Guarda-chuvas, poesia infantil de Rosana Rios

2 05 2019

 

 

 

DSC01042Monica pega chuva voltando do mercado, Ilustração Maurício de Sousa.

 

 

 

Guarda-chuvas

 

Rosana Rios

 

Tenho quatro guarda-chuvas

todos os quatro com defeito;

Um emperra quando abre,

outro não fecha direito.

 

Um deles vira ao contrário

seu eu abro sem ter cuidado.

Outro, então, solta as varetas

e fica todo amassado.

 

O quarto é bem pequenino,

pra carregar por aí;

Porém, toda vez que chove,

eu descubro que esqueci…

 

Por isso, não falha nunca:

se começa a trovejar,

nenhum dos quatro me vale –

eu sei que vou me molhar.

 

Quem me dera um guarda-chuva

pequeno como uma luva

Que abrisse sem emperrar

ao ver a chuva chegar!

 

Tenho quatro guarda-chuvas

que não me servem de nada;

Quando chove de repente,

acabo toda encharcada.

 

E que fria cai a água

sobre a pele ressecada!

Ai…





A abelha, poesia infantil de Rosa Clement

6 04 2019

 

 

 

abelhaAbelha feliz, ilustração anônima, acredito ser brasileira.

 

 

A Abelha

 

Rosa Clement

 

A abelha voou, voou.

Queria molhar o pé

e pousou na minha xícara

cheia de leite e café.

 

A abelha voou, voou.

desenhando um coração.

Queria provar um pouco

da geléia no meu pão.

 

A abelha voou, voou

Queria voar no céu

e eu que queria provar

um pouquinho de seu mel.

 

A abelha voltou, voou.

Queria me deixar feliz.

Achou que eu era um doce

e pousou no meu nariz.

 

(2010)





Memória, texto de Francisco Azevedo

23 03 2019

 

 

 

Joel Oliveira - quadro óleo sobre tela 20x30cm LeituraLeitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

 

 

 

“Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim, como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, caras de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem um pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.”

 

Em: Eusoueles [fragmentos], Francisco Azevedo, Rio de Janeiro, Editora Record: 2018, p. 127.





Indiferença, poesia de Guilherme de Almeida

21 02 2019

 

 

 

95ebef1a8428ae23f80bdbcb6b241453Ilustração de Coby Whitmore

 

 

Indiferença

 

Guilherme de Almeida

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!





Peço um conto e levo todos!

16 12 2018

 

 

 

Vladimir Volegov Finished pantingFrench swing, 92x73 cm, oil on canvas, 2014Balanço francês, 2014

Vladimir Volegov (Rússia, 1957)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

 

Quando vi que foi lançada uma antologia de contos de autores brasileiros contemporâneos e que um dos meu escritores favoritos, Ronaldo Wrobel, havia sido incluído neste volume, corri a procurar o conto.

Descobri que podemos adquirir os contos individualmente ou comprar o volume com 30 contos na Amazon.  O livro é digital e publicado pela Amazon.  Não tive dúvidas e comprei o conto “A história de Joseph Koppel” de Wrobel.

A história tem dois locais Brasil e Alemanha da Segunda Guerra Mundial.  Lá ela se desenvolve entre esconderijos e fugas do judeu Joseph Koppel, que se torna um faz-tudo com diversas profissões. Fugindo dos nazista, ele encontra abrigos variados.  Em uma fuga é resgatado por uma mulher por quem se apaixona. Chama-se Louise.  E ela lhe dá abrigo na casa em que mora numa pequena aldeia povoada só por mulheres: os homens, quatro deles, eram velhos ou crianças.  Isso torna difícil convencer o militar alemão que a cortejava a aceitar a eventual gravidez de Louise.  Como?  De quem?  A paixão entre Louise e Joseph deixara provas concretas na barriga de três meses que ela tentava esconder.  A partir daí a narrativa se acelera.  E em típica criação de Wrobel, quando a gente pensa que vai indo para um lado… somos enganados e levados para outro.  Como pode alguém com tão poucas palavras nos iludir tão bem? É mágica!  O final desta história, contada por Joseph,  que emigrou para o Brasil e se estabeleceu no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro, tinha que ser surpreendente. E é.

Gostei tanto deste conto que, depois de terminá-lo, verifiquei os autores presentes na coletânea.  E como alguns também me agradam, vou comprar a Coleção Identidades.  Está valendo a pena!





Palavras para lembrar — Aluísio de Azevedo

6 12 2018

 

 

István Nagy (Hungria, 1873-1937), O leitorO leitor

István Nagy (Hungria, 1873 – 1937)

óleo sobre tela

 

“Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam n’alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.”

 

Aluísio de Azevedo





Desejos, Mário Quintana

4 12 2018

 

 

astros, blanche wrightAstros, ilustração de Blanche Wright.

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

 

Mário Quintana.








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