Cyrano de Bergerac, o verdadeiro – celebrando os 400 anos de nascimento!

9 03 2019

 

 

8-1-1898 Lillustration,Benoît-Constant Coquelin (Coquelin aîné), en Cyrano de Bergerac, à la première de la pièce du même nom, d' Edmond Rostand, le 27 décembre 1897 au théâtre de la Porte-Saint-Martin..Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia  da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.

 

 

Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX?  No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta].  Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.

Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta.  Veio de  família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac.  Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo.  Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa.  A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan,  Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay.  Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes.  Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.

 

 

cyrano Etienne Jehandier DesrochersCyrano de Bergerac

Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)

Gravura, de quadro a óleo

 

A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê.  Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos.  Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux.  Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos,  seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640.  Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.

 

Savinien_de_Cyrano_de_BergeracRetrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.

 

 

As obras de Cyrano de Bergerac,  L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica.  No primeiro livro, Cyrano viaja  à lua,  usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças.   Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.

Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.

 

Obra:

Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O  ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.

 

 La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654  [A morte de Agrippina, tragédia]

Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654

Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657

Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.

Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709

 

Aqui algumas ilustrações em sua obra:

 

1657 - Portada 1662

 

1657_ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil_

 

1657__ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil _

 

1657__ Le parlement des oiseaux des Etats et Empires du soleil_

 

travelling to the moon

 

 





Livros para presente? Que tal autores de língua francesa?

15 12 2018

 

EVHE (França), La lectrice, huile sur toile, 54 x 65 cm.Leitora

Evelyne Heimburger (França, contemporânea)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

 

 

Até os anos 70 do século XX ninguém poderia se considerar bem letrado, sem conhecimento básico da literatura em francês.  Não só da clássica, Balzac, Flaubert, Stendhal, Dumas, Maupassant, Jules Verne entre outros do século XIX, como os da primeira metade do século XX: Camus, Gide, Sartre, Beauvoir, Simenon, Colette, Yourcenar.

Assim como aconteceu nas artes plásticas ao final da Segunda Guerra Mundial,  o centro literário do mundo ocidental saiu da França e desembarcou nos Estados Unidos.  O mesmo ocorre através dos séculos: centros culturais locais e universais só existem onde há poder financeiro.  A Europa em pedaços, pobre, devastada pela guerra, não oferecia suporte para as artes: plásticas, literárias, dança, música ou qualquer outra. As artes necessitam de ambiente com amplo  poder econômico que as mantenham como boas amantes, que devem ser belas e dispendiosas, elas precisam ser teúdas e manteúdas.  Nas minhas primeiras aulas de história da arte, quer o tema seja arte moderna, medieval, barroca ou de qualquer era, tenho imenso prazer de chocar jovens idealistas que ali se encontram ao dizer, logo na primeira hora, que sem dinheiro não temos arte. Olhos cheios de emoção, sonhadores, visionários, custam a acreditar que no santuário do saber, na aula de história da arte, pudéssemos falar tão abertamente do vil metal.  O ar de desgosto é geral e alguns alunos ainda acham que conseguiriam arguir contra esta observação, mas estudar história, é em grande parte estudar os movimentos econômicos do mundo.  Pode ser história da ciência, militar, naval ou da arte.  O caminho será o mesmo.

Voltando à literatura na língua francesa: sim, ela sofreu.  Sofreu muito. O mundo anteriormente criado e mantido pela França estava ferido.  Quase ferido de morte.  Em parte com ajuda dos próprios franceses que, em muitas regiões, se submeteram aos invasores.  Passados meros 10 anos do final da Segunda Guerra Mundial a França sofreu mais ainda com a Guerra da Independência da Argélia,  de 1954 a 1962. Não bastasse a devastação a que o país se submetera no Regime de Vichy, a geração seguinte de franceses se afundou e morreu no norte da África. Os franceses dizem que 400.000 pessoas morreram dos dois lados, enquanto a Argélia mantém que 1.500.000 morreram.  Qualquer que seja o número, no final da Segunda Guerra Mundial a França contava um pouco mais de 40 milhões de cidadãos.  Quer sejam 200.000 ou 750.000 franceses mortos, o número é grande demais para o tamanho do país.

Com essas reviravoltas a produção literária francesa deixou a desejar se comparada ao que acontecia no resto do mundo.  E o poder financeiro estava fora da França e dos países em que a língua francesa era prevalente. Volta, os poucos, no início deste século. É claro que houve bons e capazes escritores no final do século XX, mas nunca chegaram a ter a proeminência de seus pares de outras terras.   Volta, reforçada pelas mãos de escritores vindos das ex-colônias, assim como aconteceu com Inglaterra e Portugal cujas obras contemporâneas estão repletas de talentos nascidos nos países aculturados.  A França ganhou a Segunda Guerra, junto aos aliados, mas perdeu poder no mundo.  A língua francesa, na época de minha mãe, um requisito para qualquer cidadão no mundo, perdeu influência, porque o país perdeu influência econômica.  Por mais que isso me deixe entristecida, já que me dediquei e dedico à leitura em francês, temos que admitir que a importância de uma língua está também atrelada ao poder econômico daqueles que a falam.  Nesse aspecto, a Inglaterra, também sofrida com a Segunda Guerra Mundial, e membro da mesma aliança de países que venceu o Eixo, se saiu bem melhor. Não só porque o inglês já era considerado a língua comercial do mundo, e portanto falada por muitos,  mas era a língua nativa da maioria dos países aliados.  A Grã-Bretanha recuperou e expandiu seu poder nas criações literárias produzindo alguns dos mais interessantes escritores na segunda metade do século XX,  muitos deles vindos de antigas colônias: Doris Lessing,  R.K. Narayan, Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, Alice Munro, Margaret Atwood e os britânicos Graham Greene, Martin Amis, Margaret Drabble, Ian McEwan, A. S. Bayett, Julian Barnes, Hilary Mantel, John Banville, Cólm Tóybín, Allan Hollinghurst,  Zadie Smith, Penelope Lively, entre outros que no momento me escapam.

Mas a França só perdeu o brilho temporariamente.  Aos poucos, a literatura originalmente produzida em francês reganha status voltando com algumas grandes contribuições de romancistas. Muitas obras ainda dedicadas às grandes chagas sociais do país sofrido por tantas e consecutivas guerras.   Isso é importante porque cada uma dessas nações europeias, sofridas com as guerras do século passado, tem visões bastante diferentes do mundo, sobre o que importa e sobre o papel do ser humano nas sociedades. São dessas tradições humanísticas, que enriquecem o cotidiano cultural do planeta, que a nossa cultura ocidental depende. Aqui estão alguns dos mais recentes livros cujos originais são em francês.  Eu me limito aqui ao que foi traduzido e publicado no Brasil nos últimos anos quatro anos, de 2014 a 2018, ou seja, obras que podemos encontrar nas livrarias com maior facilidade.  Esses livros muito adicionariam à sua biblioteca e espero que mostrem a variedade criativa dos autores contemporâneos.

 

CANção de ninar

 

1 — Canção de Ninar, de Leila Slimani, Editora Tusquets, 2018, 192 páginas  —- Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde.  Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos de classe e entre culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade.

 

 

69c72419-3f21-482e-a32d-9dc5608384cc

 

2 — Bússola, Mathias Énard,  Editora Todavia, 2018,  352 páginas —- Bússola é uma meditação musical e encantatória sobre Oriente e Ocidente, sobre “nós” e os “outros”.  Cai a noite sobre Viena e Franz Ritter, um musicólogo apaixo­nado pelo Oriente Médio, procura em vão dormir, à deriva entre sonhos e memórias, melancolia e febre. Revisitando sua vida – suas numerosas estadias em Istambul, Alepo, Damasco, Palmira, Teerã –, seu amor por Sarah, uma erudita francesa dona de uma inteligência feroz, e a memória de outros viajantes, aventureiros, acadêmicos e artistas do Ocidente que se apaixonaram pelo “outro” não europeu, Ritter (portador de uma doença aniquiladora) atravessa a noite nu­ma vertigem de memórias, viagens e histórias. Bússola é uma declaração de amor e uma jornada em busca da diferença, entre Ocidente e Oriente, entre ontem, hoje e amanhã. Um inventário sobre os traços que nos distinguem uns dos outros, e uma aposta – cheia de sabedoria – sobre aquilo que nos faz tão próximos e humanos.

 

 

BASEADO_EM_FATOS_REAIS_1468521285596958SK1468521285B

 

3 — Baseado em fatos reais, Delphine de Vigan, Editora Intrínseca, 2016, 256 páginas —- Em uma obra em que o leitor é levado constantemente a questionar o que lhe é apresentado, Delphine de Vigan constrói um clima confessional, sombrio e opressivo para expor a obsessão do mercado editorial e do cinema pelas narrativas baseadas em fatos reais. A linha tênue entre verdade e mentira oscila para enriquecer uma poderosa reflexão sobre o fazer literário e questionar as fronteiras entre aparentes dicotomias, como real e ficção, razão e loucura, público e privado. Um livro brilhante, que joga com os códigos da autoficção e do thriller psicológico.
Após o grande sucesso de seu último livro, em que revelava perturbadores segredos familiares, Delphine se vê diante da temível pergunta: o que vem depois de um texto tão pessoal, que comove tantos leitores? A inércia. O sucesso a fragiliza a tal ponto que a deixa completamente vulnerável. Ela não consegue mais escrever nem uma linha, nem sequer se sentar diante do computador ou segurar uma caneta. Está esgotada, e vive assombrada pela pressão da próxima obra.   Tomada pelo bloqueio criativo, o sentimento de impotência e isolamento permeiam constantemente sua vida: os filhos gêmeos, Louise e Paul, estão prestes a sair de casa para seguir o próprio caminho e ingressar na universidade. Além disso, seu namorado, François, é um famoso jornalista e apresentador de um programa de crítica literária e está sempre viajando para o exterior. A instabilidade emocional de Delphine ainda é agravada pelas cartas de teor bastante violento que recebe de um remetente anônimo, ameaçando-a por ter exposto publicamente sua família. Nesse cenário de fragilidade, Delphine conhece L., uma mulher sofisticada, confiante, feminina, carismática e atraente. Tudo o que ela sempre desejou ser. L. parece ter um passado misterioso, trabalha como ghost-writer, e entra de modo insidioso na vida da escritora, que vê na amizade uma forma de superar seu bloqueio criativo. L. é a amiga perfeita, sempre disponível, e logo passa a interferir nos aspectos mais íntimos da vida de Delphine. O domínio de uma sobre a outra é inesperado. A conexão entre elas parece… inacreditável.

 

O_CASO_MEURSAULT_1470346527603230SK1470346527B

 

4 — O caso Meursault, Kamel Saoud, Editora Biblioteca Azul, 2016, 168 páginas —-  O romance tem como ponto de partida um dos maiores clássicos da literatura francesa no século XX, O Estrangeiro, de Albert Camus, cuja trama é reconstruída sob o ponto de vista do homem assassinado por Meursault, o personagem central da obra camusiana. Sem voz nem nome no livro do escritor francês, o árabe morto recupera a identidade na narrativa de Kamel Daoud. Em um bar em Orã, na Argélia, Haroun, irmão mais novo do assassinado, fala a um universitário parisiense interessado em ouvir o que foi oculto no romance de Camus. O foco da conversa é a cena decisiva de O Estrangeiro, na qual o narrador Meursault, ao se sentir ameaçado por desconhecidos em uma praia deserta, atira em um homem, sob um sol escaldante. Em O caso Meursault, a vítima ganha o nome de Moussa, um homem simples e cheio de vida, conforme a lembrança de Haroun. O personagem relata sua infância marcada pelo assassinato do irmão e pela busca desesperada da mãe pelo corpo do filho. Mas o autor não se limita a isso e surpreende quando, fazendo bom uso da ficção, retira Moussa, o árabe ignorado, do lugar do injustiçado. Com prosa irônica e cortante, o escritor faz evocar, na figura de Meursault, o próprio Camus. No momento em que o leitor revisita o narrador de O Estrangeiro ouvindo a voz de seu próprio autor, Kamel Daoud transforma sua ficção em um espaço livre, sem censura, para pensar a questão do colonialismo e os impasses da Argélia independência.

 

O_FIM_DE_EDDY_1525813114776818SK1525813114B

 

5 — O fim de Eddy, Édouard Louis, Editora Tusquets, 2018, 178 páginas —- “Todas as manhãs, enquanto me arrumava no banheiro, eu repetia a mesma frase sem parar, tantas vezes que ela terminaria por perder o sentido, passaria a não ser mais do que uma sucessão de sílabas, de sons. Eu parava e retomava a frase: Hoje eu vou ser um durão. Eu me lembro porque eu repetia exatamente aquela frase, como se faz com uma oração, com aquelas exatas palavras – Hoje eu vou ser um durão (e eu choro enquanto escrevo estas linhas: choro porque eu acho essa frase ridícula e horripilante, essa frase que, durante anos, me acompanhou e que de certa forma ocupou, não creio que haja exagero em dizer isso, o centro da minha vida).”

O fim de Eddy, romance autobiográfico de uma das mais proeminentes vozes da nova literatura francesa, desvela o conservadorismo e o preconceito da sociedade no interior da França. De forma cruel, seca e sufocante, a violência e a amargura de uma pequena cidade de operários se contrapõem à sensibilidade do despertar sexual de um garoto, estabelecendo um paralelo direto com as experiências do próprio autor.

 

SUBMISSAO_1425491262439004SK1425491262B

 

6 – Submissão, Michel Houellebecq, Editora Alfahuara, 2015, 258 páginas —- França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas. François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas. Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual.

 

O_LEITOR_DO_TREM_DAS_6H27_1440449597523368SK1440449597B

 

7 — O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent — Editora Intrínseca,  2015, 176 páginas —- Um romance sensível sobre o poder dos livros e da literatura. Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida. Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

 

O_CIRCULO_DOS_MAHE_1512424502735512SK1512424503B

 

8 — O círculo dos Mahé, Georges Simenon, Editora Companhia das Letras: 2017, 120 páginas —- Aos trinta e cinco anos, casado e com dois filhos, o dr. François Mahé ainda mora com a mãe e leva uma típica vida pequeno-burguesa. Certo verão ele decide ir com a família à ilha de Porquerolles, no sul da França. No entanto, um constante mal-estar o impede de desfrutar o paraíso mediterrâneo. Ao ser chamado para examinar uma mulher no leito de morte, o médico se vê entre uma família humilde e fica fascinado pela mais velha dos três filhos, uma jovem muito magra que usava um vestido vermelho. Começa então uma história de obsessão e crise profunda, e somos levados pela jornada sombria da alma do protagonista. A morte da mãe também abalará as estruturas do dr. Mahé e, com o passar do tempo, ele será impelido a retornar à ilha mediterrânea ano após ano, como que hipnotizado pela garota. Com sua prosa enxuta e fluente, Simenon faz um retrato soturno da psique de um homem medíocre que vislumbra uma alternativa à banalidade, mas sofre para conseguir alcançá-la.

 

FELICIDADE_CONJUGAL_1380655012B

9 — Felicidade conjugal, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand Brasil, 2014, 322 páginas —-  Existe felicidade conjugal em uma sociedade na qual o casamento é uma instituição inabalável? O protagonista, um pintor obrigado a se aposentar após sofrer um AVC, sofre com a certeza de que sua relação conjugal caótica foi a responsável por seu colapso. Diante disso, com o tempo ocioso e com medo de cair em depressão, ele decide escrever suas memórias, narrando o começo do relacionamento, a má relação com os sogros, o amor louco, a rotina e o ódio que se instalou. Um trabalho de autoanálise, que vai ajudá-lo a encontrar coragem para se libertar da relação destrutiva com a esposa. Esta é a primeira parte do livro, chamada de “O homem que amava demais as mulheres”.  Ao descobrir, por acaso os escritos do marido, a esposa decide escrever sua versão dos fatos. Começa então a segunda metade, intitulada de “Minha versão dos fatos – Resposta a O homem que amava demais as mulheres”. Obviamente, as versões são divergentes, a ponto de o leitor questionar se os dois fizeram parte da mesma história, do mesmo casal.
Sucesso de crítica e multipremiado por toda a Europa, Tahar Ben Jelloun retrata em Felicidade conjugal a história de um homem que resolve pintar seu último quadro: o de seu relacionamento. As cores são fortes, e, como toda obra de arte, sempre há mais de uma opinião sobre o mesmo assunto, a mesma vida, os mesmos atos.

 

LIMONOV_1496859248345686SK1496859248B

10 — Limonov, Emmanuel Carrère, Editora Tag Experiências Literárias, 2017, 377 páginas —- Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nas guerras dos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante: suspendo neste ponto meu julgamento. É uma vida perigosa, ambígua: um verdadeiro romance de aventuras. É também, creio eu, uma vida que conta alguma coisa. Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de nós todos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

REMISSAO_DA_PENA_1475678025431724SK1475678025B

 

11 — Remissão de pena, [Trilogia Essencial] Patrick Modiano, Editora Record, 2015, 128 páginas —- A autobiografia romanceada do autor do Prêmio Nobel de Literatura em 2014. Patrick e seu irmão são confiados a amigas de seus pais em Paris após a Segunda Guerra. Das mulheres responsáveis pelos dois meninos pouco se sabe além do que revelam os trechos de conversas entreouvidas por Patrick: que uma delas é uma pessoa triste e que a outra foi artista de circo. Isso e o fato de receberem as visitas frequentes de Jean D. e Roger Vincent durante o dia e de diversos visitantes noturnos. Nesse mundo intangível, os dois irmãos seguem de mãos dadas pela infância através da rue du Docteur-Dornaine e em meio a visitas a castelos, excursões a Paris, leitura de histórias de aventura, tardes ouvindo rádio — sempre à espera de que, um dia, alguém volte para buscá-los.

 

A_CADERNETA_VERMELHA_1458149088572126SK1458149088B

 

12 — A caderneta vermelha, Antoine Laurain, Editora Alfaguara, 2016, 125 páginas —-  Caminhando pelas ruas de Paris em uma manhã tranquila, o livreiro Laurent Letellier encontra uma bolsa feminina abandonada. Não há nada em seu interior que indique a quem ela pertence – nenhum documento, endereço, celular ou informações de contato. A bolsa contém, no entanto, uma série de outros objetos. Entre eles, uma curiosa caderneta vermelha repleta de anotações, ideias e pensamentos que revelam a Laurent uma pessoa que ele certamente adoraria conhecer. Decidido a encontrar a dona da bolsa, mas tendo à sua disposição pouquíssimas pistas que possam ajudá-lo, Laurent se vê diante de um dilema: como encontrar uma mulher desconhecida em uma cidade de milhões de habitantes?

 

A_EXTRAORDINARIA_VIAGEM_DO_FAQUIR_QUE_FI_1396631598B

 

13 — A extraordinária viagem do faquir que ficou preso no armário Ikea, Romain Puértolas, Editora Record, 2014, 256 páginas —-  A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho.

 

A_OUTRA_HISTORIA_1463688765585398SK1463688765B

 

14 — A outra história, Tatiana de Rosnay, Editora Intrínseca, 2016, 272 páginas —-Ágil, repleto de camadas e belamente escrito, A outra história é uma reflexão sobre identidade, o processo de ser escritor e a glória e o preço da fama, um retrato de como as decisões de antigas gerações ecoam no presente e moldam o futuro.
Aos vinte e quatro anos, Nicolas Duhamel se depara com um segredo de família perturbador mantido a sete chaves por muitos anos. Perplexo, embarca para São Petersburgo em uma jornada em busca da verdade. Porém, as respostas não surgirão tão facilmente.
Os mistérios de sua origem familiar o levam a escrever seu primeiro romance, O envelope, e a assiná-lo como Nicolas Kolt. Após três anos do inesperado e estrondoso sucesso mundial do livro, Nicolas é um escritor vaidoso, com muitos fãs, um autor obcecado pela fama e pelas redes sociais a ponto de deixar de lado a família e os amigos.
Tanta aclamação, no entanto, tem seu preço, e todos perguntam sobre o novo livro. Mas Nicolas não é capaz de escrever sequer uma linha e não suporta mais mentir. Desejando se afastar de tudo para encontrar uma nova inspiração, ele viaja para a Itália com sua namorada Malvina e se hospeda em um luxuoso hotel na costa da Toscana. Durante o fim de semana em que espera paz e tranquilidade para compor a outra história, Nicolas Kolt se vê diante de perigos e segredos que podem colocar seu futuro em jogo.

 

OS_DESORIENTADOS_1389107428B

 

15 — Os desorientados, Amin Maalouf, Editora Bertrand Brasil, 2014, 490 páginas —- Durante 25 anos, Adam não voltou mais à sua terra natal. Depois de fugir da guerra que assolou seu país, ele foi viver na França e se tornou um historiador renomado. Nesse meio-tempo, perdeu contato com seu círculo de amizade, que se dispersou por diversos lugares do mundo em busca de exílio. Quando decide voltar, o protagonista sente-se um estrangeiro em seu próprio país.  Os desorientados é um romance que expõe o que representaram os conflitos para aqueles que hoje estão na meia-idade. Até agora poucas obras haviam sido escritas a respeito dos anos de guerra e da carnificina ocorrida no Líbano. Maalouf faz isso sem comiseração, mas com sabedoria, adquirida após anos de estudo e vivência. Ao trazer à tona a questão cultural e exclusão dos cidadãos em sua própria pátria, o autor aborda, sem citá-la diretamente, a guerra no Líbano e aspectos negativos da sociedade libanesa.

 

CORACAO_E_ALMA_1496955684686622SK1496955684B

 

16 — Coração e alma, Maylis De Kerangal, Editora Radio Londres, 2017, 235 páginas —  Coração e alma é a história de um transplante cardíaco. É um relato de precisão cirúrgica, repleto de personagens inesquecíveis, em que histórias pessoais, diálogos e descrições técnicas se entrelaçam num ritmo frenético, digno de um grande filme de ação. O romance narra as vinte e quatro horas épicas entre um terrível acidente de trânsito ocorrido depois uma sessão de surf cheia de adrenalina — que causa a morte cerebral de um rapaz de 20 anos, Simon — e o instante em que seu coração recomeça a bater no peito de uma parisiense de 50 anos, Claire. Uma viagem emocionante e tocante, um tour de force que manterá o leitor em suspense até a última linha.

 

_IRENE_1423862705436137SK1423862705B

17 — Irene, Pierre Lemaitre, Editora Universo dos Livros, 2015, 400 páginas —-  Para o comandante Camille Verhoeven, a vida não poderia estar melhor: ele tem um casamento feliz e está esperando o primeiro filho com a amável Irene.  Mas sua rotina agradável é interrompida por um assassinato cuja brutalidade choca toda a Brigada Criminal. O caso se torna ainda mais sombrio quando são encontradas similaridades entre o crime e o assassinato hediondo relatado em Dália Negra, um romance policial de James Ellroy, publicado em 1987.  A imprensa, então, apelida o assassino de “O Romancista” e a investigação do caso se desenvolve com os dois homens – o comandante Verhoeven e O Romancista – sob o olhar público, e um está determinado a ser mais inteligente do que o outro. No entanto, só é possível haver um ganhador: aquele que tem menos a perder.

 

A_MULHER_NO_ESPELHO__1393537742B

 

18 — A mulher no espelho, Eric-emmanuel Schmitt, Editora Record, 2014, 400 páginas —- Em Bruges durante a Renascença Anne foge no dia de seu casamento. Hanna mora na Viena imperial e acaba de se casar com um membro da elite local. Mas o que seria o começo de um final feliz é motivo de angústia para ela. Já Anny, nos dias de hoje, tem tudo o que se poderia desejar: dinheiro, beleza e sucesso. Tudo, menos felicidade. Três mulheres, três épocas, três histórias, o mesmo sentimento de inadequação. Schmitt narra de forma brilhante a jornada de personagens inquietas que buscam a verdade por trás da complexa existência.

 

NOTAS:

Esta é uma lista que não tenta cobrir tudo publicado no Brasil entre 2014-2018 em tradução de autores franceses ou considerados de língua francesa.

Este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “As filhas do capitão”, de Maria Dueñas

14 11 2018

 

 

 

as-trc3aas-irmc3a3s-1917-henri-matissefranc3a7a-1869-1954-ost-92x73-orsayAs três irmãs, 1917

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

Musée d’ Orsay, Paris

 

 

 

Este é o terceiro livro de Maria Dueñas que leio.  O primeiro, O tempo entre costuras, foi uma leitura excepcional.  Rara obra de aventuras em que uma mulher tem a liderança.  Foi também uma excelente maneira de relatar alguns detalhes da vida na Espanha na época de Franco.  Nota dez.  Li depois  O melhor está por vir.  Não me encantou.  A mim, pareceu um exercício forçado para a entrada no mercado americano.  A história se passa na Califórnia, e está ligada às missões espanholas.  Por isso não li nenhuma outra obra de Dueñas.  Mas este mês meu grupo de leitura  escolheu As filhas do Capitão, para discussão.

Assim como seu primeiro livro – O tempo entre costuras,  sucesso mundial que virou uma série na televisão, muito boa por sinal — este é um livro de aventuras.  Aqui três jovens irmãs emigram para os Estados Unidos nos anos 30 do século XX.  As filhas do Capitão  tem capítulos pequenos e muitas situações de perigo, momentos críticos de decisões pessoais de cada personagem, refletindo com clareza e detalhe as vicissitudes, perigos, alegrias e sucessos dos recém-chegados ao EUA,  momento que imigrantes têm como um segundo nascimento ao desfrutarem de liberdades em geral fora de seu alcance na terra natal.  Sem dúvida a chegada ao país para onde se emigra  pode ser um período  de escolhas, e empreendedorismo sem igual. As irmãs, Victoria, Mona e Luz Arenas, que a princípio não queriam deixar a Espanha para acompanhar a mãe  e se juntarem ao pai emigrante, logo despertam para  novas possibilidades que são ainda mais sedutoras quando subitamente encontram-se órfãs  de pai e responsáveis pela mãe  camponesa, analfabeta, com visão do mundo limitada pela aldeia onde moravam naquele país ibérico.

 

AS_FILHAS_DO_CAPITAO_1533917293797226SK1533917294B

 

Como grande parte dos imigrantes, a família encontra respaldo na comunidade de conterrâneos emigrados.  Aqui foram espanhóis que ocupavam grande variedade de posições sociais, do trabalhador braçal, aos pequenos negociantes, profissionais liberais e até mesmo personagens da decadente família real do país.  Para sobreviverem,  se alimentarem, as irmãs jovens, atraentes e bonitas, decidem levar avante o pequeno restaurante endividado que o pai lhes deixara.  Sem nunca terem trabalhado no ramo, sem qualquer conhecimento de inglês, as irmãs Arenas se empenham em encontrar maneiras de sobreviver e simultaneamente descobrir as próprias habilidades, opiniões, gostos, limites, moral e perseverança.  Sem que se fale nas encrencas amorosas que pavimentam o caminho, este é um livro que descreve conquistas,  erros,  desavenças, decisões nem sempre acertadas,  a vida repleta de aventuras numa terra estranha.  Neste ponto As filhas do capitão é  um livro tão excitante quanto O tempo entre costuras.  O que é diferente, é a enorme coletânea de dados históricos que vêm muitas vezes a troco de nada, e pesam no texto por absoluta falta de disciplina da autora e falta de algum bom editor que lhe aconselhasse a cortar muito dessas partes.

 

mariaduenas-1-880x1264Maria Dueñas

 

Depois do sucesso de O tempo entre costuras Maria Dueñas deixou a carreira de professora universitária para se dedicar exclusivamente à escrita.  Tornou-se escritora por tempo integral.  Enquanto escrever  ficção era um hobby, uma segunda opção de vida, sua narrativa fluiu.  Toda a pesquisa necessária para retratar a época de Franco na Espanha fez parte da narrativa de seu primeiro romance sem pesar no texto.  Grande pesquisa histórica foi necessária para localizar este romance As filhas do capitão na mal conhecida imigração espanhola nos Estados Unidos.  É evidente que Maria Dueñas se dedicou seriamente a levantar os detalhes da época e de toda a colônia espanhola em Manhattan nos anos 30 do século passado.  Mas é exatamente por isso que há desconforto na leitura do texto.  Apesar de abraçar a carreira de escritora de ficção, a autora não conseguiu se desfazer do hábito acadêmico de colocar tudo o que se sabe num documento para provar que a pesquisa foi feita.  Maria Dueñas vestiu a toga de escritora sem se desfazer dos vícios da escrita acadêmica.  Há momentos em que quase sentimos sua vontade de colocar uma nota de rodapé sobre a descoberta que fez.  Há dezenas e dezenas de parágrafos sobre a família real espanhola; há detalhes sobre as ruas, sobre endereços, sobre hotéis, que não enriquecem necessariamente o texto, mas que servem de obstáculos para a leitura suave da história.  Muito disso poderia ser cortado.  Poderia também pertencer ainda a outro romance sobre espanhóis em Nova York.  E muito também poderia ser revelado através de diálogos, através de reflexões de personagens para suas decisões, sem que ocasionalmente o leitor se sinta tendo uma aula sobre o assunto.  Este é, sem dúvida, o grande defeito deste livro.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Romancista como vocação” de Haruki Murakami

13 11 2018

 

 

 

 

Belinda del Pesco (EUA, contemporânea) aquarela, 20 x 25 cmAlmofada vermelha

Belinda del pesco (EUA, contemporânea)

aquarela, 20 x 25 cm

 

 

Não se trata de ficção.  Este é um livro de ensaios sobre escrita, literatura, escolhas e preferências do autor e ainda outros temas surgidos nas entrevistas que Haruki Murakami deu.  Não se trata tampouco de um guia para o escritor neófito, nem uma cartilha de como se tornar um escritor de sucesso.  Invés disso temos um belo preenchimento do retrato de Murakami como pessoa, intelectual e pensador.

 

95311afa473e60eb0527f505e303f0c7B

 

Mesmo assim é um livro que encanta, principalmente àqueles como eu, que apreciam os livros do autor.  Saímos dessa leitura com a sensação de quem é Murakami, um cara sóbrio, que tem dúvidas, muitas delas sobre suas criações.  Conhecemos o início de sua carreira como escritor e suas ideias sobre a educação nas escolas japonesas. É um livro leve, de fácil leitura, repleto de vinhetas ou histórias  ilustrando suas ideias.  Nesta obra passeamos pelas memórias do autor,  e vislumbramos os processos de sua escrita.

 

2-Murakami-RexHaruki Murakami

 

Tudo me pareceu de interesse: seu desprezo pelos prêmios literários; o hábito de sair do Japão para um lugar onde não é conhecido (por exemplo, Paris) e viver lá pelos 6, 8, 10 meses necessários para escrever o romance que tem na cabeça e que surgiu no Japão (ele gosta deste distanciamento físico); o descaso que críticos japoneses têm por sua obra, por acreditarem que é repleta de perspectivas estrangeiras (americanas na maioria); o cuidado detalhado, minucioso, vagaroso necessário para completar uma obra e sobretudo a seriedade com que trata de sua vocação.

Leitura encantadora.  Difere de todos os outros Murakamis que li.  Com ele começamos a perceber o homem que cria o mundo paralelo em que nos deliciamos.  Vale a pena!  Muito bom.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 





Lendo: “Se o grão não morre”, de André Gide

28 08 2018

 

 

DSC03899Lendo:

Se o grão não morre

André Gide, tradução: Hamilcar de Garcia

Nova Fronteira: 1982, 282 páginas

 

SINOPSE

Autobiografia interpretada em que o autor mostra que o ser humano deve conhecer a sensualidade e o pecado, viver até o fim a agonia e a morte de Deus. Obra classificada por alguns críticos como romance de formação.

 

 

 





Conselho de pai, texto de Yaa Gyasi

23 08 2018

 

 

Keepin Her Close by Cbabi bayocMantendo-a por perto

Cbabi Bayoc (EUA, contemporâneo)

[Da série, 365 dias de um pai]

 

 

“Ele a encontrou na cabana e se sentou ao seu lado.

— Por que está chorando? — perguntara ele.

— As plantas todas morreram, e eu podia ter ajudado! — disse ela entre soluços.

— Abena, o que você teria feito diferente se soubesse que as plantas iriam morrer?

Ela pensou um pouco, limpou o nariz com o dorso da mão e respondeu:

— Eu teria trazido mais água.

O pai concordou.

— Então, da próxima vez, traga mais água, mas não chore por essa vez. Não deveria haver lugar na sua vida para lamentações. Se,  no momento em que fez alguma coisa, você sentia clareza, por que se lamentar mais tarde?”

 

 

Em: O caminho de casa, Yaa Gyasi, tradução Waldéa Barcellos, Rio de Janeiro, Rocco: 2017, página 219.

 

 





Lendo: “O museu do silêncio” de Yoko Ogawa

4 07 2018

 

 

DSC03869

Lendo:

O MUSEU DO SILÊNCIO

Yoko Ogawa

Estação Liberdade: 2016, 304 páginas

 

SINOPSE:

Os museus têm como pressuposto guardar objetos de valor histórico ou científico para fins de exibição pública, de modo a registrar à posteridade a importância que eles tiveram para a humanidade num período determinado. Mas como seria no caso de um museu que tivesse como objetivo preservar lembranças de pessoas que morreram? Essa é a essência da trama proposta pela japonesa Yoko Ogawa neste O Museu do Silêncio, primeira amostra da produção da autora que a Estação Liberdade traz ao público brasileiro.

O sonho de dar cabo ao Museu do Silêncio é de uma velha que vive com a jovem filha e um casal de empregados. Um museólogo – narrador da história – é contratado por ela para tirar o projeto do papel. De personalidade hostil e sem o menor traquejo social, a velha tem lá suas idiossincrasias, sobretudo em relação ao tipo de conteúdo que planeja para o museu: as lembranças dos mortos precisam ser representativas do que eles foram em vida. Uma peça de roupa, uma fotografia sorridente – nada disso. Não se trata de preservar lembranças afetivas. Cada objeto do museu precisa ser a metáfora perfeita da existência do finado.

No caso do homem cego, por exemplo, só mesmo seu olho de vidro serve às intenções da velha. E o museólogo – nenhum dos personagens do livro é nomeado – tem que se virar para recolher esse tipo de “relíquia” dos corpos moribundos. Para se familiarizar com essa macabra tarefa, o museólogo conta apenas com a ajuda da filha da chefe, por quem nutre sentimentos paternais… ou nem tanto. E, não bastassem o mau humor e as grosserias da velhota, ele ainda tem de lidar com uma chocante onda de assassinatos de mulheres da região, marcados pela característica comum de apresentar os corpos das vítimas mutilados numa região bem específica.

O Museu do Silêncio é uma obra de suspense, bastante simbólica da produção de Yoko Ogawa, escritora japonesa contemporânea muito saudada no Ocidente. Sua literatura é excêntrica, preterindo tons e temas ternos e etéreos por aqueles mais duros e polêmicos, não raro flertando com o grotesco. Neste livro, ela também opta por ambientar a trama em tempo e local não identificados, o que contribui para diluir os eventuais estranhamentos culturais intrínsecos às suas origens nipônicas, e assim consolidar sua voz de alcance universal.








%d blogueiros gostam disto: