Curiosidade literária: Evelyn Waugh

10 06 2019

 

 

 

EliÁguas-vivas sobre azul-anil

Eli Halpin (GB, contemporânea)

 

Em 1925, Evelyn Waugh, ainda desconhecido, sentiu-se entusiasmado com a perspectiva de trabalhar em Pisa, na Itália como secretário do escritor e tradutor Charles Kenneth Scott Moncrief, que estava naquela época envolvido com a tradução da obra de Marcel Proust,  À procura do tempo perdido, cujos primeiros dois volumes já haviam sido publicados.   Certo de que seria escolhido para a posição, Evelyn Waugh demitiu-se do trabalho como professor na Arnold House, um colégio para meninos no país de Gales.   Nesse meio tempo, ele havia mandado os primeiros capítulos de um livro que escrevia para o escritor Harold Acton [Sir Harold Mario Mitchell Acton] para que lhe desse sua opinião.  Acton não se mostrou entusiasmado.  Muito pelo contrário, reagiu de maneira bastante fria à proposta de Waugh, que ao perceber a reação do amigo de longa data, que, em parte, dizem ter inspirado o personagem ‘Anthony Blanche’ da obra Memórias de Brideshead, publicada anos mais tarde, Waugh prontamente queimou todo o manuscrito.

Logo depois de ter deixado sua posição na Arnold House, Evelyn Waugh soube que a posição de secretário de Moncrief não iria se concretizar. Essas duas derrotas, para quem estava tão certo de sucesso, foram suficientes para que Waugh entrasse em depressão e considerasse seriamente o suicídio.  É através de suas recordações que sabemos que ele levou a ideia do suicídio a sério.  Escreveu uma carta de adeus, foi à praia e deixando suas roupas embrulhadas junto com a carta, dirigiu-se ao mar com o objetivo de se afogar.  Eis que, já imerso na água, vencendo as ondas, é atacado por águas-vivas.  A dor e o desconforto foram tais, que ele voltou imediatamente para a areia, desistindo do plano.

E a literatura inglesa deve às águas-vivas a descoberta de um de seus grandes escritores do século XX.





“O papagaio de Flaubert” de Julian Barnes, resenha

19 12 2017

 

 

 

1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private Collection.jpgPaul Cézanne 1862-64 Woman with Parrot oil on board 28 x 20 cm Private CollectionMulher com papagaio, 1864

Paul Cézanne (França, 1839-1906)

óleo sobre tela, 28 x 20 cm

Coleção Particular

 

 

 

Há escritores que tentam mudar a forma literária e não têm sucesso.  Expandir algo que já se estabeleceu há séculos é difícil.  Já encontrei dezenas de livros cuja leitura encontra obstáculos:  personagens que levam ícones no lugar de nomes à moda do cantor/compositor Prince; textos sem pontuação, sem parágrafos rolando com o objetivo de cascatearem aos nossos ouvidos, mas que ao término não passam de chuvas de granizo, pedras de gelo ferindo a fluidez da narrativa.  Nada disso acontece com a prosa de Julian Barnes, em seu livro, talvez o mais famoso deles, O papagaio de Flaubert, no Brasil traduzido por Manoel Paulo Ferreira.  Colocado entre os finalistas do Prêmio Man-Booker de 1984, quando Anita Brookner (GB, 1928-2016) venceu com Hotel do Lago, O papagaio de Flaubert mostra, hoje, 33 anos depois, ter maior resistência ao tempo. Isso não desmerece o prêmio dado à escritora britânica, que está entre minhas escritoras favoritas, não só pela bela prosa, mas por ter abraçado a mesma profissão que eu: historiadora da arte. Mas em sua pequenina obra, Julian Barnes  consegue esfumar os limites narrativos, retirando os contornos:  trata-se de um ensaio? De um romance? De uma biografia? De uma autobiografia?  Quando se chega ao fim, dá vontade de voltar ao início. Merece uma segunda leitura, com outros olhos, mais sagazes, mais conhecedores.  Torna-se uma obra circular, que encanta, deslumbra e seduz.

