Resenha: “A terra inteira e o céu infinito de Ruth Ozeki

16 01 2017

 

b9876b10d38dd5ed69d799c92718cd75Autoria desconhecida.

Os dois elementos mencionados no título brasileiro do livro de Ruth Ozeki A Terra Inteira e o Céu Infinito formam um todo, uma unidade, um ser-tempo, pleno, indivisível. E foi justamente com o sentido de plenitude, de preenchimento emocional que acabei de ler um dos mais ricos livros de ficção (o quanto é ficção é debatível) dos últimos anos.  Ao fechar a última página, ao ler os apêndices, me dei conta de querer reler o livro, assim que for possível, pela certeza de que mesmo na releitura ainda não terei digerido tudo o que foi abordado nessas quatrocentas e tantas páginas.

Esta é uma obra complexa demais para caber nos poucos parágrafos de uma resenha. Extremamente atual, de fácil leitura, o livro de Ruth Ozeki nos leva a considerar assuntos sérios que ponteiam o horizonte cotidiano de todos nós e que raramente paramos para considerar em maior detalhe. Temos através dessa história de duas mulheres: uma jovem adolescente e uma mulher madura, que se encontram através do tempo, noções de zen-budismo, física quântica, meio ambiente, tsunami, lixo oceânico, bullying, doença mental, suicídio, Segunda Guerra Mundial,  relativismo da história, escolhas éticas e morais e um tanto de fantasia.  Tudo isso numa obra que consegue manter unidade integral, única, aberta, consistente e estética.

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Com essa variedade temática espera-se uma espécie de colcha de retalhos.  Mas isso não acontece.  Ruth Ozeki controla muito bem o texto e seu ritmo.  Ainda que não produza uma obra de suspense, eu me vi virando página após página, magnetizada pelo desenrolar da quase não-trama. Que feito!

A história é contada por duas vozes distintas: Ruth, uma mulher madura que vive numa ilha no Canadá e encontra um diário de uma jovem japonesa jogado ao mar. Resolve lê-lo. E nós lemos junto. Assim conhecemos Naoko a jovem japonesa que viveu nos EUA e voltou com sua família para o Japão onde sofreu todo tipo de preconceito e bullying. Não era suficientemente japonesa. Aos poucos sabemos dos problemas familiares, de seu pai, de seu tio avô e conhecemos sua bisavó, um dos personagens mais interessantes do livro que nos dá lições e lições de vida.

Mesmo que repleto de situações difíceis descritas em detalhe, ou talvez justamente porque são descritas em detalhe, consegui seguir em frente testemunha dos sofrimentos dos personagens, seguir seus passos, entender suas maneiras de pensar, quer pessoais quer culturais, e sair ao final estimulada, esperançada.

ozeki_ruthRuth Ozeki

Esta obra de ficção é repleta de informações factuais que se transformam diante dos nossos olhos em verdadeiras meditações. Dentre elas, quase imperceptível, está aquela do leitor criando sua obra na leitura do livro, como Proust, que tem um papel importante e interessante no livro, já havia notado [“todo leitor é leitor de si mesmo”].  Como acontece com Ruth ao ler o diário de Naoko. Há, de fato, tantas camadas de leitura entremeadas e possíveis que ao final do livro o desejo de reler é quase obrigatório. Com fortes personagens o leitor é levado pela mão a considerar postulados filosóficos diversos inclusive aqueles sobre o conceito de tempo, assim como considerações éticas em horas difíceis. Tudo isso num contexto contemporâneo que a pessoa comum não só entende mas sobre a qual é frequentemente convidada a opinar.

Há tempos não me encanto com uma obra de tal maneira.  Foi a primeira leitura de 2017 do meu grupo de leitura e todos os leitores se encantaram.  Recomendo com entusiasmo.

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Resenha: “Enclausurado” de Ian McEwan

15 12 2016

jovem-gravida2010-dimitri-kozma-servia-1944-tecnica-mistaJovem grávida, 2010

Dimitri Kozma (Sérvia, 1944)

técnica mista

Enclausurado é uma história de suspense.  Um casal de amantes planeja um assassinato.  A vítima é o ex-marido da futura assassina, e irmão de seu parceiro no crime.  Há, no entanto, uma testemunha desses planos: o feto que a mulher leva na barriga, narrador da improvável história

Todos os personagens do livro são detestáveis, com exceção dele, inocente, observador e participante à revelia da trama. Este não é um feto qualquer, já teria passado no ENEM caso pudesse ter feito a prova.  Ele entende de tudo, do meio ambiente ao melhor vinho.  Não porque sua mãe converse com ele, como hoje mães fazem, ouvindo música clássica para o futuro bebê nascer com memória musical engendrada; falando inglês, francês ou japonês para que ao nascer a criança já conheça a estrutura verbal da língua.  Não, não se trata dessas mais novas teorias aplicadas.

Trata-se ao contrário, de mãe desregrada que bebe constantemente apesar da gravidez, dando ao feto sofisticado gosto por vinhos, capaz de eleger o de que mais gosta.   É um feto que aprende sobre o mundo da ecologia à genética graças aos programas de entrevistas, documentários, podcasts  favoritos da mãe. Quando entediado o feto – que não tem nome – chuta a barriga da mãe no meio da noite para acordá-la e levá-la aos programas no rádio ou televisão de onde tira seus conhecimentos.

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O pai, um poeta caricatural, preocupado com o amor em letras maiúsculas, não se apercebe da trama em que se vê envolvido.  Mas não é uma vítima que nos toque emocionalmente. Nenhum personagem adulto é simpático.  Só mesmo o feto, essa voz dominante que não consegue detestar sua mãe, ama-a, de fato, mesmo sabendo de seu mau caráter.  Mas que mais poderia fazer?  Sua vida depende dela. De particular senso de humor são as opiniões que o feto tem de como deveria ser educado; o que poderá vir a ser prejudicial ao seu crescimento, o que os pais não deveriam fazer.

Contando no humor, McEwan realiza um grande feito narrativo, de controle inigualável. E uma vez aceita a premissa do  feto pensante, inteligente, com um rico vocabulário, não há como não simpatizarmos com esse futuro bebê. Até mesmo quando de maneira patética ele considera a fragilidade de seu próprio destino. Nossa solidariedade é engajada, desde o início e torcemos para que tudo dê certo no final, que é surpreendente e lógico.  Gratificante.

ian-mcewan-014Ian McEwan

É um trabalho memorável de técnica narrativa. É uma obra de pequeno porte, meras 196 páginas, de leitura fácil, descomplicada, com assuntos do dia a dia. No entanto, não deixa de ser um trabalho de um único truque, ou melhor, de uma única piada.  Ou seja, limitado por sua própria  estreiteza temática. Por isso, e só por isso não chega, na minha opinião, a ser tão grandioso quanto os críticos literários de renome o consideram, mesmo que aluda, aqui e ali, à obra maior, de Shakespeare: Hamlet. Não encontrei nessa obra nem a profundidade, nem o panorama filosófico tão aclamado.  É um livro divertido, que nos leva a considerar o mundo por ponto de vista inusitado. Diverte. Dá para apostar que o autor se divertiu imaginando a trama.  Um bom presente de Natal, para qualquer leitor.

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Resenha: “Balzac e a costureirinha chinesa”, Dai Sijie

28 11 2016

 

 

63-cao-quantang-mountain-villageAldeia montanhosa

Cao Quantang (China, 1957)

Aquarela e guache sobre papel

 

 

 

Reli neste fim de ano o livro Balzac e a costureirinha chinesa de Dai Sijie. Estou envolvida no projeto Eu também leio e uma das minhas funções é selecionar textos que adolescentes ou jovens adultos possam achar interessantes, fora das escolhas óbvias desse nicho de mercado.  Minha memória não anda tão má assim, este é um livro de que muitos jovens adultos poderão gostar.

Trata-se de dois rapazes de dezessete anos, citadinos, com famílias exercendo profissões liberais, que se encontram numa aldeia montanhosa, distante de tudo, ao serem mandados pelo regime de Mao Tse Tung  para trabalhos forçados, participando, contra a vontade, do sistema de re-educação conhecido como ‘Revolução Cultural’ da década de 1960 na China.

 

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São rapazes comuns.  Trazem com eles um conhecimento rudimentar da cultura ocidental. A esta altura tudo ocidental é proibido pela ditadura chinesa. Um deles toca violino, não muito bem.  Outro tem grande habilidade de contar histórias.  São essas pequenas habilidades, mal-ajambradas, e referências com o mundo ocidental, que os levam a aventuras em meio a um povo brutalizado pelo trabalho árduo e muita pobreza.  Nesse meio tempo os jovens conhecem a bela costureirinha da aldeia, assim como outro rapaz, filho de gente importante, que como eles faz o trabalho forçado de re-educação.  Mas este tem um segredo: acesso a livros de literatura ocidental, que trouxe escondido.

Muitas peripécias levam os rapazes a ter acesso a uma pequena obra  Balzac: Úrsula Mirouët.  Atraídos pela bela jovem costureira, eles se dispõem a recontar a história do romance que havia sido traduzido para o chinês, mas era obra proibida durante o governo de Mao.  O efeito da literatura ocidental, principalmente francesa é sentido quase imediatamente.   Mais tarde outros livros são lidos que semeiam a procura da felicidade e um sentido de liberdade na jovem costureira.

 

dai-sijieDai Sijie

 

A literatura como redentora não chega a ser um tema fora do comum.  Leitores e escritores estão cientes desse poder e com frequência gostam de reparti-lo, como acontece com os personagens dessa obra. Tudo indica que tem muitas passagens da própria vida do autor que, além de escritor, é diretor de cinema.  A importância da literatura francesa é  uma reflexão da própria vida do autor, que nascido na China, reside na França desde 1984.  Balzac e a costureirinha chinesa é leitura rápida, sem grande expectativa literária.  Agradável e pequeno, o livro serve para lembrar o poder da palavra escrita, e o poder de se conhecer outros mundos, vidas e personagens através dos livros.  Já faz mais do que muita coisa publicada por aí.

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Resenha: “O fuzil de caça” de Yasushi Inoe

22 11 2016

 

 

utamaro_-_kashi-bukuro_wo_motsu_san_bijinTrês mulheres japonesas, c. 1793

Kitagawa Utamaro (Japão, 1786-1864)

xilogravura policromada, 54 x 94 cm

 

 

2016 trouxe-me alguns livros pequeninos e impactantes.  Belos e sucintos.  Simples na aparência, complexos no que entregam. O fuzil de caça do escritor japonês Yasushi Inoue é um deles. Uma pequena obra prima, um diamante facetado pelas cinco vozes que o constroem.

Um poeta publica numa revista de caça, um poema-prosa, baseado na figura de um homem desconhecido que viu um dia numa paisagem de inverno com um fuzil nas costas.  Ele dá ao poema-prosa o nome: O fuzil de caça.  (Curiosamente o mesmo título da obra que temos em mãos.) O  poema pouco tem a ver com a temática da revista em que apareceu. O tempo passa. Eis que o poeta recebe uma carta de um leitor se identificando como o personagem daquele poema.  A carta e sucinta e direta não deixando muita informação sobre seu autor.  No entanto, ele recomenda ao poeta que leia as cartas num pacote que mandará em futuro próximo. para que entenda o que pensava naquela manhã de inverno. Dias depois o poeta recebe um pacote com cartas de três mulheres diferentes que endereçadas ao caçador descrevem-no de acordo com cada uma de suas visões: a sobrinha,a amante e a esposa.

 

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É um jogo de espelhos.  Primeiro temos a visão do poeta sobre um homem desconhecido.  Lemos o poema-prosa e nós mesmos construímos um personagem, vagamente baseado no poema. Depois alguém se reconhece naquele poema.  E assim como o poeta, cujo nome não é revelado, fazemos novos conceitos sobre esse caçador através primeiro, de sua formalidade ao se comunicar depois nas vozes de três mulheres distintas, que a ele se dirigiam.  O jogo epistolar é fascinante e Josuke Misugi, personagem principal, emerge multifacetado. Que isso seja compreendido em 102 paginas é fenomenal.

 

yasushi-inoueYasushi Inoue

 

Esse foi o primeiro livro do autor que li.  E agora Yasushi Inoue irá para a lista de autores que preciso ler.  É autor de quase cinquenta obras e poucas estão traduzidas para o português, mas há muitas em inglês.  Não só ele me seduziu pela complexa construção dessa obra, pela ambiguidade deixada entre o texto publicado na revista e aquele que lemos, pelas vozes individuais de cada uma das mulheres; como ele também me impressionou pela beleza da linguagem e pelas elipses necessárias para construir em três dimensões o enigmático caçador.

Recomendo com prazer essa pequena obra.

 

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Resenha: “A última palavra” de Hanif Kureishi

10 11 2016

 

 

edward-burne-jones-gra-bretanha-1833-1898-georgianaGeorgiana, 1883

Edward Burne-Jones (Inglaterra, 1833-1898)

óleo sobre tela, 76 x 53 cm

 

 

Hanif Kureishi me conquistou, ainda na década de noventa, com The Buddha of Suburbia.  Seu humor rascante pareceu uma nova vertente na literatura inglesa contemporânea, diferente da que eu conhecia.  Nele combinavam típica ironia inglesa e crítica esfuziante desenvolvida por aqueles que sendo de casa ainda conseguem ver a sociedade com os olhos de fora, como acontece com membros da primeira geração pós imigração.  Tempos depois, soube que ele era o autor do roteiro de My Beautiful Laundrette um filme inesquecível.

Desde então me aproximo dos livros de Kureishi com simpatia e corri a ler A última palavra porque achei pela sinopse que a veia irônica do autor seria o tom preciso para gerenciar um tópico fascinante: um escritor jovem, ainda sem uma carreira definida, é chamado por um editor a fazer a biografia de um escritor famoso cujo brilho parece ter-se ofuscado nos últimos tempos.

Imediatamente percebi a riqueza do tópico.  Um jogo de espelhos deveria se desenrolar e como poderia ser revelador!  Uma obra sobre o significado e a criação da arte.  Hanif Kureishi é um desses escritores que fornecem maravilhosas citações. É comum ter frases ou parágrafos de sabedoria salpicadas em seus textos como pérolas de um colar desfeito. E realmente isso se tornou realidade durante essa leitura. Dezenas de pequenos lembretes post-it, coloridos, enfeitam hoje o texto do meu exemplar de A última palavra. Tenho uma enormidade de frases bem humoradas sobre diversos assuntos para uso posterior.  Hanif Kureishi entregou aquilo que sempre beneficiou seus textos: o pensamento crítico, a visão ácida.

 

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Exploramos com ele o confronto entre dois escritores, com projetos de vida diametralmente opostos. Um é velho e famoso.  Seu contraponto é jovem, à procura de fama: simpático e sociável; o oposto do biografado que se esconde do público. Enquanto um necessita bisbilhotar a vida do outro; esse se diverte ao esconder-se atrás de cortinas de fumaça. Ambos são insaciáveis no amor e ambos se representam a si próprios com os atributos do outro.

No entanto, a obra com humor ferino, crítica de costumes singular e retrato do mundo editorial implacável, que tinha potencial de ser inesquecível, não coalesce.  Fica longe do trabalho memorável da minha expectativa.  Ela se arrasta e se perde no caminho.  Entedia.  Não fosse eu uma dedicada leitora deste autor, poderia tê-la deixado de lado sem lástima. O texto é redundante.

 

hanif_kureishiHanif Kureishi

 

Talvez seu maior pecado seja uma trama bastante solta.  Nada prende o leitor. A obra, se fosse de alguém menos conhecido, teria dificuldade de ser publicada.  Pareceu escrita às pressas e sem o cuidado de seus outros livros.  Tem um fim inesperado que quase salva o esforço.  Se você nunca leu um livro do autor, este não deve ser o seu primeiro. Não o representa bem.  Mesmo assim, cheguei até o fim, o que é mais do que muitos livros que me atraem.





“Ana Sebastiana”, texto de José Eduardo Agualusa

3 11 2016

 

 

 

Lacombe.Ilustração de Lacombe.

 

 

“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável.  Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa.  O juiz deu-lhe razão.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.

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O golfe, texto de William Boyd

18 10 2016

Bia Betancourt [Beatriz Falanghe Betancourt] (Brasil, 1963) Golfista, ast, 70 x 180 cmGolfista

Bia Betancourt  (Brasil, 1963)

acrílica sobre tela, 70 x 180 cm

 

 

“Uma das coisas da África de que mais sinto saudade é meu golfe com Dr. Kwaku no campo mirrado de Ikiri. Sinto falta do golfe e da cerveja na ladeira do clube, assistindo ao por do sol.Por que será que gosto de golfe? Não é um esporte estrênuo o que é uma vantagem. O grande benefício é que, ainda que o sujeito não seja um exímio jogador, é ainda possível que realize jogadas no mesmo nível daquelas dos grandes jogadores mundiais. Lembro que um dia eu tinha levado um fragmentário sete à paridade quatro no oitavo buraco em Ikiri e me posicionei para o curto nono, uma paridade três, com um seis-ferro. Morrendo de calor, suado e irritado, balancei, golpeei, a bola planou, quicou uma vez no marrom e caiu no buraco. Um buraco em um. Foi a tacada perfeita — não dava para ninguém fazer melhor, nem mesmo o campeão mundial. Não consigo pensar em nenhum outro esporte que dê ao amador a chance da perfeição. Aquela jogada me deixou feliz por um ano, todas as vezes que eu me lembrava dela….”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 421-22.

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