Leitura de verão do Bill Gates

22 06 2021

O estudante

Jeannette Perreault (Canadá, 1958)

óleo sobre tela

Há um hábito nos Estados Unidos que bem poderíamos copiar.  Copiamos tanta coisa que não se aplica ao Brasil e deixamos de lado algo que é aplicável, interessante, informativo e incentiva a leitura:  todos fazem uma lista do que lerão no verão.  Do pensador importante, ao aluno nos primeiros anos escolares, o hábito de ler no verão, nas férias de verão está inculcado no modo de viver americano.  Por isso mesmo, por volta de final de maio e início de junho não é raro vermos nas revistas sugestões de leituras para o verão, para as férias, para o tempo de lazer.  Muitas figuras da mídia prestam serviço à leitura, publicando os livros que levarão para a praia, montanha, estação de águas.  Hoje republico aqui a lista de Bill Gates. 

SINOPSE

Depois de causar tantos danos ao planeta, será que conseguimos transformar a natureza, mas dessa vez para nos salvar? Em reportagem original, Elizabeth Kolbert, vencedora do Pulitzer pelo alarmante A sexta extinção, entrevista biólogos, engenheiros genéticos e atmosféricos e outros especialistas para tentar responder a essa pergunta e nos mostrar como os cientistas estão remodelando a Terra. Com uma linguagem direta e por vezes bem-humorada, este livro é uma injeção de esperança e informação, e aponta que ainda há tempo de corrigir os problemas que colocam em risco a vida como a conhecemos.

A autora examina com atenção o mundo novo que estamos criando. Ao longo de sua trajetória, Kolbert encontra biólogos tentando preservar o peixe mais raro do mundo, que vive em uma pequena piscina no meio do Mojave; engenheiros transformando a emissão de carbono em pedras na Islândia; pesquisadores australianos desenvolvendo um “supercoral” capaz de sobreviver a temperaturas mais altas; e físicos analisando a possibilidade de atirar fragmentos de diamantes na estratosfera para refrescar a Terra.

Segundo Kolbert, a civilização pode ser vista como um exercício de dez mil anos desafiando a natureza. Em A sexta extinção, ela explorou como nossa capacidade de destruição remodelou o mundo natural. Dessa vez, reflete como muitas formas de intervenção que colocaram a Terra em risco estão cada vez mais sendo vistas como a única esperança para sua salvação. Sob um céu branco é uma investigação surpreendente dos desafios que enfrentamos.

SINOPSE

Um relato íntimo e fascinante da história em formação — feito pelo líder que nos inspirou a acreditar no poder da democracia.

No comovente e aguardado primeiro volume de suas memórias presidenciais, Barack Obama narra, nas próprias palavras, a história de sua odisseia improvável, desde quando era um jovem em busca de sua identidade até se tornar líder da maior democracia do mundo. Com detalhes surpreendentes, ele descreve sua formação política e os momentos marcantes do primeiro mandato de sua presidência histórica — época de turbulências e transformações drásticas.

Obama conduz os leitores através de uma jornada cativante, que inclui suas primeiras aspirações políticas, a vitória crucial nas primárias de Iowa, na qual se demonstrou a força do ativismo popular, e a noite decisiva de 4 de novembro de 2008, quando foi eleito 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro afro-americano a ocupar o cargo mais alto do país.

Ao refletir sobre a presidência, ele faz uma análise singular e cuidadosa do alcance e das limitações do Poder Executivo, além de oferecer pontos de vista surpreendentes sobre a dinâmica da política partidária dos Estados Unidos e da diplomacia internacional. Obama leva os leitores para dentro do Salão Oval e da Sala de Situação da Casa Branca, e também em viagens a Moscou, Cairo e Pequim, entre outros lugares. Acompanhamos de perto seus pensamentos enquanto monta o gabinete, enfrenta uma crise financeira global, avalia a figura de Vladímir Pútin, supera dificuldades que pareciam insuperáveis para aprovar a Lei de Assistência Acessível (Affordable Care Act), bate de frente com generais sobre a estratégia militar dos Estados Unidos no Afeganistão, trata da reforma de Wall Street, reage à devastadora explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon e autoriza a Operação Lança de Netuno, que culmina com a morte de Osama bin Laden.

Uma terra prometida é extraordinariamente pessoal e introspectivo — o relato da aposta de um homem na história, da fé de um líder comunitário posta à prova no palco mundial. Obama fala com sinceridade sobre os obstáculos de concorrer a um cargo eletivo sendo um americano negro, sobre corresponder às expectativas de uma geração inspirada por mensagens de “esperança e mudança” e sobre lidar com os desafios morais das decisões de alto risco. É honesto sobre as forças que se opuseram a ele dentro e fora do país, franco sobre os efeitos da vida na Casa Branca em sua esposa e em suas filhas e audacioso ao confessar suas dúvidas e desilusões. Jamais duvida, porém, de que no grande e incessante experimento americano o progresso é sempre possível.

Brilhantemente escrito e poderoso, este livro demonstra a convicção de Barack Obama de que a democracia não é uma bênção divina, mas algo fundado na empatia e no entendimento comum e construído em conjunto, todos os dias.

SEM TRADUÇÃO NO BRASIL

How could General Electric—perhaps America’s most iconic corporation—suffer such a swift and sudden fall from grace?

This is the definitive history of General Electric’s epic decline, as told by the two Wall Street Journal reporters who covered its fall.

Since its founding in 1892, GE has been more than just a corporation. For generations, it was job security, a solidly safe investment, and an elite business education for top managers.

GE electrified America, powering everything from lightbulbs to turbines, and became fully integrated into the American societal mindset as few companies ever had. And after two decades of leadership under legendary CEO Jack Welch, GE entered the twenty-first century as America’s most valuable corporation. Yet, fewer than two decades later, the GE of old was gone.

Lights Out examines how Welch’s handpicked successor, Jeff Immelt, tried to fix flaws in Welch’s profit machine, while stumbling headlong into mistakes of his own. In the end, GE’s traditional win-at-all-costs driven culture seemed to lose its direction, which ultimately caused the company’s decline on both a personal and organizational scale. Lights Out details how one of America’s all-time great companies has been reduced to a cautionary tale for our times.

SEM TRADUÇÃO NO BRASIL

The Overstory, winner of the 2019 Pulitzer Prize in Fiction, is a sweeping, impassioned work of activism and resistance that is also a stunning evocation of—and paean to—the natural world. From the roots to the crown and back to the seeds, Richard Powers’s twelfth novel unfolds in concentric rings of interlocking fables that range from antebellum New York to the late twentieth-century Timber Wars of the Pacific Northwest and beyond. There is a world alongside ours—vast, slow, interconnected, resourceful, magnificently inventive, and almost invisible to us. This is the story of a handful of people who learn how to see that world and who are drawn up into its unfolding catastrophe.

SINOPSE

Um paciente com câncer terminal consegue recuperar sua vida. Um talentoso médico desafia o HIV. Duas mulheres com doenças autoimunes descobrem que seus corpos se viraram contra elas. Imune entrelaça de maneira única essas histórias com o desejo e os esforços da humanidade para desvendar os mistérios da saúde e da doença, lançando nova luz sobre o sistema imunológico.

O sistema imunológico é a linha essencial de defesa do corpo, um guardião vigilante que enfrenta doenças e cura feridas, mantendo a ordem e o equilíbrio para que possamos continuar vivos. Suas legiões de soldados microscópicos — das células T até as “exterminadoras naturais”” — patrulham nosso corpo, passando informações por uma rede quase instantânea de comunicação. Com o decorrer dos milênios, ele foi aperfeiçoado pela evolução para encarar um número praticamente infinito de ameaças.

Apesar de toda a complexidade impressionante, o sistema imunológico pode ser danificado por cansaço, estresse, toxinas, idade avançada e nutrição pobre — características quase indispensáveis da vida moderna — e até mesmo por excesso de higiene. Paradoxalmente, é uma arma magnífica mas frágil, que pode se voltar contra o próprio corpo com resultados alarmantes, levando desordens autoimunes a níveis epidêmicos.

De maneira clara e fácil, Richtel guia seus leitores em uma investigação científica que vai da Peste Negra, passando por importantes descobertas do século XX, como vacinas e antibióticos, até os laboratórios de tecnologia de ponta que estão revolucionando a imunologia — talvez a história mais extraordinária e significativa da medicina de nossa época. Imune torna acessível revelações sobre imunoterapia para o tratamento de câncer, microbiomas e autoimunologia que estão mudando milhões de vidas, além de capturar em detalhes como estas terapias poderosas, junto com nosso comportamento e ambiente, interagem com o sistema imunológico, muitas vezes com consequências positivas, mas sempre com o risco de causar um desequilíbrio desastroso. Fazendo uso de sua experiência como jornalista do The New York Times e entrevistando dezenas de cientistas renomados mundialmente, Matt Richtel produziu um livro notável: tanto uma investigação dos enigmas profundos da sobrevivência quanto uma reportagem incrivelmente humana sobre a vida a partir do ponto de vista de seus quatro personagens principais, cada um contribuindo com um detalhe essencial de nosso sistema de defesa.

Escolha um desses títulos, leia e se insira no debate mundial sobre a nossa sobrevivência no planeta.  Eu, certamente irei ler pelo menos dois desses livros, assim que terminar A dança do universo, de Marcelo Gleiser.  Outro livro imperdível.





Minhas leituras em 2020

28 12 2020

O livro aberto

Felix Appenzeller (Suíça, 1892- 1964)

 

Nem sempre consegui ler durante o período de reclusão social da pandemia do Corona VIrus.  Muita mudança.  Nem sempre  tranquilidade me acompanhou  e me encontrei de março a dezembro lendo e relendo as mesmas passagens de livros, com a sensação de que não as entendia ou de que os livros eram intermináveis.  Mesmo assim li quarenta e três livros, dos quais 3 foram relidos

 

 

Aqui está a lista do que li, sem qualquer ordem

 

Salvando a Mona Lisa, Gerri Chanel

Quatro mulheres sob o sol da Toscana, Frances Mayes

A vida pela frente, Émile Ajar

A distância entre nós, Thrity Umrigar

O maravilhoso bistrô francês, Nina George

Uma fortuna perigosa, Ken Follett

A caderneta de endereços vermelha, Sofia Lundberg

 A casa holandesa, Ann Patchett

Ninguém precisa acreditar em mim, Juan Pablo Villalobos

Uma dor tão doce, David Nicholls

Caçando carneiros, Haruki Murakami

Um lugar bem longe daqui, Delia Owens

Vasto mundo, Maria Valéria Rezende

Nenhum olhar, José Luís Peixoto

Me chame pelo seu nome, André Aciman

Nada ortodoxa, Deborah Feldman

Três irmãs, três rainhas, Philippa Gregory

O desvio, Gerbrand Bakker

Os sete maridos de Evelyn Hugo, Taylor Jenkins Reid

Os segredos que guardamos,  Lara Prescott

A paciente silenciosa,  Alex Michaelides

Pátria, Fernando Aramburu

Eleanor Oliphant está muito bem, Gail Honeyman

A espiã vermelha, Jennie Rooney

O crepúsculo e a aurora, Ken Follett

Herdando uma biblioteca, Miguel Sanches Neto

Trânsito, Raquel Cusk

The plot against America, Philip Roth

[Complô contra a América, na tradução em português, Cia das Letras]

A maçã envenenada, Michel Laub

The essays of Leonard Michaels

Eve in Holywood, Amor Towles

The Secret Cypher of Albrecht Durer, Elizabeth Garner

She wolves, Helen Castor

O canto da rosa, Rosa Goldfarb

James Abbott McNeil Whistler, William Miller

The Hammock, Lucy Paquette

21 Lessons for the 21st century, Yuval Noah Harari

[21 lições para o século XXI, na tradução em português, Cia das Letras]

The Impressionist Quartet, Jeffrey Meyers

Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa

As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi

A herdeira, Daniel Silva

Branca Bela, Geraldo França de Lima

O jogo das contas de vidro, Herman Hesse

4321, Paul Auster

Esses três últimos livros foram relidos. 

 

De todos, quais as minhas recomendações?  RECOMENDO SEM RESTRIÇÔES

Caçando carneiros, Haruki Murakami

Complô contra a América, Philip Roth

Espiã vermelha, A  Jennie Rooney

Me chame pelo seu nome, André Aciman

21 lições para o século XXI, Yuval Noah Harari

 

 

Não preciso dizer que os três livros relidos são todos também recomendados sem restrições:

Branca Bela, Geraldo França de Lima

Jogo das contas de vidro, O, Herman Hesse

4321, Paul Auster

 





Melhores leituras do ano para o grupo ENCONTROS NA PRAÇA

25 12 2020

 

O grupo de leitura Encontros na Praça, inaugurado em 2020, teve  um único encontro físico, em março.  Desde então os encontros foram virtuais, por causa da pandemia do CORONA-VIRUS.  O grupo é formado por dez mulheres, de diferentes ramos de atividade,  que através dos meses de reclusão social, mudaram seus hábitos, maneiras de exercer profissões, mudaram de endereço e assim mesmo escolheram a leitura como uma das muitas maneiras de manter os longos dias fora do que era normal, preenchidos de maneira agradável.  O grupo um dia voltará a se encontrar  pessoalmente, mas por enquanto não tem previsão da data para isso acontecer, principalmente agora, no final do ano quando a cidade do Rio de Janeiro vê nova onda de contágio, pior do que no início do ano.

 

Por causa da própria pandemia houve meses em que o grupo leu mais de um livro.  Por isso, mesmo tendo só nove encontros essas leitoras se dedicaram à leitura de treze livros.

 

 

Os melhores do ano:
  • A distância entre nós, Thrity Umrigar
  • Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles
  • A trégua, Mario Benedetti

LIVROS LIDOS

 

1 – A uruguaia, Pedro Mairal

2 – Salvando a Mona Lisa, Gerri Chanel

3 – Quatro mulheres sob o sol da Toscana, Frances Mayes

4 – A vida pela frente, Émile Ajar

5 – A distância entre nós, Thrity Umrigar

6 – Nora Webster, Cólm Toibín

7 – O leitor do trem das 6:27, Jean-Paul Didierlaurent

8 — O último amigo, Tahar Ben Jelloun

9 – Um cavalheiro em Moscou, Amor Towles

10 – O maravilhoso bistrô francês, Nina George

11 – Uma fortuna perigosa, Ken Follett 

12 – Cerejas de maio, Judy Botler

13 – A trégua, Mario Benedetti





Para melhorar os conhecimentos, Paul Auster

18 06 2020

 

book-and-coffee-jennifer-kafouryLivro e café, ilustração de Jennifer Kafoury.

 

 

No livro 4321 de Paul Auster, logo no início, somos apresentados a uma pequena lista de livros que, durante gravidez de perigo, a personagem  Rose Ferguson lê para melhorar seus conhecimentos gerais.  Aqui segue a lista.  Estamos em meados do século XX, pós Segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos.  Livros que Rose leu:

 
Suave é a noite, Scott Fitzgerald
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A casa da felicidade, Edith Wharton
Moll Flandres, Daniel Defoe
Feira das vaidades, William Thackeray
O Morro dos ventos uivantes, Emily Bronté
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A cartuxa de Parma, Stendhal
Primeiro amor, Ivan Turgueniev
Dubliners, James Joyce
Luz em agosto, William Faulkner
David Copperfield, Charles Dickens
Middlemarch, George Eliot
Washington Square, Henry James
A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne
Rua principal, Sinclair Lewis
Jane Eyre, Charlotte Bronté

Quem sabe você também não se anima a arredondar seus conhecimentos escolhendo alguns destes livros para ler ainda este ano?

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, página 32

 





Os autores brasileiros de ficção mais vendidos em abril

10 05 2020

 

 

 

Paul Herman (EUA, 1962) Bookshelf VIII, Books Thai Buddha , Oil painting on panel 21 x 25 cmPrateleira VIII, Livros com torso de bronze

Paul Herman (EUA, 1962)

óleo sobre placa, 21 x 25 cm

www.hermanstudios.com

 

 

Lista dos livros de ficção brasileira mais vendidos em abril.  Não só os grandes nomes da literatura nacional como autores menos conhecidos.

 

1º  Clarisse Lispector, A hora da estrela (Rocco)

2º  Graciliano Ramos,  Angústia (Record)

3º  Melissa Tobias, A realidade de Madhu (Novo Século)

4º  Jorge Amado, Capitães da Areia (Companhia de Bolso)

5º  Clarice Lispector, Todos os contos (Rocco)

6º  João Guimarães Rosa, Campo geral (Global)

7º  Graciliano Ramos, Vidas secas (Record)

8º José Mauro de Vasconcellos, Meu pé de laranja lima (Melhoramentos)

9º Aline  Bei, O peso do pássaro morto (Nós)

10º  Paulo Coelho, O alquimista, (Paralela)

11º  Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor (Record)

12º Bernardo Carvalho, Nove noites (Companhia de Bolso)

13º Chico Buarque, Essa gente (Companhia das Letras)

14º João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas (Companhia das Letras)

 

Fonte: Publish News

 





Livros de ficção em que o tema é arte, uma lista para tempos de ficar em casa

13 04 2020

 

 

 

Michael Van Alphen (1840-) Senhora lendo na sala de quadros, 1870, 46 x 39 cmSenhora lendo na sala de quadros, 1870

Michael Van Alphen (1840-)

óleo sobre tela, 46 x 39 cm

 

A revista da casa de leilões Christie’s sugere uma lista de leituras, romances em que a arte faz parte do tema.  Caso o assunto lhe interesse, aqui vai a lista do que foi publicado no Brasil.

1 — O livro das evidências,  John Banville

2 — O pintassilgo, Donna Tart

3 — Moça com brinco de pérola, Tracy Chevalier

4 — A improbabilidade do amor, Hannah Rothschild

Dos dez livros mencionados só estes quatro acima aparecem com traduções para o português e estão atualmente no mercado brasileiro.  Os outros seis listo abaixo em inglês.

5 — What’s Bred in the Bone,  Robertson Davies

6 — The Vivisector, Patrick White

7 —  Bedlam,  Jennifer Higgie

8 — The Burnt Orange Heresy, Charles Willeford

9 — Warpaint, Alicia Foster

10  — Headlong,  Michael Frayn

Boas leituras nesse tempo de afastamento social.





Lista de leituras para conforto nas horas de distanciamento social

13 04 2020

 

 

 

Bratby, John Randall (UK,1928-1992) Jean reading, c.1954, ostJean lendo, c.1954

John Randall Bratby (Grã-Bretanha, 1928-1992)

óleo sobre tela

 

No início de abril, o jornal britânico The Guardian publicou uma lista de leituras para tempos difíceis. Vários autores, escolhidos pelo jornal, sugeriram uma leitura.

Curtis Sittenfeld sugeriu contos de Alice Munro. No Brasil há alguns de seus livros publicados.  Nas livrarias encontramos: As luas de Júpiter, Editora Azul, 2018; Falsos segredos, Editora Azul, 2015m

Sebastian Barry sugeriu o sempre moderno Meditações de Marco Aurélio, nas bancas na edição da Edipro, 2019

Evie Wyld sugeriu qualquer livro de Chuck Palahniuk, ainda que prefira Sobrevivente, que no Brasil está fora de catálogo, só podendo ser encontrado em sebos.

Tayari Jones  lembrou-se de A cor púrpura de Alice Walker que no Brasil está na 10ª edição, publicado pela José Olympio em 2009.

Cólm Tóibín diz que Vitória, de Joseph Conrad, no Brasil publicado em 2010, pela Revan e fora de catálogo, seria a leitura perfeita para os dias de hoje.

Guy Gunaratne considera a leitura de Cem anos de Solidão do autor colombiano Gabriel Garcia Marquez,  no Brasil publicada pelo Record e sempre em catálogo.

Kamila Shamsie se volta para a obra prima de Italo Calvino, As cidades invisíveis publicada pela Cia das Letras e sempre em catálogo.

Mathew Kneale escolheu coleções de contos de Sherlock Holmes, que também encontramos no Brasil em diversas edições.

Todos são excelentes sugestões de leitura para hoje ou sempre.





Livros bons para crianças e adolescentes

27 02 2020

 

 

American Folk Art Painting, Unknown artist, Girl in Green, 1800Garota de verde, 1800

Pintura folclórica americana

óleo sobre madeira

 

Volta às aulas.  Hora de esforço para melhorarmos o português, a maneira de pensar, o reconhecimento de sentimentos.  Hora de desenvolver empatia e encontrar semelhantes nos livros que lemos.  De vez em quando me debruço sobre leitura para crianças e adolescentes.  É assunto fascinante.  O que é próprio para uma criança de  nove anos pode ser infantil demais para seu colega de turma.  Pais e professores devem ser flexíveis.  Também não acredito em forçar ninguém a ler.  Forçar a ler é contra producente.

No ano passado Euler de França Belém publicou um artigo interessante na Revista Bula, que reproduzo aqui na íntegra.  Trata de livros que são bons para crianças e adolescentes.  Como todas as listas há limites.  Mas no todo esse é um ótimo guia para leitura.  Trabalhe e tente achar algo que seu filho goste de ler.  Você vai conseguir.  Não desista.

 

25 livros que são diamantes para o cérebro de crianças e adolescentes

Por Euler de França Belém

Bons livros para crianças e adolescentes — a chamada literatura infanto-juvenil — são eternos e, mais, podem ser lidos por adultos com igual prazer. Muitos livros, mesmo de qualidade mediana, se tornaram clássicos. As obras de Monteiro Lobato, Alexandre Dumas, Irmãos Grimm, Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, H. C. Andersen não morrem jamais. São para sempre. “Meninos da Rua Paulo”, de Ferenc Mólnar, para ficar num exemplo, é um clássico universal e atemporal.

Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár

O húngaro Ferenc Molnár escreveu um dos mais belos livros juvenis (que todo adulto lê com prazer). Paulo Rónai, húngaro que veio para o Brasil fugindo do nazismo, é o exímio tradutor desta obra-prima. Brigas de meninos, nas ruas de Budapeste, no século 19, poderiam render uma reportagem de jornal. Nas mãos de Ferenc Molnár resultaram num romance delicioso, escrito com graça e grande compreensão do universo dos garotos.

O Pequeno Nicolau, de Sempé-Goscinny

Com ilustrações de Jean-Jacques Sempé, o livrinho aparentemente despretensioso escrito pelo francês René Goscinny, criador de Asterix, que viveu em Buenos Aires durante a infância e parte da juventude, narra em primeira pessoa as aventuras do menino Nicolau. Contando suas experiências na escola, em casa com os pais e com os amigos, Nicolau diverte e ao mesmo tempo apresenta uma narrativa de como uma criança percebe o mundo ao seu redor. Para os interessados pela língua francesa, vale a pena ler o livro no original. A prosa da obra é fluente, precisa e acessível.

20 Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne

Um dos criadores da ficção científica, Júlio (Jules) Verne é uma espécie de Nostradamus da literatura e, mesmo, da ciência. Invenções às quais não teve acesso, pois morreu em 1905, foram anunciadas em seus livros. Prisioneiro do capitão Nemo, o professor Aronnax e Ned Land vivem a bordo do submarino Náutilus. Sem o didatismo de alguns autores, privilegiando a imaginação, a sua e a dos leitores, Verne mostra a riqueza do mundo marinho.

O Jardim Secreto, de Frances Rodgson Burnett

O romance “O Jardim Secreto”, de Frances Rodgson Burnett, é sobre o encontro entre uma menina e um menino, sobretudo é uma celebração da amizade entre dois seres e a descoberta, por assim dizer, do mundo. O garoto vive numa cama, mais morto do que vivo, até a chegada de uma menina esperta que injeta vida em seu ser e o retira do quarto. Juntos, descobrem um jardim secreto e uma história, que, como o belo jardim, não pode mas é devassada.

4 Contos, de e. e. cummings

Não estranhe: é assim mesmo — e. e. cummings. É como o poeta assinava seus livros, com minúsculas. Todos conhecem cummings como um poeta extraordinário, traduzido no Brasil por Augusto de Campos. No seu único livro para crianças, o bardo mostra que tem a imaginação adequada. Os contos versam sobre nascimento, amor. Quem aprecia Tolkien não se espantará com o elfo criado pelo vate americano. Imagine um elefante que tem carinho por uma borboleta e uma casa, meio solitária, que se declara apaixonada por um passarinho. Há duas meninas, Eu e Você. Lúdico e inteligente.

Vozes no Parque, de Anthony Browne

Anthony Browne ganhou o prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infanto-juvenil. O livro convida o leitor para pensar sobre a diversidade do mundo, sobre a interpretação dos fatos. Um passeio, feito num parque, é relatado por quatro vozes diferentes, com suas nuances. Resulta que um passeio pode ser muitos passeios, ao incorporar vozes diversas.

O Que Me Diz, Louise?, de Slade Morrison e Toni Morrison

Nobel de Literatura, a americana Toni Morrison é uma escritora notável. O livrinho “O Que Me Diz, Louise?” é uma celebração da leitura, da cultura, do aprendizado. Sobretudo, do prazer e não da obrigação de ler. Mesmo num dia chuvoso, Louise sai de casa em busca de um refúgio quase secreto: a biblioteca, espécie de porta aberta para todas as coisas do mundo. A biblioteca, com seus vários livros, transforma os seres humanos e, daí, o mundo. Ah, o livro nada tem de chato.

