Resenha: “Entre cabras e ovelhas” de Joanna Cannon

13 02 2018

 

 

 

ravenna_santapollinaireJuízo final, século VI

Mosaico

Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena

 

 

Toda metrópole desenvolve áreas urbanas com sotaques, poder econômico, serviços que tornam bairros verdadeiras aldeias dentro de seu perímetro.   Elas facilitam a interação das pessoas, fazem de vizinhos, amigos e estabelecem regras de conduta nem sempre explícitas para os de fora, mas conhecidas pelos que ali moram. Não é a toa que há bairros tão famosos quanto as cidades onde se encontram: Nova York tem Queens, Brooklyn; Londres, East Side e Kensington Park;  Paris, Montmartre e Trocadéro;  São Paulo, Bexiga e Vila Mariana e Rio de Janeiro, Vila Isabel e Ipanema.  Nos bairros, similaridade de gostos e atitudes são grandes  e não é raro o comércio de sucesso em um local não ser bem sucedido em outra parte da cidade. A vila, de umas vinte casas,  descrita em Entre cabras e ovelhas tem esse perfil de comunidade bem tecida. Críticos da obra, dizem que é ‘mais uma história de vilarejo inglês’, tema muito explorado.  Mas o grupo de pessoas nesta obra forma uma sociedade preconceituosa que serve de  mecanismo central para o desenrolar da trama e solução de um mistério.

A literatura mundial está repleta de exemplos da moralidade circunscrita a aldeias ou comunidades, mantida pelo mexerico ou especulação sobre o comportamento de um ou mais habitantes.  Dar ouvidos a indiscrições, à maledicência é natural dos seres humanos. Yuval Noah Harari, no primeiro capítulo do livro Sapiens: uma breve história da humanidade  relaciona o mexerico, a fofoca, como ferramenta importante na evolução cognitiva da humanidade. Decisões tomadas em conjunto, por uma aldeia, defendendo território ou valores locais não são incomuns e o comportamento tribal nem sempre é judicioso. Pode ser arbitrário e com frequência infundado. Na literatura moderna há numerosos exemplos retratando o irracional de um grupo: o romance vencedor do Prêmio Goncourt O sol dos Scorta (2004) de Laurent Gaudé; o conto de Mark Twain, The Man That Corrupted Hadleyburg (1900), a peça teatral Assim é (se lhe parece), de Pirandello (1917) são variações no tema. É justamente esse comportamento insular que permite duas meninas, fascinadas pelo desaparecimento de uma senhora da vila, saírem por conta própria para resolver este enigma, no meio do caminho resolvem para si o mistério da onipresença de Deus, instigadas pelo sermão dominical na igreja que frequentam.

 

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O título do livro vem do evangelho de São Mateus (Mateus 25:31-46) e nos dá a diretriz da questão moral da trama.  No Juízo Final fiéis seriam divididos entre bons e maus, ovelhas e cabras. Não há como ficar em cima do muro, ou você é cabra ou ovelha. Aos poucos, à medida que conhecemos os habitantes da vila, através das aventuras de Grace e Tilly, duas meninas de dez anos, que investigam o desaparecimento da Sra. Creasy e procuram achar Deus no lugar em que moram já que acreditam que Ele manteria todos os moradores a salvo, descobrimos que nem sempre se é simplesmente ovelha ou cabra.  As duas meninas detetives, que traçam o caminho narrativo da trama, começam sua investigação no verão de 1976, um dos verões mais quentes da Inglaterra e para os moradores do local, aparentemente interminável. Intrigadas com o desaparecimento de alguém que conheciam, elas se mostram determinadas a descobrir o mistério. Mas suas perguntas acabam por explicar um acontecimento passado em 1967 que levou toda a comunidade a reagir de maneira inusitada.  Nove anos depois essas pessoas ainda se encontram controladas pelo passado que as prende a um voto de silêncio coletivo, levado a sério até o presente.

