Agruras de uma “ghost writer”, texto de Claudia Piñeiro

8 10 2016

 

 

mulher-escrevendo-valerie-hardy-eua-contemp-ost-30-x-25-cmMulher escrevendo

Valerie Hardy (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 30 x 25 cm

 

 

 

“Nurit Iscar trabalha esta tarde no livro que está escrevendo por encomenda: Desamarra os nós. Detesta essa coisa. É a encomenda da ex-mulher de um empresário do transporte que durante e depois do seu divórcio viveu alternativas que considera ‘únicas’ e encontrou ‘soluções da alma’ que quer partilhar com os demais. Não sabe o livro que vai escrever quando eu contar a minha vida, disse no dia da entrevista com Nurit, seu suspeitar quantas vezes sua escritora fantasma — e tantos outros escritores — já tinha escutado essa mesma frase ou similares de outras bocas. “Se eu te contar minha vida, você pode escrevê-la e ganhar o Prêmio Clarín”, “Quando eu conto a meus amigos, todos me perguntam por que não escrevo um romance”, Vou lhe contar algo, você anota e já tem seu próximo livro, mais que seu próximo livro: três tomos, no mínimo!” Por que tanta gente acha que sua vida é única e eu acho que a minha é igual à de qualquer um? perguntou-se então e se pergunta de vez em quando Nurit Iscar.”

 

Em: Betibu, Claudia Piñeiro, Campinas, Verus: 2014, p. 36





“Na redação”, texto de Claudia Piñeiro

6 10 2016

 

 

journalist-commission-largeJornalista, 2008

Andrew Peutherer (Escócia, contemporâneo)

técnica mista sobre placa

www.underthekitchensink.com

 

 

“Guarda de vez os formulários na gaveta e fica olhando, por cima da divisória que separa sua mesa da seguinte, o garoto que colocaram para substituí-lo nas notícias que sempre foram suas: crimes e assaltos violentos. Bom garoto, embora muito novinho, pensa.  Muito suave.  Geração Google: sem rua, todo teclado e tela, todo internet. Nem caneta usa. O garoto se esforça, é preciso reconhecer isso, chega primeiro, vai embora por último …”

 

Em: Betibu, Claudia Piñeiro, Campinas, Verus: 2014, p. 28





Resenha: “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

15 05 2016

 

 

David PadwornySem título

David Padworny (EUA, contemporâneo)

 

 

 

É bem apropriado que agora na segunda década do século XXI quando a Colômbia já está equilibrada na guerra ao narcotráfico, que obras literárias, filmes e séries televisivas surjam dando a seus leitores uma melhor ideia do mundo de  Pablo Escobar e seus companheiros.  A grande surpresa é que O ruído das coisas ao cair, conta a história situada nos anos 70 do século passado, mas sem muita violência. O enredo é simples, Antonio Yammara, professor universitário faz conhecimento no salão de bilhar com Ricardo Laverde que acabou de sair da prisão.  Têm uma ou outra conversa, mas não chegam a ser próximos. Um dia, quando a amizade começava a se desenvolver, quando os dois andam na rua, Ricardo é assassinado, sem razão aparente. Antonio, ao seu lado, também é vítima de um tiro, é hospitalizado e leva muito tempo para se recuperar física e emocionalmente.  Nesse processo, de alguns anos, resolve descobrir as razões para Ricardo Laverde ter sido alvo dos assassinos.

O processo da descoberta é lento e tortuoso. E o leitor acompanha passo a passo e só consegue segui-lo graças à voz narrativa de Juan Gabriel Vásquez que se destaca como um bom contador de histórias, à maneira dos clássicos do século XIX, que pausada e detalhadamente volta duas gerações na narrativa.

 

 

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Na tradição das narrativas de causos voltamos aos avós de Ricardo Laverde, seus pais, sua esposa e filha, que, inacreditavelmente também se encontra numa procura semelhante à de Antonio, pois precisa descobrir detalhes da vida de seu pai.  Há grande mérito na habilidade de escrita de Vásquez, pois sem ela, a história poderia se perder na sequência de evento após evento.  A fascinação de Antonio Yammara pelo parceiro de bilhar não me pareceu forte o suficiente para justificar praticamente o livro inteiro de procura sobre mais detalhes; mesmo tendo ele sofrido um tiro que lhe abalou a saúde.  Faltava um comprometimento emocional maior do professor universitário em relação ao companheiro de jogo, para justificar a caça aos fatos, ainda que Antonio Yammara pareça mesmo uma pessoa distante, sem grande habilidade de conexão emocional, como mostra sua relação com Aura e Letícia, sua mulher e filha.

 

juan gabriel vásquezJuan Gabriel Vásquez

 

Eu gostaria de ter tido maior simpatia pelos personagens com quem passei essas horas de leitura.  Mas nenhum deles, nem do núcleo do professor quanto do núcleo de Ricardo Laverde foram capazes de aprisionar meus sentimentos.  A linguagem de Vásquez é bastante refinada e há momentos de grande  beleza, principalmente nas descrições da natureza colombiana. É um livro de leitura rápida e de temática muito interessante.  Ótimo enfoque.  Mas ele me deixou fria.

 

 





Um Nobel mais do que merecido: Mário Vargas Llosa

7 10 2010

Marie-Jose com vestido amarelo, 1950

Henri Matisse, ( França, 1869-1954)

Aquatinta

 

Raramente um prêmio Nobel de literatura é dado a algum escritor cuja obra eu conheça.  E se o conheço é por um único livro.  Recebi então com surpresa e grande prazer a notícia de que Mario Vargas Llosa, o grande escritor peruano, recebeu hoje o Prêmio Nobel de Literatura.  Dele conheço muitos livros.  A impressão que tenho é que suas obras me acompanham desde sempre e reconheço a importância de sua palavra escrita não só para o meu próprio desenvolvimento como leitora, mas para aquele de uma inteira geração de leitores latino americanos.  O que faz Mário Vargas Llosa maior do que seus livros, maior do que sua constante preocupação com sua terra natal, com o Peru e com a estabilidade dos princípios democráticos na América Latina, é a sua permanente preocupação com o ser humano, com suas emoções e principalmente com as paixões humanas.  Sem paixão, é a mensagem sua obra, não somos nada; a vida de nada serve.  Quer nos seus romances de fundo político, quer naqueles que se caracterizam por explorar a estrutura emocional de seus personagens, Vargas Llosa demonstrou do início de sua carreira até hoje um enorme fôlego criativo.

Meu primeiro contato com Vargas Llosa foi com Tia Júlia e o Escrevinhador, uma obra que me fez rir e muito, mesmo quando a lia em lugares públicos, como no ônibus ou no metrô.  Sou, por mim mesma responsável pela compra de pelo menos 11 volumes desse romance que dei de presente através dos anos, a cada re-edição, até mesmo na sua versão em inglês, para amigos na época em que morei nos Estados Unidos.

Depois vieram Conversa na Catedral – um deslumbrante diálogo político com o período de uma ditadura no Perú, nos  anos 50:  um livro que me marcou muito, com sua acidez, com sua irreverência.   Nas minhas leituras, que não seguem necessariamente a ordem de publicação, seguiu-se quase imediatamente  Quem matou Palomino Molero?  Um quase-mistério que continua com a mesma preocupação de descortinar os meios pelos quais uma ditadura permanece no poder. 

 Pantaleão e as visitadoras veio a seguir.  Apesar de sua popularidade, este não é o meu favorito.  Mas sem dúvida é uma obra repleta de ironia e humor e mostra as atitudes e os desmandos — enquanto abre os nossos olhos — das gastanças do poder público na América Latina e a freqüência com que projetos governamentais estão fadados a meter os pés pelas mãos.  Mais tarde fui de encontro à ditadura da República Dominicana lendo o pequeno romance, um grande conto, uma novela talvez, chamado A festa do bode.   Depois disso descansei por alguns anos da leitura de Vargas Llosa, só para voltar a me apaixonar por sua escrita, de novo, em 2006 com Travessuras da menina má

 Hoje, ao descobrir que Vargas Llosa – este grande escritor – foi premiado com o Nobel, vibrei.  Este incansável defensor dos direitos humanos, que tem como os grandes humanistas o homem como medida exata de seus trabalhos, nunca se acanhou de lutar com unhas e dentes pelos valores democráticos em seu país e fora dele.   Agora, sinto-me tentada a ler suas outras obras, aquelas com as quais ainda não consegui me deliciar.  É um compromisso pessoal.    Devemos todos nos orgulhar de tão justo prêmio a um infatigável batalhador pela justiça social.





Travessuras da menina má, de Llosa

4 01 2010

Café em Montparnasse, Paris

David Azuz ( Israel, 1942)

Lito

Início de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.

Travessuras da menina má não foi o meu primeiro romance de Mário Vargas Llosa.  Através dos anos eu já me apaixonei por Tia Júlia e o Escrevinhador, — minha apresentação ao autor –, por Conversas na Catedral, Palomino Molero e alguns outros títulos.   Travessuras da menina má mostrou logo, desde o início, os bons dotes de narrativa de Llosa, já conhecidos, que fazem seus livros fáceis de serem lidos de uma ponta à outra.  Ele tem um ritmo fascinante, que também é característico dos trabalhos que conheço, um ritmo que não deixa o leitor se cansar do assunto ou até mesmo do personagem.  Na verdade, Llosa é tão suave na narrativa que seduz o leitor desde a primeira página.

 

No entanto, neste livro os personagens principais  me incomodaram.  Porque a menina má é muito má. E o nosso herói, ou talvez eu deva dizer o nosso anti-herói, Ricardo, é um mosca-morta, não tem punho, vontade própria ou orgulho.    Assim, com um par de personagens com os quais eu não me importava, levei algum tempo para chegar a ter prazer com a leitura desse texto, cuja questão principal é:  o que é o amor?  Como ele se manifesta?  E as perguntas que produzem o nosso diálogo com esta história, só podem começar com esta questão central.  O que é o amor?

O amor é algo que necessite da dedicação, da subjugo de um ego ao outro?   É o amor algo que precise ser tão total, que nos leve a ir contra a nossa própria  sobrevivência?  São perguntas que nos perseguem,  os seres humanos, desde que nos conhecemos.  Perguntas que são de interesse nosso, e que valem a pena serem respondidas.

Mario Vargas Llosa

 

—-

Cheguei a ver, em outros lugares e na internet reclamações sobre a reconstituição das diferentes décadas da segunda metade do século XX em que a história se passa.  Dizem que há erros de localização, de datas específicas como: “quando esta moda foi sucesso em Londres”;  “se este ou aquele restaurante estava corretamente localizado em Paris”.  A preciosidade dessas perguntas é coisa de intelectual da torre de marfim, quase que um jogo de perguntas e respostas admirado por estudantes de pós-graduação.   Mario Vargas Llosa não está escrevendo História.  Não há nenhum aviso: “ esta reconstituição de Paris, nos anos… é absolutamente verídica e documentada”.  A um escritor como ele, um romancista, temos que dar maior espaço;  no todo acho que ele foi além do necessário para trazer às nossas mentes o espírito das épocas, das diversas décadas,  em que nossos personagens viveram.

Por causa da importância das perguntas tecidas no texto, sobre o amor e suas conseqüências, sobre as diferenças entre o amor e a paixão, entre a paixão e obsessão, creio que este livro, assim como muitos de seus outros romances, será letura obrigatória para aqueles que interessados em questões pertinentes à  nossa existência.

01/12/2006





Alonso Cueto, brilha com O Sussurro da mulher baleia

3 01 2010

Meninas

Stanislaw Wyspianski ( Polônia, 1869-1907)

Inicio de ano prolongado…  Estou aproveitando o tempo para limpar o escritório e colocar coisas em ordem.  Assim, antes de descartar algumas resenhas que foram feitas para outros fins, que não o blog, venho aqui postá-las para não perder de todo o controle do que li, e das minhas reações a certas leituras.  Começo com um romance que me comoveu bastante, do escritor peruano Alonso Cueto, cuja resenha escrevi em 31/01/2008, antes de começar este blog.

Amizade, lealdade, ira e vingança num romance moderno e atual

Vi este livro em diversas livrarias em Lima, no Peru, em Outubro.  Mas não leio muito bem em espanhol.  Então, quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro achei interessante ver que havia acabado de ser lançado no Brasil.  Não conhecendo o autor, resolvi comprá-lo como uma recordação da minha viagem.  E ainda levei um tempinho para lê-lo principalmente porque seu título não me interessava: ênfase no tamanho ou no peso de uma mulher era um assunto que me repelia.  Mas, acabei enfrentando a fera.  Como gostei!  É um excelente livro e descobri, chegando ao final, e algumas horas depois e alguns dias mais tarde, que é um livro que fica enraizado na nossa imaginação; que mantem um diálogo vivo com os nossos botões.  Gosto de livros que me fazem pensar.

Duas adolescents são amigas de escola.  Esta amizade é muito importante para cada uma delas, enquanto a amizade durou.  Anos mais tarde, elas se encontram, já adultas.  Cada qual bem sucedida na sua vida, cada qual com sua parcela de sucesso e sorte.  À medida que elas voltam a se comunicar, descobrem não só como são importantes as emoções que cada qual guarda a respeito da amizade que teve, mas também recordam o evento trágico que separou-as, que destruiu o que haviam construído: uma amizade que era importante para cada uma delas.

A narrativa é clara, assim como a maneira em que os personagens são retratados.  Há muita atenção nos detalhes do dia a dia, coisa que no início parecia inconseqüente, talvez até um maneirismo do autor, mas que mostra ser essencial para detalhar as emoções, para retratar  a vida interioir de cada personagem, vida essa submersa nos detalhes corriqueiros.

Com um excelente ritmo, texto coloquial e moderno, Alonso Cueto se mostra em domínio total da narrativa, do inicio ao fim.  À medida que estas duas mulheres rememoram suas vidas, descobrimos suas fraquezas e principalmente a necessidade de cada uma de “pertencer” de “fazer parte” de um grupo.  E nos lembramos também de como os adolescentes podem ser cruéis consigo mesmos e com seus amigos e colegas.   E aos poucos percebemos como podem ser profundas as feridas sentidas nestes anos de formação, assim como a dificuldade de cada um, de superá-las.

Depois de ler este romance de Alonso Cueto, não me surpreendi ao descobrir que ele é um autor peruano muito conhecido, com mais de uma dúzia de títulos publicados e que já recebeu diversos prêmios literários inclusive o Prêmio Viracocha, em 1985, com o livro Tigre Branco;  em 2005 ganhou o prêmio Herralde com o livro Hora Azul.  Em 2002 ele recebeu a bolsa para escritores da Guggenheim e em 2003 seu livro Grandes Moradas tornou-se um filme de Francisco Lombardi.

Alonso Cueto

Este é um livro sobre amizade, lealdade, ira e vingança.  Retrata as almas sofridas e as técnicas de sobrevivência usadas por aqueles que carregam feridas emocionais por muito tempo.  É um romance com um final surpreendente:  iconográfico e belo.  Sutil.  Não é supresa, então, que tenha sido um livro finalista para o Prêmio Planeta – Romance Ibero-americano – em 2007.  Recomendo com entusiasmo a leitura deste romance.

31/01/2008

Esta resenha apareceu em:  Living in the Postcard; e na Amazon.  Ambas em inglês.  Tradução e adaptação, minhas.





Maria de Sanabria, de Diego Bracco

26 02 2009

barcos20026

 

 

 

 

Um bom romance histórico sempre me fascinou, principalmente quando o autor, como o uruguaio Diego Bracco, é um professor de história e tem o cuidado de colocar as fontes, ou a documentação em capítulo à parte como é o caso no livro Maria de Sanabria [ Rio de Janeiro, Record: 2008]. A vantagem destes romances quando são escritos por um historiador é que temos a impressão de aprender mais do que se estivéssemos sentados numa sala de aula atentos às explicações dos cuidados necessários, por exemplo, com a organização de uma expedição à América do Sul no século XVI.

