Famosa e invisível: Mrs. Grundy

28 06 2020

 

 

5c8dfa62a28072ff19e9316cc791fae7No teatro, 1928

Prudence Heward (Canadá, 1896 – 1947)

óleo sobre tela, 101 x 101 cm

 

Uma curiosidade literária: famosa personagem teatral que nunca foi vista no palco, torna-se tão popular que passa para a história da língua inglesa, como personagem que lembra decência, propriedade, disciplina, mais tarde considerada como autoridade de censura e tirania social.

Mrs. Grundy foi apresentada ao público inglês pela primeira vez por Thomas Morton, (1764-1838) famoso dramaturgo britânico, na peça Speed-the-plough, (1798) cuja melhor tradução para o título seria Seguindo em frente.  Procurei por uma tradução desta comédia em 5 atos no Brasil, não encontrei de pronto. Para essa postagem não valeria a pena procurar muito além da internet.  Nesta comédia, Mrs. Grundy é um personagem a quem outros personagens se referem, mas que nunca aparece, desde a primeira cena, quando Dame Ashfield, coberta de inveja, chega em casa e comenta com o marido que, a vizinha, Mrs. Grundy conseguiu melhor preço do que eles na manteiga e no trigo. Daí por diante,  passa a ter uma obsessão com a vizinha achando que até o sol sempre parece brilhar mais na terra alheia do que na dela.

Why don’t thee letten Mrs. Grundy alone? I do verily think when thee goest to t’other world, the vurst question thee’ll ax ‘ill be, if Mrs. Grundy’s there?” [Por que não deixas Mrs. Grundy de lado? Na verdade, acho que quando chegares no outro mundo, a primeira pergunta que farás, se Mrs. Grundy está lá?]

 

800px-Sadlers_Wells_Theatre_editedUma performance em Sadler’s Wells, c. 1808

 

Durante o século XIX Mrs. Grundy cresceu em sua importância, adquiriu algumas outras características de disciplina, defensora da moral aparecendo como autoridade dos costumes sociais e censura.  Quase quarenta e cinco anos depois de sua estreia na peça de Morton, Mrs. Grundy volta ao mundo das letras, no romance Phineas Quiddy (1842) de outro dramaturgo inglês, John Poole (1786–1872).  E em 1869, John Stuart Mill, filósofo inglês, publica o livro Sujeição das mulheres, em que defende igualdade para as mulheres, e menciona “quem tem mulher e filhas, tem reféns de Mrs. Grundy.  Daí por diante, ela é mencionada como árbitra dos costumes sociais em grande número de obras:

A feira das vaidades (1848), William Makepeace Thackeray

Tempos difíceis (1854), Charles Dickens

Mulherezinhas (1868), Louisa May Alcott

Erewhon (1871), Samuel Butler

A arte de ganhar dinheiro (1880), P.T. Barnun

Lobo do mar (1904), Jack London

Music at Night, (1931), Aldous Huxley

That Hideous Strength, (1945) C.S. Lewis

Entre muitos outros Aimée Crocker, Oscar Wilde,  William Gilbert,  G. K. Chesterton,  James Joyce, Robert A. Heinlein, Philip José Farmer, Mohandas Gandhi, Thomas Hard também se referem a Mrs Grundy.

Ficou famosa e nunca esteve no palco.  Famosa sem mostrar a cara.  Definitivamente outros tempos, sem redes sociais.

 

Citação do diálogo da peça,

Em: The Reader’s Handbook of Allusions, References, Plots and Stories, E. Cobham Brewer, London, s/d (possivelmente 1919)





Para melhorar os conhecimentos, Paul Auster

18 06 2020

 

book-and-coffee-jennifer-kafouryLivro e café, ilustração de Jennifer Kafoury.

 

 

No livro 4321 de Paul Auster, logo no início, somos apresentados a uma pequena lista de livros que, durante gravidez de perigo, a personagem  Rose Ferguson lê para melhorar seus conhecimentos gerais.  Aqui segue a lista.  Estamos em meados do século XX, pós Segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos.  Livros que Rose leu:

 
Suave é a noite, Scott Fitzgerald
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A casa da felicidade, Edith Wharton
Moll Flandres, Daniel Defoe
Feira das vaidades, William Thackeray
O Morro dos ventos uivantes, Emily Bronté
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A cartuxa de Parma, Stendhal
Primeiro amor, Ivan Turgueniev
Dubliners, James Joyce
Luz em agosto, William Faulkner
David Copperfield, Charles Dickens
Middlemarch, George Eliot
Washington Square, Henry James
A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne
Rua principal, Sinclair Lewis
Jane Eyre, Charlotte Bronté

Quem sabe você também não se anima a arredondar seus conhecimentos escolhendo alguns destes livros para ler ainda este ano?

