Resenha: “Jesus Cristo bebia cerveja” de Afonso Cruz

18 07 2018

 

 

Inês Dourado (Portugal, contemporânea) Monsaraz VI, 2013,acrílica sobre papel, 17 x 23 cmMonsaraz VI, 2013

Inês Dourado (Portugal, 1958)

Técnica mista (grafite, acrílico, canetas de acetado e crayons) s/papel, 17 x 23 cm

 

 

Jesus Cristo bebia cerveja é um título que chama atenção. Parece profano, desrespeitoso.  E, no entanto, esta provocação de Afonso Cruz, não se materializa.  Trata-se de obra moralizante, cujo desfecho me pareceu surpreendentemente antiquado, bastante incompatível com o mundo contemporâneo.

A trama se desenvolve em torno de Rosa, uma jovem de beleza rústica e sensual. Imaginei-a semelhante a Frida Kahlo, por causa do bigodinho, sobrancelhas espessas e vasta cabeleira. Rosa foi criada pela avó.  Os pais, cada qual à sua maneira, decidem tocar a vida separadamente e em estilo não condizente com a vida doméstica.  Ele morre, ela sai de cena. A criança fica com a avó.  Agora, Rosa é responsável pela anciã que já não consegue sobreviver sozinha.  Muito pobres, vivem do que plantam e do auxílio dos outros.  Um dia, Rosa descobre que a avó gostaria de visitar Jerusalém antes de morrer.  Este desejo parece impossível de ser concretizado, a não ser que mudassem Jerusalém para o centro do Alentejo. Como? Esta é apenas uma das inúmeras intrigas que seguimos  e não é, nem mesmo, a mais importante.  Porque a vida de Rosa, filha de uma mulher que sai do interior de Portugal e se prostitui em Lisboa, parece já estar, desde o início da leitura, condicionada.

 

JESUS_CRISTO_BEBIA_CERVEJA__1399672790B

 

Esta obra se parece com uma igreja barroca-rococó, como as encontradas no século XVIII no Brasil.  A localização da história no Alentejo, árido, ensolarado, de casas caiadas e ruas vazias nos dá a impressão externa de simplicidade como acontece com qualquer templo barroco tardio e engana quem se detém em sua observação, pois esconde a rica  complexidade de seu interior. E é esse interior,  a narrativa de uma história simples entremeada por numerosos personagens esdrúxulos — como a inglesa que mantém intelectuais de duvidoso saber a seu redor;  assim como as intermináveis discussões entre eles sobre assuntos esotéricos — que ocupam o espaço, e por excesso borram a linha narrativa, confundindo o leitor com mais informação do que necessário, entulhando seu percurso até o final. Prestar atenção a esses personagens é seguir arabescos narrativos e chegar a becos sem saída que intrigam, não pela imaginação do autor em descrevê-los, mas porque conspiram para que a leitura de um texto de 240 páginas na versão brasileira, consiga ser cheia de caminhos tortos e curvas perigosas,  continuamente desnecessários.

Este foi o primeiro livro que li de Afonso Cruz, que ocupa, pelo aplauso e louvor recebidos por suas obras anteriores, lugar de importância na literatura lusitana da atualidade. Foi uma leitura que me surpreendeu  pelo estilo rebuscado.  No início, suas figuras de linguagem, antíteses, metáforas, paradoxos, hipérboles parecem charmosas.  Encantam.  O virar da frase, a torção inesperada de um significado, a troca do significado pelo significante chamam a atenção.  Configuram maneira diferente, poética, de registrar acontecimentos.  Mas terminado o primeiro terço da obra, elas se tornam um maneirismo, um impulsivo exagero cansativo e irritante.  Pareceu-me um caderno de exercícios em estilo, em que os adornos ao texto tornam a narrativa rebuscada, barroca e indisciplinada. “A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela vida, lábios cheios de palavras por dizer.” [57].  [Quantas figuras de linguagem cabem numa frase de vinte palavras? ] “A noite começa seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com suas trevas.” [113] Ocasionalmente este tipo de linguagem é muito bem vindo.  Sim, o autor está trabalhando a nossa língua, está exercitando sua potencialidade.  Mas precisa mostrar toda destreza que possui ao navegar o idioma, continuamente?  Em uma única obra?

