“Hibisco Roxo” de Chimamanda Ngozi Adichie, resenha

29 11 2017

 

 

6751846c184c909bb0588ab293de16d6Retrato de mulher

Joseph Eze (Nigéria, 1975)

Técnica mista

 

 

Hibisco Roxo foi o primeiro romance publicado da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.  Mas o terceiro dela que leio. Minha apresentação à sua obra foi com Americanah.  Depois li Meio sol amarelo, que continuo achando o melhor dos três, e agora o popularíssimo Hibisco Roxo, leitura obrigatória nos meios feministas, por sua temática: a violência contra a mulher.

Gosto, na prosa de Chimamanda Ngozi Adichie, do retrato social da Nigéria que, para o ocidente, foge aos estereótipos das sociedades dos países africanos, comumente vistas como soterradas na extrema pobreza.  Em todas as três obras, ela nos dá o retrato de um país formado por diversas camadas sociais, com profissionais nas classes rica, empresarial, média e  pobre.  Essa visão multi-strata enriquece a compreensão do leitor sem familiaridade com a realidade local. E o lembra de que o mundo é bem mais complexo do que as notícias que recebemos nos meios de comunicação nos levam a crer; que o mundo não pode ser visto exclusivamente por posturas políticas, visões de progresso e riqueza; nem mesmo pelas distorções do colonialismo.  Hibisco Roxo lembra que culturas e sociedades são formadas por uma variedade de indivíduos: bons, maus, ponderados, fanáticos, abusivos, respeitadores de regras, religiosos.

 

HIBISCO_ROXO_1384015895B

 

A trama revolve em torno uma família rica, chefiada por um homem de grande sucesso empresarial que, com a desculpa da religiosidade, domina mulher e filhos — Kambili e Jaja — de maneira cruel exigindo comportamento inumano de sua família.  Suas vidas correm em paralelo à vida de sua irmã que, apesar de professora universitária, não tem o mesmo poder financeiro dele.  Sua educação, é provavelmente responsável pela grandeza humanística com que aceita o mundo em que vive, as tradições culturais do país e, sobretudo, a individualidade de seus filhos.  Por trás de tudo isso, como pano de fundo, há o conflito entre a religião colonizadora em oposição à religião nativa. Mesmo assim, nem nesse, nem nos outros dois livros da autora, mencionados acima, há clara condenação ou revolta contra os resquícios da colonização europeia. Um fato revigorante e inovador.  Essa luta já passou.  Ninguém clama um retorno ao período anterior aos colonizadores.  O passado passou, a colonização britânica faz parte do passado, mas também, hoje, da identidade da Nigéria como a escritora retrata.

O fanatismo religioso demonstrado em Hibisco Roxo, existe em qualquer lugar do mundo, em qualquer país, em qualquer religião.  Neste caso trata-se da religião católica, que é interpretada pelo chefe de família com severidade militar.  Ainda que seja fácil ler nesse extremismo uma crítica ao catolicismo pela autora, é justamente um padre católico um dos personagens mais carismáticos, enquanto joga futebol com os adolescentes e, em visitas familiares aos membros de paróquia, age de maneira perceptiva e grandiosa.

 

chimamanda-adichieChimamanda Ngozi Adichie

 

A enredo detalha a passagem da vida de dois adolescentes para as responsabilidades da vida adulta. Criados com muitas restrições os irmãos Kambili e Jaja vão visitar a tia, em outra cidade. Lá, livres dos grilhões paternos, descobrem que o mundo pode ser diferente.  Suas personalidades vêm à tona e com ela a liberdade por que tanto ansiavam.  Com essa liberdade vem também escolha e responsabilidades, que ao final se apresentam necessárias.

Narrado na primeira pessoa por Kambili, a menina que desabrocha na casa da tia, a narrativa corre fácil com tradução de Júlia Romeu.  Percebemos o que Kambili percebe.  Seus olhos são os nossos.  Por isso também vemos o mundo com a mesma ingenuidade e visão limitada dos acontecimentos e personagens.  Até mesmo Jaja, seu irmão, visto pelos olhos de Kambili, não é desenvolvido plenamente. Portanto, quando ele toma uma decisão radical, surpreendente, o leitor se choca,  por não ter reconhecido nele, personagem de tal importância.  Este é o meu problema com a narrativa, e a razão de não poder dar a esse livro todos os meus pontos de aprovação.  A história é envolvente, informativa.  Mas precisava de mais solidez nos personagens.

