Convite, poema de Alfredo de Souza

12 05 2018

 

 

 

joseph_caraud_a2889_the_love_birdsDois pombinhos, 1897

Joseph Caraud (França, 1821-1905)

óleo sobre tela, 60 x 45 cm

 

 

 

Convite

 

Alfredo de Souza

 

Vem, sem demora, ver estes pombinhos

Que se beijam tão ternos, venturosos,

Deixando muito tempo os seus biquinhos

Colados em transportes amorosos;

 

Vem — mirar como fazem seus carinhos;

Ora arrulando em cantos maviosos,

Ora as asas batendo para os ninhos

— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.

 

E já que tu sentiste quanto é bela

Essa cena que vimos, dando ensejo

De imitá-la por dentro da janela…

 

Resta apenas dizer-te, ó minha flor,

Que colemos os lábios, num só beijo,

Fingindo de pombinhos, meu amor!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.

 

Alfredo de Souza  (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.

Bibliografia

Aurora, sem data

 





Canção da Primavera, poesia de Mário Quintana

2 10 2016

 

 

primavera-menina-com-boneca-marie-cramerPrimavera, ilustração de Marie Cramer.

 

 

Canção da Primavera

 

Mário Quintana

 

 

Primavera cruza o rio,

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,

Ficou girando, girando,

Em torno do catavento

Dançamos todos em bando.

 

Dancemos todos, dancemos,

Amadas, mortos, Amigos,

Dancemos todos até

Não mais saber o motivo….

Até que as paineiras tenham

Por sobre os muros florido!

 

 

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1961, pp: 121-2.





Domingo, poesia de Olavo Bilac

31 01 2016

 

 

BUSTAMANTE SÁ, Rubens Forte (1907 - 1988) - Figuras no cotidiano, o.s.t. - 46 x 56 cm.Figuras no cotidiano

Rubens Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)

óleo sobre tela, 46 x 56 cm

 

 

Domingo

 

Olavo Bilac

 

 

Domingo… Os sinos repicam

Na igreja, constantemente,

E todas as ruas ficam

Alegres, cheias de gente.

 

Todo um dia de ventura…

Como o domingo seduz!

O homem, cansado, procura

Ter paz, ter ar, e ter luz.

 

Paradas e sem trabalho,

Dormem na roça as enxadas;

Dormem a bigorna e o malho

Nas oficinas fechadas.

 

Também, meninos cansados,

Os vossos livro deixai!

Deixai lições e ditados!

Dormi! Sorride! Cantai!

 

Fechem-se as aulas! E o bando

Ruidoso das criancinhas

Livre se espalhe, voando,

Como um bando de andorinhas!

 

Deus, quando o mundo fazia,

Sete dias trabalhou,

E ao fim do sétimo dia

Do trabalho descansou…

 

 

Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, 17 ª edição, pp- 47-8.





As virtudes, poesia de Alphonsus de Guimaraens

7 08 2015

 

3 girlsTrês meninas, autoria desconhecida.

 

As virtudes

 

Alphonsus de Guimaraens

 

 

São três irmãs, são três flores,

feitas de raios de luz.

Plantou-as, entre fulgores,

a mão santa de Jesus.

 

Uma é a Fé, outra, a Esperança,

vem a Caridade após…

Feliz de quem as alcança!

Vivem sempre junto a nós.

 

São belas como princesas.

A Caridade  é talvez,

neste mundo de incertezas,

a mais formosa das três.

 

 

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro: 1961, pp: 62-3





“Demonstração Matemática”, texto de Teodoro de Morais

22 03 2015
Jantar em famíliaAutoria da ilustração, desconhecida.

 

Demonstração Matemática

 

Nas férias, ao chegar do colégio, onde estivera interno todo o ano, o Eduardo andava à espreita de uma oportunidade para mostrar aos pais quanta cousa aprendera. Ao jantar, chegou-lhe, enfim, o ensejo. Papai e mamãe iam ficar deslumbrados com a sua sapiência.

— “Papai, aí, nesse prato a sua frente, quantos croquetes pensa o Sr. ver? Dois não é assim?

— Nem mais nem menos: isso mesmo, respondeu o pai.

— Pois eu vou provar ao Sr. que são três. Aqui está um; aqui estão dois. 2 + 1 são 3. Logo… há três croquetes no prato.

— Mas onde estava eu com os olhos?! Perfeitamente são três croquetes. Vejo-os agora. Com que clareza você demonstra! Que grande matemático você vai dar! Você merece uma recompensa. Vamos repartir os croquetes. Quinoca ficará com o primeiro, porque é a mamãe; eu ficarei com o segundo, porque sou o papai; e você, Eduardo, ficará com o terceiro inteirinho, porque foi você quem o achou.