 

Afonso Cruz 075Afonso Cruz

 

Não conheço o trabalho anterior de Afonso Cruz.  Amigos recomendaram a leitura por serem fervorosos adeptos da obra do autor.  A seu favor: houve interesse suficiente para que eu levasse a leitura até o fim.  Por Jesus Cristo bebia cerveja, e exclusivamente por esta livro, Afonso Cruz me parece ansioso por compartilhar com leitores as incríveis ideias que lhe vêm à cabeça, tanto na linguagem quanto na volumosa população de personagens extravagantes, sem edição.  A exuberância narrativa, a imaginação prolixa contrastam com a trama simples e previsível. Sem dúvida uma obra que trabalha a discordância entre a singelez da trama e a ostentosa linguagem.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





“Jacinto”, texto de Eça de Queirós

16 07 2018

 

 

8547f88f72ecad7dc93a8994f80218bcFotografia de jovem desconhecido, século XIX.

 

Jacinto

 

Eça de Queirós ou Eça de Queiroz

 

Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, com narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta. ca[ia em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com pétalas de flores dessemelhantes, cravo, azaléa, orquídea ou tulipa. fundidas numa mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.”

 

[Exemplo de Retratos Descritivos]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 74.





“As prendas de Natal” poesia de José Jorge Letria

8 12 2017

 

 

BRINQUEDOS TRENZINHO, CUBOS, MENINO, ARVORE

 

 

As prendas de Natal

 

José Jorge Letria

 

 

Vêm dos tios, dos avós

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos

 

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

 

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes

magos, vindos de tão longe

com túnicas reluzentes.

 

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

 

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

 

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

 

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.

 

Em: O livro do Natal, José Jorge Letria, ilustrações de Afonso Cruz, editora Oficina do Livro: 2008

 

 





Resenha: “Debaixo de algum céu” de Nuno Camarneiro

5 08 2015

 

Buildings in Buarcos, Portugal, Claire Nelson-Esch, Pencils, Ink, watercolour on paper, 13.5 x 21cm  ©Claire Nelson-Esch. httpclairelovesyouthismuch.blogspot.com.brEdifícios em Buarcos, Portugal

Claire Nelson-Esch (África do Sul, contemporânea)

Lápis, bico de pena, aquarela sobre papel, 13, 5 x 21 cm

©Claire Nelson-Esch.

Claire Nelson-Ech

 

 

Esta foi a minha apresentação ao escritor português Nuno Camarneiro, ganhador do Prêmio Leya de 2012, com esse livro. Tenho mantido contato próximo com autores lusitanos publicados aqui no Brasil. Acho que a literatura publicada além-mar anda muito interessante e não me canso de experimentar novos escritores. Por isso mesmo, mergulhei em Debaixo de algum céu com muita expectativa. Talvez mais expectativas do que deveria.

A ideia central de Nuno Camarneiro é muito interessante e rica em possibilidades: seguir a vida, por uma semana, de um grupo de pessoas que têm em comum habitarem o mesmo edifício de apartamentos. Rico em possibilidades, em caracterização de personagens de diversos caminhos, o tema é fascinante. A limitação de tempo e de lugar, onde muitos personagens exibem suas características não é estranho à literatura nem ao cinema. De Anjo Exterminador de Buñuel ao edifício de apartamentos, personagem do romance A beleza do Ouriço, de Muriel Barbery, exemplos abundam. Todos trabalhos de sucesso. Sucesso esperado por essa coletânea de histórias de Nuno Camarneiro, quase um conjunto de contos, não fosse a ocasional interação entre os personagens residentes do prédio.