Geoffrey Braithwaite é médico.  Faz uma visita à França, com o propósito de aliviar a dor da viuvez. Lá é atraído por uma discrepância observada em dois museus franceses que mostram um papagaio empalhado como sendo aquele que o escritor Gustave Flaubert teria possuído e usado como modelo para o papagaio do conto Um Coração Simples, parte do livro Três Contos. Grande admirador do escritor francês, Geoffrey Braithwaite que já pensava em escrever um biografia do autor, começa a esmiuçar a vida do autor de Madame Bovary.  Cada capítulo toma um aspecto da vida de Flaubert, de Braithwaite, das obras do escritor, das divergências encontradas em edições independentes dos romances.  De pulo em pulo, conhecemos detalhes da vida de Flaubert, suas viagens, mãe, amantes, o celibato. Vislumbramos preocupações e o escopo do sucesso.

 

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Aos poucos, no entanto, perdemos a noção entre fato e ficção. Será que lemos o que realmente aconteceu?  Quão verdadeiras são as informações que nos dão? Seria este ou aquele fato uma conclusão do médico que ajuda a narrar a vida de Flaubert?  As dúvidas aparecem de mansinho e finalmente ocupam toda leitura.  O ceticismo aumenta.  Ao final, não sabemos nada.  Será que lemos sobre Flaubert ou sobre Braithwaite?  Este romance/biografia é uma das mais inteligentes construções literárias da literatura moderna.  É uma tour de force e serve muito bem de exemplos de narrativas a que qualquer estudante do curso secundário deveria ser exposto: é inteligente, faz pensar e brinca com a lógica.

É um livro incomum. Podendo ser considerado até mesmo experimental. Parece ser feito de histórias desconexas, entradas em diários, fábulas.  Parece crítica literária, meditação, biografia e ensaio. É uma mistura de todos esses gêneros contada com grande senso de humor e um tanto de sátira. Excede os limites na estrutura, não tem trama. Narrativa e leitura são circulares.  Por isso mesmo pode ser considerado um dos grandes romances do final do século XX. Como um catálogo de amostras, convence o leitor da habilidade do autor que recria para nós o mundo de Emma Bovary, discute a cor de seus olhos e entrelaça essa narrativa com a de Geoffrey Brathwaite que, espelha de certo modo o sofrimento com o adultério e luto, estampados na obra mais famosa de Flaubert.

 

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Julian Barnes talvez esteja entre os autores contemporâneos de maior erudição.  Sua prosa, suas conexões fascinam.  Ele gosta de um jogo de ideias, de palavras.  Joga verde e colhe maduro, mas sua erudição não se torna pernóstica, ao contrário, ela serve de fio de Ariadne para nossa leitura. Além de todas essas características O papagaio de Flaubert é uma obra moderna: exige participação do leitor.  É ele quem conecta os elementos heterogêneos e os organiza de maneira significativa.  Frases e palavras, assim como temas, aparecem de um capítulo ao outro, sem aparente conexão, até que se percebe que há uma ligação das ideias postuladas, dos símbolos mencionados e até mesmo dos personagens  e o narrador, quando se chega finalmente às últimas linhas da narração.

Com essa leitura, tomei a decisão de voltar a ler Flaubert.  E certamente não deixarei nenhuma obra de Julian Barnes escapar dos meus olhos ávidos.  Recomendo entusiasticamente.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Ricardo Lísias sobre Nobel de Ishiguro

6 10 2017

 

 

122-Carolina-Wren-Bird-Painting-Collectible-BooksIvanhoé

Camille Engel (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  50 x 40 cm

 

 

“O Prêmio Nobel a Kazuo Ishiguro destaca não apenas um romancista notável, cheio de recursos e muito lúcido, mas também uma consciência que está o tempo todo nos avisando, através da forma literária, de que há algo de muito perigoso se movimentando debaixo dos nossos olhos.  Uma excelente escolha, que dá um pouco de fôlego em um tempo que parece sufocado por conservadorismos tacanhos e violentos. Ishiguro é o contrário disso: ele é excelente.”

 

Em: “Um pouco de fôlego num momento conservador“, Ricardo Lísias, O Globo, Segundo Caderno, página 2; 6 de outubro de 2017.

 





As possessões da classe alta, texto de Julian Fellowes

15 11 2016

 

 

antiquárioClarabela vai ao antiquário © Walt Disney.

