“Vou morrer” texto de Martin Page

11 08 2019

 

 

 

d'espagnat, georges, mulher lendo no jardimMulher lendo no jardim

Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)

óleo sobre tela, 64 x 80 cm

 

 

“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.

Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo?  Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos,  pensava Virgile,  o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.

Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild.  A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos.  Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.

Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”

 

Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.





Pequena resenha de “Passagem para o ocidente” de Mohsin Hamid

6 08 2019

 

 

 

Hardaker-Charles-Open-Doors-with-MetronomePortas abertas com metrônomo

Charles Hardaker (GB, 1934)

óleo sobre tela,  40 x 40 cm

 

 

Muito barulho por nada.  Este livro foi cotado como um dos melhores livros de 2017 pelo jornal The New York Times. Obra do paquistanês e britânico Mohsin Hamid, na edição brasileira traz, ainda, na capa,  a ratificação do ex-presidente dos EUA, Barack Obama — “um dos melhores livros do ano” —  que,  fica claro, não leu o que eu li naquele ano.  Este livro não faria parte da minha lista das melhores leituras de 2017, nem dos anos subsequentes.

A obra é dividida informalmente em três tempos. Trata-se da história entre um homem e uma mulher, mais para “amizade com benefícios” do que uma história de amor, que se desenrola num país qualquer, do Oriente Médio, muçulmano e em guerra.  O casal é formado por uma jovem e corajosa mulher acostumada a desafiar costumes tradicionais, e um rapaz, mais conservador do que ela, um homem sonhador e dependente emocionalmente da família.  Este primeiro terço da obra é interessante, pois quebra diversas e costumeiras suposições sobre a vida de jovens muçulmanos e do dia a dia de um lugar em conflito. Não tenho como saber se é um retrato realista dessas circunstâncias.  Mas a intenção do autor é que assim julguemos.

 

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De repente, no afã de mostrar diversas possibilidades e ajustes no processo de emigração que se faz necessário para os que desejam sobreviver, somos apresentados às vantagens e problemas de imigrantes em diferentes países,  enquanto acompanhamos a vida de Nadia e Saeed em lugares do mundo variados, da Grécia aos EUA, passando pela Inglaterra, na migração sequencial em que embarcaram.

Mohsin Hamid, no segundo tempo, revira a narrativa e através de um dispositivo primário, como portas ou portais para diferentes realidades e incita o questionamento da natureza da terra natal, seu significado e relativismo.  O autor mistura gêneros, do quase realismo à fantasia.  Essa manobra me deixou fria, desinteressada.  E mais: perplexa com o sucesso deste livro.

 

Mohsin_Hamid_reading,_BrooklynMohsin Hamid

 

No terceiro tempo, passados cinquenta anos, encontramos Nadia e Saeed em sua terra natal, onde Saeed ainda sonha em viajar ao Chile para observar o cosmos. Passagem para o Ocidente é frequentemente aplaudido, pelos leitores de língua inglesa, como um texto poético, narrado com delicadeza.  No Brasil, na tradução de José Geraldo Couto, essas qualidades não foram ressaltadas.  O livro apresenta uma linguagem objetiva e seca.  Cristalina.  Sem firulas.  Não agrada, nem desmerece a leitura.

Difícil recomendar esta leitura.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Limonov” de Emmanuel Carrère

22 07 2019

 

 

 

s-l1600Sem título, da Série Dois

Martin M (Rússia, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 18 x 13 cm

 

 

Limonov, de Emmanuel Carrère, foi best-seller na França e recipiente do Prêmio Renaudot da Língua Francesa e do Prix des Prix, em 2011.  Traduzido por André Telles e publicado pela Alfaguara em 2013, não fez marolas por aqui, até ser indicado por Marcelo Rubens Paiva para uma editora que publica livros por assinatura em 2017.  Não é leitura fácil, em parte porque o biografado, Eduard Limonov, é uma pessoa desprezível, canalha, ordinário e sem-vergonha.  Mas que descrito pelo autor parece uma pessoa fascinante.  “Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe.  Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris, soldado perdido nas guerras dos Balcãs e agora no imenso caos do pós comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados…”  Com essa introdução por Carrère é natural que se espere mais de Eduard Limonov do que o repelente marginal, personalidade secundária, um ser asqueroso, cuja vida seguimos em grande detalhe.

Limonov é descrito como biografia. Mas premiado como romance.  Como?  Por que?  Em parte porque Carrère só entrevistou Eduard Limonov uma vez por duas semanas e a esta altura com o livro quase pronto.  Por outro lado, porque a vida do biografado e a do biógrafo se intercalam e aos poucos descobrimos a paixão, ou até mesmo a inveja de Carrère, não pelo homem Limonov, (Carrère para de escrever o livro por mais ou menos um ano, duvidando da própria razão deste trabalho) mas pela sedução que a vida de aventuras de seu biografado parece ter acendido.  Passei, então, a ver o livro não como uma biografia, mas como um interlóquio entre o escritor e Limonov.

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São dois homens que pararam emocionalmente na adolescência.  Basta dizer que para ambos os livros que mais marcaram suas vidas foram os de aventuras de Alexandre Dumas e obras do americano Jack London.  Eduard Limonov ( Eduard Savenko) nasceu na Ucrânia (portanto cidadão de segunda classe na hierarquia soviética) e passou a vida como rebelde. Pobre, sem respeito por mãe ou pai, Limonov se rebela contra o status quo de qualquer situação.  Seu verdadeiro objetivo é ser do contra.  Mesmo quando o que advoga, por anos, acontece, ele rapidamente muda de posição e torna-se um insurgente, um do contra, já que o que defendia tornou-se norma.  Revolta, seu nome é Limonov.  E sua maneira de revoltar-se não passa de grandes gestos juvenis, sem esteio ou fundamento.  Tanto que no frigir dos ovos Limonov não consegue nada, não passa de um energúmeno, machista, inepto e idiota.

Emmanuel Carrère, por outro lado, desfrutou de uma família bem estruturada: pai executivo, mãe historiadora e professora universitária.  Cresceu e continuou como adulto a se beneficiar das benesses da vida burguesa parisiense. Não se revoltou contra o estabelecimento.  É o verdadeiro oposto de Limonov.  E, ainda que pudesse ter interesse intelectual sobre os revolucionários russos, a mim, escapa a fascinação do autor por um membro tão desnorteado da cosmografia russa.  Não posso deixar de pensar numa pequena revolta contra sua própria mãe, especialista em história russa.  Será que Carrère, deveria ter dedicado tanto de seu tempo e indústria construindo um altar ao anti-herói? Talvez sua mãe, se assim quisesse, pudesse nos dar valor mais acertado do verdadeiro papel de Limonov na resistência, se relevante, contra a abertura do sistema soviético do final do século XX.  E ainda, a fascinação com o “revolucionário” lembra-me defensores do comunismo severo, do stalinismo ou seguidores de Trotsky, que, aqui no ocidente, dormindo em camas macias com lençóis de seda, dirigindo carros do ano, comendo e bebendo á vontade, abrigando-se em belas e espaçosas casas, continuam achando que uma revolução ou um sistema semelhante ao que se estabeleceu na antiga URSS seria a solução para as desigualdades no mundo.  É uma visão idealista, sem qualquer pé na realidade e primária. E, nós mesmos, leitores de Limonov testemunhamos a falácia do sistema através da própria narrativa de Carrère.

 

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Há duas grandes qualidades nesta obra.  A primeira é a habilidade de Carrère de nos manter atentos ao texto, de tal modo que mesmo execrando as ações de Eduard Limonov,  o que nos é contado, de maneira muitas vezes rude ou crua, nos faz  continuar página após página a seguir o fanático e imbecil personagem que o autor nos impôs. A segunda qualidade é o retrato da Rússia sob o governo comunista e sob a abertura iniciada por Gorbachev e da Rússia que conhecemos hoje, a Rússia de Putin, que mais do que nunca aparece como cidadão bastante perigoso.  Poucas vezes temos a oportunidade de ler uma obra que nos traz ações tão contemporâneas, referências a momentos históricos que vimos na televisão ou lemos nos jornais. Essa parte política, tenho certeza, foi de grande valia para que o livro se tornasse best seller na França.  Para os franceses o que acontece em Moscou é de grande importância.  Eles estão muito próximos, apesar dos diversos países que os separam: Bélgica, Alemanha,  Polônia, Bielorrússia. A título de curiosidade procurei a distância entre Paris e Moscou.  É um pouco mais de 2.800 km.  Colocando em nossos termos é menor do que a distância entre Porto Alegre e Palmas, esta é superior a 2.900 km.  Assim, tudo que acontece na Rússia é de muito maior interesse para os franceses do que para nós, aqui em outro continente separados por mar e terra imensos.

Não sei para quem devo recomendar este livro.  Li.  Não gostei.  Mas apreciei as informações que me foram dadas.  E apreciei a habilidade de Carrère.  Mas de cinco estrelas, três estão de bom tamanho.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

 

 





Resenha: “As redes da ilusão” de Amy Tan

4 07 2019

 

 

 

Painting04-600x457Aldeia à beira de rio, em Burma

U M.T. Hla (Burma, 1874 -1946)

Aquarela,  21 x 16cm

 

 

Comecei a leitura de As redes da ilusão de Amy Tan [tradução de Ana Deiró] de maneira hesitante: um fantasma, como narrador, não me parecia interessante.  Grande erro.  A alma morta que nos conta a história do livro tem um grande senso de humor, e não foram poucos os momentos de riso solto durante o convívio com essa protagonista.  Este é o primeiro livro de Amy Tan que leio.  Chego atrasada à famosa escritora de grandes sucessos.  Mas descobri que, entre seus seguidores, esta não é uma obra favorita.  Entendo.  A leitura deste volume me pareceu longa, com muitos momentos em que vi com pesar a falta de um editor que tivesse a responsabilidade de cortar umas cem páginas do total, repletas de detalhes que subtraem do interesse do leitor.

Trata-se da história de um grupo de turistas americanos que viaja a Burma, parando primeiro na China.  A narradora-fantasma seria a guia do grupo, mas morreu antes.  Daí seu interesse, em parte.  É um grupo heterogêneo, típicos ocidentais, americanos, mas poderiam facilmente ser brasileiros, que acreditam na superioridade de seus conhecimentos.  Absorvidos em si mesmos quase não aproveitam as oportunidades que lhes são apresentadas e por descuido de quem não entende a cultura onde se inseriu, fazem os maiores descalabros, causando revolta e aparecendo no noticiário local.  Ainda que a intenção do texto seja mostrar a falta de cuidado com a cultura dos outros que muitos turistas internacionais têm, essas “distrações” são fonte de grande humor e de alguma ponderação sobre o comportamento humano.

 

amy tan

 

Nesse meio tempo somos apresentados a um grupo de nativos da região que acredita,  que, um dia, um ser espiritual branco virá salvá-los. Ao verem os mais básicos e corriqueiros truques de mágica de um dos adolescentes do grupo, esse povo acredita na chegada de seu salvador.  E resolve raptá-lo.  Na verdade, levam o grupo inteiro de turistas pelos caminhos da floresta.  Turistas tão absorvidos em si próprios que não se dão conta de que estão sendo raptados. Para mim esta foi uma das partes mais interessantes da narrativa. De aventura em aventura, chegamos a vislumbrar alguns problemas de excesso de poder da junta militar de Burma, e a falta de respeito aos direitos humanos que ainda prevalece em muitos lugares no mundo.  Achei este desenvolvimento do texto sobre a política local, forçado e inserido para agradar à população americana de origem asiática.  Por mim, não é essa a maneira de se sensibilizar os leitores, ficou fora da cadência anterior, engraçada, quase uma comédia de erros.

 

amy tanAmy Tan

 

Curiosamente As redes da ilusão leva um nome diferente no original em inglês: “Saving fish from drowning” [salvando peixes do afogamento], que se refere a uma pequena passagem no livro, sobre uma lenda  local  que desculpa pescadores de matar os peixes pescados.  Eles pescam os peixes para que não morram afogados.  Quando morrem porque estão fora d’água não resta mais nada senão comê-los ou vendê-los.  Ilustra um ponto importante deste romance, que mostra que muitas vezes ajudamos alguém com as melhores intenções mas não conseguimos salvá-los de seus próprios destinos, como acontece com os turistas neste livro.

No todo, com menos umas cem páginas, este seria um livro recomendável a todos.  Como está, uma colcha de retalhos de aventuras díspares e com a inserção de postulados políticos, acho difícil recomendar a leitura universalmente.  Houve momentos em que do livro fui ao Google, para procurar imagens das cidades, montanhas, lugares descritos.  Isso ajudou a passar os momentos de enfado com um texto que nem sempre parece ter direção.  E é claro, aumentou muito a minha cultura sobre essa região do mundo.  Mas foi preciso um esforço meu, para vencer a prosa prolixa de Amy Tan.

 

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Cyrano de Bergerac, o verdadeiro – celebrando os 400 anos de nascimento!

9 03 2019

 

 

8-1-1898 Lillustration,Benoît-Constant Coquelin (Coquelin aîné), en Cyrano de Bergerac, à la première de la pièce du même nom, d' Edmond Rostand, le 27 décembre 1897 au théâtre de la Porte-Saint-Martin..Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia  da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.

 

 

Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX?  No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta].  Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.

Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta.  Veio de  família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac.  Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo.  Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa.  A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan,  Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay.  Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes.  Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.

 

 

cyrano Etienne Jehandier DesrochersCyrano de Bergerac

Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)

Gravura, de quadro a óleo

 

A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê.  Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos.  Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux.  Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos,  seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640.  Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.

 

Savinien_de_Cyrano_de_BergeracRetrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.

 

 

As obras de Cyrano de Bergerac,  L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica.  No primeiro livro, Cyrano viaja  à lua,  usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças.   Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.

Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.

 

Obra:

Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O  ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.

 

 La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654  [A morte de Agrippina, tragédia]

Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654

Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657

Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.

Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709

 

Aqui algumas ilustrações em sua obra:

 

1657 - Portada 1662

 

1657_ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil_

 

1657__ Cyrano de Bergerac´s L’Histoire comique contenant les états et empires du soleil _

 

1657__ Le parlement des oiseaux des Etats et Empires du soleil_

 

travelling to the moon

 

 





Livros para presente? Que tal autores de língua francesa?

15 12 2018

 

EVHE (França), La lectrice, huile sur toile, 54 x 65 cm.Leitora

Evelyne Heimburger (França, contemporânea)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

 

 

Até os anos 70 do século XX ninguém poderia se considerar bem letrado, sem conhecimento básico da literatura em francês.  Não só da clássica, Balzac, Flaubert, Stendhal, Dumas, Maupassant, Jules Verne entre outros do século XIX, como os da primeira metade do século XX: Camus, Gide, Sartre, Beauvoir, Simenon, Colette, Yourcenar.

Assim como aconteceu nas artes plásticas ao final da Segunda Guerra Mundial,  o centro literário do mundo ocidental saiu da França e desembarcou nos Estados Unidos.  O mesmo ocorre através dos séculos: centros culturais locais e universais só existem onde há poder financeiro.  A Europa em pedaços, pobre, devastada pela guerra, não oferecia suporte para as artes: plásticas, literárias, dança, música ou qualquer outra. As artes necessitam de ambiente com amplo  poder econômico que as mantenham como boas amantes, que devem ser belas e dispendiosas, elas precisam ser teúdas e manteúdas.  Nas minhas primeiras aulas de história da arte, quer o tema seja arte moderna, medieval, barroca ou de qualquer era, tenho imenso prazer de chocar jovens idealistas que ali se encontram ao dizer, logo na primeira hora, que sem dinheiro não temos arte. Olhos cheios de emoção, sonhadores, visionários, custam a acreditar que no santuário do saber, na aula de história da arte, pudéssemos falar tão abertamente do vil metal.  O ar de desgosto é geral e alguns alunos ainda acham que conseguiriam arguir contra esta observação, mas estudar história, é em grande parte estudar os movimentos econômicos do mundo.  Pode ser história da ciência, militar, naval ou da arte.  O caminho será o mesmo.

Voltando à literatura na língua francesa: sim, ela sofreu.  Sofreu muito. O mundo anteriormente criado e mantido pela França estava ferido.  Quase ferido de morte.  Em parte com ajuda dos próprios franceses que, em muitas regiões, se submeteram aos invasores.  Passados meros 10 anos do final da Segunda Guerra Mundial a França sofreu mais ainda com a Guerra da Independência da Argélia,  de 1954 a 1962. Não bastasse a devastação a que o país se submetera no Regime de Vichy, a geração seguinte de franceses se afundou e morreu no norte da África. Os franceses dizem que 400.000 pessoas morreram dos dois lados, enquanto a Argélia mantém que 1.500.000 morreram.  Qualquer que seja o número, no final da Segunda Guerra Mundial a França contava um pouco mais de 40 milhões de cidadãos.  Quer sejam 200.000 ou 750.000 franceses mortos, o número é grande demais para o tamanho do país.

Com essas reviravoltas a produção literária francesa deixou a desejar se comparada ao que acontecia no resto do mundo.  E o poder financeiro estava fora da França e dos países em que a língua francesa era prevalente. Volta, os poucos, no início deste século. É claro que houve bons e capazes escritores no final do século XX, mas nunca chegaram a ter a proeminência de seus pares de outras terras.   Volta, reforçada pelas mãos de escritores vindos das ex-colônias, assim como aconteceu com Inglaterra e Portugal cujas obras contemporâneas estão repletas de talentos nascidos nos países aculturados.  A França ganhou a Segunda Guerra, junto aos aliados, mas perdeu poder no mundo.  A língua francesa, na época de minha mãe, um requisito para qualquer cidadão no mundo, perdeu influência, porque o país perdeu influência econômica.  Por mais que isso me deixe entristecida, já que me dediquei e dedico à leitura em francês, temos que admitir que a importância de uma língua está também atrelada ao poder econômico daqueles que a falam.  Nesse aspecto, a Inglaterra, também sofrida com a Segunda Guerra Mundial, e membro da mesma aliança de países que venceu o Eixo, se saiu bem melhor. Não só porque o inglês já era considerado a língua comercial do mundo, e portanto falada por muitos,  mas era a língua nativa da maioria dos países aliados.  A Grã-Bretanha recuperou e expandiu seu poder nas criações literárias produzindo alguns dos mais interessantes escritores na segunda metade do século XX,  muitos deles vindos de antigas colônias: Doris Lessing,  R.K. Narayan, Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, Alice Munro, Margaret Atwood e os britânicos Graham Greene, Martin Amis, Margaret Drabble, Ian McEwan, A. S. Bayett, Julian Barnes, Hilary Mantel, John Banville, Cólm Tóybín, Allan Hollinghurst,  Zadie Smith, Penelope Lively, entre outros que no momento me escapam.

Mas a França só perdeu o brilho temporariamente.  Aos poucos, a literatura originalmente produzida em francês reganha status voltando com algumas grandes contribuições de romancistas. Muitas obras ainda dedicadas às grandes chagas sociais do país sofrido por tantas e consecutivas guerras.   Isso é importante porque cada uma dessas nações europeias, sofridas com as guerras do século passado, tem visões bastante diferentes do mundo, sobre o que importa e sobre o papel do ser humano nas sociedades. São dessas tradições humanísticas, que enriquecem o cotidiano cultural do planeta, que a nossa cultura ocidental depende. Aqui estão alguns dos mais recentes livros cujos originais são em francês.  Eu me limito aqui ao que foi traduzido e publicado no Brasil nos últimos anos quatro anos, de 2014 a 2018, ou seja, obras que podemos encontrar nas livrarias com maior facilidade.  Esses livros muito adicionariam à sua biblioteca e espero que mostrem a variedade criativa dos autores contemporâneos.

 

CANção de ninar

 

1 — Canção de Ninar, de Leila Slimani, Editora Tusquets, 2018, 192 páginas  —- Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde.  Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos de classe e entre culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade.

 

 

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2 — Bússola, Mathias Énard,  Editora Todavia, 2018,  352 páginas —- Bússola é uma meditação musical e encantatória sobre Oriente e Ocidente, sobre “nós” e os “outros”.  Cai a noite sobre Viena e Franz Ritter, um musicólogo apaixo­nado pelo Oriente Médio, procura em vão dormir, à deriva entre sonhos e memórias, melancolia e febre. Revisitando sua vida – suas numerosas estadias em Istambul, Alepo, Damasco, Palmira, Teerã –, seu amor por Sarah, uma erudita francesa dona de uma inteligência feroz, e a memória de outros viajantes, aventureiros, acadêmicos e artistas do Ocidente que se apaixonaram pelo “outro” não europeu, Ritter (portador de uma doença aniquiladora) atravessa a noite nu­ma vertigem de memórias, viagens e histórias. Bússola é uma declaração de amor e uma jornada em busca da diferença, entre Ocidente e Oriente, entre ontem, hoje e amanhã. Um inventário sobre os traços que nos distinguem uns dos outros, e uma aposta – cheia de sabedoria – sobre aquilo que nos faz tão próximos e humanos.

 

 

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3 — Baseado em fatos reais, Delphine de Vigan, Editora Intrínseca, 2016, 256 páginas —- Em uma obra em que o leitor é levado constantemente a questionar o que lhe é apresentado, Delphine de Vigan constrói um clima confessional, sombrio e opressivo para expor a obsessão do mercado editorial e do cinema pelas narrativas baseadas em fatos reais. A linha tênue entre verdade e mentira oscila para enriquecer uma poderosa reflexão sobre o fazer literário e questionar as fronteiras entre aparentes dicotomias, como real e ficção, razão e loucura, público e privado. Um livro brilhante, que joga com os códigos da autoficção e do thriller psicológico.
Após o grande sucesso de seu último livro, em que revelava perturbadores segredos familiares, Delphine se vê diante da temível pergunta: o que vem depois de um texto tão pessoal, que comove tantos leitores? A inércia. O sucesso a fragiliza a tal ponto que a deixa completamente vulnerável. Ela não consegue mais escrever nem uma linha, nem sequer se sentar diante do computador ou segurar uma caneta. Está esgotada, e vive assombrada pela pressão da próxima obra.   Tomada pelo bloqueio criativo, o sentimento de impotência e isolamento permeiam constantemente sua vida: os filhos gêmeos, Louise e Paul, estão prestes a sair de casa para seguir o próprio caminho e ingressar na universidade. Além disso, seu namorado, François, é um famoso jornalista e apresentador de um programa de crítica literária e está sempre viajando para o exterior. A instabilidade emocional de Delphine ainda é agravada pelas cartas de teor bastante violento que recebe de um remetente anônimo, ameaçando-a por ter exposto publicamente sua família. Nesse cenário de fragilidade, Delphine conhece L., uma mulher sofisticada, confiante, feminina, carismática e atraente. Tudo o que ela sempre desejou ser. L. parece ter um passado misterioso, trabalha como ghost-writer, e entra de modo insidioso na vida da escritora, que vê na amizade uma forma de superar seu bloqueio criativo. L. é a amiga perfeita, sempre disponível, e logo passa a interferir nos aspectos mais íntimos da vida de Delphine. O domínio de uma sobre a outra é inesperado. A conexão entre elas parece… inacreditável.

 

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4 — O caso Meursault, Kamel Saoud, Editora Biblioteca Azul, 2016, 168 páginas —-  O romance tem como ponto de partida um dos maiores clássicos da literatura francesa no século XX, O Estrangeiro, de Albert Camus, cuja trama é reconstruída sob o ponto de vista do homem assassinado por Meursault, o personagem central da obra camusiana. Sem voz nem nome no livro do escritor francês, o árabe morto recupera a identidade na narrativa de Kamel Daoud. Em um bar em Orã, na Argélia, Haroun, irmão mais novo do assassinado, fala a um universitário parisiense interessado em ouvir o que foi oculto no romance de Camus. O foco da conversa é a cena decisiva de O Estrangeiro, na qual o narrador Meursault, ao se sentir ameaçado por desconhecidos em uma praia deserta, atira em um homem, sob um sol escaldante. Em O caso Meursault, a vítima ganha o nome de Moussa, um homem simples e cheio de vida, conforme a lembrança de Haroun. O personagem relata sua infância marcada pelo assassinato do irmão e pela busca desesperada da mãe pelo corpo do filho. Mas o autor não se limita a isso e surpreende quando, fazendo bom uso da ficção, retira Moussa, o árabe ignorado, do lugar do injustiçado. Com prosa irônica e cortante, o escritor faz evocar, na figura de Meursault, o próprio Camus. No momento em que o leitor revisita o narrador de O Estrangeiro ouvindo a voz de seu próprio autor, Kamel Daoud transforma sua ficção em um espaço livre, sem censura, para pensar a questão do colonialismo e os impasses da Argélia independência.

 

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5 — O fim de Eddy, Édouard Louis, Editora Tusquets, 2018, 178 páginas —- “Todas as manhãs, enquanto me arrumava no banheiro, eu repetia a mesma frase sem parar, tantas vezes que ela terminaria por perder o sentido, passaria a não ser mais do que uma sucessão de sílabas, de sons. Eu parava e retomava a frase: Hoje eu vou ser um durão. Eu me lembro porque eu repetia exatamente aquela frase, como se faz com uma oração, com aquelas exatas palavras – Hoje eu vou ser um durão (e eu choro enquanto escrevo estas linhas: choro porque eu acho essa frase ridícula e horripilante, essa frase que, durante anos, me acompanhou e que de certa forma ocupou, não creio que haja exagero em dizer isso, o centro da minha vida).”

O fim de Eddy, romance autobiográfico de uma das mais proeminentes vozes da nova literatura francesa, desvela o conservadorismo e o preconceito da sociedade no interior da França. De forma cruel, seca e sufocante, a violência e a amargura de uma pequena cidade de operários se contrapõem à sensibilidade do despertar sexual de um garoto, estabelecendo um paralelo direto com as experiências do próprio autor.

 

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6 – Submissão, Michel Houellebecq, Editora Alfahuara, 2015, 258 páginas —- França, 2022. Depois de um segundo turno acirrado, as eleições presidenciais são vencidas por Mohammed Ben Abbes, o candidato da chamada Fraternidade Muçulmana. Carismático e conciliador, Ben Abbes agrupa uma frente democrática ampla. Mas as mudanças sociais, no início imperceptíveis, aos poucos se tornam dramáticas. François é um acadêmico solitário e desencantado, que espera da vida apenas um pouco de uniformidade. Tomado de surpresa pelo regime islâmico, ele se vê obrigado a lidar com essa nova realidade, cujas consequências — ao contrário do que ele poderia esperar — não serão necessariamente desastrosas. Comparado a 1984, de George Orwell, e a Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Submissão é uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade. É um dos livros mais impactantes da literatura atual.

 

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7 — O leitor do trem das 6h27, Jean-Paul Didierlaurent — Editora Intrínseca,  2015, 176 páginas —- Um romance sensível sobre o poder dos livros e da literatura. Operário discreto de uma usina que destrói encalhe de livros, Guylain Vignolles é um solteiro na casa dos trinta anos que leva uma vida monótona e solitária. Todos os dias, esse amante das palavras salva algumas páginas dos dentes de metal da ameaçadora máquina que opera. A cada trajeto até o trabalho, ele lê no trem das 6h27 os trechos que escaparam do triturador na véspera. Um dia, Guylain encontra textos de um misterioso desconhecido que vão fazê-lo buscar cores diferentes para seu mundo e escrever uma nova história para sua vida. Com delicadeza e comicidade, Didierlaurent revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que os personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia cotidiana.

 

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8 — O círculo dos Mahé, Georges Simenon, Editora Companhia das Letras: 2017, 120 páginas —- Aos trinta e cinco anos, casado e com dois filhos, o dr. François Mahé ainda mora com a mãe e leva uma típica vida pequeno-burguesa. Certo verão ele decide ir com a família à ilha de Porquerolles, no sul da França. No entanto, um constante mal-estar o impede de desfrutar o paraíso mediterrâneo. Ao ser chamado para examinar uma mulher no leito de morte, o médico se vê entre uma família humilde e fica fascinado pela mais velha dos três filhos, uma jovem muito magra que usava um vestido vermelho. Começa então uma história de obsessão e crise profunda, e somos levados pela jornada sombria da alma do protagonista. A morte da mãe também abalará as estruturas do dr. Mahé e, com o passar do tempo, ele será impelido a retornar à ilha mediterrânea ano após ano, como que hipnotizado pela garota. Com sua prosa enxuta e fluente, Simenon faz um retrato soturno da psique de um homem medíocre que vislumbra uma alternativa à banalidade, mas sofre para conseguir alcançá-la.

 

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9 — Felicidade conjugal, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand Brasil, 2014, 322 páginas —-  Existe felicidade conjugal em uma sociedade na qual o casamento é uma instituição inabalável? O protagonista, um pintor obrigado a se aposentar após sofrer um AVC, sofre com a certeza de que sua relação conjugal caótica foi a responsável por seu colapso. Diante disso, com o tempo ocioso e com medo de cair em depressão, ele decide escrever suas memórias, narrando o começo do relacionamento, a má relação com os sogros, o amor louco, a rotina e o ódio que se instalou. Um trabalho de autoanálise, que vai ajudá-lo a encontrar coragem para se libertar da relação destrutiva com a esposa. Esta é a primeira parte do livro, chamada de “O homem que amava demais as mulheres”.  Ao descobrir, por acaso os escritos do marido, a esposa decide escrever sua versão dos fatos. Começa então a segunda metade, intitulada de “Minha versão dos fatos – Resposta a O homem que amava demais as mulheres”. Obviamente, as versões são divergentes, a ponto de o leitor questionar se os dois fizeram parte da mesma história, do mesmo casal.
Sucesso de crítica e multipremiado por toda a Europa, Tahar Ben Jelloun retrata em Felicidade conjugal a história de um homem que resolve pintar seu último quadro: o de seu relacionamento. As cores são fortes, e, como toda obra de arte, sempre há mais de uma opinião sobre o mesmo assunto, a mesma vida, os mesmos atos.

 

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10 — Limonov, Emmanuel Carrère, Editora Tag Experiências Literárias, 2017, 377 páginas —- Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nas guerras dos Bálcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante: suspendo neste ponto meu julgamento. É uma vida perigosa, ambígua: um verdadeiro romance de aventuras. É também, creio eu, uma vida que conta alguma coisa. Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de nós todos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

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11 — Remissão de pena, [Trilogia Essencial] Patrick Modiano, Editora Record, 2015, 128 páginas —- A autobiografia romanceada do autor do Prêmio Nobel de Literatura em 2014. Patrick e seu irmão são confiados a amigas de seus pais em Paris após a Segunda Guerra. Das mulheres responsáveis pelos dois meninos pouco se sabe além do que revelam os trechos de conversas entreouvidas por Patrick: que uma delas é uma pessoa triste e que a outra foi artista de circo. Isso e o fato de receberem as visitas frequentes de Jean D. e Roger Vincent durante o dia e de diversos visitantes noturnos. Nesse mundo intangível, os dois irmãos seguem de mãos dadas pela infância através da rue du Docteur-Dornaine e em meio a visitas a castelos, excursões a Paris, leitura de histórias de aventura, tardes ouvindo rádio — sempre à espera de que, um dia, alguém volte para buscá-los.

 

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12 — A caderneta vermelha, Antoine Laurain, Editora Alfaguara, 2016, 125 páginas —-  Caminhando pelas ruas de Paris em uma manhã tranquila, o livreiro Laurent Letellier encontra uma bolsa feminina abandonada. Não há nada em seu interior que indique a quem ela pertence – nenhum documento, endereço, celular ou informações de contato. A bolsa contém, no entanto, uma série de outros objetos. Entre eles, uma curiosa caderneta vermelha repleta de anotações, ideias e pensamentos que revelam a Laurent uma pessoa que ele certamente adoraria conhecer. Decidido a encontrar a dona da bolsa, mas tendo à sua disposição pouquíssimas pistas que possam ajudá-lo, Laurent se vê diante de um dilema: como encontrar uma mulher desconhecida em uma cidade de milhões de habitantes?

 

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13 — A extraordinária viagem do faquir que ficou preso no armário Ikea, Romain Puértolas, Editora Record, 2014, 256 páginas —-  A figura de um faquir está associada à meditação, ao treinamento e à magia. Mas, no caso de Ajatashatru Ahvaka Singh, é mais provável que o público se depare com truques e trapaças. A última de suas artimanhas foi convencer sua aldeia a pagar por uma viagem a França para adquirir a Camadepregösa, um modelo de cama de pregos vendida pela Ikea. Só que ele não contava em ficar preso dentro de um dos armários da loja. Nem que o móvel seria despachado para outro país. Assim, o faquir e seu turbante partem para uma aventura, ainda que involuntária, pelo mundo, fazendo uma horda de inimigos, alguns amigos e aprontando muitas confusões pelo caminho.

 

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14 — A outra história, Tatiana de Rosnay, Editora Intrínseca, 2016, 272 páginas —-Ágil, repleto de camadas e belamente escrito, A outra história é uma reflexão sobre identidade, o processo de ser escritor e a glória e o preço da fama, um retrato de como as decisões de antigas gerações ecoam no presente e moldam o futuro.
Aos vinte e quatro anos, Nicolas Duhamel se depara com um segredo de família perturbador mantido a sete chaves por muitos anos. Perplexo, embarca para São Petersburgo em uma jornada em busca da verdade. Porém, as respostas não surgirão tão facilmente.
Os mistérios de sua origem familiar o levam a escrever seu primeiro romance, O envelope, e a assiná-lo como Nicolas Kolt. Após três anos do inesperado e estrondoso sucesso mundial do livro, Nicolas é um escritor vaidoso, com muitos fãs, um autor obcecado pela fama e pelas redes sociais a ponto de deixar de lado a família e os amigos.
Tanta aclamação, no entanto, tem seu preço, e todos perguntam sobre o novo livro. Mas Nicolas não é capaz de escrever sequer uma linha e não suporta mais mentir. Desejando se afastar de tudo para encontrar uma nova inspiração, ele viaja para a Itália com sua namorada Malvina e se hospeda em um luxuoso hotel na costa da Toscana. Durante o fim de semana em que espera paz e tranquilidade para compor a outra história, Nicolas Kolt se vê diante de perigos e segredos que podem colocar seu futuro em jogo.

 

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15 — Os desorientados, Amin Maalouf, Editora Bertrand Brasil, 2014, 490 páginas —- Durante 25 anos, Adam não voltou mais à sua terra natal. Depois de fugir da guerra que assolou seu país, ele foi viver na França e se tornou um historiador renomado. Nesse meio-tempo, perdeu contato com seu círculo de amizade, que se dispersou por diversos lugares do mundo em busca de exílio. Quando decide voltar, o protagonista sente-se um estrangeiro em seu próprio país.  Os desorientados é um romance que expõe o que representaram os conflitos para aqueles que hoje estão na meia-idade. Até agora poucas obras haviam sido escritas a respeito dos anos de guerra e da carnificina ocorrida no Líbano. Maalouf faz isso sem comiseração, mas com sabedoria, adquirida após anos de estudo e vivência. Ao trazer à tona a questão cultural e exclusão dos cidadãos em sua própria pátria, o autor aborda, sem citá-la diretamente, a guerra no Líbano e aspectos negativos da sociedade libanesa.

 

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16 — Coração e alma, Maylis De Kerangal, Editora Radio Londres, 2017, 235 páginas —  Coração e alma é a história de um transplante cardíaco. É um relato de precisão cirúrgica, repleto de personagens inesquecíveis, em que histórias pessoais, diálogos e descrições técnicas se entrelaçam num ritmo frenético, digno de um grande filme de ação. O romance narra as vinte e quatro horas épicas entre um terrível acidente de trânsito ocorrido depois uma sessão de surf cheia de adrenalina — que causa a morte cerebral de um rapaz de 20 anos, Simon — e o instante em que seu coração recomeça a bater no peito de uma parisiense de 50 anos, Claire. Uma viagem emocionante e tocante, um tour de force que manterá o leitor em suspense até a última linha.

 

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17 — Irene, Pierre Lemaitre, Editora Universo dos Livros, 2015, 400 páginas —-  Para o comandante Camille Verhoeven, a vida não poderia estar melhor: ele tem um casamento feliz e está esperando o primeiro filho com a amável Irene.  Mas sua rotina agradável é interrompida por um assassinato cuja brutalidade choca toda a Brigada Criminal. O caso se torna ainda mais sombrio quando são encontradas similaridades entre o crime e o assassinato hediondo relatado em Dália Negra, um romance policial de James Ellroy, publicado em 1987.  A imprensa, então, apelida o assassino de “O Romancista” e a investigação do caso se desenvolve com os dois homens – o comandante Verhoeven e O Romancista – sob o olhar público, e um está determinado a ser mais inteligente do que o outro. No entanto, só é possível haver um ganhador: aquele que tem menos a perder.

 

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18 — A mulher no espelho, Eric-emmanuel Schmitt, Editora Record, 2014, 400 páginas —- Em Bruges durante a Renascença Anne foge no dia de seu casamento. Hanna mora na Viena imperial e acaba de se casar com um membro da elite local. Mas o que seria o começo de um final feliz é motivo de angústia para ela. Já Anny, nos dias de hoje, tem tudo o que se poderia desejar: dinheiro, beleza e sucesso. Tudo, menos felicidade. Três mulheres, três épocas, três histórias, o mesmo sentimento de inadequação. Schmitt narra de forma brilhante a jornada de personagens inquietas que buscam a verdade por trás da complexa existência.

 

NOTAS:

Esta é uma lista que não tenta cobrir tudo publicado no Brasil entre 2014-2018 em tradução de autores franceses ou considerados de língua francesa.

Este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “As filhas do capitão”, de Maria Dueñas

14 11 2018

 

 

 

as-trc3aas-irmc3a3s-1917-henri-matissefranc3a7a-1869-1954-ost-92x73-orsayAs três irmãs, 1917

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

Musée d’ Orsay, Paris

 

 

 

Este é o terceiro livro de Maria Dueñas que leio.  O primeiro, O tempo entre costuras, foi uma leitura excepcional.  Rara obra de aventuras em que uma mulher tem a liderança.  Foi também uma excelente maneira de relatar alguns detalhes da vida na Espanha na época de Franco.  Nota dez.  Li depois  O melhor está por vir.  Não me encantou.  A mim, pareceu um exercício forçado para a entrada no mercado americano.  A história se passa na Califórnia, e está ligada às missões espanholas.  Por isso não li nenhuma outra obra de Dueñas.  Mas este mês meu grupo de leitura  escolheu As filhas do Capitão, para discussão.

Assim como seu primeiro livro – O tempo entre costuras,  sucesso mundial que virou uma série na televisão, muito boa por sinal — este é um livro de aventuras.  Aqui três jovens irmãs emigram para os Estados Unidos nos anos 30 do século XX.  As filhas do Capitão  tem capítulos pequenos e muitas situações de perigo, momentos críticos de decisões pessoais de cada personagem, refletindo com clareza e detalhe as vicissitudes, perigos, alegrias e sucessos dos recém-chegados ao EUA,  momento que imigrantes têm como um segundo nascimento ao desfrutarem de liberdades em geral fora de seu alcance na terra natal.  Sem dúvida a chegada ao país para onde se emigra  pode ser um período  de escolhas, e empreendedorismo sem igual. As irmãs, Victoria, Mona e Luz Arenas, que a princípio não queriam deixar a Espanha para acompanhar a mãe  e se juntarem ao pai emigrante, logo despertam para  novas possibilidades que são ainda mais sedutoras quando subitamente encontram-se órfãs  de pai e responsáveis pela mãe  camponesa, analfabeta, com visão do mundo limitada pela aldeia onde moravam naquele país ibérico.

 

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Como grande parte dos imigrantes, a família encontra respaldo na comunidade de conterrâneos emigrados.  Aqui foram espanhóis que ocupavam grande variedade de posições sociais, do trabalhador braçal, aos pequenos negociantes, profissionais liberais e até mesmo personagens da decadente família real do país.  Para sobreviverem,  se alimentarem, as irmãs jovens, atraentes e bonitas, decidem levar avante o pequeno restaurante endividado que o pai lhes deixara.  Sem nunca terem trabalhado no ramo, sem qualquer conhecimento de inglês, as irmãs Arenas se empenham em encontrar maneiras de sobreviver e simultaneamente descobrir as próprias habilidades, opiniões, gostos, limites, moral e perseverança.  Sem que se fale nas encrencas amorosas que pavimentam o caminho, este é um livro que descreve conquistas,  erros,  desavenças, decisões nem sempre acertadas,  a vida repleta de aventuras numa terra estranha.  Neste ponto As filhas do capitão é  um livro tão excitante quanto O tempo entre costuras.  O que é diferente, é a enorme coletânea de dados históricos que vêm muitas vezes a troco de nada, e pesam no texto por absoluta falta de disciplina da autora e falta de algum bom editor que lhe aconselhasse a cortar muito dessas partes.

 

mariaduenas-1-880x1264Maria Dueñas

 

Depois do sucesso de O tempo entre costuras Maria Dueñas deixou a carreira de professora universitária para se dedicar exclusivamente à escrita.  Tornou-se escritora por tempo integral.  Enquanto escrever  ficção era um hobby, uma segunda opção de vida, sua narrativa fluiu.  Toda a pesquisa necessária para retratar a época de Franco na Espanha fez parte da narrativa de seu primeiro romance sem pesar no texto.  Grande pesquisa histórica foi necessária para localizar este romance As filhas do capitão na mal conhecida imigração espanhola nos Estados Unidos.  É evidente que Maria Dueñas se dedicou seriamente a levantar os detalhes da época e de toda a colônia espanhola em Manhattan nos anos 30 do século passado.  Mas é exatamente por isso que há desconforto na leitura do texto.  Apesar de abraçar a carreira de escritora de ficção, a autora não conseguiu se desfazer do hábito acadêmico de colocar tudo o que se sabe num documento para provar que a pesquisa foi feita.  Maria Dueñas vestiu a toga de escritora sem se desfazer dos vícios da escrita acadêmica.  Há momentos em que quase sentimos sua vontade de colocar uma nota de rodapé sobre a descoberta que fez.  Há dezenas e dezenas de parágrafos sobre a família real espanhola; há detalhes sobre as ruas, sobre endereços, sobre hotéis, que não enriquecem necessariamente o texto, mas que servem de obstáculos para a leitura suave da história.  Muito disso poderia ser cortado.  Poderia também pertencer ainda a outro romance sobre espanhóis em Nova York.  E muito também poderia ser revelado através de diálogos, através de reflexões de personagens para suas decisões, sem que ocasionalmente o leitor se sinta tendo uma aula sobre o assunto.  Este é, sem dúvida, o grande defeito deste livro.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.








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