 

Índice

Nuno Camarneiro preenche seu texto com uma série de frases de efeito, que certamente encontrarão lugar nos livros e sites de citações, frases inspiradas. No entanto a narrativa é fria. Controlada demais, quase sem interação de personagens, diálogos. Nem mesmo entre membros de uma família no mesmo apartamento há diálogos. Só ocasionalmente. Todos os personagens são taciturnos, reservados e sigilosos. Não há um que seja mais expansivo, não há um que quebre estrondosamente as regras. E, no entanto, apesar de vidas cerradas e quietas, nenhum deles se dá a indulgência de um hábito secreto, transgressor, uma mania, um comportamento fora do eixo, em sua intimidade, características que fazem qualquer personagem tridimensional. Resultado: todos são figuras de papelão. A presença do narrador se impõe em demasia tirando qualquer leveza do texto, qualquer mobilidade dos personagens. Tudo é visto e contado com a mesma voz em monótona narrativa, sem humor, sem ironia, demasiadamente contida e estereotipada. Por isso mesmo os capítulos são legendados para que se saiba quem narra aquele trecho.

 

Nuno_camarneiroNuno Camarneiro

 

A narrativa, mesmo assim, é ritmada e bem feita. Cheguei ao fim do livro com facilidade, sempre esperando que algo acontecesse de proporções adequadas às minhas horas de dedicação à leitura. O desfecho foi um tanto anticlimático. A rigorosa mão do autor pode ser sentida forjando acontecimentos que nem sempre parecem ser a consequência natural dos personagens. Vamos ver o que mais Nuno Camarneiro poderá trazer ao público, no futuro. Tenho a impressão de que o autor precisa se soltar. Com esse pulso de ferro, seus personagens não têm chance de crescer e nos surpreender e quem sabe surpreender até ao próprio autor?





Sublinhando…

4 08 2015

 

 

Frank_W._Benson,_Portait_of_Gertrude_Russell,_1915Retrato de Gertrude Russell, 1915

Frank Weston Benson (EUA,1862-1951)

óleo sobre tela, 137 x 103 cm

 

 

“Deus é bom mas liga pouco a pormenores.”

 

Em: Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro, Rio de Janeiro, Leya: 2013, p.61

 





O arroz doce, texto de Eça de Queiroz

27 05 2015

 

 

Joseph Clark (British artist, 1834-1926) A Christmas Dole 1800sBonus de Natal

Joseph Clarke (Grã-Bretanha, 1834-1926)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

O arroz-doce

 

“Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, à moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe à mesa, percorrendo a lâmina de marfim onde no 202 se escreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervor a ideia patriarcal:

-Arroz-doce! Está escrito com dois ss, mas não tem dúvida… Excelente lembrança! Há que tempos não como arroz-doce! Desde a morte da avó.

Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato monumental, de grande arte! O arroz, maciço, moldado em forma de pirâmide do Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos que o revestiam até ao cimo onde se equilibrava uma coroa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingênua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pagão:

Ad Manes, aos nossos mortos!”

 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras

[Exemplo de Narrativa Descritiva]

 

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 194.

 

NOTA: Ad manes é a abreviação da expressão em latim Ad manes abiit, que significa: Aos mortos, aos que morreram.





Eça de Queiroz sobre um livro de contos

14 05 2015

 

 

Giuseppe Perissinotto (1881-1965) Sra lendoSenhora lendo, s.d.

Giuseppe Perissinotto (Itália,1881- Brasil,1965)

óleo sobre tela

 

 

“Um livro de contos é um livro ligeiro de emoções curtas: deve portanto ser leve, portátil, fácil de se levar na algibeira para debaixo de uma árvore, e confortável para se ter à cabeceira da cama. Não pode ter o formato dum relatório, que, sendo destinado em definitivo a embrulhar objetos, deve ter de antemão o tamanho cômodo do papel de embrulho; nem pode ter o volume dum calhamaço de erudição histórica, impresso com o fim de ornamentar uma biblioteca”

 

Eça de Queiroz








%d blogueiros gostam disto: