Sobre a beleza, texto de Adriana Lisboa

27 08 2017

 

 

Adilson SantosMenina lendo, 2010

Adilson Santos (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 43 x 31 cm

 

 

“…A beleza, claro, não é uma banalidade cultivável em academias de ginástica e mesas de cirurgiões plásticos, não é um bem comprável em lojas de móveis caros, não é uma senha guardada por esteticistas, decoradores, estilistas. É a minúscula e poderosa alegria de um gesto. Um toco de lápis, uma pequenina cicatriz na pele, o sol sobre a calçada rachada diante da papelaria, à tarde. Os vinte, trinta, cinquenta arco-íris de um pequeno prisma de vidro. A cunhatã de um poema de Manuel Bandeira, escurinha, quatro anos de idade, para quem o ventilador era coisa que roda e que quando se machucava dizia: Ai, Zizus!”

 

Em: Um beijo de Colombina, Adriana Lisboa, Rio de Janeiro, Rocco:2003, p.53





O Grupo de leitura Papalivros recebe o escritor Francisco Azevedo

20 08 2017

 

Grupo 3.jpgEncontro do Grupo de leitura Papalivros com o escritor Francisco Azevedo, 20/08/2017.

 

De vez em quando o grupo Papalivros tem uma noite memorável como a deste domingo.  Inesquecível talvez seja a melhor descrição do encontro com o escritor Francisco Azevedo, autor do queridíssimo romance Arroz de Palma, favorito do público brasileiro.  Discreto, quase tímido, o autor teve a gentileza de conversar sobre seu novo romance, Os novos moradores, lançado em junho deste ano pela editora Record e lido pelos 22 membros do grupo.

Ouvi-lo contar sobre o desenvolvimento da trama, sobre personagens entrando e saindo de aventuras como seres independentes da própria vontade do escritor, tê-lo como intérprete de passagens, dividindo conosco a experiência de resolver pequenos empecilhos ao longo da escrita, tornaram a leitura de Os novos moradores muito mais rica do que poderíamos imaginar, mesmo num romance cuja história complexa e transgressora, parece tão bem costurada.

 

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Quem vê Francisco Azevedo, modesto, despojado, possuidor de uma linguagem poética fluente não imagina que seus livros possam contar histórias de famílias, como as nossas, como aquelas de nossos vizinhos, amigos ou de nossos avós, e simultaneamente inserir nessas tramas, prudentes e confiáveis, elementos violadores de valores tradicionais que nos fazem questionar nossos próprios preconceitos. É uma arte.  E aprendemos muito com o autor.

Foi um prazer ter Francisco Azevedo entre nós. E desejamos a ele muito sucesso com mais este romance, passado no Rio de Janeiro.

LIVROS DO AUTOR:

Arroz de Palma, Editora Record: 2008

Doce Gabito, Editora Record: 2012

Os novos moradores, Editora Record: 2017





Livros e identidade cultural, texto de Luís S. Krausz

21 07 2017

 

 

COLLIER, Edwart, Vanitas(Holand, 1640-1710) Still-Life,1662,Oil on canvas, 98 x 130 cm,Private collectionVanitas,  1662

Edwart Collier (Holanda, 1640-1710)

óleo sobre tela,  98 x 130 cm

Coleção Particular

 

 

“Em Rolândia, a Sociedade Pró-Arte congregava os órfãos da cultura germânica e europeia, e promovia leituras públicas de versos de Rilke, Heine, Goethe e Schiller, e as discussões de livros que já tinham sido banidos e esquecidos na Alemanha e que sobreviviam, espremidos entre as caixas de bananas, na distância daquelas terras, para iluminar, com suas visões do sublime, os caminhos de perplexidade dos fugitivos, como pequenos templos portáteis, como fragmentos de luz e sinaleiros na longa noite, como as estrelas fixas que orientam as rotas dos navios que cruzam o oceano, como as pepitas de ouro e de prata que, em suas expedições ao coração da Amazônia peruana, Günther Holzmann imaginava que encontraria, em leitos de rios e nas entranhas da terra virgem, e que o salvariam da pobreza e da desorientação de caminhante solitário em terras estrangeiras.”

 

Em: Bazar Paraná, Luís S. Krausz, São Paulo, Benvirá: 2015, p. 65

 





Resenha: “Diário da queda”, de Michel Laub

5 06 2017

 

 

H. Weiss, NA escola, ost,Na escola

H.  Weiss (Polônia, contemporâneo)

óleo sobre tela

 

Que boa surpresa a leitura de Diário da queda de Michel Laub. Há uns poucos meses eu havia lido outro de seus livros: O Tribunal de quinta-feira. Apesar de ter chegado ao fim, foi um livro que não me entusiasmou. Mas, meu amigo Gilberto Ortega Jr insistiu que eu lesse Diário da queda, lembrando que este seria o primeiro de uma trilogia, da qual O Tribunal é a última obra.   Numa sala de espera comecei a leitura e não a deixei de lado.  24 horas foi o período necessário para ler o livro todo.  E o considero muito bom, muito bom mesmo!

É uma obra pequena, 152 páginas, densa, mas fácil de ler, abrangendo diversos tópicos complexos: a definição de amizade – de Aristóteles até hoje um assunto que ocupa filósofos no mundo inteiro;  duas passagens na vida de um homem — a adolescência (treze anos) e maturidade (aos quarenta),  a importância da memória e da herança cultural numa família, conflitos entre pais e filhos. É a vida. Algumas preocupações triviais, mas importantes pontuam o texto:  primeira traição,  primeira experiência sexual, dependência do álcool.

 

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Michel Laub é iconoclasta na narrativa. Há capítulos com parágrafos numerados, outros discorrendo de modo tradicional. Há passagens com entradas interessantes de um diário positivo, de como as coisas deveriam ser num mundo idealizado. Há entradas em diários. Essa combinação transforma a narrativa num texto de grande vivacidade e fácil entendimento. Breve. Talvez o que mais surpreenda seja a força emocional que o texto carrega nas incansáveis repetições de incidentes que o narrador considera importantes marcos em sua vida.  A menção a certos fatos, a volta a eles, a análise deles, o retorno novamente aos momentos cruciais, cada vez de uma maneira, trazendo ao leitor uma ponta a mais de conhecimento do que aconteceu, mas sob um novo ângulo, uma gota de conhecimento, pequena  e essencial de informação desconhecida até então, tudo nessa construção do texto leva a uma angústia pulsante, à espera de que haja uma resolução ao que o personagem principal incessantemente descreve e destrincha.

 

Michel-LaubMichel Laub

 

É um texto intenso. Cuja ternura e carinho só se revelam no final, culminando de modo pungente.  Não soluciona problemas.  Como a vida, a história fica em aberto, mas a narrativa dá entendimento e provoca reflexão sobre a obsessão do autor cujos passos acompanhamos sem hesitar.  Nas duas últimas páginas completa-se um ciclo, fecha-se o todo. Percebe-se finalmente a força motivacional desse confessionário do qual participamos. E aí sim, percebemos a  força da carga emocional que define a história.  Os olhos umedecem.  O impacto é forte e excelente.

Agora vou ler A maçã envenenada, segundo volume da trilogia e reler Tribunal da quinta-feira. Quem sabe se não terei melhor impressão deste último tendo lido os anteriores?  Leitura recomendada, com ênfase.

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O ideal de nhonhô, texto de França Júnior

9 05 2017

 

 

Timotheo da Costa, Menino, ostMenino

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre madeira

 

 

O ideal de nhonhô

 

França Júnior

 

“Eu era pequeno e rechonchudo, como uma bola. O nariz escondia-se-me entre as bochechas e não havia mostrado ainda essa tendência para disparar pela cara, como aconteceu mais tarde. Pediam-me beijos e diziam, segurando-me no queixo: “Que menino bonito!”  — Não se riam, a gente daquele tempo não era lá das mais exigentes. O meu ideal, em ser republicano, era o da liberdade sem limites. No dia em que o grito de: férias! ecoava quatro cantos do colégio, uma sensação inexprimível se apoderava de todo o meu ser.  Férias! Nessa palavra mágica não se encerrava só a ausência de palmatória e o abandono dos livros, mas principalmente a roça com todos os seus prazeres e encantos. Quinze dias a correr pelos campos, a perseguir como um louco as borboletas azuis, virar cambalhotas na relva, adormecer extenuado à sombra do arvoredo, tudo isto bulia-me por tal forma com o sistema nervoso que eu sentia comichões em todo o corpo e não podia estar cinco minutos sem dizer: “Chi! Que belo! Vamos amanhã! Tomara que fosse hoje já! Trá la´lá, lá li, li!”

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 234.

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Um passeio ao Pão de Açúcar, texto de Pedro Nava

23 03 2017

 

 

Felisberto Ranzini (1881 - 1976) Pão de Açúcar Aquarela 33 x 50 cm.Pão de Açúcar

Felisberto Ranzini (Brasil, 1881-1976)

Aquarela sobre papel, 33 x 50 cm

 

 

“UMA COISA FABULOSA que fiquei devendo ao noivado de minha prima foi a excursão que fizemos ao Pão de Açúcar nos bondinhos aéreos inaugurados em 1912 e 1913. Tinham quatro para cinco anos e eram uma novidade que o Joaquim Antônio queria comparar com os que vira na Europa. Combinou-se o passeio e ele próprio me incluiu no grupo dizendo que “mestre Pedro vai conosco”. Éramos ele, eu, a noiva, tia Candoca e a Mercedes Albano. Para essa coisa meio esportiva que era a ascensão que ia ser feita, vesti meu terno número um, o Joaquim Antônio colarinho duro de pontas viradas, a Maria e a Mercedes grandes chapéus e vestidos escuros, a futura sogra sedas, veludos pretos e uma toque alta de pluma póstero-lateral. Exatamente, pois possuo os retratos tirados nesse dia inesquecível. Lanchamos na Urca — chá, torradas, sanduíches, mineral e para mim, tudo isso e o céu também — gasosa! Subimos depois do por do sol e o acender das luzes da cidade nas alturas do Pão de Açúcar dos ventos uivantes. Não sei dos outros. No cocuruto eu desci um pouco no declive que dá para o maralto, sentei no granito e olhei. Jamais reencontrei coisa igual senão quando, em Capri, subi à casa de Axel Münthe e no dia em que sobrevoei Creta para descer em Heraclion. Estavam presentes todas as cores e cambiantes que vão do verde e do glauco aos confins do espetro, ao violeta, ao roxo. Azul. Marazul. Azurescências, azurinos, azuis de todos os tons e entrando por todos os sentidos. Azuis doce como o mascavo, como o vinho do Porto, secos como o lápis-lazúli, a lazulite e o vinho da Madeira, azul gustativo e saboroso como o dos frutos cianocarpos. Duro como o da ardósia e mole como os dos agáricos. Tinha-se a sensação de estar preso numa Grotta Azzurra mas gigantesca ou dentro do cheiro de flores imensas íris desmesuradas nuvens de miosótis hortênsias — só que tudo rescendendo ao cravo — flor que tem de cerúleo o perfume musical de Sonata ao Luar. Malva-rosa quando vira rosazul. Aos nossos pés junto à areia de prata das reentrâncias do Cara-de-Cão, ou do cinábrio da Praia Vermelha, o mar profundo abria as asas do azulão de Ovale e clivava chapas da safira que era ver as águas das costas da Bahia. Escuro como o anilíndigo do pano da roupa que me humilhava nos tempos do Anglo-Mineiro. Mas olhava-se para os lados de Copacabana e das orlas fronteiras além de Santa-Cruz e o meitleno marinho se adoçava azul Picasso, genciana, vinca-pervinca. As ilhas surgiam com cintilações tornassóis e viviam em azuis fosforescentes e animais como o da cauda seabrindo pavão, do rabo-do-peixe barbo, dos alerões das borboletas capitão-do-mato da Floresta da Tijuca. Olhos para longe, mais lonjainda — e horizontes agora Portinari, virando num natiê quase cinza, brando, quase branco se rebatendo  para as mais altas das alturas celestes azul celeste azur só possível devido a um sol de bebedeira derretendo os contornos as formas e virando tudo no desmaio turquesa e ouro e laranja dos mais alucinados Monets Degas Manets Sisleys Pissarros. Mas súbito veio o negro da noite acabando a tarde impressionista. As luzes se acenderam em toda a cidade mais vivas na fímbria orlando o oceano furioso. Eu nem me lembro como vim rolando Pão de Açúcar abaixo aos trancos e barrancos daquele dia vinho branco…”

 

 

Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, pp. 129-30.





Resenha: “O tribunal da quinta-feira” de Michel Laub

6 02 2017

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Mike no chuveiro do vestiário

Nathaniel Wyrick (EUA, contemporâneo)

acrílica e gloss sobre tela, 40 x 60 cm

Há pouco tempo durante a disputa à presidência dos Estados Unidos, uma gravação de um dos candidatos se gabando de conquistas amorosas em termos chulos vazou na rede social criando polêmica.  A raiz do problema era, em parte, o linguajar usado numa conversa particular, classificada pelo autor como “papo de homem, papo de vestiário”, onde a vanglória sexual e linguagem grosseira são socialmente permitidas. Semelhante problema se desenvolve na vida de José Victor personagem principal de O tribunal da quinta-feira.  Tendo trocado emails com seu melhor amigo Walter sobre fantasias e feitos sexuais, usando imagens e linguagem grosseiras,  ele se encontra mais tarde vitima do vazamento de seus textos. Sem dúvida, a perda de privacidade é um tema atual mas este livro aborda outros  assuntos controversos,  que servem de teste para a ética contemporânea.

Entre os assuntos abordados estão o roubo de informações particulares e a disseminação desses dados pelas redes sociais; assim como a obrigação ética de se revelar uma doença sexual transmissível, como a AIDS. Há outro aspecto ético não tão óbvio que permeia o texto: a escolha de certas expressões grosseiras seria de fato o retrato de um preconceito?  Ou pode ser escusado justamente por ser de uso comum em certos ambientes?  E pode ser usado em conversas privadas?  No momento, tendemos a crer na força da palavra falada ou escrita.  Há aqueles que defendem a mudança de palavras em canções folclóricas, como “Atirei o pau no gato” ou na supressão de certas marchinhas consideradas preconceituosas dos bailes de Carnaval, festa em que tradicionalmente burlam-se as regras sociais. O comportamento  ético e o politicamente correto estão em foco.

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Grande maestria foi necessária para atingir o nível de simplicidade quase jornalística do texto que à primeira vista parece sem arte.  Há também o excelente desenvolvimento do personagem principal, cujas obsessões e humor abrem a porta da simpatia para o leitor.  A linguagem e os pequenos capítulos dão a falsa impressão de um trabalho solto e inconsequente.  Mas a trama é desenvolvida com pontos bem fechados que sustentam o ritmo acelerado.  A prosa de Michel Laub, que conheço até agora só por esse livro, lembrou-me a do escritor americano Phillip Roth: clara, sem requintes literários tratando da desintegração da sociedade, da guerra entre os instintos carnais e os morais num contexto de grande contemporaneidade e explorando a obsessão do narrador consigo mesmo.

É, no entanto, justamente nesse ponto que o autor me decepciona, porque os problemas de José Victor, ainda que honestamente alcançados são produto de uma realidade tão imediata que o mero espaço entre a escrita do texto e sua publicação já mostra defasagem de hábitos. Hoje pouquíssimo de pessoal é comunicado através de emails. Senhas escritas, com a possibilidade de serem perdidas e encontradas em mãos alheias têm o gosto de passado, de já visto. Bastante explorado.  Esse é uma das dificuldades em se firmar uma história numa realidade que muda muito rapidamente.  Além disso, enraizar uma história com problemas tão corriqueiros e datáveis limita o escopo que a própria obra poderia ter adquirido.  Mas para que esse livro permaneça viável por mais de uma década, essas questões deveriam ter tido outro meio de serem apresentadas ao leitor.  A pergunta ética existe, mas está entrelaçada a uma trama com data de validade.

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Fora essa observação, O tribunal da quinta-feira é um livro bom, de leitura rápida que nos faz pensar e questionar assuntos do cotidiano e nosso posicionamento ético a respeito deles.

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