundo nesse relacionamento. Os filhos trazem com eles a obrigação de sempre se estar em contato com a família que era. No meu caso isso não foi necessário. Novos casamentos dos dois lados solidificaram a ausência. Ela, meu sogro, meus cunhados desapareceram. Levaram com eles parte das memórias da minha adolescência e todos os meus vinte anos. Minhas reflexões sobre aqueles quatorze anos estão indubitavelmente marcadas por essa família, em parte porque desde cedo me adaptei, por gosto e inclinação, a uma variedade de atividades que nada tinham a ver com a minha família natural, mas que fizeram parte do meu dia a dia como membro desse clã. Perdi, assim como muitas outras pessoas em um divórcio, um bocado das referências pessoais. No meu caso da adolescência até ao adulto maduro.

O vácuo permaneceu como um ponto fraco e dolorido, até a minha volta ao Rio de Janeiro. Um dia, por coincidência, em uma livraria de Copacabana (minha sogra gostava de ler), ouvi a mocinha da caixa tomar o nome da senhora que estava à minha frente na fila. Era ela, minha primeira sogra. Chamei-a, nos reconhecemos e nos abraçamos. Lágrimas e sorrisos se misturaram, as duas se emocionaram. Muitos anos haviam se passado. Mas tanto foi dito naquele abraço! O meu foi repleto de saudades e de carinho. O encontro não durou muito tempo, o bastante para sabermos que ambas haviam sentido falta uma da outra e que ocasionalmente ponderávamos sobre a outra. Honramos nosso passado em comum. Trocamos pequenas informações e alguns telefonemas depois desse dia, nada mais do que meia dúzia, para desejar um Feliz Ano Novo ou Feliz Aniversário. Mas daquela tarde em Copacabana cheguei em casa feliz.  Era disso que eu precisava: nosso encontro finalmente fechou aquele ciclo da vida do qual participamos juntas. Tivemos a oportunidade do adeus. Não foi uma vida, nem tampouco uma semana. Quatorze anos contam, principalmente para uma adolescente à procura de modelos de vida e de comportamento que melhor expressassem seu íntimo. Minha primeira sogra foi importante nessa busca. Por isso mesmo sei que fui privilegiada em conhecê-la. Que a paz esteja com a senhora, D. Léa.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2015.




A chuva fez azul nosso horizonte, poesia de Ladyce West

16 11 2010

Paisagem, s/d

Georgina de Albuquerque ( Taubaté, SP 1885 — RJ,RJ, 1962)

Aquarela sobre papel,  34 x 44 cm

Coleção Particular

A chuva fez azul nosso horizonte

 

Ladyce West

 —

A chuva fez azul nosso horizonte.

Pintou no vale a cor da esperança.

Encheu de anêmonas, miosótis, margaridas,

Do campo aberto, ao sopé do monte.

Brotaram pintassilgos e abelhas.

No rio, a cada curva um jatobá.

No cheiro do capim ao sol ardente

Paravam insetos, lagartos e até o ar.

Na sombra escura o gado se perfila,

Debaixo de mangueiras generosas,

E espera em silêncio sonolento

O alívio do calor.  Passam-se as horas.

Ao sinal distante da capela na aldeia,

Quando o sol se apaga atrás da serra,

As nuvens, uma a uma,  se enfileiram.

Primeiro, brancas, alegres, arredondadas,

Depois cinzas, sem forma e pesadas.

Acomodam-se, ao sul,  entre montanhas.

E qual ninhada de cachorros desmamada,

Que luta, reclama e se aquieta ’inda faminta

Com roncos e rugidos passam a noite.

O vento as nina… Mas ao brilho de relâmpago

Fugaz,  recomeça o murmúrio no horizonte.

Qual relógio mecânico e em tempo,

As nuvens acordam o sol sem cerimônia,

E em prantos limpam bem o firmamento,

Para de novo azularem o horizonte.

 —

28/8/06

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro








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