 

[Exemplo de narrativa com conversação]

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 227.

 

Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.

Obras:

A leitura analítica, 1909

Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911

Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909

Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910

Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924

Sei ler: leituras intermediárias, 1928

Sei ler: primeiro livro, 1928

Sei ler: segundo livro , 1930

 





O califa e o ancião, texto de Latino Coelho

21 10 2014

 

 

an_arab_horseman-large 13Um cavaleiro árabe, 1865

Gustave Boulanger (França, 1824-1888)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

O Califa e o Ancião

Latino Coelho

 

Ia o califa Harum-al-Raschid por um campo, aonde andava a folgar à caça, quando sucedeu de passar por pé dum homem já muito velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então disse o califa aos do seu séquito:
— “Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contasse como certo vir a gozar dos frutos desta planta.” Indo-se então o califa em direitura ao velho, perguntou-lhe quantos anos tinha. “– Para cima de oitenta”, respondeu o velho; “mas, Deus seja louvado, sinto-me ainda tão robusto e saudável, como se tivesse apenas trinta.” “– Sendo assim”, redarguiu o califa, quanto pensas tu que ainda hás de viver, pois que nessa idade já tão adiantada estás a plantar uma árvore que por natureza só daqui a largos anos dará fruto?” “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando, sem inquirir se serei eu ou outros atrás de mim quem lhe colherá os frutos. Assim como nossos pais trabalharam por nos legar as árvores que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, com que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e a enriquecer-se. E, se hoje nos sustentamos dos frutos do seu trabalho e se foram nossos pais tão cuidadosos do futuro, como havemos de retribuir em desamor aos nossos filhos o que de nossos pais recebemos em carinho e previdência ? Assim, semeia o pai para que o filho possa vir a colher.”

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 201

 

Texto usado hoje em alguns colégios no 6º ano do ensino fundamental.





Caboclo Espirituoso, história contada em versos

1 09 2014

 

 

péChico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.

 

Caboclo Espirituoso

[de uma história contada por meus avós]

 

 

Walter Nieble de Freitas

 

 

“Nhô” Vicente, certo dia,

Montando o lindo alazão,

Foi fazer uma visita

Ao compadre Sebastião.

 

Cavalgou horas e horas,

Chegou ao entardecer:

Sua barriga roncava

De vontade de comer!

 

Ao vê-lo abrir a porteira,

“Nhô” Sebastião diz contente:

— Até que um dia compadre,

Você se lembrou da gente!

 

Apeie, vamos chegar.

Não repare na palhoça.

Como é que vai a comadre?

Vá entrando que a casa é nossa!

 

Tenho muito o que contar,

Sente-se aí no banquinho.

Você sabe que morreu

A mulher do Vadozinho?…

 

Também, a sogra do Zeca,

A jararaca mordeu:

A velha não sentiu nada

E a pobre cobra morreu!…

 

Sem perceber que a visita,

De fome quase morria,

“Nhô” Sebastião, na conversa,

Longas horas consumia…

 

“Nhô” Vicente paciencioso,

Tudo ouvia sem falar;

Porém, a sua barriga

Não parava de roncar!

 

Notando que seu amigo

Parecia nada ouvir,

Sentiu, o dono da casa,

Que o melhor era dormir.

 

Nesta altura, perguntou-lhe

Numa rural cortesia:

— O compadre lava os pés?

Vou mandar vir a bacia.

 

Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,

— Isso não! de modo algum!

Acho muito perigoso

Lavar os pés em jejum.

 

 

Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.





O Príncipe, conto de Wilson W. Rodrigues, uso escolar

27 08 2014

 

WTBendaIlustração de W.T. Benda para capa da revista LIFE de agosto de 1923.

 

 

O Príncipe

 

Wilson W. Rodrigues

 

 

As feições do príncipe eram desconhecidas.

Jamais alguém vira o seu rosto.

Em sua corte trabalhavam os artesãos mais hábeis, os melhores desenhistas, as costureiras mais famosas.

A observação era invariável:

— É preciso que essa máscara fique mais bela; do contrário, o Príncipe recusará.

As máscaras deviam ser sempre mais belas, pois, desde menino, o Príncipe usava todos os dias, uma nova máscara.

Dir-se-ia que elas o fascinavam, pois sempre parecia feliz.

Um dia, quando tomava parte numa caçada, o Príncipe afastou-se de sua gente e se perdeu.

Pela noite inteira, ninguém o encontrou.