Parte do charme da história está na investigação das meninas.  Inocentes, elas vão de porta em porta,  fazendo perguntas que para os habitantes da vila são indiscretas e abrem fissuras na cortina de silêncio que mantêm. Por causa de sua ingenuidade, as meninas oferecem um ponto de vista novo, cândido e, por isso, colocam seus interlocutores em situações de inesperado melindre e grande humor.  Aliás, o humor prevalece nesta narrativa, com alguns momentos de riso espontâneo do leitor, o que dá um tom jovial e fino à história.  Além disso há a sátira bem desenvolvida sobre a crença em milagres, imagens milagrosas, comportamento religioso e cobertura sensacionalista da imprensa.

 

joanna-cannonJoanna Cannon

 

Ao final, é quase irrelevante se descobrimos as razões do desaparecimento da Sra. Creasy.  Narrado numa prosa pitoresca, com tradução de  Celina Portocarrero, este livro retrata paranoia coletiva, preconceitos numerosos e atitudes  arrogantes.  É uma história repleta de mistério, suspense, intriga, interpretações maliciosas de ações do dia a dia, maledicências repetidas sem pensar em consequências e segredos.  Tudo bem equilibrado pela ironia e humor.

Recomendo como um excelente entretenimento. A Semana Santa vêm aí, a pouco mais de um mês, este seria um ótimo companheiro para dias de lazer.  De no máximo cinco estrelas, dou-lhe quatro, por dois motivos: primeiro, um muito pessoal, acho que a história poderia ser mais curta (mas esta tem sido uma objeção tão comum nas minhas leituras que me pergunto se não ando impaciente demais) e  segundo, eu gostaria de ter tido no início do texto um pequeno mapa da vila e de suas casas.  Li este livro em um dos meus grupos de leitura e todos os participantes acabaram por fazer anotações tentando localizar melhor as casas, para não ter que voltar a capítulos anteriores à procura de quem se falava. Mesmo assim uma leitura muito agradável.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Resenha:”A vida peculiar de um carteiro solitário” de Denis Thériault

22 01 2018

 

 

 

480px-Vincent_van_Gogh_-_Portret_van_de_postbode_Joseph_RoulinO carteiro Joseph Roulin, 1888

Vincent van Gogh  (Holanda, 1853–1890)

óleo sobre tela,  81x 65

Museu de Belas Artes de Boston

 

 

 

A vida peculiar de um carteiro solitário, de Denis Thériault, traduzido por Daniela P. B. Dias, é um livro difícil de definir. Prosa e verso se misturam e formam um todo potente.  O enredo trata de um homem solitário, carteiro, com personalidade limítrofe ao autismo  que, para seu próprio divertimento, abre sistematicamente cartas que leva para casa, cartas vindas ou endereçadas a pessoas na sua rota.  Sua curiosidade inicial é a fascinação pela caligrafia que vê nos envelopes,  arte a qual se dedica.  Durante a execução destes pequenos crimes, levando as cartas para casa, abrindo-as com vapor, lendo-as e colocando-as de volta na rota original, apaixona-se simultaneamente por uma mulher que não conhece e pela poesia japonesa.

Com encanto, este pequeno romance trouxe-me memórias vívidas de duas obras: uma do cinema e outra da literatura.  Lembrei-me da comédia australiana Malcolm (1986), dirigido por Nadia Tessa e estrelado por Colin Friels, que trata de um homem com características de autismo cuja paixão por carros de controle remoto o leva a cometer um crime: as habilidades de Malcolm são usadas por uma quadrilha para assaltar um banco. Aqui também a personalidade limítrofe de Bilodo, um homem tão solitário e recluso quanto Malcolm, o leva a se envolver em crime, ainda que de sua própria vontade. Outra lembrança foi da peça de teatro Cyrano de Bergerac,  de Edmond de Rostand, que será  muito provavelmente conhecida de  Denis Thériault, canadense da província de Quebec, cuja língua materna é francês.  Nesse clássico da literatura francesa,  obra trágica, um poeta declama os versos de outro que se esconde da amada, por não se achar à altura da bela moça.  O versos são de sua autoria, mas quem os declama, a voz e a aparência são de outro homem. Há uma quase simetria com o que acontece com carteiro Bilodo, que toma o lugar do poeta Gaston Grandpre e escreve haicais em seu  nome para conquistar Ségolène, na distante Guadalupe, no Caribe.