 

 

“A classe alta inglesa tem uma necessidade enorme e inconsciente de mostrar que é diferente graças ao que possui. Para eles, nada é mais deprimente (ou menos convincente) do que ter um status, um prestígio, algum lastro familiar, e não comprovar. Eles jamais pensariam em decorar um quarto de solteiro em Putney sem pendurar na parede uma estranha aquarela de uma avó usando crinolina; sem expor duas ou três antiguidades de valor e, sobretudo, algum objeto que denote uma infância privilegiada. Tudo isso é uma espécie de língua de sinais que mostra ao visitante o lugar ocupado pelo dono ou dona da casa dentro do sistema de classes…”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, páginas 128-9.

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Sobre artistas , escritores ou pintores, texto de Ian McEwan

30 10 2016

 

 

botero-fernando-nun-readingFreira reclinada, lendo, 1986

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

óleo sobre tela

 

 

“Certos artistas, escritores ou pintores, florescem em espaços confinados como os bebês em gestação. Seus temas estreitos podem desconcertar ou desapontar algumas pessoas. Rituais de fazer a corte entre os membros da pequena nobreza do século XVIII, a vida sob os velames de um barco,coelhos falantes, lebres esculpidas, retratos de gente obesa, de cachorros, de cavalos, de aristocratas, nus reclinados, milhões de cenas da natividade, crucificações, subidas ao céu, tigelas com frutas, flores em vasos. E pão e queijo holandeses com ou sem uma faca ao lado. Alguns escritores de prosa cuidam apenas de seus egos. Também no campo científico há quem dedique a vida a uma caramujo albanês ou a um vírus. Darwin consagrou oito anos às cracas. E, mais velho e mais sábio, às minhocas. Milhares de pesquisadores passaram a vida correndo atrás do bóson de Higgs, uma coisinha de nada. Estar  circunscrito a uma casca de noz, ver o mundo em cinco centímetros de marfim, num grão de areia. Por que não, quando toda a literatura, toda arte e a iniciativa humana não passam de uma partícula no universo das coisas possíveis? E mesmo nesse universo pode ser uma partícula numa infinidade de universos reais e possíveis?”

 

Em: Enclausurado, Ian McEwan, São Paulo, Cia das Letras: 2016, tradução de Jorio Dauster, páginas 69-70;

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O golfe, texto de William Boyd

18 10 2016

Bia Betancourt [Beatriz Falanghe Betancourt] (Brasil, 1963) Golfista, ast, 70 x 180 cmGolfista

Bia Betancourt  (Brasil, 1963)

acrílica sobre tela, 70 x 180 cm

 

 

“Uma das coisas da África de que mais sinto saudade é meu golfe com Dr. Kwaku no campo mirrado de Ikiri. Sinto falta do golfe e da cerveja na ladeira do clube, assistindo ao por do sol.Por que será que gosto de golfe? Não é um esporte estrênuo o que é uma vantagem. O grande benefício é que, ainda que o sujeito não seja um exímio jogador, é ainda possível que realize jogadas no mesmo nível daquelas dos grandes jogadores mundiais. Lembro que um dia eu tinha levado um fragmentário sete à paridade quatro no oitavo buraco em Ikiri e me posicionei para o curto nono, uma paridade três, com um seis-ferro. Morrendo de calor, suado e irritado, balancei, golpeei, a bola planou, quicou uma vez no marrom e caiu no buraco. Um buraco em um. Foi a tacada perfeita — não dava para ninguém fazer melhor, nem mesmo o campeão mundial. Não consigo pensar em nenhum outro esporte que dê ao amador a chance da perfeição. Aquela jogada me deixou feliz por um ano, todas as vezes que eu me lembrava dela….”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 421-22.

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O casamento, texto de Julian Fellowes

19 08 2016

Their_First_Quarrel,_Gibson2A primeira briga, 1914

Charles Dana Gibson (EUA, 1867-1944)

gravura

 

 

“O convívio social tem o grande mérito de abrandar a idiotice do consorte e o casal que não conversa, jamais descobre que não tem muitas afinidades. A companhia do outro tem o mesmo efeito da aposentadoria para as pessoas de classe média, ou seja, causa divórcio.”

 

 

Em: Esnobes, Julian Fellowes, Rio de Janeiro, Rocco: 2016, página 164.

 








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