Huckleberry Finn, de Mark Twain

Pense em Mark Twain como o Monteiro Lobato dos Estados Unidos, com uma pitada a mais de humor. O menino Huck Finn é esperto, inteligente e até malandrinho. Suas histórias divertidas sempre levam o leitor a sorrir. É quase um romance de formação, preciso e enxuto. O menino amadurece durante suas peripécias. Fica-se com a impressão, às vezes, de que Huck Finn é um menino-adulto ou um adulto-menino. É o mais importante livro da literatura juvenil (ou infanto-juvenil) dos Estados Unidos, inclusive adaptado para o cinema.

As Aventuras de Robin Hood, de Alexandre Dumas

Robin Hood é um clássico da literatura universal (poucas pessoas não sabem quem é). As histórias estabelecidas por Alexandre Dumas são as mais bem cuidadas e são ambientadas nos séculos 12 e 13, sob o reinado de Ricardo Coração de Leão. O criminoso que rouba dos ricos para doar aos pobres é admirador do rei Ricardo e batalha para que volte ao trono. Nas matas de Sherwood e Barnsdale, Robin Hood e seus aliados, como João Pequeno, lutam contra o xerife de Nottingham e os soldados do rei usurpador. Há também a bela Lady Marian, paixão de Robin Hood, e o frei Tuck, seu aliado.

Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas

Uma das graças do livro do escritor francês Alexandre Dumas é saber que os três mosqueteiros são, na verdade, quatro — Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan. O romance de capa e espada se tornou universal. Os quatro heróis permanecem encantando os leitores. Não só. A história, levada ao cinema, encanta os espectadores.

O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry

Há um preconceito intelectual contra este belo livro, sobretudo no Brasil. Crianças e adolescentes (se não tiverem absorvido a ranzinzice dos adultos) podem lê-lo com proveito. As mensagens podem soar piegas, num mundo feito de racionalismo consumista e sempre apressado, mas a história, com suas frases (dizem que moralistas), é bonita. Vale ler a tradução, mais madura e precisa, de Ferreira Gullar. O livro, na pena de um dos maiores poetas brasileiros, ficou mais adulto.

Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato

O Brasil está cada vez mais urbano, com espaço cada vez menor para a área rural. Crianças, adolescentes e mesmo adultos sabem cada vez menos sobre assuntos que tenham a ver com o campo. O belo “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, se torna, portanto, mais interessante do que nunca. Porque põe seus leitores em contato com a natureza, com um garoto que inventa coisas para se divertir. Hoje, tirar uma criança das teclas de computadores e smartphones não é fácil. Monteiro Lobato, com sua rica imaginação, às vezes pecando por certo didatismo, provavelmente ainda consegue encantar as crianças e, até, os adolescentes.

Andira, de Rachel de Queiroz

Andira é uma criança? Não, Andira é uma andorinha-criança, quer dizer, um filhote. Pequena, e como não sabe voar, as demais andorinhas, que se preparam para migrar no inverno, deixam-na para trás. Como muitas andorinhas, Andira nasceu numa igreja e, na ausência dos parentes, é criada por morcegos. Estes se tornam seus mestres.

Marcelo, Marmelo e Martelo, de Ruth Rocha

Ruth Rocha conhece como poucos o que se passa pela cabeça das crianças e adolescentes. Ela escreve com uma clareza impressionante e não subestima seus leitores. Por isso seus livros são tão lidos e adorados. Em “Marcelo, Marmelo e Martelo”, a escritora explora a vida de meninos que moram na cidade. São garotos espertos e ativos. Marcelo é um criador de palavras novas. Nas livrarias podem ser encontradas as belas e precisas adaptações que Ruth Rocha fez para a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero”, e “Tom Sawyer”, de Mark Twain. Crianças ganham, muito, se lerem as adaptações.

A História de Emília, de Monteiro Lobato

Talvez seja possível dizer que Monteiro Lobato inventou a literatura infantil e infanto-juvenil no Brasil. Suas histórias não perdem vitalidade e permanecem modernas, ou, diria Carlos Drummond de Andrade, eternas. O escritor era um homem sisudo, mas tinha uma capacidade de imaginação imensa e, principalmente, não menosprezava a capacidade de entendimento de crianças e adolescentes. A história de Emília, uma boneca falante, é uma de suas principais criações Mexe com a percepção criadora das crianças. O curioso é que a personagem, com sua irreverência, agrada tanto meninas quanto meninos. É tão moleca, esperta e divertida quanto qualquer criança.

Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

O romance “Meu Pé de Laranja Lima” não deixa de ser piegas e, em alguns momentos, até primário. A exploração do sentimentalismo ganharia se incluísse, de modo mais incisivo, o humor, o riso (o mundo infantil raramente é tão lamentoso). Mas uma coisa é certa: José Mauro de Vasconcelos sabe comover crianças, pelo menos as do meu tempo de menino (entre as décadas de 1960 e 1970). A história do menino e do Portuga tem um quê de Mark Twain? Um quê, no caso, significa uns 20%.

O Estribo de Prata, de Graciliano Ramos

“Vidas Secas” é, claro, um romance adulto. Mas a história de Fabiano e da cachorra Baleia pode ser lida com proveito por jovens perceptivos. “O Estribo de Prata” é, ao contrário, um livro mesmo para garotos. Trata-se de um causo contado por Alexandre, um misto de caçador e vaqueiro. Simples, direto e muito bem escrito. Menos seco que a prosa tradicional de Graciliano Ramos. Há, por assim dizer, um pouco mais de emoção.

Raul da Ferrugem Azul, de Ana Maria Machado

Ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen, Ana Maria Machado é autora de livros de alta qualidade, como “Raul da Ferrugem Azul”, “História Meio ao Contrário?” e “Bisa Bia Bisa Bel”. Raul aparece com manchas azuis em todo o corpo. Depois de se lavar, usando xampu, álcool e detergente, conclui que tem ferrugem azul. A escritora conta a história com graça e sempre levando em consideração que o leitor é inteligente e perspicaz.

A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga

Lygia Bojunga é uma escritora de livros infanto-juvenis? Consagrou-se assim. Acima de tudo, é uma grande escritora. Em conflito com a família e consigo mesma, uma menina esconde na sua bolsa “três grandes vontades”: “a de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora”. Afinal, criança tem vontade ou sua vontade é a dos adultos? A garota relata como é seu cotidiano, intercambiando o mundo real, no qual vive com a família, e seu próprio mundo, no terreno da imaginação.

Histórias da Velha Totônia, de José Lins do Rego

José Lins do Rego tem livros magníficos sobre a infância. “Menino de Engenho”, às vezes subestimado, é um belíssimo romance. O escritor paraibano escreve muito bem sobre meninos. “Quisera que todos eles (os meninos) me ouvissem com a ansiedade e o prazer com que eu escutava a velha Totônia do meu engenho”, disse o autor paraibano. A linguagem coloquial, oralizada, torna o livro extremamente acessível, divertido e delicioso.

A Árvore dos Desejos, de William Faulkner

O escritor americano William Faulkner é mais conhecido por seus romances mais complexos, como “O Som e a Fúria”, “Luz em Agosto”, “Absalão, Absalão” e “Enquanto Agonizo”. “A Árvore dos Desejos”, ao contrário dos chamados livrões, é escrito numa prosa mais simples e acessível. O menino Maurice convida a garota Dulcie para saírem em busca da Árvore dos Desejos. Eles vão para a floresta, ao lado de outras crianças. O Nobel de Literatura manipula bem o entrelaçamento entre o real e o fantástico.

Os Gatos de Copenhague, de James Joyce

O autor de “Ulysses”, James Joyce, escrevendo para crianças? Sim e, melhor, o faz muito bem. O autor de “Ulysses” envia, da Dinamarca, uma carta para seu neto Stephen Joyce, na qual conta a história de que não há gatos em Copenhague. Que o leitor não se assuste: a história é simples, sem as firulas experimentais dos outros textos do escritor irlandês.

Discurso do Urso, de Júlio Cortázar

O escritor argentino Julio Cortázar é mais conhecido por “O Jogo da Amarelinha”, romance para adultos. O conto poético “O Discurso do Urso”, seu primeiro texto infantil, versa “sobre a vida e os seres humanos, vistos através dos olhos de um ursinho que vive passeando pelos canos dos prédios. Neste vai e vem ele ouve conversa e explora” o “cotidiano” das pessoas — “e suas qualidade e imperfeições — com curiosidade, deslumbre e audácia”.

Caninos Brancos, de Jack London

Jack London é um escritor brilhante, porém, como pouco dado a firulas experimentais, às vezes é sugerido como do segundo time. O autor de “O Chamado Selvagem” é responsável, em larga medida, pela formação e ampliação do número de leitores. Sua prosa é de qualidade, densa e, ao mesmo tempo, simples. Pode ser lida, com igual prazer, por crianças, adolescentes e adultos. “Caninos Brancos” é um de seus mais belos romances. Um lobo do Yukon, aprisionado, é utilizado como puxador de trenó e como cão de rinha. Resgatado por um homem “não-selvagem”, readquire, por assim dizer, sua “dignidade” e, aos poucos, volta à natureza. As relações homem-natureza são mostradas com rara felicidade por Jack London. A história foi adaptada para o cinema, mas nada substitui a leveza contagiante do texto do escritor americano.





Treinando para ser escritor, texto de Paul Auster

21 01 2020

 

 

 

Merrie C. Ligon (EUA) O leitor, aquarela sobre papelO leitor

Merrie C. Ligon (EUA, contemporânea)

aquarela sobre papel

 

 

