Resenha: “O romance inacabado de Sofia Stern”, de Ronaldo Wrobel

10 06 2016

 

 

Noite em Hamburgo,Hamburgo à noite

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Acabo de ler o novo livro de Ronaldo Wrobel, O romance inacabado de Sofia Stern. Foi grande o prazer de reconhecer aqui o escritor que me encantara com Traduzindo Hannah há cinco anos. É reconfortante constatar que um autor de que gostamos inicialmente continua a produzir obras da qualidade e do interesse que percebemos anteriormente.

Sofia Stern é obra bem mais complexa e dinâmica. É narrada como um thriller.  Ao final de cada capítulo uma questão, uma curiosa mudança de rumo, uma observação intrigante nos leva ao capítulo seguinte com ansiedade.  Trata-se de uma aventura, iniciada no Brasil, por um brasileiro, morador de Copacabana que, esperançoso de ser recipiente de uma fortuna de milhões de euros, viaja  com a avó nonagenária, imigrante de guerra, de volta à Alemanha, a fim de apresentar documentação para que ela seja considerada herdeira legal da cobiçada fortuna. No meio do caminho, conturbado e repleto de reviravoltas, como Ronaldo Wrobel já mostrou ser seu estilo narrativo, aprendemos muito sobre ele, ela, a família e a Alemanha de Hitler.

 

sofia

 

A Segunda Guerra Mundial é o tema mais importante e modelador das artes do século passado. Direta ou indiretamente ela molda até hoje a produção literária e artística mundial. Não haverá ficção literária, em número ou natureza, que possa transmitir a nós, gerações pós-apocalipse, o que foi uma guerra em que morreram quase sessenta milhões de pessoas, um pouco mais de 3% população mundial em 1940.  Ronaldo Wrobel se encarrega, junto a outros, de nos lembrar disso. Precisamos saber para não esquecer, e jamais repeti-la.  Mas talvez por estar duas gerações removidas da hecatombe, ele toma a liberdade de encará-la por ângulo diferente.  Em seus livros, Hannah e Sofia Stern, Wrobel  se concentra na vida dos que sobreviveram. Seu foco está nas histórias dos que tiveram vidas modificadas como consequência da guerra e nas estratégias que usaram para tornar suas vidas relevantes em outras circunstâncias. É o sobreviver que o atrai, que o fascina. Com fino humor, afiada observação do comportamento humano e muita pesquisa Ronaldo Wrobel tem feito, aos poucos, uma pequena revolução literária no país, abrindo a porta outrora fechada do bolorento recinto onde escritores brasileiros se abrigam. Ventilando o ambiente, ele se separa dos autores dedicados a publicações autorreferenciais e herméticas, escravas de modismos intelectuais, acorrentadas por programas político-sociais que passam por literatura.

Aqui não.  Temos um texto ágil, inteligente, informativo, divertido que dá prazer de ser degustado.  Até pouco tempo essas eram características inexistentes nas prateleiras das estantes nativas. A prova é que nossos leitores se debruçam mais sobre obras em tradução, concebidas no exterior, do que sobre as publicações nacionais que raramente consideram a existência de um público leitor inteligente, curioso e ávido por uma boa história.  Ronaldo Wrobel nos dá exatamente o que faltava no horizonte literário brasileiro.

 

Ronaldo-Wrobel1Ronaldo Wrobel

 

A produção literária de Wrobel o coloca num contexto maior do que a Segunda Guerra Mundial. Há, subjacente nos dois livros mais recentes do autor, temática sutil e relevante: a questão da identidade. Esse é um tópico explorado nos meios literários, amiúde, a partir da segunda metade do século XIX, quando a fome e a pobreza na Europa levaram milhares de imigrantes italianos, irlandeses, alemães e outros às terras do Novo Mundo. Mais tarde depois de cada uma das grandes guerras, um maior número de pessoas deslocadas habita novas terras, refazendo vidas. A identidade que desenvolvem é um tema de relevância que precisa ser aventado, hoje, quando multidões atravessam fronteiras impacientes para forjar nova vida em melhores circunstâncias.

Imediatamente após a imigração segue-se a questão de identidade. Todos os imigrantes passam por essa experiência e Wrobel não é alheio a isso. Escritores, ensaístas, como André Aciman e Amin Maalouf entre outros dedicaram-se a essa complexa questão. Não se trata só da língua, do país ou da cultura que se deixou para trás cair no esquecimento. Hábitos de aldeias que não mais se sustentam em novas realidades deixam um tremendo vazio na alma. Mas há, sobretudo, a necessidade de pertencimento ao país que abraçou o imigrante.  O que o imigrante faz para se integrar ao novo mundo? E quais são, afinal, os sacrifícios para que os sonhos num novo horizonte se construam?  Sem necessariamente abordar essa questão diretamente, Ronaldo Wrobel descreve para o leitor as diversas artimanhas que envolvem a nova vida. Lição importante para os dias de hoje.

Tema riquíssimo, o jogo de identidades desafia a compreensão de quem somos e de quem projetamos ser.  Já no início do século XX Pirandello questionava a percepção da realidade em uma de suas mais conhecidas peças teatrais, Assim é se lhe parece (1917). Mas hoje, cidadãos de uma cultura global nos encontramos de hora em hora nos definindo e redefinindo, como fazem os astutos personagens de Hannah e de Sofia Stern. A cada avatar um novo nome, uma nova vida. Como disse Mia Couto: “A verdade é que nós somos sempre não uma mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa identidade.” [E se Obama fosse africano?: O planeta das peúgas rotas]. Assim segue O romance inacabado de Sofia Stern. Com uma variante que nos faz pensar ainda uma vez na questão de identidade, Ronaldo Wrobel se insere na narrativa ficcional. Ele é ao mesmo tempo personagem e narrador.  Provavelmente só para mostrar que o jogo de identidades é universal. Este é um bom e sedutor livro que nos envia mais questões do que as levantadas aqui. Além de entretenimento de primeira ordem, o livro nos leva a considerar temas atuais sob uma nova perspectiva.  Ronaldo Wrobel está de parabéns.

Recomendo a leitura sem quaisquer restrições.

 

 





Resenha: “Tirza” de Arnon Grunberg

1 10 2015

 

Leonid Afremov, The Gateway to Amsterdam, 2000s, oil on canvas, [no dimensions], Private CollectionPorta de entrada para Amsterdã, 2000

Leonid Afremov (Bielorússia/Israel, 1955)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Há muito tempo não leio um autor que demonstra tamanho domínio de seu texto como Arnon Grunberg. Ele brinca com o leitor sem que este o perceba. Ele nos envolve, nos seduz, nos puxa pela mão, mostra o que quer, esconde o que não precisa ser contado. Brinca. Cria. Joga xadrez conosco. Não percebemos a manipulação. Muito pelo contrário, queremos mais. Queremos mais de tudo, e as páginas são lidas com sofreguidão. O que as embala é uma sensação de que algo está para acontecer, algo será revelado a qualquer momento. A tensão é semelhante a de um filme de Alfred Hitchcock. Não se trata de uma história de uma centena de páginas. São 464 páginas em que o autor constrói aos poucos, deliberadamente, detalhes das personalidades envolvidas na narrativa, fazendo-nos íntimos dos membros da família Hofmeester. Ficamos familiarizados principalmente com Jörgen Hofmeester, pai de duas meninas, marido de uma artista plástica que entra e sai de sua vida à vontade, editor de ficção estrangeira de uma casa editorial em Amsterdã, homem em idade próxima à da aposentadoria, que mora num bairro da cidade de fazer inveja aos amigos, que possui uma casa de veraneio, que junta economias e as investe na Suíça, um homem, que tenta, porque tenta, sem colocar quaisquer barreiras, fazer aquilo que é certo e esperado dele. E, no entanto, há uma tensão imensa dentro desse pai de família. Tudo nele é quase obsessivo, mas sob controle. A perfeição é sua meta quer na cozinha, onde aprende a cozinhar quando sua mulher o deixa para “se encontrar”, quer no controle financeiro de sua vida, com a intenção de deixar um patrimônio sólido para as filhas.

 

TIRZA

 

Tirza é o nome da filha caçula de Jörgen Hofmeester, sua filha preferida, aquela que completa 18 anos e está pronta para entrar na universidade. Para comemorar essa passagem decide viajar pela África, e uma festa colocará o ponto final na vida anterior e marcará o início de sua nova aventura. Seu pai prepara a festa com cuidado, fazendo, ele mesmo, os quitutes, arranjando as bebidas. Durante esses preparativos aprendemos sobre a família. Sobre a mãe, as meninas, Ibi, a irmã que já não mora na Holanda e, sobretudo, conhecemos Jörgen. Apesar de um tanto fora da norma, nossa identificação com ele é inevitável. Conhecemos seus desejos, seus desapontamentos. Sua absoluta solidão. Há humor nessa narrativa, muito humor, porque entendemos sua visão do absurdo. Ocasionalmente a vida parece caótica e surreal, mas o humor vem mesmo das situações cotidianas, daquelas pequenas decisões que não dão certo, das expectativas frustradas,de sua inépcia social.

 

 

Arnon+Grunberg+©+RingelGoslinga+2013+-+RV+smallArnon Grunberg

 

Mas, há sempre a sensação de algo oculto. Há uma expectativa subjacente. Uma perturbação que nos deixa alerta. Há a sensação de que algo já aconteceu, mas não sabemos o que, há um ponto cego: incesto? Violência no casamento? O que? É como se tivéssemos sido as rãs numa panela com a água quente e não percebemos que a água ferveu. Esse mistério, essa dúvida só se esclarece nas últimas páginas. E é surpreendente. Um final estarrecedor. Imprevisível. Vale todas as horas dedicadas à leitura.

Este está, para mim, entre os melhores livros lidos neste ano e tem tudo para estar entre os meus favoritos de todos os tempos. É impossível discuti-lo sem revelar mais do que deveria. Mas recomendo sem constrangimento sua leitura para todos os leitores.








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