O navio cheio de bananas, poesia de Lêdo Ivo

20 10 2016

 

caravela3[8]

 

 

O navio cheio de bananas

 

Lêdo Ivo

 

 

Paisagem; maresia

azul e bananais!

No porão do navio,

o ouro dos litorais.

 

Fruto de um paraíso

de mormaço, num alvo

formigueiro de sal

entre negros trapiches.

 

O horizonte derrama

cal entre as bananeiras.

São roupas de operários,

Cantos de lavadeiras.

 

Como as bananas verdes

à luz do carbureto

logo ficam maduras

quaradas pelo sol

 

de uma falsa estação,

assim este cargueiro

esplende, no terral,

seu cacheado tesouro.

 

E o panorama é de ouro.

E o dia sabe a sal.

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Soneto à Bomba Atômica, de Lêdo Ivo

8 08 2016

 

 

atomic-garden-ii-carissa-rose-stevensJardim Atômico II, 2010

Carissa Rose Stevens (EUA,contemporânea)

aquarela e marcador permanente sharpie

 

 

Soneto à Bomba Atômica

Lêdo Ivo

 

 

O mundo em peso cai-me sobre os ombros

e em seguida se evola, sol de urânio.

Arquipélago branco, sai da terra

a rosa nuclear da anunciação.

 

Fossem meus braços límpidas colunas

e eu deteria o mundo enfurecido

por esta luz atômica que sobe

ao convívio dos céus despedaçados.

 

Ó corola de átomos, leitosa

flor da quinta estação da terra em pânico

que se exibe à feição do Apocalipse,

 

sê para nós igual à rosa branca

da paz, sempre banhada pelo orvalho

monumental das lágrimas dos homens!

 

 

Em: Central poética, Lêdo Ivo,  Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 98-9.

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Soneto de abril, Lêdo Ivo

22 04 2015

 

Konstantin Makovsky (Russian, 1839-1915) - Portrait of Julia Makovsky (The Artist's Wife), 1881Retrato de Julia Makovsky, 1881

(Esposa do pintor)

Konstantin Makovsky (Rússia, 1839-1915)

óleo sobre tela

 

 

Soneto de abril

 

Lêdo Ivo

 

 

Agora que é abril, e o mar se ausenta,

secando-se em si mesmo como um pranto,

vejo que o amor que te dedico aumenta

seguindo a trilha de meu próprio espanto.

 

Em mim, o teu espírito apresenta

todas as sugestões de um doce encanto

que em minha fonte não se dessedenta

por não ser fonte d’água, mas do canto.

 

Agora que é abril, e vão morrer

as formosas canções dos outros meses,

assim te quero, mesmo que te escondas:

 

amar-te uma só vez todas as vezes

em que sou carne e gesto, e fenecer

como uma voz chamada pelas ondas.

 

Em: Central poética, Lêdo Ivo,  Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 47.





O navio cheio de bananas, poesia de Ledo Ivo

14 05 2013

Bananal, 2003

João Werner (Brasil, 1962)

óleo sobre tela, 60×80 cm

www.joaowerner.com.br


O navio cheio de bananas

Ledo Ivo

Paisagem, maresia

azul e bananais!

No porão do navio,

o ouro dos litorais.

Fruto de um paraíso

de mormaço, num alvo

formigueiro de sal

entre negros trapiches.

O horizonte derrama

cal entre as bananeiras.

São roupas de operários,

cantos de lavadeiras.

Como as bananas verdes

à luz do cabureto

logo ficam maduras

quaradas pelo sol

de uma falsa estação,

assim este cargueiro

esplende, no terral,

seu cacheado tesouro.

E o panorama é de ouro

E o dia sabe a sal.

Em: Os melhores poemas de Ledo Ivo, seleção do autor, Rio de Janeiro, Global Editora: 1983, 1ª edição.





Chuva sobre a cidade, poema de Lêdo Ivo

23 12 2012

chuva um dia deUm dia de chuva, ilustração: ignoro a autoria.

A chuva sobre a cidade

Lêdo Ivo

Chove sobre a cidade

e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro

e procura abater as palmeiras que do fim da tarde

queriam apenas — graça plena — as estrelas.

Os trovões reboam, espantando os pássaros

que vieram refugiar-se no meu quarto.

Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que passam

— são outros rostos, minha irmã, são as faces

revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,

a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.

As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos

e nítidos os barcos de papel

que navegam buscando os reinos fantásticos, os inaccessíveis!

A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia

para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,

um himeneu, uma écloga deploratória.

Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas

poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os grandes temas poéticos.

O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina

a ser invariável sem se repetir.

Em: Central Poética: poemas escolhidos, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Aguilar:1976

Em homenagem ao poeta Lêdo Ivo, falecido hoje, aos 88 anos.





Quadrinha sobre O DIA — Ledo Ivo

6 04 2009

manha-na-terra

Manhã na Terra.

 

 

 

 

 

Ó grande noite sonora

caída sobre o Ocidente,

o dia que dissipaste

recolhe-o alguém no Oriente.

 

 

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

Ser criança

Gato e Rato

Passarinhos

Cuidar dos animais

 

 








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