O escritor no museu: Nathaniel Hawthorne

5 08 2019

 

 

 

Charles_Osgood_-_Portrait_of_Nathaniel_Hawthorne_(1840)Nathaniel Hawthorne, 1840

Charles Osgood (EUA, 1809 – 1890)

óleo sobre tela, 74 x62 cm

Peabody Essex Museum, Salem, Ma, EUA





Resenha: “Meus dias de escritor”, de Tobias Wolff

21 04 2017

 

 

Marlene Dumas (Africa do Sul, 1953)Os alunos, 1987,ost, 160 x 200 cmOs alunos, 1987

Marlene Dumas (África do Sul, 1953)

óleo sobre tela, 160 x 200 cm

 

 

Não sei bem o que esperava desse livro considerado uma homenagem à literatura.  Não foi o livro inesquecível que poderia ter sido, mas uma leve, doce e um tanto superficial história sobre paixão e desejo.  Como a paixão pode cegar e levar a atos fora da norma.  Há valores que não nos importamos em comprometer para dar vazão a um desejo? Mais do que um livro sobre os escritores Ernest Hemingway, Robert Frost ou Ayn Rand, todos personagens nestas páginas, este é um livro sobre a  paixão se sobrepondo à ética.  A história se passa na década de 1960, num colégio interno onde a literatura é levada a sério e como consequência, três vezes por ano, escritores conhecidos visitam a escola por um dia, quando um aluno escolhido dentre todos, através de um concurso entre eles, é convidado a visitar por uma hora, face a face a celebridade literária na escola. É nesse contexto que Hemingway, Frost e Rand participam da trama.

A vida escolar é detalhada como memória langorosa e sutil, absolutamente deliciosa. Narrado na primeira pessoa, — curiosamente nunca sabemos a identidade do narrador– o tom é íntimo e leva o leitor a imaginar tratar-se de uma autobiografia, ainda que talvez esse fato não seja verdadeiro. Esse tipo de colégio interno, diferentemente do Brasil, ainda existe.  São escolas preparatórias muito desejadas pelas famílias que pensam em encaminhar seus filhos desde cedo para uma carreira de sucesso. Apesar de estarem associadas a famílias ricas, essas escolas têm extensos programas de bolsas de estudos que incluem alunos vindos de outras camadas econômicas, desde que passem os exames de entrada. Bolsistas desfrutam da mesma educação recebida pelos outros, como é o caso do narrador, bolsista e consciente de sua herança meio judia, que nos anos 60, seria rara dentro do ambiente homogêneo da aristocracia do leste americano. Este é o tipo de escola, encontrada nos EUA tem raízes na Inglaterra, e, na sua forma inglesa, foi o modelo para J. K. Rowling quando criou Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry, onde Harry Potter aprende suas lições.

 

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Em Meus dias de escritor quando a escola faz o concurso para escolher o aluno que terá uma entrevista particular com visitante, todos aqueles que imaginam o futuro como escritor se posicionam para escrever os melhores textos.  Nosso narrador não é exceção.  E é justamente a visita de Ernest Hemingway que provoca o ponto mais alto dessa competição estudantil.  O senso de humor é prevalente no livro e encontra destaque quando meninos falam em sentenças completas como se repetissem frases dos livros do autor. Divertido.  Outras anedotas ou piadas internas da literatura circulando em torno dos três escritores que visitam a escola nesse ano são igualmente engraçadas ainda que requeiram maior conhecimento de facetas desses visitantes, como acontece com o poeta Robert Frost que é retratado como um pseudo intelectual.

 

tobias-wolff-2Tobias Wolff

 

A crítica deu muita ênfase a assuntos que achei abordados superficialmente: diferença de classe social, religião e aceitação social de membros.  Outros pontos revistos de maneira leve mas também apontados por leitores tais como orgulho, vergonha e ego, a mim, pareceram retratados de maneira tão  banal que tampouco imagino a necessidade de mencioná-los. No entanto essa é uma leitura prazerosa.  Leve. Bom retrato da época, que nos lembra dos grandes heróis literários do período. Bom passatempo.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.

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O humor de Mark Twain

3 04 2017

 

 

DohanosIlustração de Stevan Dohanos, para The Saturday Evening Post, Janeiro, 1946.

 

 

Um dia, durante uma série de palestras  do gênero comédia em pé, através do país, Mark Twain entrou numa barbearia para fazer a barba.  Twain contou, então, ao barbeiro que era sua primeira visita à cidade.

“Você escolheu uma boa hora para vir,” disse o barbeiro.

“Sim?” respondeu Twain

“Mark Twain dará uma palestra hoje à noite. Imagino que você vá querer vê-lo?”

“Acho que sim…”

“Já comprou sua entrada?”

“Não, ainda não,”

“Bem, já está esgotada. Só terá lugar em pé.”

“É a minha sina,” disse Twain com um suspiro.  “Sempre fico em pé quando aquele cara visita a cidade!”





Palavras para lembrar — Mark Twain

3 09 2016

 

 

Hans van Meegeren (holandaa, 1880-89-1947) Retratro de Paulina Viola de Boer, 1944. Ost, . 115 x 117 cm Retrato de Paulina Viola de Boer, 1944

Hans van Meegeren (Holanda, 1889 -1947)

óleo sobre tela, 115 x 117 cm

 

 

“Meus livros são água; as obras dos grandes gênios são vinho — todo mundo bebe água.”

 

 

Mark Twain





Resenha: “A garota de Boston” de Anita Diamant

24 07 2016

 

 

Ginger greenblatt“Front Beach” em Rockport, Ma, 2013

Ginger Greenblatt (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

http://artginger.com

 

 

 

Que bela voz narrativa seduz o leitor de A garota de Boston! Addie Baum, personagem principal, conta para sua neta, prestes a se formar, sobre sua juventude, e sobre a família, imigrantes poloneses que precisavam  trabalhar,  vencer e sobreviver no início do século XX na cidade de Boston.  Com essa premissa Anita Diamant  leva o leitor a revisitar os primeiros trinta e poucos anos do século passado mostrando ao invés de descrever as dificuldades dos imigrantes, de qualquer nacionalidade, em se adaptarem e ajustarem a um novo país.  Ela também nos instrui a respeito de facetas da história americana facilmente esquecidas cem anos depois.

O que empolga a respeito dessa narrativa fácil de ler, dessa suave volta ao passado é a encantadora personagem principal, a única da família já nascida em solo americano e que, talvez por isso mesmo, é aquela com o espírito desbravador e rebelde.  Não é a única rebelde. Addie tem habilidade de se rodear por pessoas que também se rebelam contra costumes da época, hábitos do velho mundo transportados para o novo e consegue, através dos anos, formar com outras jovens com que se relaciona, um grupo de mútuo apoio.

 

 

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Ainda que Addie Baum seja filha de imigrantes judeus, e que os costumes mantidos pela família sejam aqueles o mais próximo possível dos perpetuados na Polônia, Anita Diamant nos faz ver que dentro do judaísmo havia e há diferentes costumes e diferentes enfoques. Além disso, a autora mostra, com sucesso, que a vida do imigrante é a mesma para quase todas as culturas: italianos, judeus, irlandeses.  Foram bem recebidos mas com preconceitos, como parecem ser até hoje em qualquer lugar do mundo.  Os que os hospedam não entendem hábitos diferentes, nem costumes estranhos.  No final são só as gerações futuras que são as verdadeiras donas da terra.

Mais que isso, a história de Addie Baum mostra que, diferente do folclore cultural que acredita ser impossível;  mulheres podem, conseguem e fazem amizades profundas com outras mulheres que, por sua vez, lhes servem de equipe de apoio.  A crendice de que mulheres estão sempre competindo com suas iguais é um mito.  Mais do que qualquer homem, elas sabem entender os problemas das outras. Por essa perspectiva A garota de Boston poderia ser considerado um livro feminista, porque é uma história de empoderamento da mulher.  Mas é tão suave e delicioso que a mensagem feminista vem no contexto, quase na reflexão pós-leitura. Enquanto a história se desenrola, torcemos por Addie, por sua independência, por sua necessidade de conhecimento, pelo sucesso, profissional e amoroso que deveria coroá-la.

 

anita diamantAnita Diamant

 

Esta história é uma pouco mais longa do que uma novela ou um conto prolongado.  Diagramação editorial o transforma num livro de quase 300 páginas(272), mas é facilmente devorado num fim de semana.  Nele encontrei uma heroína que não era comum quando eu tinha meus dezesseis anos e procurava exemplos de mulheres que se rebelavam e “dava certo”.  Felizes são as moças de hoje que podem encontrar em Addie Baum alguém em quem se espelhar. É um livro que levanta o espírito, que joga a leitora para uma visão positiva da vida.  Não há nada de errado com isso.  E apesar de minha sobrinha estar com vinte e poucos anos, ela receberá esse livro pelos correios, com um cartão da tia: “Leia, tenho certeza de que vai gostar.”

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Resenha: “Memórias de um casamento” de Louis Begley

3 04 2016

 

Konstantin Razumov (Russia,1974)Elégante sur la terrasse, ost, 33 x 22 cmElegante no terraço

Konstantin Razumov (Rússia, 1974)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

 

 

Na capa de trás da edição brasileira de Memórias de uma casamento, somos  informados de que aqui encontraremos “um olhar profundo sobre uma classe e seus privilégios, numa trama que se desenvolve entre Paris e Nova York, Long Island e Newport”. Coroando essa apresentação, como que para justificá-la temos uma citação atribuída ao Washington Post: “Entre os escritores contemporâneos, Begley talvez seja o crítico mais sagaz e devastador do sistema de classes da sociedade americana”.  Nada mais ilusório.  Ainda que os personagens dessa narrativa sejam pessoas da classe social mais alta nos EUA, o foco está no retrato de uma mulher, complexa, vazia, intolerante, fútil, provavelmente ninfomaníaca, certamente  desequilibrada emocionalmente.  Como ela, existem centenas de outras em qualquer classe social. Ela causa danos a qualquer grupo familiar. Não importa, na verdade, onde nasceu, em que família, com quem casou.  Tipos como o dela não precisam ser da mais alta sociedade.  Eles existem em todo canto.

 

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Louis Begley é fiel a dois de seus predecessores: Henry James, grande mestre da literatura americana de final de século, também produziu, como mandava o seu tempo, romances  retratando tipos de mulher: Portrait of a Lady; Daisy Miller vêm à mente;  enquanto  Louis Auchincloss, já em pleno século XX,  também se esmerou nesse gênero como o fez em Sybil, The Dark Lady e outros. No Brasil, deste autor, encontramos em tradução:  A infinita variedade dessa mulher mais um de seus perfis de mulher.  Curiosamente, ambos Henry James e Louis Auchincloss se especializaram nos retratos de mulheres das classes sociais mais altas dos EUA.  No Brasil, a tradição literária dos perfis de mulher,  não se limita às classes mais altas, mas, como nos EUA, começa no século XIX, com Machado de Assis [Helena] e sobretudo com José de Alencar [Senhora, Diva, Lucíola, entre outros].

 

louis begleyLouis Begley

 

Ficam por aí as comparações. Ainda que a prosa de Louis Begley  seja agradável e os olhos corram sem obstáculos pelo texto, a apresentação da personagem principal Lucy De Bourgh, herdeira de mais de uma família importante da Nova Inglaterra,formada por pessoas  vindas no Mayflower e no Arabella, portanto entre os primeiros a chegar no continente americano, é monótona. Não há diálogos nestas 194 páginas. Há monólogos  de Lucy, de Jane.  Há cartas.  Em suma, falta dinamismo no texto. Temos diversos relatos, por diferentes pessoas. Contudo o texto flui.  Não só por habilidade do autor, mas também pela malévola e mórbida curiosidade despertada no leitor para saber sobre os detalhes, tintim por tintim, do malfadado casamento, onde o respeito pelo próximo é inexistente.

Tivesse Louis Begley usado de outros meios para narrar talvez pudesse ter despertado maior interesse nesta leitora.  Como está, trata-se de uma obra um tanto medíocre se comparada às suas anteriores, principalmente Sobre Schmidt e Schmidt Recua.





Casas tranquilas nos EUA, texto de Dalia Sofer

24 01 2016

 

 

Jessica Rohrer (EUA, 1974) 2014-Street-Center-12x19, ospRua Central, 2014

Jessica Rohrer (EUA, 1974)

óleo sobre placa, 30 x 48 cm

 

 

“Na sala de aula, durante uma projeção de slides de arquitetura, ele escreve uma carta para os pais. Na semi-escuridão do auditório de palestras ele escreve que tudo está bem na faculdade, que o proprietário do apartamento é muito simpático e cuida bem dele. Quando termina, levanta a cabeça e vê os perfis dos colegas de classe iluminados pela luz do projetor, hipnotizados pelo clique-clique das transparências, pelo tom de voz monótono do professor e pelas brilhantes imagens das casas californianas na tela — o exterior de madeira, os pátios, as grandes extensões de vidro com vista para os jardins. Essas casas todas parecem muito limpas, simples, ensolaradas e alegres, portando em suas linhas descomplicadas a promessa de décadas dóceis, passadas na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, mas sem oferecer proteção nenhuma contra o tédio que acompanha tudo isso. Olhando para as imagens, ele conclui que seus colegas de classe — simpáticos, com seus trajes impecáveis e essencialmente ilesos — são produtos de tais lares.”

 

 

Setembros de Shiraz, Dalia Sofer, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, p. 40

 

 








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