 

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Em um livro tão pequeno é de surpreender as reviravoltas caracterizando uma linha narrativa complexa, que além da história de amor, explana claramente sobre poesia japonesa, do haicai ao enso, forma circular da poesia nipônica.  Thériault passa alguns conhecimentos da filosofia zen,  explora o uso  do kimono mágico e ainda produz para deleite do leitor uma coletânea de belos haicais.  Para minha surpresa, que sempre considerei haicai poesia quase enigmática, evanescente,  um punhado dos haicais apresentados no texto vêm repletos de forte sensualidade, claras imagens eróticas, que fazem paralelo interessante às conhecidas xilogravuras policromadas, Ukiyo-e, retratando o  mundo flutuante pelos tradicionais mestres japoneses.

 

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Com o uso de imagens surpreendentes, poucos e inesquecíveis personagens, esta história está localizada entre o mundo do sonho e a realidade. Traz um pouco de assombro ao leitor, do início ao fim. A trama, muito bem desenvolvida, ressalta a solidão de Bilodo, cujo único amigo é Bill, o peixe de aquário, seu animal de estimação.  A solidão forma cada um de seus pensamentos e ações.  Este é um homem que vive através da vida dos outros, no canto seguro de seu pequeno, previsível e metódico mundo. Há uma tênue conexão que o segura, que o mantém no dia a dia, agindo no mundo que conhecemos.  Ela é ancorada nas suas obsessões, na tenacidade e precisão com que enfrenta o que há de novo no mundo.  Bilodo é um homem que aprecia detalhes e encontra beleza não só no gesto de uma caligrafia bem feita mas nas regras precisas da poesia japonesa.  É a rigidez desses conceitos que o seguram no cotidiano.  E ele se esforça para superar suas limitações, reconhece a dificuldade de trazer aos seus pequenos poemas a mágica da poesia, mas quando o consegue, encontra finalmente seu destino cármico. Este livro é quase um poema-prosa, que se desdobra em múltiplos significados e ângulos cada vez que o examinamos.  Um prazer de leitura.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





“A visita do policial”, texto de Joanna Cannon

12 01 2018

 

 

1d5ca3b98fdfb62477f9d3a9c020039b--police-jaydenilustração década de 1960

 

 

“Ela se senta à luz do dia, filtrada pela cortina. O sol fraco de novembro atravessa o tecido e elimina as sombras. As cortinas estavam fechadas há duas semanas, e mantinham a casa em suspenso entre a perda e a aceitação. Ela as fechou assim que o policial saiu, observando-o se afastar enquanto as puxava. Ele se revelara um rapaz compassivo, mas inseguro e claramente em dúvida quanto à etiqueta que deveria usar para informar a alguém que seu recém-falecido marido usufruía da companhia de uma passageira feminina, adquirida em algum lugar entre o posto de gasolina de Chiswick Flyover e a autoestrada. Ela teve vontade de deixá-lo mais à vontade, de dizer-lhe que há muito tempo sabia daquela passageira, que os últimos quinze anos tinham sido vividos à sombra dela, e de falar do imenso esforço necessário para criar uma vida em torno da sua existência. Teve vontade de oferecer ao guarda outra xícara de chá e de suavizar as arestas da conversa para que pudessem enfrentar juntos aquele constrangimento. Mas o policial precisava se ater a um inventário, ao questionário que era obrigado a preencher antes de se permitir abandonar a ponta da cadeira e a xícara intacta.

Ernest nem gostava dos New Seekers, ela havia dito, em busca de uma saída que pudesse trazê-lo de volta dos mortos.