É uma boa leitura. Interessante, forte. Recomendo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





“Ana Sebastiana”, texto de José Eduardo Agualusa

3 11 2016

 

 

 

Lacombe.Ilustração de Lacombe.

 

 

“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável.  Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa.  O juiz deu-lhe razão.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.

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“Bailundo”, texto de José Eduardo Agualusa

8 09 2016

 

 

Cristie HenryA longa jornada da noite, ilustração de Christie Henry.

 

 

Fala de Alfonsina, a que ama o mar

 

 

Nasci no Bailundo, você não conhece, o Bailundo é um segredo no mapa da nação. O céu: clara imensidade! O azul de um azul que não existe em mais lugar nenhum. O azul do céu no Bailundo — costumava dizer-nos o padre Cotovia — é o mesmo do princípio do mundo. Às vezes sonho com o céu do Bailundo, brilhante e molhado, e então me transformo em pássaro e voo. Acordo e canto como um pássaro. Fico igual a Pintada. Nessas alturas consigo falar com ela em passarês do mato. Tem muito verde lá, paus de toda a espécie, os nomes eu nem sei, mas sempre sons bem doces porque o umbundo é a língua que os anjos usam para namorar — também era o padre Cotovia quem falava isso, deve ser verdade. Luanda, mal comparada com o Bailundo, é tipo um peixe seco junto a um peixe vivo. No Bailundo a vida é muito cheia de brilhos, veste roupa de carnaval, espelhinhos, miçangas ao pescoço, chocalhos no calcanhar, e sempre seja noite ou dia, sempre a dançar. Mas eu não tive sorte. A mamã pisou uma mina, não dessas de explodir e mutilar, arranca pé, arranca perna, não, paizinho, não dessas, uma mina de feitiço, ouviu falar?, nunca?!, são uma arte nossa, armas tradicionais, a mamã pisou a mina quando estava grávida, e a mina me atingiu foi a mim no silêncio macio da barriga dela. Não sou feiticeira, espero que você entenda, sou enfeitiçada, mas isso só soubemos depois, quando eu não cresci. Você duvida? Lá em Portugal não tem feitiço? Em todo o lado tem. …”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.273.

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Resenha: “As mulheres do meu pai” de José Eduardo Agualusa

1 08 2016

 

 

Tamara_Natalie_Madden's,_The Black Queen (2010) by Tamara Natalie Madden.A rainha negra, 2010

Tamara Natalie Madden (Jamaica, contemporânea)

técnica mista

 

 

Este é a quinta obra de José Eduardo Agualusa que leio. O vendedor de passados, Teoria geral do esquecimento, Manual prático da levitação e Um estranho em Goa foram livros deliciosos que misturavam um tanto de fantasia com realidade, num estilo típico do autor.  As mulheres do meu pai toma um caminho um pouco diferente: a obra inteira é escrita na linha fronteiriça entre o sonho e a realidade.  Agualusa trabalha como psicopompo guiando o leitor entre o mundo interior e o exterior.

O meio é uma viagem.  Laurentina, uma diretora de cinema, decide fazer um documentário sobre a vida do falecido pai, famoso músico angolano, que ao morrer deixou sete viúvas e dezoito filhos.  Sai com sua equipe à procura das viúvase dos passos e eventos marcantes na vida de Faustino Manso. Para tanto precisa viajar de Angola a Moçambique passando por todo o sul do continente africano. O próprio título já se mostra um tanto fantástico instalando a incredulidade linear e aristotélica no leitor ocidental.  “Como mulheres de meu pai? Como sete viúvas?

 

 

AS_MULHERES_DO_MEU_PAI_1349724856B

 

A proposta é genial e permite que Agualusa mostre a variedade cultural ao sul do continente que sofre da visão ocidental de considerá-lo um todo, único, sólido e imutável, quer as pessoas retratadas estejam no norte, no centro ou no sul. E ainda faz mais, Agualusa mostra o contraste entre duas ex-colônias portuguesas em lados opostos do continente.

No entanto, o que mais impressiona o leitor é a destreza com que somos levados do onírico ao tangível com facilidade e garbo.  Vinhetas de viagem são uma das maneiras de narrar; outras são as histórias contadas oralmente aos viajantes; outra ainda é a maneira particular de julgamento entre o importante e o trivial dos personagens encontrados ao longo dessa excursão. Ao fim viajamos todos, dentro e fora de nós mesmos, marchando de maneira inclemente na fronteira entre a divagação e a realidade.