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, página 32

 





Resenha: “A vida pela frente” de Émile Ajar

21 04 2020

 

 

 

Adam Clague Moça lendo, ost. 32 x 30 cmMoça lendo

Adam Clague ( EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 59 x 30 cm

 

 

Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar,  tradução  de  André  Telles,  originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt.  A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra.   Há também um grande trabalho de marketing,  desde seu lançamento em 2019.  Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e  compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras,  na primeira página.

Há uma  incompatibilidade de gênios  entre a obra e a leitora.  A vida pela frente é sentimental,  idealista  e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível.  Parece  estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia,  num  bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

 

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Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu.  A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência.  Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?”  Congelei.  Estava frente à  chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio  para um filme de Walt Disney, com a  necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos.  Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida.  Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.

Mas continuei a leitura.  Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão.  Eu tinha que chegar ao fim.  O que veio foi previsível.  Um texto para nos mostrar valores essenciais  para a humanidade.  Romance de formação?  Não vejo assim.  Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor.  Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.

 

emile ajarÉmile Ajar, pseudônimo de Romain Gary

 

Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores,  ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado.  Sinto muito.  Isso não é profundidade de texto.  Mostre-me.  Não me guie.

Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry,  que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial.  São bonitinhos.  Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”.  Não acho isso.  Não tenho essa visão.  É um livro pretensioso. Não é para mim.  Há muito passei  da  fase  de achar que frases bonitas refletem profundidade.

Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não  recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





“Alemães na Argélia” texto de Kaouther Adimi

17 04 2020

 

 

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“Alemanha,  1940

 

Na imprensa nazista, aparecem artigos sobre a situação nos países do norte da África ocupados pelo exército francês. A rádio alemã começa até mesmo a difundir transmissões em árabe.  Ouvimos, perplexos, esses jornalistas, que, de Berlim, apelam para que peguemos em  armas contra a França.  Parece que os soldados alemães são lançados de paraquedas no meio da noite, nos vilarejos perdidos da Argélia. Trazem latas de comida e oferecem chocolate às crianças. Estão lá para tentar nos convencer a aderir ao exército hitleriano, que  promete expulsar a França do país. Prometem que, graças à Alemanha, nossas crianças serão escolarizadas e a Argélia voltará a ser uma terra islâmica. Anos mais tarde, nesses mesmos vilarejos, encontraremos metralhadoras e um capacete alemão. Nossos avós encolherão os ombros: “Era um jovem soldado alemão que foi lançado de paraquedas aqui… Ele trouxe comida e nós o escondemos”. ”

 

Em: As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi, tradução Sandra M. Stroparo, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2019, página 65





Curiosidade literária

19 03 2020

 

 

 

show de rockIlustração Maurício de Souza.

 

 

Antes de ficar famoso pelo sucesso do livro “O código da Vinci”, o escritor Dan Brown foi um cantor pop.  Um de seus álbuns solo chamava-se “Anjos e Demônios”.

 

 

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Resenha: “4321”, Paul Auster

7 03 2020

 

 

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Ler um livro de mais de oitocentas páginas duas vezes em dois anos seguidos não é comum para mim.  Mais extraordinário ainda é mudar de opinião sobre obra lida tão recente. De boa passei-a para excelente, colocando-a finalmente entre meus favoritos.  Aconteceu com 4321 de Paul Auster, livro controverso que gerou defensores e críticos ferrenhos desde que publicado em 2017, nos EUA. Havia visto uma entrevista com Paul Auster no programa da televisão francesa La Grande Librairie, talvez pelo encantamento da conversa gerada naquela noite por François Busnel, talvez pela simpatia de Auster e a sua fluência na língua francesa, fato não muito comum entre escritores americanos, resolvi ler a obra, o que fiz na versão americana, em e-book.  Menos de um ano depois um dos meus grupos de leitura decidiu por votação abraçar esse volume como o livro da virada de ano, quando no lugar de quatro, temos seis semanas para leitura, permitindo envolvimento com obras mais longas.  Desta vez, li em português.  Mas voltei na segunda metade do livro à versão em inglês, porque no kindle as mais de oitocentas páginas não pesam na bolsa.  Esta experiência provou para mim, o quanto é importante o momento psicológico do leitor para apreciação de qualquer leitura. Em menos de dezoito meses meu entendimento e apreciação da obra mudou.

4321é um romance de formação (bildungsroman) multiplicado por quatro.  Explora quatro possibilidades de vida de um garoto, do mesmo garoto, Archibald Isaac Ferguson. Retratado com os mesmos pais e avós, o mesmo contexto social no início de vida.  À medida que cresce, eventos e o acaso interferem em cada uma das vidas, mudando-as singularmente.  São quatro histórias em uma. Muitas características de seu DNA são mantidas: o gosto pela leitura,  a facilidade de escrever, o amor aos esportes. Cada um dos Fergusons explora suas habilidades. Cada um reage a incidentes à sua maneira.  Fixos em suas vidas há os pais, Stanley e Rose, que também agem de modo diverso dependendo do destino do casal, os tios de Ferguson, com especial louvor a tia Mildred, e presente em todas as vidas, Amy Schneiderman às vezes como amiga, às vezes como irmã de criação, sempre fascinante para leitor e Ferguson. O acaso determina cada uma das vidas de Ferguson mas não o restringe. O extemporâneo determina as circunstâncias  e afeta o que é externo.

Dizem que conhecer leva ao amor. Se você um dia se perguntou como casamentos arranjados, praxe nos séculos anteriores, podiam levar ao amor, Paul Auster mostra o caminho.  Conhecemos Archie Ferguson tão bem através de suas vidas separadas e paralelas que a partir de um certo ponto o amamos, queremos que eles deem certo, que Ferguson tenha sucesso, qualquer um dos Fergusons.  E ao final, nas últimas páginas do convívio com este rapaz cujo crescimento escolar, sexual e emocional compartilhamos,  quatro vezes diferente, quando damos adeus ao livro,  sentimos pesar, luto.  O vácuo emocional com que ficamos, testemunhas dessa vida comum e extraordinária, é imenso.

 

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4321 também é um romance histórico, detalhando, em minúcia excepcional, as décadas cinquenta e sessenta, os conturbados anos da Guerra do Vietnã, do movimento negro, da política, dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King nos Estados Unidos e em Nova York, especialmente.  Auster surpreende.  A mim, surpreendeu mais, pois em duas ocasiões anteriores eu havia abandonado a leitura de seus livros, sem interesse de chegar ao fim de qualquer deles.  E aqui não só li, como reli.  Sinto que conheci este rapaz, cuja vida deixamos de acompanhar no início dos anos setenta.  Dizem que 4321  difere dos romances anteriores de Auster. E grande parte da crítica negativa que recebeu foi daqueles que esperavam um obra como as que a precederam e encontraram ali algo diferente.

Mas 4321 também é um romance de escritor para escritores. De escritor para seus seguidores.  É um compêndio de aulas de escrita, além de ter a lista mais detalhada que já encontrei dos livros que devemos ler para uma educação primorosa e sabermos como escrever e pensar.  Vemos todas as possibilidades da escrita, da reportagem jornalística às memórias,  cobertura de eventos esportivos, poesia, biografias, prosa, jogos de palavras, imitação de estilos, traduções, toda a gama de caminhos  caso você possa e se interesse em ser escritor. Mostra também a dedicação necessária para que isso aconteça e maneiras diferentes de como se tornar um escritor. Paul Auster educa os leitores, orienta seus seguidores com ambições no campo da escrita.  Ajuda a formar escritores e leitores.

 

Paul_Auster_BBF_2010_Shankbone_small-1Paul Auster

 

Na minha primeira leitura assinalei pontos que considerei negativos.  Achei o livro indulgente.  Com muitos elementos desnecessários, entre eles as infindáveis descrições de jogos de basebol.  Há também a ficção dentro da ficção: somos apresentados a criações literárias inteiras de algum Ferguson.  Não bastou nos dizer que escreveu um conto sobre sapatos.  Não.  Teve que incluir o conto inteiro, do início ao fim.  Enquanto esse aspecto me deixou de fria a irritada, na segunda leitura tive a sensação de que essas produções de Ferguson nos ajudam a entender o rapaz que se desvenda aos nossos olhos.

Qualquer senão que tive sobre 4321,  desapareceu na segunda leitura; enquanto pontos positivos se consolidaram.  É obra de grande fôlego. Fácil de ler.  A força narrativa de Auster ultrapassa até traduções.  Sua prosa, com as mais longas sentenças que lembro ter lido na literatura contemporânea americana, são um deleite para o leitor, lembram as extraordinárias narrativas europeias do século passado, quando ainda se atentava à produção da literatura com estilo e conteúdo. O tema é complexo e rico, explorando a versatilidade do ser humano.  Na segunda metade do século XIX Darwin revolucionou o pensamento ocidental quando disse “Não  é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas a que melhor responde às mudanças.”  Paul Auster nos mostra isso através de 4321.  Muitas vezes parece que Auster está engajado num diálogo com seus predecessores, com escritores e pensamentos do passado, americanos [e aqui abro um parêntese para mencionar não só Emerson mas Henry Adams] assim como escritores europeus, de Dickens a Balzac.  Auster faz literatura com o homem comum.  Constrói seus personagens lidando com problemas corriqueiros do dia a dia.  Eles crescem aos nossos olhos, conhecemos suas sagas, tão semelhantes às nossas vitórias e derrotas cotidianas.  Assim como nós, eles selecionam, às vezes bem às vezes não tão bem, as batalhas para lutar.  Humano como o leitor, Ferguson seduz.  Nessa simplicidade de escolhas, nas batalhas vencidas e nas derrotas, torna-se universal.  Nasceu um clássico.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade literária

1 03 2020

 

 

 

N08684-72-lr-1Hora do chá, 1909

Henry Salem Hubbell (EUA, 1870 – 1949)

óleo sobre tela, 82 x 50 cm

 

A primeira menção de alguém tomando uma xícara de chá na Inglaterra, aparece no Diário de Samuel Pepys no dia 25 de setembro de 1660.

 

 

41OM7Mhtx1L._SY197_BO1,204,203,200_O diário de Samuel Pepys, 18 volumes.

 

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História de um casamento, texto de Pedro Mairal

21 02 2020

 

 

 

Couple Talking by Simon Glücklich (c.1898). Austrian painter.Casal conversando, 1898

Simon Glücklich (Áustria, 1863-1943)

óleo sobre tela, 77 x 92 cm

 

“Preciso te dar os parabéns por não comer uma mulher?, você dizia, preciso te agradecer? Você belicosa, zangada. E não se deu por vencida. Você é boa em discussão. Me diga o que você quer, você insistia. E eu sem dizer mais nada. Não quis continuar. Em que momento o monstro que nós dois éramos foi ficando paralítico? Antes a gente trepava em pé, lembra? No terraço do seu apartamento em Agüero, encostados no armário que pintamos juntos, no chuveiro, uma vez em cima da mesa da copa. Éramos incríveis assim, nos procurando. Tínhamos  fome um do outro. De frente com uma perna apoiada na parede, de quatro na poltrona, derrubando os enfeites da mesa, você por cima, envergando o corpo de repente como se fosse abduzir uma nave extraterrestre. Se nos ocorria alguma coisa, éramos versáteis, dinâmicos, girávamos pegando fogo.  Pouco a pouco nossa fera de duas costas foi ficando abatida, deitou-se, não levantou mais. Surgia só com a vizinhança da cama, com o contato, horizontal, a fera indolente, trepadas de uma só posição,  missionários previsíveis, ou então você de barriga para baixo, quase ausente. Sós e juntos. Ou nas noites em que você estava tão cansada que não chegava a se enfiar direito debaixo das cobertas, ficava entre o edredon e o lençol e não conseguia nem dormir de conchinha com você, nem envolver sua cintura com a mão, nem agarrar seus peitos, nem te dar um beijo no pescoço, separados por um pano esticado, lado a lado, mas inatingíveis, como se estivéssemos em duas dimensões diferentes da realidade.”

 

Em: A uruguaia, Pedro Mairal, tradução de Heloísa Jahn, São Paulo, Todavia: 2019, pp. 10-11.





Resenha: “A Uruguaia” de Pedro Mairal

20 02 2020

 

 

 

Joaquin_Torres_Garcia_-_PinturaTabac, 1928

Joaquin Torres Garcia (Uruguai, 1874 –  1949)

óleo sobre  cartão,  52 x 73 cm

Museu de Artes Visuais do Uruguai

 

 

Há algum tempo coleciono pequenos romances, de preferência  de cento e cinquenta a duzentas páginas, cuja brevidade narrativa não esvazia a densidade literária.  A uruguaia, romance do argentino Pedro Mairal, preenche esses requisitos e depois  de lido achou um lugar especial entre outras obras do gênero:  O fuzil de caça  de Yasushi Inoue  e  A vida peculiar de um a carteiro solitário, de Denis Thériault.

Talvez seja uma das narrativas mais masculinas que li nos últimos tempos. O que isso quer dizer?  O ponto de vista e a maneira de contar são explicitamente masculinos.  Trata-se da história de um homem, num casamento que perdeu a paixão, frustrado profissionalmente, mantido pela mulher, que usa um pagamento antecipado de editoras sobre dois de seus livros  — ele é escritor — para sair de Buenos Aires, ir a Montevidéu, fazer uma operação de câmbio que só faz sentido na América Latina e  mais ainda na volúvel economia argentina.  Ele sai de manhã em direção a Montevidéu para efetuar a  transação bancária programada, enquanto secretamente nutre o desejo de se encontrar com Magali, “Maga”, jovem que o encantara meses antes, num evento literário no Uruguai e que desde então tem preenchido suas fantasias românticas.

 

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Volta para casa dezessete horas depois.  Neste meio tempo, enquanto viaja, nós também somos levados por ele através do tempo, aprendendo sobre seu casamento, filho, profissão, Magali,  o cotidiano em Buenos Aires e ausência de criatividade que o assola.  Também ficamos cientes de suas fantasias sexuais e do que planeja fazer ao encontrar a jovem uruguaia que o enfeitiçara. Nem por isso  deixamos de nos surpreender com os eventos.  Há um pequeno gosto de mistério nesta história.

Pedro Mairal desenvolve uma narrativa densa, clara, direta que encanta o leitor, levado pela mão a acompanhá-lo.  Repleto de referências à livros, escritores,  à  cena literária e cultural,  à música, com fino humor e destro gerenciamento, ele enriquece em muito o que em mãos menos hábeis não passaria de uma pequena aventura, de uma malandrice literária. Apesar de trabalhar seu texto incessantemente para chegar à clareza apesar da complexa linha narrativa, a leitura de A uruguaia é rápida, agradável e insinuante.

 

Pedro-MairalPedro Mairal

Por suas  constantes referências aos escritores argentinos e de outros lugares, Pedro Mairal posiciona sua escrita dentro do panorama literário atual da América Latina e percebemos que é junto a Borges,  Cortazar e outros de semelhante calibre que um dia pretende se encontrar.  Muito justo se continuar assim.

Entendo este ser seu segundo romance.  O primeiro Uma noite com Sabrina Love, que comprei depois de ler este livro, está na pilha para leitura próxima.  Já foi transformado em filme.  Sou fã do cinema argentino.  Filmes argentinos, quase sempre, são maravilhosos com perspectivas únicas sobre casos corriqueiros.  É justamente esse tom que permeia A uruguaia.  Parece roteiro de filme argentino.  E que roteiro!  Excelente leitura.    Recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Livros favoritos de Amor Towles

15 10 2019

 

 

 

Vicente do Rego Monteiro, Natureza Morta, Óleo sobre madeira, 1969, Assinado, datado 1969 e situado Recife superior direito, 67X 61 cmNatureza morta, 1969

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899 – 1970)

óleo sobre madeira,  67 x 61 cm

 

 

Amor Towles se transformou, depois da leitura de dois de seus livros, (Regras de cortesia e Um cavalheiro em Moscou) em um dos meus escritores contemporâneos cujos livros irei ler assim que forem publicados.  Portanto quando vi a lista de seis livros que ele considerou favoritos na revista The Week apressei-me em vê-la.  Já conheço a maioria, falta ler Gogol e os manifestos de artistas [acho que este não fará parte da minha leitura].  Mas se você está interessado, aqui vai:

1 – Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marques

2 – Se um viajante numa noite de inverno, Ítalo Calvino

3 – No caminho de Swann, Marcel Proust

4 –  Contos escolhidos de Nikolai Gogol

5 –  A insustentável leveza do ser de Milan Kundera

6 – 100 Artists’ Manifestos, editado por Alex Danchev

 








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