O guarda fabricara um grupo de pequenos pigarros no fundo de sua garganta e explicara que a passageira feminina havia sobrevivido. Mais do que sobrevivido, estava naquele momento sentada no Pronto-socorro do Royal Berkshire Hospital, tomando chá num copo de plástico e explicando tudo a um de seus colegas.

Sinto muito, disse ele, embora ela não soubesse exatamente se ele estava lamentando a morte de seu marido ou se desculpando porque a amante havia sobrevivido.

Enquanto o observava se afastando, ela soube. Soube que ele contaria à esposa naquela mesma noite enquanto jantavam, recostando-se na cadeira, mastigando os detalhes da vida dela a cada garfada. E, no dia seguinte,  a mulher dele se sentaria na cadeira de um salão de beleza e diria você não pode contar isso a ninguém, e a cabelereira [sic] seguraria um pente entre os dentes e arrumaria mechas de cabelo em volta de rolos de plástico azul, imaginando a quem contaria primeiro. E soube com que facilidade todos ficariam sabendo do segredo que tanto se esforçara para manter oculto.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco: 2017, pp. 440-441.

 

 





“A sombra do jardineiro”, texto de Joanna Cannon

10 01 2018

 

 

 

jardim, jardineiro, jardinagem, primavera, Pierre Brissaud, House and Garden 1930-03Jardinagem, ilustração  Pierre Brissaud, capa de House & Garden, março, 1930.

 

 

 

“Ficamos ao lado de um canteiro, delimitado  com barbantes e estacas num ziguezague de misteriosa organização.

Eric Lamb cruzou os braços e olhou para o horizonte.

— Qual a coisa mais importante em um jardim? — perguntou.

Também cruzamos os braços para nos ajudar a pensar.

— Água? — sugeri

— Sol? — arriscou Tilly.

Eric Lamb sorriu e balançou a cabeça.

— Barbante? — falei num ato de puro desespero.

Quando ele parou de rir, descruzou os braços e disse:

— A coisa mais importante em um jardim  é a sombra de um jardineiro.

Cheguei então à conclusão de que Eric Lamb era muito esperto, se bem que ainda não soubesse exatamente por quê. Havia nele uma desenvoltura, uma sabedoria sem pressa que se alongava pelo chão como sua sombra. Olhei para o jardim e vi borboletas brancas dançando em torno de dálias, frésias e gerânios. Havia um coral de cores cantando para atrair minha atenção e era como se eu o ouvisse pela primeira vez. Pensei, então, na fileira de cenouras que tinha plantado um ano antes (cenouras que nunca sobreviveram, porque eu as desenterrava sem parar para conferir se ainda estavam vivas) e me senti meio agoniada.

— Como você sabe onde plantar as coisas? — perguntei. — Como sabe onde vão crescer?

Eric Lamb botou as mãos na cintura, observou o jardim justo conosco e então acenou com a cabeça para o horizonte. Eu podia ver onde a terra havia comido seus dedos e se instalado nas fissuras de sua pele.

— Planta-se igual com igual — ele respondeu. — Não faz sentido plantar um anêmona num campo cheio de girassóis, não é mesmo?

Tilly e eu respondemos ao mesmo tempo:

— Não.

— O que é uma anêmona? — sussurrou Tilly.

— Não tenho ideia — sussurrei de volta.

Acho que Eric Lamb percebeu.

— Porque a anêmona morreria — explicou. — Ela precisa de coisas diferentes. Para cada coisa existe um lugar lógico, e se uma coisa estiver onde deveria estar, então vai florescer.

— Mas como você sabe? — indagou Tilly. –, como você sabe se uma coisa está no lugar certo?

Experiência.

Ele apontou para nossas silhuetas, que se derramavam pelo cimento. A dele, grande e sábia, como um carvalho, e a minha e de Tilly, finas, esguias e incertas.

— Continuem a criar sombras — disse ele. — Se criarem sombras suficientes, chegará a hora em que saberão todas as respostas.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco: 2017, pp. 236-237.