 

josé-eduardo-agualusa-696x466José Eduardo Agualusa

 

 

Enquanto reconstruimos os passos de Faustino Manso somos expostos ao lirismo do autor, à poesia africana.  As mulheres de meu pai é, como o próprio nome indica, plural. A narrativa se vale de diversas formas da escrita de poemas a cartas, histórias contadas à reflexão do viajante e consegue ao final, com cada retalho a que somos apresentados, formar uma grande colcha de retalhos abraçando a multiplicidade do continente e fazendo com ela uma única obra, espiritual e confortadora.

Belíssimo trabalho.

 

PS: Esta resenha foi re-editada no dia 7/8/2016.

 

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Os pombos, texto de José Eduardo Agualusa

28 07 2016

 

 

Marina Shkarupa Painting, PigeonsPombos

Marina Shkarupa (Ucrânia, contemporânea)

acrílica e óleo sobre tela, 60 x 60 cm

http://www.saatchiart.com

 

 

 

“Noor conta que em 1975, pouco antes do início das demolições, conseguiu comprar uma vivenda em Athlone. Levou consigo, para além, evidentemente, da mulher e dos filhos, os pombos-correios, vencedores de vários prêmios, construindo o segundo pombal com a madeira salva do primeiro. Ao fim de três meses decidiu soltar as aves. Nenhuma regressou. Ansioso, após uma noite em  branco, Noor foi de carro ao que havia sido o Distrito Six. Distinguiu, em meio ao imenso descampado em ruínas, um claro rumor de asas. Meia centena de pombos esperavam-no, atônitos, no exatao lugar do primeiro pombal. Ainda hoje um espanto semelhante paira sobre a cicatriz, no chão vazio, onde deveriam erguer-se as casas.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.139.





Do silêncio, texto de José Eduardo Agualusa

12 07 2016

 

329px-Lucien_Lévy-Dhurmer_-_Le_Silence_-_Google_Art_ProjectO silêncio, 1895

Lucien Lévy-Dhurmer (França, 1865-1953)

Pastel, 59 x 29 cm

Musée d’Orsay

 

 

 

“O Silêncio.

Não, os silêncios.

Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração dos surdos.

1 – O silêncio que precede as emboscadas;

2 – O silêncio no instante do pênalti;

3 – O silêncio de uma marcha fúnebre;

4 – O silêncio de girassóis;

5 – O silêncio de Deus depois dos massacres;

6 – O silêncio de uma baleia agonizando na praia;

7 – O silêncio das manhãs de domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;

8 – O silêncio da picareta que matou Trotsky;

9 – O silêncio da noiva antes do sim.

Etc.

Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que tresandam a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.82-3.





Os retratos de Fatita de Matos, texto de José Eduardo Agualusa

9 07 2016

 

Pintura de Di Cavalcanti menina lendo, ost, 1970Menina lendo, 1970

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre teça

 

 

Fatita de Matos, a amante infeliz

 

Na ampla sala de visitas de Fatita de Matos, Mana Fatita, como é mais conhecida, na Restinga do Lobito há cinco retratos a  óleo, com um metro por 1,5 metro. Em todos eles Fatita de Matos está sentada no mesmo cadeirão de verga, quase em idêntica posição, com um livro no regaço. A primeira tela foi pintada em 1946. Fatita tem vinte anos, ainda é virgem, e está a ler Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. Na segunda tem trinta anos, quatro filhos ilegítimos, e está a ler Amor de perdição. Na terceira tem quarenta anos, veste de preto pela morte do filho mais novo, e está a ler Amor de perdição.  Na quarta tela tem cinquenta anos, sete netos, e continua a ler Amor de perdição. Finalmente na quinta tela, tem sessenta anos, 12 netos, três bisnetos, e está a ler Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Todas as telas são de sua autoria.

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.71

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Luanda, texto de José Eduardo Agualusa

5 07 2016

 

 

ArleteMarquesDosuordomeurostoDo suor do meu rosto

Arlete Marques (Angola, contemporânea)

 

 

“Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente: Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, São Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Vinte anos mais tarde chegaram à nova urbe as 12 primeiras mulheres brancas, que logo arranjaram noivos e casaram e tiveram filhos. Em 1641 a cidade foi ocupada pelos holandeses, os quais saíram a toque de caixa, apenas sete anos depois. A 15 de agosto de 1648 uma tropa carnavalesca de brancos, negros e índios, trazida até África nos galeões do imensamente próspero latifundiário e escravocrata carioca, não obstante natural de Cádiz, em Espanha, Salvador Correia de Sá e Benevides, desembarcou em Luanda. Iludidos por uma série de manobras audaciosas de Correia de Sá, mais de mil soldados holandeses renderam-se, abandonando duas fortalezas praticamente intactas  a um exército exausto de menos de seiscentos homens.

Começou dessa forma uma esplêndida confusão de raças, línguas, sotaques, apitos, buzinas e atabaques, que, com o passar dos séculos, mais não fez do que aprimorar-se. O caos engendrando um caos maior.

Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado do regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.”

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.43-44

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Resenha de “Americanah”: um olhar sobre os EUA

21 01 2015

 

 

Heidi Berger, (alemanha, 1944) Leitura 2(1) 2010Leitura 2, 2010

Heidi Berger (Alemanha, 1944)

técnica mista

www.heidiberger.com

 

 

Americanah visa primeiramente o leitor americano, seguido de possíveis imigrantes. Gira, sobretudo, em torno das maneiras de inclusão e exclusão social por raça nos Estados Unidos, concentrando-se nas distinções e nas nuances sociais adotadas pela sociedade inteira: brancos, negros e todas as outras variantes de raça em que o país se subdivide. Lido por quem nunca viveu por lá, o romance corre o risco de dar origem a interpretações redutivas do escopo cultural daquela sociedade. Essa simplificação pode também ser uma barreira na apreciação do leitor estrangeiro aos diversos desdobramentos do romance que relata quase verbatim situações do cotidiano americano que passam despercebidas tanto pelos nativos – iludidos pela própria familiaridade da vida comum–, como pelos visitantes estrangeiros que não conseguem notar os diferentes matizes da ironia e da separação de tribos naquela sociedade. Mais do que isso, Chimamanda Ngozi Adichie, nascida na Nigéria, explora o ambiente para o qual imigra, de uma posição inigualável: observadora detalhista, estrangeira com forte identidade cultural nativa e negra. Consegue com essa base segurar um enorme espelho que reflete a sociedade americana, como um todo, com sua enorme classe média e os intelectuais politicamente corretos.

A pergunta é: estará o americano comum aberto a ver sua própria imagem de um ângulo diferente, incapaz de usar a desculpa de que a crítica vem de uma pessoa com os paradigmas colonialistas? Não sei. A julgar pela resposta de vendas do livro nos EUA, pode-se dizer que pelo menos uma boa parcela dos leitores do país tentou ver a América pelos olhos da autora. Não se pode deixar de frisar, no entanto, que muito do que foi escrito pela autora, não teria sido aceito não fosse ela africana e negra. Ninguém melhor do que ela, portanto, para chamar atenção sobre as pequenas variações de comportamento a que um imigrante precisa se submeter para finalmente se perder na nova sociedade que escolheu. A autora também tomou para si mostrar, através de exemplos, a complexa trama que suporta e separa, que desagrega e asfixia a população negra no país.

 

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Não me surpreende que este livro tenha sido recipiente de um dos maiores prêmios literários americanos o National Book Critics Circle Award, além de ser considerado um dos dez mais importantes livros do ano pelo The New York Times, em 2013, é bem escrito e aborda um tema polarizante de maneira diferente. Em breve: a personagem principal, Ifemelu, criada na classe média nigeriana, consegue uma bolsa de estudos para uma pequena universidade no estado da Pensilvânia. Chegando lá tem que encontrar emprego para sobreviver e pagar ainda uma quantia que resta da bolsa de estudos parcial que recebeu. O trabalho que alavanca sua carreira é o de babá de uma família bem situada. Eventualmente Ifemelu namora o primo desta senhora para quem trabalha, o primeiro relacionamento sério que tem depois de ter deixado na Nigéria o amor de sua vida, Obinze. O namorado, um verdadeiro príncipe encantado, alto, louro, boa pinta, e rico, muito rico, a trata muitíssimo bem. Nesse meio tempo, Ifem [Ifemelu] que continuara com seus estudos, trabalha e começa um blog, que trata da visão de um negro africano sobre o racismo, os negros americanos, e também questões de identidade. O blog tem grande sucesso e logo logo Ifem se vê deixando o emprego para trás, pois consegue viver de palestras sobre esse tema, nas mais diversas localidades. Tem a vida perfeita, mas lhe falta algo. Eventualmente um novo relacionamento surge, desta vez com um professor universitário, negro, americano, intelectual engajado. O relacionamento é bom, mas Ifem depois de algum tempo percebe que há um espírito autoritário neste homem, que prefere a sua interpretação da realidade à dela. Passados quinze anos nos EUA, depois de uma pletora de experiências, Ifem, que ainda sentia que algo lhe faltava, embarca de volta à Nigéria. Encontra-se mudada. A dificuldade de se adaptar é inicialmente um choque. Procura o amor de sua vida e é só através dele, como vemos na última cena, que finalmente Ifemelu se rende em aceitar a Nigéria, em si mesma.

 

p018kb6nChimamanda Ngozi Adichie

 

A Segunda Guerra Mundial e suas consequências foram o mais importante tema literário do século XX, seguido próximo da imigração, problemas de identidade do imigrante e o retorno à terra materna. Mas o imigrante africano nos Estados Unidos é um tema novo, cheio de observações interessantíssimas. Chimamanda Ngozi Adichie tenta esgotá-lo. Mas há muito ainda a ser analisado. Digo que a autora tenta esgotar o assunto por sua intermitente tentativa de colocar a personagem Ifem em variadas circunstâncias, que depois sugerem uma entrada no blog, que nós leitores do romance acompanhamos a cada postagem. O blog é de longe a melhor parte dessa narrativa, misto de jornalismo e estudo antropológico, repleto de ironias e de fino humor, para mim, acabou sendo o ponto de apoio do romance. Por isso mesmo, há muitas ocasiões em que o enredo parece se contorcer para justificar uma entrada no blog. Isso leva a que detalhes sejam esquecidos ou muito levemente pincelados. Exemplos que vêm à mente são: a) a traição de Ifem ao príncipe encantado – algo que em nenhum lugar antes do evento o leitor é levado a desconfiar b) incomoda a falta de detalhes de como Obinze, o verdadeiro amor de Ifemelu, se torna milionário na Nigéria,depois de ter dado com os burros n’água na sua tentativa de imigração para a Inglaterra. Com 516 páginas, umas poucas frases para arrematar a história não seriam nenhuma adição extenuante ao romance.

De fato, esta observação leva a outra crítica: será que realmente a autora precisava de meio milheiro de páginas para contar sua história? Esta se encomprida no meio, parece repetitiva. Mesmo intrigada pelo retrato da sociedade americana que conheço bem, achei que a autora deu muitas voltas, desnecessárias, para levar a história à frente. Senti falta do editor que aconselha ao corte, que ajuda o escritor a se tornar mais leve, menos narcisista com seu texto. Por tudo isso, recomendo com algumas restrições ao leitor brasileiro, o romance Americanah.

 

 

Nota: tenho que agradecer às integrantes do grupo de leitura Papa-livros que me ajudaram a esclarecer alguns pontos importantes dessa leitura. Em ordem alfabética: Camille Ramos, Chaia Zismán, Inez de Mello e Souza e Maria Eugênia Pondé. Obrigada, meninas, pelo carinho.





Refeições literárias, de quais você se lembra?

19 04 2014

Pierre-Auguste_Renoir_-_Luncheon_of_the_Boating_Party_-_Google_Art_ProjectO almoço dos canoeiros, 1881

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 130 x 173 cm

The Phillips Collection, Washigton DC

A revista Smithsonian Magazine deste mês traz um artigo intrigante de Erin Corneliussen.  O artigo refere-se ao novo livro de fotografias de Dinah Fried, intitulado Fictitious Dishes [Pratos fictícios]. As fotografias retratam refeições como descritas em conhecidas obras literárias. Elas trazem também as citações que as criaram. Muito interessante ver como uma frase de Herman Melville em Moby Dick sobre sopa de amêijoas; uma frase de Sylvia Plath sobre abacates; ou ainda talvez o mais famoso chá do mundo, o chá de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll podem servir de inspiração para fotografias interessantes que nos remetem de volta à leitura. Sugiro que você clique no link aqui embaixo para ver as fotos.

Depois de ler o artigo e ver as fotos tentei me lembrar de cenas ou frases nas literaturas de língua portuguesa que mais me tivessem marcado.  Não tive muito sucesso, exceto por me lembrar que havia algumas cenas deliciosas em Senhora de José de Alencar.  Transcrevo portanto uma de algumas encontradas no romance.

Um bom domingo de Páscoa a todos vocês.

“Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, peras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós.

Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas; além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloquente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.

– Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.

– Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pera, ou o abacaxi?

– É preciso que eu tome alguma cousa? perguntou Fernando com seriedade.

– É indispensável.

– Nesse caso tomarei um figo.

– Aqui tem; um figo e uma pera; é apenas um casal.

Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si, e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável do paladar.

Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido.

Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.

Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava ao marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto.

Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.

Em: Senhora, José de Alencar, 1875, em domínio público.

 

 

Veja as fotos dessas refeições e seus respectivos livros.








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