De manhã, quando cruzava o vale, o Príncipe avistou uma donzela que voltava da fonte, bilha ao ombro.

Estava sedento, pediu:

— Posso beber da tua bilha?

A jovem reconheceu o Príncipe Mascarado, e com galanteria ofereceu:

Só se beberes na concha das minhas mãos.

O Príncipe desmontou. Em terra, curvou-se; nesse instante, ela, num gesto tão rápido quanto impensado, arrancou-lhe a máscara, e deu um grito de espanto.

— Sou tão feio assim?

— Não. Tu és mais belo que todas as tuas máscaras.

 *****

Em: Contos do Rei do Sol, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro [Estado da Guanabara], Editora Torre: s/d, pp: 21-26

 





Anedota, “O Sonâmbulo”, texto de Humberto de Campos

6 06 2014

 

 

soneca 14Ilustração Walt Disney, quadrinho de uma revista Zé Carioca.

 

 

O Sonâmbulo

 

Humberto de Campos

 

Certo indivíduo, conhecido como vivedor, aboletou-se, no caminho de sua vida, no solar dum homem bonacheirão e abastado, que lhe abrira as portas para um descanso ligeiro. Nos primeiros dias, o dono suportou galhardamente o hóspede, oferecendo-lhe o melhor trato, fornecendo-lhe a melhor cama, o melhor vinho, os melhores charutos. Passada, porém, a primeira quinzena, começou a pensar em um meio, que não fosse grosseiro, de livrar-se do importuno, e achou-o. Tinham os dois acabado de almoçar e repousavam, lendo jornais e fumando “havanas”, à sombra das árvores. De repente, o hospedeiro recosta-se pesadamente na cadeira, cerra os olhos, deixa cair a folha e o charuto, simulando um sono profundo. E, como em sonho, principia a falar: “Vejam só: que maçada! Esse cavalheiro vem, aloja-se em minha casa, come, bebe, fuma, diverte-se, e nada de entender que sua presença já me está sendo desagradável! Será possível que ele não compreenda isso?” – E, soltando um suspiro, pulou da cadeira, esfregando os olhos: “Que diabo! É eu dormir depois do almoço, vêm-me logo os pesadelos. E que sonho mau tive eu! Parece até que falei alto, não?” – E o outro, que de cenho cerrado, prestava atenção a tudo: “É exato; você esteve por aí falando; e eu, como vi que se tratava de cousas de sonho, procurei não ouvir para não ser indiscreto. As palavras dos homens só têm valor, mesmo, quando eles as proferem acordados”. – E o hóspede continuou na casa por mais três anos e quatro meses, isto é, até a transferência da propriedade, comendo do melhor prato, dormindo na melhor cama, bebendo do melhor vinho, fumando os melhores charutos.

 

[Exemplo de narrativa humorística]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 215





Anedota do “Tiro ao Alvo” de Teodoro de Morais

30 05 2014

 

 

 

Bogdanov-Belsky (1868-1945).Belsky, Nikolai Petrov (1868-1945) In the villageschoolNa escola da aldeia

Nikolai Bogdanov-Belsky (Rússia, 1868-1945)

óleo sobre tela

 

Tiro ao alvo

 

Teodoro de Morais

 

Dois soldados faziam exercícios de tiro e não conseguiam acertar no alvo. Um oficial que vinha passando, parou e ficou a observá-los. Vendo que as balas se perdiam, aproximou-se dos recrutas e os admoestou:

— “Que falta de jeito a de vocês! Como acertar sem alvejar? Apontem primeiro… Vocês precisam aprender a dormir na pontaria. Sem isso, babau! é bala perdida… Vejam, é assim”.

O oficial toma um dos fuzis e atira. A bala passa à direita do alvo. O instrutor oficioso não se desconcerta. Volta-se para o soldado e diz:

–“Viu, seu bicho? Era assim que você estava atirando”.

Aponta a segunda vez, dispara a arma, e a bala recalcitrante passa à esquerda do alvo. O oficial não se dá por achado nem perde o entono.  Volta-se para o segundo recruta e diz:

–“Viu você também seu desajeitado? Era assim que você estava atirando”.

Enfim, uma terceira bala atinge o alvo. Diz então o oficial aos dois recrutas boquiabertos de admiração:

–“Aí está como eu atiro. Aprendam. Não é difícil”.

 

***

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 260

 

Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.

Obras:

A leitura analítica, 1909

Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911

Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909

Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910

Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924

Sei ler: leituras intermediárias, 1928

Sei ler: primeiro livro, 1928

Sei ler: segundo livro , 1930








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