“Verão”, texto de Joanna Cannon

1 01 2018

 

 

 

verão, donald zolanVerão, David Zolan.

 

 

 

“O cheiro de asfalto quente me beliscou o nariz e mudei as pernas de posição, afastando-as do calor dos tijolos. Não havia lugar algum onde se pudesse fugir do calor.  Ele estava lá todos os dias, ao acordarmos, insistente e constante, pairando no ar como uma discussão inacabada. Escoava os dias das pessoas para as calçadas e os pátios e incapazes de nos contermos entre tijolos e cimento, nos derretíamos do lado de fora, trazendo conosco nossas vidas. Refeições, conversas, debates, tudo despertava, perdia as amarras e era permitido ao ar livre. Até a vila estava mudada. Rachaduras gigantes abertas no chão, cheias de grama amarela, pareciam macias e instáveis. Coisas que haviam sido sólidas e confiáveis eram agora maleáveis e duvidosas. Nada mais parecia seguro. Os laços que mantinham as coisas coesas foram destruídos pela temperatura — foi o que disse meu pai –, mas parecia mais sinistro do que isso. Parecia que a vila inteira se transformava, se distendia e tentava fugir de si mesma.”

 

 

Em: Entre cabras e ovelhas, Joanna Cannon, tradução de Celina Portocarrero, São Paulo, Editora Morro Branco:2017, p. 16-17.

 

 





Lendo: William Somerset Maugham

17 12 2017

 

 

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ASSUNTO PESSOAL

William Somerset Maugham

Editora Globo: 1959, 226 páginas

 

SINOPSE

A deflagração da 2ª guerra mundial surpreende Somerset Maugham a viver no conforto de sua principesca Villa Mauresque, em Cap Ferrat, na Riviera francesa. O escritor, como um protegido dos deuses, colhia em vida os generosos frutos da glória literária.

Mas o conflito não o deixa insensível nem inativo. Oferece seus préstimos ao Ministério de informações da Inglaterra e recebe a tarefa de observar o moral das forças francesas e do operariado nas fábricas de munições e armamentos.

Isso lhe dá a oportunidade de ver a guerra por dentro e de acompanhar dia a dia aquele lamentável estado de coisas que conduziu a França à derrota, fazendo descer sobre o mundo civilizado a longa “noite de agonia” a que se referiu Maritain.

Sobrevém a capitulação. Maugham é obrigadoa dispensar a criadagem e a abandonar à própria sorte sua magnífica vivenda em Cap Ferrat, embarcando para a Inglaterra num pequeno navio carvoeiro na companhia de mais quinhentos refugiados.  Que viagem espantosa! Mais de vinte dias sob ameaça dos submarinos alemães, sujeira, desconforto, privações de toda sorte. Momentos trágicos, cômicos e patéticos nessa verdadeira odisseia em busca da velha Albion, a ilha da resistência. Depois: Londres, a blitzkrieg, a fleuma britânica e as durezas de uma guerra impiedosa e sem entranhas, cenas comoventes e heroicas daquela luta que exigiu “sangue, suor e lágrimas”, e o desfilar, diante de nossos olhos, de algumas figuras de dirigentes nacionais, que pertencem à história.

Finalmente, a viagem do autor para os Estados Unidos, onde permanecerá até 1945. A história de uma derrota – a da França – e de uma resistência – a da Inglaterra, contada por um homem vivido e experimentado, eis a matéria deste livro, que constituindo um dos capítulos mais agitados de sua biografia,  William Someset Maugham apresentou, ao público como sendo estritamente pessoal.





Resenha: “Os transparentes” de Ondjaki

31 08 2017

 

 

 

 

Fruit for sale, Luanda, Watercolour Painting by Ronan CahillVendendo frutas em Luanda

Ronan Cahill (GB, contemporâneo)

Aquarela

www.ronancahill.com

 

 

Gosto da linguagem poética encontrada nos livros de Ondjaki.  Nossa língua usada por ele se veste de roupa nova com inesperadas figuras de linguagem, sutil delicadeza e delicioso sotaque angolano.   Isso aconteceu tanto nas duas obras que li anteriormente, Os da minha rua e Bom dia, camaradas, como agora na leitura de Os transparentes. É inegável o poder sedutor da voz narrativa do autor.   Além disso, Os transparentes tem dívidas a pagar com a obra de Gabriel Garcia Marquez,  se não ao autor colombiano, certamente ao realismo mágico que caracterizou toda uma geração de escritores sul-americanos.

Esta é a história da sociedade de Luanda pós-independência.  É uma delação. Mostra os erros, excessos e abusos no sistema político implantado. Francamente, não mostra nenhum benefício. Para retratar essa realidade, Ondjaki nos apresenta a um edifício de sete andares, no centro de Luanda, que exerce o papel de espinha dorsal da narrativa, pois é lugar de residência de grande parte dos personagens. A ação se dá dentro e fora do edifício e compreende um grande número de tipos. Muitos deles são  identificados por cognomes ou nomes curiosos como  Amarelinha, AvóKunjikise e MariaComForça.   Alguns o são pelas características de um grupo de pessoas  de uma classe social, como  O Cego, (que representa os deficientes) O VendedorDeConchas (pequeno comerciante)e O Carteiro (faz as vezes daqueles bem intencionados que trabalham para o governo).  Mas o personagem principal leva um nome comum, Odonato, talvez para justificar a consequência incomum de sua condição: começa a ficar transparente.  Essa habilidade, no entanto, só existe para as pessoas simples, sem qualquer poder de afetar ou resolver seus destinos.  Na Luanda pós-independência, as pessoas podem se tornar transparentes pela fome, pobreza e desemprego.

 

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Essa alegoria é um achado.  Faz sentido, em Angola, aqui no Brasil e em muitos outros lugares: os pobres, os desempregados, os sem-teto são todos transparentes, invisíveis para a sociedade.  E Ondjaki aproveita esse viés e nos mostra uma Angola cruel, fruto de um sistema político corrupto.   A objeção que tenho, no entanto, se explica pela simplicidade com que essa mesma sociedade é retratada.  O maniqueísmo, a dualidade sem nuances entre os  bons e pobres desempregados em oposição aos ricos e maus governantes.  Essa simplificação da sociedade achei singela e um tanto pueril. São visões simplificadas de realidades complexas que levam, eventualmente, à imposição de sistemas totalitários de direita ou de esquerda.  Sociedades como a de Angola, Brasil, França, Turquia ou qualquer outro país são muito mais matizadas, heterogêneas.  Na maioria delas grande parte da população está exatamente no meio, sem abraçar qualquer extremo e que mostram atitudes nem boas, nem más Esperava mais desse autor tão sensível, um detalhamento social com maiores nuances.  Nenhum sistema político é totalmente competente ou irrepreensível. Nem tudo é preto no branco,  o cinza, aquele terreno social ambíguo, é complexo, mostrando-se em vários tons, abrigando uma multiplicidade de pontos de vista.

 

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Por isso, quando chegamos ao final e percebemos que a esperança sobrevive, essa esperança não dá alento, porque através do texto, a complexidade social da cidade, do país, não foi retratada.  As respostas parecem fáceis demais, imaturas. Talvez o conflito entre o novo e o tradicional pudesse ser mais trabalhado, retratado contextualizado. Uma vista d’olhos pelas alegorias clássicas onde os seres humanos são retratados com sentimentos ambíguos e por vezes contraditórios poderia ter fortalecido as ideias do autor.

No entanto, não posso deixar de dizer que o livro seduz.  Há mágica e bom humor, mesmo que a teoria por trás esteja arraigada a uma dialética um pouquinho cansada, de classes dominantes contra oprimidos.  Vale a leitura porque, acima de tudo, o texto vem de um autor de qualidade, com enorme habilidade de encontrar na palavra certa, a palavra poética.  Qualquer assunto fica bem tratado pelo hábil Ondjaki.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.








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