Travessuras, texto de Maria Ramos

11 02 2013

Pomar, Marie Cramer

Pomar, ilustração de Marie Cramer.

“Uma tarde após haver apanhado muitos figos, resolvemos, minha irmã, eu e as crianças da vizinhança, brincar de visita. Minha casa seria em cima do galinheiro. Como consegui por ali uma cadeira de balanço para receber a visita da comadre Geni Lopes não me recordo. O certo é que no melhor da festa, com todas as visitas sentadas em cima do telhado, e saboreando os figos esplendidos que eu lhes servira na porcelana chinesa da mamãe, o teto desabou. As visitas caíram no galinheiro, por cima dos poleiros, quebrando a louça e destroncando o meu braço, que ficou na tipóia vários dias.

Mas, na falta do pé de araticum que nos servia de mirante, havia as laranjeiras. Uma noite, cantavam salmos na igreja, quando eu pensei em apanhar umas laranjas. Depois de algum tempo, encarapitada no mais alto dos ramos, vi o Sonthia, de quem não gostava muito, deixar a igreja a caminho de casa. Joguei-lhe uma laranja que acertei em cheio. Ele parou, olhando espantado em todas as direções. Quando se voltou, mandei-lhe outra fruta, que se abriu de encontro à sua fatiota branca. O guri pegou sangue. Vociferando veio em direção ao muro. Mandei-lhe outra laranja que se esborrachou no meio da rua. Ele não hesitou: atravessou-a e veio bater na nossa porta. Desci rapidamente e enquanto o atendiam, eu já estava na esquina, olhando as pessoas que saíam da igreja e que, quase todas conhecidas, falavam comigo com muito afeto. Quando mamãe chegou à janela e me viu encostada ao lampião, conversando com a Chiquita, gritou para dentro:

— Veja só! Eu até já estava acreditando no que tu disseste…

Nisto, assomou ao lado de mamãe a cabeça de Sonthia, que me olhou fulo de raiva, insistindo que havia sido eu quem lhe jogara as laranjas. Mamãe despachou o guri, recomendando-lhe que de outra feita não fosse tão precipitado.

Disfarçando a falta de um pé de sapato, entrei em casa e já estava tirando a roupa para dormir quando mamãe deu pela coisa:

–Atirei por aí… Deve estar debaixo da cama.

Pouco depois, bateram à porta era o Sonthia. Tinha um ar triunfal e escondia algo atrás das costas.

— Olha aqui, Dona Mininha, o que eu achei embaixo da laranjeira – diz, mostrando o pé de sapato.”

Em: Banhado em flor, de Maria Ramos, Rio de Janeiro, do autor: 1963 — Introdução de Érico Veríssimo.  Prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras, 1964. p. 79-80.

Maria Senhoria Ramos nasceu em Cruz Alta, RS em 1910. Memorialista, jornalista e poeta. Radicou-se no Rio de Janeiro.

Obras:

Sol, ainda,  poesia, 1956

O gaúcho e suas tradições, folclore, 1958

Colombia de perto,  viagem, 1962

Banhado em flor, memórias, 1963





Um e outro, poesia de João Manuel Simões

7 02 2013

homem que voa, isabelle arsenault, montrealIlustração de Isabelle Arsenault.

Um e outro

Il est perdu jadis.

Mais il est vivant encore.

Maintenant et toujours.

SAINT-JOHN PERSE

João Manuel Simões

São dois meninos.

Coexistem em mim

constantemente:

o adulto terrestre

e o jovem alado,

seu mestre.

Inquilinos,

até o fim,

um dos quartos da mente,

outro do corpo cansado.

Em: Poemas da infância: antologia poética, João Manuel Simões, Curitiba, HDV:1989





A flor, poema infantil de Afonso Lopes de Almeida

19 09 2009

flor feliz

A FLOR

 

                      Afonso Lopes de Almeida

 

 

 

Que linda flor! – dizeis – porém

reparai bem:

vede que a sábia Natureza

não lhe deu só beleza,

mas fê-la útil também.

 

Beleza que é só beleza

embora que nada se iguale,

é coisa fútil…

Pois, com franqueza,

ser belo de nada vale,

se não se é útil.

 

Leis da vida, leis do amor!

Tudo produz, e o produto

novos produtos adiante,

constante, continuamente!

A flor se transforma em fruto,

o fruto faz-se semente,

volta a semente a ser planta,

torna a planta a abrir-se em flor!

 

Se tudo é útil no mundo,

e produtivo, fecundo,

nós, por nosso próprio bem,

trabalhemos,

estudemos,

sejamos úteis também!

 

 

Em: O mundo da criança, vol. I, Poemas e Rimas, Rio de Janeiro, Editora Delta, s/d

 

 ——–

Afonso Lopes de Almeida (RJ, RJ, 1888 – RJ, RJ, 1953), poeta, prosador, bacharel em Direito, membro da Academia Carioca de Letras. Filho da escritora brasileira Julia Lopes de Almeida.

Obras:  

A Árvore, 1916  

A Neve ao Sol: viagem lírica pelos cinco continentes   

Evangelho da Bondade e Outros Poemas, 1921  

Mãe, 1945  

Através da Europa, no Ano Primeiro da Era, 1923  

O Gênio Rebelado,1923  

Terra e Céu, 1914





Brasileiro, onde está a tua Pátria?, poema de Ronald de Carvalho para o dia 7 de setembro

7 09 2009

 

 

bandeira, Morandini, designer, de seu blogBandeira do Brasil

Morandini, designer ( de seu blog: http://blog.morandini.com.br/ )

Técnica mista com folhas de árvores

 

Brasileiro, onde está a tua Pátria?

Ronald de Carvalho

Tua Pátria não está somente no torrão em que nasceste!

tua Pátria não se levanta num simples relevo geográfico.

O solo em que pisas,

as águas em que te refletes,

o céu que te alumia,

as árvores que te dão vozes, fruto e sombras,

as fontes que te dessedentam,

o ar que respiras,

recebeste, em partilha, com todos os homens sobre a terra.

Tua pátria não é um acidente geográfico!

Brasileiro,

se te perguntarem: Onde está a tua Pátria?

responde:

— Minha Pátria está na geografia ideal que os meus

Grandes Mortos me gravaram no coração;

no sangue com que temperaram a minha energia;

na essência misteriosa que transfundiram no meu caráter;

na herança de sacrifícios que me transmitiram;

na herança cunhada a fogo;

no ferro, no bronze, no aço das Bandeiras, dos Guararapes, das Minas da Inconfidência, da Confederação do Equador, do Ipiranga e do Paraguai.

Minha Pátria está na consciência que tenho de sua grandeza moral e nessa lição de ternura humana que a sua imensidade me oferece, como um símbolo perene da tolerância desmedida e infinita generosidade.

Minha Pátria está em ti, Minha Mãe! No orgulho comovido com que arrancaste das entranhas do meu ser a mais bela das palavras, o nome supremo: — BRASIL!

 

 

Em: Criança Brasileira: quinto livro de leitura [admissão e quinta-série], Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1949

 

ronald-de-carvalho

 

Ronald de Carvalho (RJ, 1893 — RJ, 1935), foi um poeta e político brasileiro. Participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo,  em 1922.  Em concurso realizado pelo Diário de Notícias, em 1935, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, em substituição a Coelho Neto.

Obras:

Luz Gloriosa, 1913

Pequena História da Literatura Brasileira, 1919

Poemas e Sonetos, 1919

Afirmações: um ágape de intelectuais, 1921

Epigramas Irônicos e Sentimentais, 1922

O espelho de Ariel, 1923

Estudos Brasileiros, 1924

Jogos pueris, 1926

Toda a América, 1926

Imagens do México, 1929

Caderno de Imagens da Europa, 1935

Itinerário: Antilhas, Estados Unidos, México, 1935





Domingo, poema de Wilson Frade

12 04 2009

soneca-44-walt-disneyZé Carioca, ilustração de Walt Disney.

 

 

 

 

 

Domingo

 

Wilson Frade

 

 

Os raios do sol não entraram

pela fresta da janela

porque eu não deixei:

fechei-a com cuidado e preguiça.

E disse-lhe baixinho: você não vai me trair

ainda que tenha sol e ar puro.

Preciso sonhar e dormir,

dormir e sonhar.

Os meus pensamentos estão esgotados,

a minha insônia precisa de uma reciclagem

e quero viajar.

Andar nas ruas de Florença,

dar uma alô a David

e ver o Arno correr da Pontevecchio.

Não me acordem,

ainda que o sol queira

iluminar o meu descanso,

porque é domingo.

 

 

Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991

 

 

Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.

 

 

 

Outros poemas de Wilson Frade neste blog:

 

Ano Novo








%d blogueiros gostam disto: