Bebês bilíngues podem ser precoces em tomar decisões

29 04 2009

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Na revista The Economist da semana passada li um artigo sobre estudos feitos com bebês cujos famílias falam dois idiomas diferentes.  Este assunto sempre me interessa porque passei a maior parte da minha vida em situações bilíngües, conhecendo muitas crianças também bilíngües.  O artigo segue, numa tradução bastante liberal.

 

 

 

 

 

 

Ensinar uma segunda língua a crianças pequenas ainda gera alguma controvérsia entre educadores.   Por um lado diz-se que é muit0 mais fácil adquirir uma segunda língua ainda muito jovem.  Por outro lado, professores de alunos que falam uma língua em casa diferente daquela que falam na escola dizem que estes alunos parecem estar sempre mais devagar no aprendizado do que seu colegas que usam uma única língua. 

 

Um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences no número para maio deste ano, talvez ajude a clarificar o que acontece no cérebro de uma criança que é bilíngüe, ajuda a esclarecer como o pensamento de uma criança bilíngüe pode ser afetado,  e finalmente em que circunstâncias seria uma vantagem ser bilíngüe.  Agnes Kovacs e Jacques Mehler trabalhando no International School for Advanced Studies em Trieste dizem que alguns aspectos do desenvolvimento cognitivo dos bebês criados num lar bilíngüe é acelerado para ajudá-los a decidir com qual das duas línguas eles estão lidando.  

 

A parte de cognição no caso é aquela a que se denomina  “função executiva”.  É o que permite as pessoas de organizarem, planejarem, priorizarem suas atividades, é o que lhes permite de trocar de foco de atenção entre uma coisa e outra.  Ser bilíngüe é uma característica comum em Trieste, que apesar de ser italiana, a cidade está rodeada pela Eslovênia.   Isso foi providencial para permitir aos Dr. Kovacs e Dr. Mehler que observassem 40 crianças num estágio ainda pré-verbal de sete meses de idade, metade delas criadas em uma só língua, enquanto que as outras eram produto de lares bilíngües.  Assim, eles puderam comparar o desenvolvimento de ambos os grupos levando em consideração tarefas que necessitavam de controle da “função executiva”.

 

Primeiro os bebês foram treinados para esperarem pela presença de um boneco numa tela, depois de terem ouvido um grupo de palavras de non-sense, inventadas pelos pesquisadores.  Aí, as palavras e a posição do boneco foram mudados.  Quando isso foi feito, os bebês criados em uma única língua tiveram dificuldades de superar sua resposta já bem treinada, mesmo depois que os pesquisadores deram a eles mais dicas de que coisas haviam mudado.   Os bebês bilíngües, no entanto, acharam muito mais fácil mudar o foco de sua atenção – passando por cima do que haviam aprendido anteriormente e que já não lhes servia mais.  

 

Monitorar as línguas e mantê-las separadas é parte da “função executiva”do cérebro.  Esses estudos, então, sugerem que mesmo antes de uma criança ser capaz de falar, um ambiente bilíngüe parece acelerar o desenvolvimento desta função.   Mas antes de tomarmos uma decisão apressada de educar nossas crianças em duas línguas desde bebês, precisamos levar em consideração alguns detalhes, entre eles, o de que este benefício cognitivo foi demonstrado só entre bebês em lares bilíngües, onde ambas as línguas são faladas rotineiramente.  Os pesquisadores trabalham com a hipótese de que pode ser o fato de ter que lidar com duas línguas no mesmo ambiente que venha a obrigar um maior uso da função executiva.  Não está claro se os mesmo benefícios ocorrem com crianças que aprendem uma língua em casa e outra na escola.

 





Poetas difíceis: um mito, palavras de Teresa Guedes

26 11 2008

 

aulas

Como grande parte dos leitores deste blog são pessoas ligadas ao ensino fundamental e médio, no Brasil, ou são pais, ou adultos interessados em temas educacionais e culturais, hoje transcrevo um trecho sobre o ensino da língua portuguesa através da poesia.  O texto é de Teresa Guedes, que encontrei por acaso na internet e achei bastante relevante para o que este espaço tem aos poucos se tornado: ponto de assistência aqueles que gostariam de ilustrar suas aulas com material além daquele encontrado nos livros didáticos.

 

Teresa Guedes escreveu muitos livros.  Sua preocupação foi por muito tempo reconciliar o ensino da língua com uma apreciação da poesia.   Pelas notas que mais tarde vim a ler publicadas como explanação do livro da autora: Poetas difíceis: um mito, Editorial Caminho: 2002, Lisboa, série Caminho da Educação, n° 10: 2002, [ISBN: 972-21-1508-1] temos uma boa idéia sobre a maneira de ensino advogado por ela.  Copio aqui as informações e os exemplos, pois os achei interessantes, e nos ajudam a perder aquele medo que às vezes temos de sair de um projeto já traçado e conhecido para um rumo diferente, que talvez até possa trazer maiores benefícios.   

 

 

Das obras da autora, que têm subjacente a temática da Poesia, será de referir que esta se diferencia pelo fato de incidir nos receios e rejeições de educadores em relação a poetas específicos, rotulados de inacessíveis para os alunos.

 

      É necessário que os professores deixem de catalogar os poetas e os poemas como «fáceis» ou «difíceis», e reconheçam em vez disso, que há tarefas simples ou complicadas a partir de um poema. Um autor pode apresentar vários poemas que oscilem entre a complexidade e a simplicidade.

 

      Optou-se por uma metodologia que agrupou vários poemas do mesmo autor, para que fossem visíveis esses cambiantes. Recorreu-se, por um lado, a uma simplificação de atividades quando existiam poemas mais densos e, por outro, a uma organização de tarefas mais elaboradas, para poemas mais transparentes. Desvanece-se, assim, a idéia de que há poesia específica para os mais novos.

 

      Raramente os jovens tomam a iniciativa de procurar livros de Poesia. Daí que a escola tenha responsabilidade em proporcionar uma significativa amostragem de poetas. Isto não quer dizer que educadores e alunos tenham de aderir a todos eles incondicionalmente, mas podem sim, através de muitos poetas, refletir sobre si próprios e sobre a singularidade e universalidade da Poesia.

 

 

 

 

 

Maria Teresa Fernandes Costa Guedes (1957- 2007) licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras do Porto; foi professora efetiva do 2º ciclo do ensino básico em escolas públicas de Vila Nova de Gaia, onde vivia, e dedicou-se à dinamização de oficinas de escrita criativa, para docentes e alunos. Desde a sua estréia em livro, publicou três títulos de poesia para jovens (Em Branco, 2002; Real… mente, 2005; e Tu Escolhes, 2007) e diversas obras de incentivo à escrita de intenção literária em contexto educativo. Escrevia, versos, contos, crônicas.





As línguas estão acabando!

20 11 2008

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Construção da Torre de Babel , 1424-25

Mestre do Duque de Bedford, (França, circa 1405-1435)

Iluminura.

 

 

Um artigo recente da revista O Economista, fala com pesar sobre os milhares de línguas humanas em processo de extinção.  Apesar de ser interessante sabermos a maneira como seres humanos pensam e de como desenvolveram maneiras de pensar, parece inevitável que num mundo de comunicações instantâneas algumas línguas deixem de existir.  

 

As projeções são de que a maioria das 7000 línguas do mundo não serão mais faladas até o final deste século; 200 línguas africanas morreram no último século e 300 mais correm sério risco de desaparecerem.  No Sudeste da Ásia 145 línguas estão prestes a desaparecer, entre elas a língua Manchu falada na China, a Hua falada em Botswana, e a Gwich’in falada no Alasca.

 

Parece-me inexorável o desaparecimento destas línguas.  Principalmente quando a comunicação entre povos tornou-se comum e diária.  Num mundo em que pelo simples ligar de um aparelho de televisão uma pessoa é exposta a uma dúzia de línguas, essas, que ouvimos, parecem ser de maior importância para a própria sobrevivência do ser humano; sem se falar nas linguas usadas nas comunicações virtuais.  Este é um desenvolvimento natural.  Se nos lembrarmos bem, outras tantas línguas  já desapareceram através dos milênios tais como a língua Acadiana, Etrusca, Tangut, Chibcha e muitas, muitas outras,  algumas até de que não se tem noção.   

 

Algumas línguas, hoje, mesmo usadas por um grupo significativo de pessoas, estão sendo aos poucos trocadas por línguas que possam trazer maior sucesso econômico e conseqüentemente  melhor nível de sobrevivência para aqueles que as falam.   Assim, aos poucos, a pluralidade lingüística da Rússia está desaparecendo à medida que a juventude descobre ser indispensável o uso do Russo no cotidiano.  O mesmo acontece com habitantes da China e do Tibete que sentem necessidade de trocar suas respectivas línguas natais pelo Mandarim, a língua de franco acesso no território chinês.

 

Assim como há aqueles que querem salvar as espécies de animais em perigo de extinção, há muita gente querendo salvar, preservar se possível, línguas que tem poucos habitantes usando-as como no exemplo citado pela revista O Economista de Peter Austin, um lingüista Australiano.  Ele menciona:  Njerep, uma das 31 línguas em extinção tem no momento só 4 pessoas que a falam e todas acima de 60 anos de idade.   

 

Mas línguas são difíceis de serem preservadas, pois uma língua só faz sentido quando é falada e entendida.  Se não tem mais essa função entre os seres humanos, deixou de ter razão para a sua sobrevivência, porque deixou de produzir  aquilo a que se propõe: comunicação.

 

Este é um aspecto muito diferente dos apresentados pelos animais em extinção, que muitas vezes se acham nestas condições,  porque há muito mais demanda para suas virtudes ou suas qualidades do que esses animais têm em capacidade de reprodução.  Assim me parece ser o caso do marfim dos elefantes, das peles de jacarés, da carne de baleia, da carne do urso polar.  Por outro lado, uma língua não desaparece porque muitos querem falá-la.  Ao contrário, ela desaparece porque já não comporta a realidade em que precisa ser acionada.  

 

Saber lidar com a mudança de uma realidade para outra foi o que fez com que os seres humanos sobrevivessem.  A perda voluntária de uma língua como está acontecendo nas culturas mencionadas faz parte deste processo de sobrevivência humana.  E da seleção natural entre os seres vivos. 

 

 

 

Para ler o artigo da revista O Economista.

 

Mestre do Duque de Bedford: Pintor de iluminuras.  Échamado de Mestre do Duke de Bedford por não se saber seu nome original.  Leva então o nome pela comissão que recebeu de John, Duque de Bedford, entre os anos de 1422 e 1435.  Quando a serviço do duque deve ter recebido o título de Assistente Mestre do Duque de Bedford, por causa da importância das obras a ele requisitadas.  Seu estilo em iluminuras é identificado pela maneira de modelar o corpo humano, pela restrição cromática de sua palheta e pelo pouquíssimo uso da folha de ouro como embelezamento.   








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