 

E é esta exatamente a história fascinante que nos leva a conhecer bem mais de perto Maria de Sanabria, a organizadora da chamada expedição das mulheres  que atravessou o Atlântico em 1550.  Seis anos são necessários para que o grupo expedicionário tendo  chegado a Santa Catarina, depois de uma estadia muito difícil na costa do Brasil, que durou dois anos, procure, mais ao norte, a proteção dos portugueses na província de  São Paulo e finalmente chegue a Assunção, no Paraguai, um vilarejo ainda diminuto em 1556.  Lá, Maria de Sanabria se estabelece para ficar.  Seu filho do primeiro casamento tornou-se um monge franciscano e mais tarde um “dos grandes protagonistas da vida religiosa e intelectual no Rio da Prata.”  Enquanto que seu filho do segundo casamento, Hernandarias foi três vezes governador e grande protagonista civil e militar no Rio da Prata, uma figura de grande importância na história do Paraguai, da Argentina e do Uruguai.

 

bracco

 

A vantagem deste romance é que podemos adentrar a vida diária, o desenrolar das tarefas comuns da época e entender as razões e as necessidades destas pessoas, melhor ainda do que se estivéssemos lendo uma tese de mestrado, descrevendo detalhes do dia a dia das limitações e dos compromissos que estavam implícitos numa família burguesa e também o que era ou não prescrito para uma mulher em Sevilha, neste período.  

 

É de grande virtude o fato deste historiador ser um ótimo contador de histórias.  Na verdade, Diego Bracco já foi honrado com o Prêmio de Narrativa da Universidade de Sevilha e com o Prêmio Revelação da Feira do Livro do Uruguai com o seu romance anterior:  El mejor de los mundos.  Digo isto, porque apesar de detalhes interessantíssimos, a narrativa corre suavemente, cheia de aventura e imprevistos, cheia de ação e simpatia para com Maria de Sanabria, de tal forma que as 270 páginas deste livro são lidas rapidamente, como num bom livro de aventuras.  

 

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Escritor e historiador Diego Bracco.

Há no entanto grande cuidado com a verdade histórica.  A descrição por exemplo dos preparativos da saída de Sevilha podem nos dar um gostinho desta preciosa maneira de contar a história:

 

Na última terça-feira de janeiro de 1550, a catedral de Sevilha recebeu com pompa e circunstância os que se preparavam para participar da expedição.  Depois da primeira missa da manhã, todos foram em procissão até o cais, levando uma imagem abençoada de Nossa Senhora das Mercês.  Os poucos que deviam conduzir a nau rio abaixo e os muitos que se juntariam a eles em Sanlúcar de Barrameda despediram-se como quem deixa uma festa e promete se encontrar na seguinte.  Pouco tempo, poucas e precisas manobras e uma única vela foram suficientes para que a embarcação desse início à viagem.  Uma multidão de curiosos fez seu rumor pairar sobre o navio que começava a se afastar em direção à desembocadura do rio.  Atrás da esteira d’ água, como se quisessem alcançar os que se distanciavam, ouviam-se risadas prognosticando infernos e também bênçãos lançadas como beijos no ar; prantos de mães pressentindo o pior e aclamações aos heróis que voltariam distribuindo ouro. [p. 150].

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Mas além de este ser um ótimo romance, além de ser rico em detalhes de época, um outro aspecto que o faz sensacional é justamente o resgate da história desta corajosa mulher, que se rodeou de outras mulheres para ganhar um espaço na história, para fazer, sua, a aventura do século.  Gosto de ver que as gerações de hoje e de amanhã, diferentemente da minha, têm e terão exemplos de mulheres corajosas e aventureiras que existiram de verdade.  Mulheres cujos retratos podem servir de exemplo de vida para todas as meninas e jovens que ainda hoje  vêem seus sonhos de aventura desconsiderados, minados, cerceados por costumes, pela família, por limitações que não lhes pertencem.   Leiam o livro, vale a pena!








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