Resenha: A Redoma de vidro, Sylvia Plath

2 08 2021

Moça lendo

Adam Clague (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 32 x 30 cm

 

Surpreendentemente fácil de ler, foi minha impressão de  A redoma de vidro de Sylvia Plath.  Era uma das leituras que me faltavam para uma compreensão mais redonda do século, da escrita por mulheres e do feminismo em geral.  Permanentemente listado entre obras que devem ser lidas, eu, receosa de confrontar a depressão que pode eventualmente levar ao suicídio, tema conhecido da obra, evitei  a leitura.  Foi uma bobagem.  Deveria tê-lo lido há muito tempo.

Não é um clássico como eu imaginava.  É uma obra que dá a sensação de inacabada, assim como a vida de sua personagem principal, ainda que acabá-la seja um de seus objetivos. Dividida em duas partes que se conectam tenuemente, o leitor sai de uma ensolarada experiência de uma jovem, com problemas de autoestima, inteligente  e crítica, que aproveita um prêmio de um mês em Nova York, e acaba com mesma jovem, mais tarde, cuja ansiedade, depressão e realidade sombria  parecem incompatíveis com a personagem que conhecemos no início.

 

O que mais marca nessa narrativa é o retrato, de dentro, digamos assim, dos pensamentos, considerações e preconceitos de uma pessoa imersa em agonia mental, no desespero, que o fim da vida parece, de fato, ser a única solução plausível das reais opções que poderia ter.  É aqui que este livro se torna importante, por retratar como pensa alguém cuja solução para a vida é terminá-la, assim como fez a autora, pouco tempo após a publicação de A redoma de vidro, seu único livro de prosa.

Sylvia Plath

No entanto, a narrativa não me comoveu.  É distante.  Pude reconhecer o sofrimento retratado, mas passei  incólume, sem identificação e com empatia moderada.  Além disso, esperava um livro mais direto na posição feminista, já que é considerado leitura obrigatória para feministas.   Mas  a delação da discriminação contra mulheres, ou as descrições do que era esperado das mulheres, ainda que tivessem sido talvez  inesperadas para a  época,  hoje parecem leves, observações inteligentes mas moderadas.

Levei  muito tempo para ler este livro, é possível que eu tenha criado expectativas irreais.  Mas talvez realmente haja muito dito sobre essa obra porque Sylvia Plath se suicida após sua publicação.  Na leitura feita desta vez, não acho que mereça toda a fama que o leva a ser um clássico do século XX, como é considerado por muitos.





Resenha, “A trança”, de Laetitia Colombani

24 06 2021

Leitura da tabela

Armand Schönberger (Hungria, 1885 – 1974)

óleo sobre tela, 49 x 69 cm

Não tenho me dedicado a resenhas de livros que não me encantaram. Mas o boca-à-boca está grande a respeito deste livro: dois dos três grupos de leitura que frequento decidiram lê-lo.  Aproveito para mostrar o que me levou a não confiar na narrativa de A trança, de Laetitia Colombani, traduzida por Dorothée de Bruchard.

Vamos primeiro ao enredo que inclui três mulheres, de diferentes continentes, em diferentes períodos.  Uma vive na Índia, outra na Itália e a terceira no Canadá. A história é contada em capítulos intercalados e podemos apreciar em detalhe o desenvolvimento de cada uma das personagens principais, entendemos porque pensam e agem. Todas três estão em momentos de extrema tensão, precisam tomar decisões que afetarão suas vidas para sempre.  Se elas um dia se encontram, ou se conhecem, vai ficar ao encargo do leitor, descobrir.

 

Laetitia Colombani começa a narrativa na Índia, seguindo o dia a dia de uma mulher da casta dos Intocáveis.  A narrativa se atém às dificuldades de seu trabalho e preocupações com a filha.  A rotina diária tem o toque de narrativa realista com impressionante número de detalhes.  Podemos portanto imaginar que assim será, daí por diante.  E, de fato, os problemas diários da jovem italiana, assim como os sacrifícios que a canadense faz para se manter empregada, todos parecem estar em contrato rígido com o realismo.

  Não há personagem masculino que tenha voz.  Não há personagem masculino que tenha verdadeira importância. No entanto, o primeiro sinal de alerta, de que algo não estava certo, veio justamente na introdução do personagem Kamal, um Sikh, imigrante na Itália, religioso o suficiente para nunca ter cortado o cabelo,  Religioso bastante para preferir ser preso a retirar o turbã que leva à cabeça,  um homem delineado como preocupado com a família, e que de repente se encontra em meio a um relacionamento, primeiramente sexual, levado às vias de fato numa gruta, por um tempo indeterminado, sem se questionar por um único momento sobre este relacionamento.   Não conheço a Índia, nem a religião Sikh. Mas esse comportamento sem qualquer dúvida por parte dele sobre suas próprias ações, me pareceu estranho. Consultei a internet, procurando as diretrizes religiosas dos seguidores do siquismo. Castidade está entre os primeiros requisitos dos seus praticantes. Ora, por que, então, não ajustar o conteúdo religioso desse personagem em algo mais crível? 

Laetitia Colombani

 

Mais adiante, outra falha de plausibilidade: uma pessoa no final do século XX ou início do século XXI, de vinte-um anos, que herda uma indústria familiar, que está imersa nessa indústria familiar, que cresceu com esse conhecimento, mas que tendo um computador, ignora o papel de concorrentes no mundo, ignora fontes da matéria prima para o produto que produz.  Não convence. Depois disso foi fácil achar outras falhas de lógica, nesta narrativa que pretende (com suas detalhadas descrições do dia a dia destas mulheres) retratar uma realidade que cada uma das mulheres precisa superar.

Portanto, o que concluo é que tendo em mãos três excelentes tópicos que realmente se relacionam,  tópicos que têm muito a ver com a vida de mulheres que lutam diariamente pela sobrevivência Laetitia Colombani, no afã de escrever este roteiro, esqueceu-se de fazer uma pesquisa básica para mostrar seus personagens em contexto mais plausível.  Se me perguntassem o que achei do livro, em poucas palavras, eu diria: escritora com pressa, preguiçosa, que poderia ter tido direção de um editor para ajudá-la a transformar uma boa ideia num livro que realmente valesse a pena ler.





Minutos de sabedoria: Mário Lúcio Sousa

24 07 2020

 

 

 

Jennifer Young, (EUA), Leiura de verão, osm, 15x15cmLeitura de verão

Jennifer Young, (EUA, contemporânea)

óleo sobre madeira, 15 x 15cm

 

“Na ânsia de termos aquilo que desejamos, às vezes, acabamos por atrair aquilo que não queremos.”

 

Mário Lúcio Sousa

 

Mário Lúcio Sousa (Cabo Verde)Mário Lúcio Sousa (1964)

 





Famosa e invisível: Mrs. Grundy

28 06 2020

 

 

5c8dfa62a28072ff19e9316cc791fae7No teatro, 1928

Prudence Heward (Canadá, 1896 – 1947)

óleo sobre tela, 101 x 101 cm

 

Uma curiosidade literária: famosa personagem teatral que nunca foi vista no palco, torna-se tão popular que passa para a história da língua inglesa, como personagem que lembra decência, propriedade, disciplina, mais tarde considerada como autoridade de censura e tirania social.

Mrs. Grundy foi apresentada ao público inglês pela primeira vez por Thomas Morton, (1764-1838) famoso dramaturgo britânico, na peça Speed-the-plough, (1798) cuja melhor tradução para o título seria Seguindo em frente.  Procurei por uma tradução desta comédia em 5 atos no Brasil, não encontrei de pronto. Para essa postagem não valeria a pena procurar muito além da internet.  Nesta comédia, Mrs. Grundy é um personagem a quem outros personagens se referem, mas que nunca aparece, desde a primeira cena, quando Dame Ashfield, coberta de inveja, chega em casa e comenta com o marido que, a vizinha, Mrs. Grundy conseguiu melhor preço do que eles na manteiga e no trigo. Daí por diante,  passa a ter uma obsessão com a vizinha achando que até o sol sempre parece brilhar mais na terra alheia do que na dela.

Why don’t thee letten Mrs. Grundy alone? I do verily think when thee goest to t’other world, the vurst question thee’ll ax ‘ill be, if Mrs. Grundy’s there?” [Por que não deixas Mrs. Grundy de lado? Na verdade, acho que quando chegares no outro mundo, a primeira pergunta que farás, se Mrs. Grundy está lá?]

 

800px-Sadlers_Wells_Theatre_editedUma performance em Sadler’s Wells, c. 1808

 

Durante o século XIX Mrs. Grundy cresceu em sua importância, adquiriu algumas outras características de disciplina, defensora da moral aparecendo como autoridade dos costumes sociais e censura.  Quase quarenta e cinco anos depois de sua estreia na peça de Morton, Mrs. Grundy volta ao mundo das letras, no romance Phineas Quiddy (1842) de outro dramaturgo inglês, John Poole (1786–1872).  E em 1869, John Stuart Mill, filósofo inglês, publica o livro Sujeição das mulheres, em que defende igualdade para as mulheres, e menciona “quem tem mulher e filhas, tem reféns de Mrs. Grundy.  Daí por diante, ela é mencionada como árbitra dos costumes sociais em grande número de obras:

A feira das vaidades (1848), William Makepeace Thackeray

Tempos difíceis (1854), Charles Dickens

Mulherezinhas (1868), Louisa May Alcott

Erewhon (1871), Samuel Butler

A arte de ganhar dinheiro (1880), P.T. Barnun

Lobo do mar (1904), Jack London

Music at Night, (1931), Aldous Huxley

That Hideous Strength, (1945) C.S. Lewis

Entre muitos outros Aimée Crocker, Oscar Wilde,  William Gilbert,  G. K. Chesterton,  James Joyce, Robert A. Heinlein, Philip José Farmer, Mohandas Gandhi, Thomas Hard também se referem a Mrs Grundy.

Ficou famosa e nunca esteve no palco.  Famosa sem mostrar a cara.  Definitivamente outros tempos, sem redes sociais.

 

Citação do diálogo da peça,

Em: The Reader’s Handbook of Allusions, References, Plots and Stories, E. Cobham Brewer, London, s/d (possivelmente 1919)





Para melhorar os conhecimentos, Paul Auster

18 06 2020

 

book-and-coffee-jennifer-kafouryLivro e café, ilustração de Jennifer Kafoury.

 

 

No livro 4321 de Paul Auster, logo no início, somos apresentados a uma pequena lista de livros que, durante gravidez de perigo, a personagem  Rose Ferguson lê para melhorar seus conhecimentos gerais.  Aqui segue a lista.  Estamos em meados do século XX, pós Segunda Grande Guerra, nos Estados Unidos.  Livros que Rose leu:

 
Suave é a noite, Scott Fitzgerald
Orgulho e preconceito, Jane Austen
A casa da felicidade, Edith Wharton
Moll Flandres, Daniel Defoe
Feira das vaidades, William Thackeray
O Morro dos ventos uivantes, Emily Bronté
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A cartuxa de Parma, Stendhal
Primeiro amor, Ivan Turgueniev
Dubliners, James Joyce
Luz em agosto, William Faulkner
David Copperfield, Charles Dickens
Middlemarch, George Eliot
Washington Square, Henry James
A letra escarlate, Nathaniel Hawthorne
Rua principal, Sinclair Lewis
Jane Eyre, Charlotte Bronté

Quem sabe você também não se anima a arredondar seus conhecimentos escolhendo alguns destes livros para ler ainda este ano?

Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, página 32

 





Resenha: “A vida pela frente” de Émile Ajar

21 04 2020

 

 

 

Adam Clague Moça lendo, ost. 32 x 30 cmMoça lendo

Adam Clague ( EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 59 x 30 cm

 

 

Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar,  tradução  de  André  Telles,  originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt.  A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra.   Há também um grande trabalho de marketing,  desde seu lançamento em 2019.  Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e  compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras,  na primeira página.

Há uma  incompatibilidade de gênios  entre a obra e a leitora.  A vida pela frente é sentimental,  idealista  e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível.  Parece  estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia,  num  bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

 

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Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu.  A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência.  Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?”  Congelei.  Estava frente à  chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio  para um filme de Walt Disney, com a  necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos.  Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida.  Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.

Mas continuei a leitura.  Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão.  Eu tinha que chegar ao fim.  O que veio foi previsível.  Um texto para nos mostrar valores essenciais  para a humanidade.  Romance de formação?  Não vejo assim.  Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor.  Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.

 

emile ajarÉmile Ajar, pseudônimo de Romain Gary

 

Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores,  ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado.  Sinto muito.  Isso não é profundidade de texto.  Mostre-me.  Não me guie.

Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry,  que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial.  São bonitinhos.  Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”.  Não acho isso.  Não tenho essa visão.  É um livro pretensioso. Não é para mim.  Há muito passei  da  fase  de achar que frases bonitas refletem profundidade.

Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não  recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





“Alemães na Argélia” texto de Kaouther Adimi

17 04 2020

 

 

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“Alemanha,  1940

 

Na imprensa nazista, aparecem artigos sobre a situação nos países do norte da África ocupados pelo exército francês. A rádio alemã começa até mesmo a difundir transmissões em árabe.  Ouvimos, perplexos, esses jornalistas, que, de Berlim, apelam para que peguemos em  armas contra a França.  Parece que os soldados alemães são lançados de paraquedas no meio da noite, nos vilarejos perdidos da Argélia. Trazem latas de comida e oferecem chocolate às crianças. Estão lá para tentar nos convencer a aderir ao exército hitleriano, que  promete expulsar a França do país. Prometem que, graças à Alemanha, nossas crianças serão escolarizadas e a Argélia voltará a ser uma terra islâmica. Anos mais tarde, nesses mesmos vilarejos, encontraremos metralhadoras e um capacete alemão. Nossos avós encolherão os ombros: “Era um jovem soldado alemão que foi lançado de paraquedas aqui… Ele trouxe comida e nós o escondemos”. ”

 

Em: As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi, tradução Sandra M. Stroparo, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2019, página 65





Curiosidade literária

19 03 2020

 

 

 

show de rockIlustração Maurício de Souza.

 

 

Antes de ficar famoso pelo sucesso do livro “O código da Vinci”, o escritor Dan Brown foi um cantor pop.  Um de seus álbuns solo chamava-se “Anjos e Demônios”.

 

 

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Resenha: “4321”, Paul Auster

7 03 2020

 

 

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Ler um livro de mais de oitocentas páginas duas vezes em dois anos seguidos não é comum para mim.  Mais extraordinário ainda é mudar de opinião sobre obra lida tão recente. De boa passei-a para excelente, colocando-a finalmente entre meus favoritos.  Aconteceu com 4321 de Paul Auster, livro controverso que gerou defensores e críticos ferrenhos desde que publicado em 2017, nos EUA. Havia visto uma entrevista com Paul Auster no programa da televisão francesa La Grande Librairie, talvez pelo encantamento da conversa gerada naquela noite por François Busnel, talvez pela simpatia de Auster e a sua fluência na língua francesa, fato não muito comum entre escritores americanos, resolvi ler a obra, o que fiz na versão americana, em e-book.  Menos de um ano depois um dos meus grupos de leitura decidiu por votação abraçar esse volume como o livro da virada de ano, quando no lugar de quatro, temos seis semanas para leitura, permitindo envolvimento com obras mais longas.  Desta vez, li em português.  Mas voltei na segunda metade do livro à versão em inglês, porque no kindle as mais de oitocentas páginas não pesam na bolsa.  Esta experiência provou para mim, o quanto é importante o momento psicológico do leitor para apreciação de qualquer leitura. Em menos de dezoito meses meu entendimento e apreciação da obra mudou.

4321é um romance de formação (bildungsroman) multiplicado por quatro.  Explora quatro possibilidades de vida de um garoto, do mesmo garoto, Archibald Isaac Ferguson. Retratado com os mesmos pais e avós, o mesmo contexto social no início de vida.  À medida que cresce, eventos e o acaso interferem em cada uma das vidas, mudando-as singularmente.  São quatro histórias em uma. Muitas características de seu DNA são mantidas: o gosto pela leitura,  a facilidade de escrever, o amor aos esportes. Cada um dos Fergusons explora suas habilidades. Cada um reage a incidentes à sua maneira.  Fixos em suas vidas há os pais, Stanley e Rose, que também agem de modo diverso dependendo do destino do casal, os tios de Ferguson, com especial louvor a tia Mildred, e presente em todas as vidas, Amy Schneiderman às vezes como amiga, às vezes como irmã de criação, sempre fascinante para leitor e Ferguson. O acaso determina cada uma das vidas de Ferguson mas não o restringe. O extemporâneo determina as circunstâncias  e afeta o que é externo.

Dizem que conhecer leva ao amor. Se você um dia se perguntou como casamentos arranjados, praxe nos séculos anteriores, podiam levar ao amor, Paul Auster mostra o caminho.  Conhecemos Archie Ferguson tão bem através de suas vidas separadas e paralelas que a partir de um certo ponto o amamos, queremos que eles deem certo, que Ferguson tenha sucesso, qualquer um dos Fergusons.  E ao final, nas últimas páginas do convívio com este rapaz cujo crescimento escolar, sexual e emocional compartilhamos,  quatro vezes diferente, quando damos adeus ao livro,  sentimos pesar, luto.  O vácuo emocional com que ficamos, testemunhas dessa vida comum e extraordinária, é imenso.

 

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4321 também é um romance histórico, detalhando, em minúcia excepcional, as décadas cinquenta e sessenta, os conturbados anos da Guerra do Vietnã, do movimento negro, da política, dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King nos Estados Unidos e em Nova York, especialmente.  Auster surpreende.  A mim, surpreendeu mais, pois em duas ocasiões anteriores eu havia abandonado a leitura de seus livros, sem interesse de chegar ao fim de qualquer deles.  E aqui não só li, como reli.  Sinto que conheci este rapaz, cuja vida deixamos de acompanhar no início dos anos setenta.  Dizem que 4321  difere dos romances anteriores de Auster. E grande parte da crítica negativa que recebeu foi daqueles que esperavam um obra como as que a precederam e encontraram ali algo diferente.

Mas 4321 também é um romance de escritor para escritores. De escritor para seus seguidores.  É um compêndio de aulas de escrita, além de ter a lista mais detalhada que já encontrei dos livros que devemos ler para uma educação primorosa e sabermos como escrever e pensar.  Vemos todas as possibilidades da escrita, da reportagem jornalística às memórias,  cobertura de eventos esportivos, poesia, biografias, prosa, jogos de palavras, imitação de estilos, traduções, toda a gama de caminhos  caso você possa e se interesse em ser escritor. Mostra também a dedicação necessária para que isso aconteça e maneiras diferentes de como se tornar um escritor. Paul Auster educa os leitores, orienta seus seguidores com ambições no campo da escrita.  Ajuda a formar escritores e leitores.

 

Paul_Auster_BBF_2010_Shankbone_small-1Paul Auster

 

Na minha primeira leitura assinalei pontos que considerei negativos.  Achei o livro indulgente.  Com muitos elementos desnecessários, entre eles as infindáveis descrições de jogos de basebol.  Há também a ficção dentro da ficção: somos apresentados a criações literárias inteiras de algum Ferguson.  Não bastou nos dizer que escreveu um conto sobre sapatos.  Não.  Teve que incluir o conto inteiro, do início ao fim.  Enquanto esse aspecto me deixou de fria a irritada, na segunda leitura tive a sensação de que essas produções de Ferguson nos ajudam a entender o rapaz que se desvenda aos nossos olhos.

Qualquer senão que tive sobre 4321,  desapareceu na segunda leitura; enquanto pontos positivos se consolidaram.  É obra de grande fôlego. Fácil de ler.  A força narrativa de Auster ultrapassa até traduções.  Sua prosa, com as mais longas sentenças que lembro ter lido na literatura contemporânea americana, são um deleite para o leitor, lembram as extraordinárias narrativas europeias do século passado, quando ainda se atentava à produção da literatura com estilo e conteúdo. O tema é complexo e rico, explorando a versatilidade do ser humano.  Na segunda metade do século XIX Darwin revolucionou o pensamento ocidental quando disse “Não  é a espécie mais forte que sobrevive, nem a mais inteligente, mas a que melhor responde às mudanças.”  Paul Auster nos mostra isso através de 4321.  Muitas vezes parece que Auster está engajado num diálogo com seus predecessores, com escritores e pensamentos do passado, americanos [e aqui abro um parêntese para mencionar não só Emerson mas Henry Adams] assim como escritores europeus, de Dickens a Balzac.  Auster faz literatura com o homem comum.  Constrói seus personagens lidando com problemas corriqueiros do dia a dia.  Eles crescem aos nossos olhos, conhecemos suas sagas, tão semelhantes às nossas vitórias e derrotas cotidianas.  Assim como nós, eles selecionam, às vezes bem às vezes não tão bem, as batalhas para lutar.  Humano como o leitor, Ferguson seduz.  Nessa simplicidade de escolhas, nas batalhas vencidas e nas derrotas, torna-se universal.  Nasceu um clássico.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade literária

1 03 2020

 

 

 

N08684-72-lr-1Hora do chá, 1909

Henry Salem Hubbell (EUA, 1870 – 1949)

óleo sobre tela, 82 x 50 cm

 

A primeira menção de alguém tomando uma xícara de chá na Inglaterra, aparece no Diário de Samuel Pepys no dia 25 de setembro de 1660.

 

 

41OM7Mhtx1L._SY197_BO1,204,203,200_O diário de Samuel Pepys, 18 volumes.

 

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