“Naqueles três anos como aluno do ensino médio nos subúrbios de Nova Jersey, Ferguson de dezesseis, dezessete e dezoito anos começou a escrever vinte e sete contos, terminou dezenove e passou não menos de uma hora por dia com o que chamava de seus cadernos de trabalho, que ia enchendo com diversos exercícios de escrita que inventava para si mesmo, a fim de manter a forma, afiar a pegada e tentar melhorar (como ele disse certa vez para Amy): descrições de objetos físicos, paisagens, céus no amanhecer, rostos humanos, animais, o efeito da luz na neve, o barulho da chuva no vidro, o cheiro de madeira queimada, a sensação de andar na neblina e ouvir o vento soprar entre os galhos das árvores; monólogos na voz de outras pessoas a fim de se transformar naquelas pessoas ou, pelo menos, tentar entendê-las melhor (o pai, a mãe, o padrasto, Amy, Noah, seus professores, seus colegas de colégio,o sr. e a sra Federman), mas também pessoas desconhecidas e mas distantes, como J. S. Bach, Franz Kafka, a garota do caixa do supermercado local, o cobrador da Companhia Ferroviária Erie Lackawanna, o mendigo barbado que lhe pediu um dólar na Grand Central Station; imitações de admirados, rigorosos, inimitáveis escritores do passado (pegue um paragrafo de Hawthorne, por exemplo, e componha algo baseado no seu modelo sintático, usando um verbo nos lugares onde ele usava um verbo, um substantivo nos lugares onde ele usava um substantivo, um adjetivo nos lugares onde ele usava um adjetivo — a fim de sentir o ritmo nos ossos, sentir como se forma a música); uma sequência curiosa de vinhetas geradas por trocadilhos, homonímias e deslocamento de uma letra: óleo/olho, luxo/luto, alma/lama; porto/morto e arroubos impetuosos de escrita automática, a fim de limpar o cérebro, toda vez que estiver se sentindo tolhido, como um jorro de escrita de quatro páginas inspirada pela palavra “nômade”, que começava assim: Não, eu não estou doido. Não estou nem zangado, mas me dê uma chance para desnortear você e num instante eu vou te deixar com os bolsos vazios. Também escreveu uma peça em um ato, que ele queimou de desgosto uma semana depois de terminar, e vinte e três poemas que estavam entre os mais nojentos que qualquer cidadão do Novo Mundo jamais viu e que ele rasgou depois de jurar para si mesmo que nunca mais ia escrever poemas. No geral, detestava o que escrevia.  No geral, achava que era burro e sem talento e que jamais conseguiria escrever nada, mesmo assim insistia, se esforçava a se dedicar àquilo todos os dias, apesar dos resultados muitas vezes decepcionantes, entendia que não haveria esperança para ele, a menos que persistisse, que para ser o escritor que almejava levaria anos, mais anos do que seu próprio corpo levaria para terminar de crescer, e toda vez que escrevia algo que parecia ligeiramente menos ruim do que o texto que tinha escrito antes, Ferguson achava que estava progredindo, ainda que o texto seguinte se revelasse uma abominação, pois a verdade era que ele não tinha opção, estava destinado a fazer aquilo ou então morrer, porque, apesar de seus esforços e de seu descontentamento com as coisas mortas que muitas vezes saíam dele, fazer aquilo lhe dava a sensação de estar vivo, mais do que qualquer outra coisa que já tinha feito na vida, e quando as palavras começavam a cantar em seus ouvidos e ele se sentava diante da escrivaninha e empunhava a caneta ou colocava os dedos nas teclas da máquina de escrever, sentia-se nu, nu e exposto ao vasto mundo que passava em disparada na sua frente, e nada dava uma sensação melhor do que isso, nada podia se equiparar à sensação de desaparecer de si mesmo e entrar no vasto mundo cantarolando, por dentro, as palavras que cantarolava, no interior de sua cabeça.”

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 431-432

 

 





Uma educação a longa distância, trecho Paul Auster

29 12 2019

 

 

 

Summer reading, 2011 by Natalia Andreeva born in Novosibirsk, Russia living in Tallahassee (Florida), USALeitura de verão, 2011

Natalia Andreeva (Rússia/ EUA, contemporânea)

 

 

“Nenhum outro menino em seu círculo de conhecidos tinha lido o que ele tinha lido e, como tia Mildred escolhia os livros cuidadosamente para ele, assim como havia escolhido para a irmã, em seu período de confinamento, treze anos antes, Ferguson lia os livros que ela mandava com uma avidez que parecia fome física, pois sua tia compreendia quais livros iam dos seis para os oito anos de idade, dos oito para os dez, dos dez para os doze — e daí até o fim do ensino médio. Contos de fadas, para começar os Irmãos Grimm e os livros muito coloridos compilados pelo escocês Lang, depois os fantásticos e assombrosos romances de Lewis Carroll, George MacDonald e Edithh Nesbit, seguidos pelas versões de mitos gregos e romanos escritas por Bulfinch, uma adaptação infantil de Odisseia, A teia de Charlotte, uma adaptação de As mil e uma noites, remontadas com o título de As sete viagens de Simbad, o Marujo, e mais adiante, uma seleção de seiscentas páginas de As mil e uma noites originais, e no ano seguinte O médico e o monstro, contos de horror e mistério de Poe, O príncipe e o mendigo, Raptado, Um conto de Natal, Tom Sawyer e Um estudo em vermelho, e a reação de Ferguson foi tão forte ao livro de Conan Doyle que o presente que ele ganhou da tia Mildred em seu décimo primeiro aniversário foi uma edição imensamente gorda, abundantemente ilustrada, de Histórias Completas de Sherlock Holmes.

 

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 109-110








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